Os Correios começaram a oferecer gratuitamente o recebimento de equipamentos eletrônicos usados em mais de 6 mil agências brasileiras que possuem o serviço Balcão do Cidadão. A iniciativa, anunciada nesta quarta-feira (14), permite que a população descarte celulares, notebooks, tablets, fones de ouvido, cabos e outros dispositivos de pequeno porte sem pagar pelo transporte dos materiais. A operação resulta de uma parceria com a Circular Brain, empresa especializada em logÃstica reversa, responsável por encaminhar os resÃduos a recicladores habilitados. O novo serviço utiliza a estrutura de atendimento da estatal para ampliar o acesso à destinação ambientalmente adequada de aparelhos que deixaram de funcionar ou perderam sua utilidade.
A adesão não exige agendamento e o procedimento foi organizado para permitir que o consumidor aproveite uma visita à agência para entregar os equipamentos. Os materiais devem ser acondicionados em uma caixa aberta, com peso total de até 30 quilos, que será fechada pelo atendente depois da conferência. Ao final, o usuário recebe um comprovante de envio, enquanto a remessa passa a integrar o sistema de rastreamento da rede de reciclagem.
O lançamento ocorre no Dia Internacional do Lixo Eletrônico, celebrado em 14 de outubro, e procura enfrentar uma dificuldade persistente no Brasil: o baixo aproveitamento dos resÃduos gerados pelo consumo de equipamentos tecnológicos. Em 2022, o paÃs produziu aproximadamente 2,44 milhões de toneladas de lixo eletrônico, mas apenas 79 mil toneladas foram formalmente coletadas, conforme dados da Global E-waste Statistics Partnership. A proporção corresponde a cerca de 3,2% do volume gerado, indicando que a maior parte desses materiais permanece fora dos sistemas documentados de recolhimento e reciclagem.
Como entregar eletrônicos usados nos Correios
O serviço foi estruturado para receber equipamentos eletroeletrônicos de pequeno porte, incluindo aparelhos pessoais e acessórios que podem ser transportados em embalagens comuns. Celulares antigos, computadores portáteis, tablets, fones de ouvido e cabos estão entre os produtos expressamente mencionados pelos Correios. A possibilidade de entregar diferentes itens na mesma embalagem facilita o descarte de aparelhos acumulados em residências, desde que sejam respeitadas as condições de recebimento.
Para utilizar a modalidade, o consumidor deve levar a caixa aberta a uma agência participante do Balcão do Cidadão. O funcionário realiza o procedimento de postagem e solicita nome, CPF, endereço, e-mail e telefone para o registro da operação. O comprovante entregue ao final documenta o recebimento da remessa, que seguirá para a cadeia de destinação dos resÃduos.
Nem todos os materiais associados a produtos eletrônicos são aceitos. Pilhas, baterias avulsas e lâmpadas estão excluÃdas dessa modalidade de coleta, pois exigem canais especÃficos de descarte e tratamento. A restrição é relevante para evitar que consumidores encaminhem materiais inadequados dentro das embalagens, especialmente aqueles que apresentam riscos particulares durante o armazenamento e o transporte.
O limite de 30 quilos também não significa que qualquer eletrodoméstico possa ser entregue. A modalidade anunciada é destinada a produtos de pequeno porte, e aparelhos de grandes dimensões podem exigir outros pontos de recebimento. Como a rede dos Correios possui mais de 10 mil agências, mas a parceria abrange somente aquelas com Balcão do Cidadão, é necessário confirmar se a unidade escolhida participa do serviço antes de levar os equipamentos.
Há ainda cuidados importantes relacionados à privacidade. Celulares, notebooks e tablets podem armazenar fotografias, documentos, senhas e informações pessoais, mesmo quando não estão mais em uso. Antes da entrega, o proprietário deve fazer cópia dos arquivos que deseja preservar, desvincular suas contas e apagar os dados armazenados no dispositivo. A legislação brasileira de logÃstica reversa atribui ao consumidor a responsabilidade pela remoção prévia dessas informações, não sendo suficiente presumir que o encaminhamento para reciclagem assegure sua eliminação.
ResÃduos serão encaminhados a recicladores homologados
Os aparelhos recebidos nas agências serão direcionados à Rede Circulare, plataforma operada pela Circular Brain que conecta pontos de coleta, transportadores e empresas responsáveis pelo processamento de resÃduos eletrônicos. Segundo o modelo anunciado, cada remessa será encaminhada a um reciclador homologado, com acompanhamento do percurso até a destinação final. A estrutura pretende assegurar que os produtos entregues pelos consumidores não sejam simplesmente transferidos para depósitos sem tratamento adequado.
A rede mantida pela empresa reúne mais de 17 mil pontos de coleta em mais de 5.500 municÃpios brasileiros e trabalha com mais de 65 recicladores cadastrados, segundo informações divulgadas pela própria Circular Brain. Em 2025, o sistema registrou o processamento de 83 mil toneladas de resÃduos eletroeletrônicos. Esses números representam a operação mais ampla da companhia, e não o volume recolhido especificamente por meio dos Correios, serviço lançado em outubro de 2026.
O rastreamento é uma etapa importante porque a destinação correta não termina no recebimento dos aparelhos. Dependendo da composição, os produtos passam por triagem, desmontagem, separação de componentes e encaminhamento de materiais para diferentes processos industriais. Metais, plásticos e outras matérias-primas podem ser recuperados, enquanto substâncias que exigem cuidados especiais precisam receber tratamento apropriado.
A distribuição geográfica dos pontos de coleta também influencia a eficiência dessa cadeia. Uma rede concentrada nos grandes centros urbanos tende a dificultar a participação de moradores de municÃpios menores, que precisam percorrer distâncias maiores para entregar os aparelhos. Ao utilizar parte da infraestrutura postal, a parceria amplia as alternativas de recebimento, embora a cobertura efetiva dependa da presença de agências habilitadas e da continuidade das operações de transporte e reciclagem.
Para os Correios, o acordo acrescenta uma atividade à rede de serviços prestados à população, sem exigir que o consumidor contrate uma postagem convencional. A estatal não divulgou, no anúncio, projeções de quantas toneladas pretende receber, nem informações detalhadas sobre os custos da parceria. Esses indicadores serão relevantes para avaliar a eficiência operacional e os resultados ambientais do novo atendimento.
Brasil recicla formalmente apenas pequena parcela do lixo eletrônico
O Brasil figura entre os maiores geradores de resÃduos eletroeletrônicos do mundo. Os dados da Global E-waste Statistics Partnership mostram que, em 2022, foram produzidas 2,443 milhões de toneladas desses materiais no paÃs, equivalentes a aproximadamente 11,4 quilos por habitante. No mesmo perÃodo, a coleta formal documentada alcançou 79 mil toneladas, uma diferença de cerca de 2,36 milhões de toneladas entre a geração estimada e o volume registrado pelos sistemas oficiais.
Essa diferença não significa que todos os resÃduos restantes tenham sido necessariamente descartados em locais impróprios. Parte dos aparelhos pode permanecer armazenada nas residências, ser reutilizada, passar por atividades informais de recuperação ou seguir caminhos que não entram nas estatÃsticas de coleta documentada. O indicador evidencia, sobretudo, a dificuldade de acompanhar e assegurar a destinação ambientalmente adequada de uma parcela expressiva dos equipamentos descartados.
A expansão do problema acompanha a substituição frequente de aparelhos tecnológicos e a variedade de produtos que passaram a incorporar componentes eletrônicos. Smartphones, computadores, acessórios de informática e dispositivos domésticos possuem diferentes ciclos de utilização, mas continuam demandando tratamento especÃfico quando chegam ao fim da vida útil. Mesmo equipamentos pequenos podem conter materiais aproveitáveis e substâncias que não devem ser misturadas indiscriminadamente aos resÃduos comuns.
No cenário internacional, o Global E-waste Monitor 2024 estimou que o mundo produziu 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022. Desse total, 22,3% foram formalmente coletados e reciclados de maneira documentada. A comparação mostra que a taxa brasileira, próxima de 3,2%, ficou substancialmente abaixo do indicador global, embora o desempenho de cada paÃs dependa também da abrangência e da qualidade dos registros disponÃveis.
O tratamento inadequado desses materiais pode provocar a contaminação do solo e da água, além de gerar riscos à saúde durante a desmontagem e o processamento. O Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos ResÃduos Sólidos (Sinir) identifica ainda a possibilidade de incêndios e intoxicações quando determinados componentes são manipulados sem os procedimentos necessários. Os riscos variam conforme o tipo de equipamento, os materiais presentes em sua composição e as condições de armazenamento e reciclagem.
LogÃstica reversa é obrigação prevista na legislação brasileira
O recolhimento de equipamentos eletrônicos depois do consumo faz parte da PolÃtica Nacional de ResÃduos Sólidos, instituÃda pela Lei nº 12.305, de 2010. A legislação estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e prevê mecanismos para que materiais descartados retornem ao setor empresarial, em vez de serem encaminhados apenas aos serviços convencionais de limpeza urbana. O objetivo é viabilizar o reaproveitamento de componentes, a reciclagem e a destinação adequada dos rejeitos.
Para os equipamentos eletroeletrônicos de uso doméstico, o Decreto nº 10.240, de 2020, regulamenta a estruturação e a operação dos sistemas de logÃstica reversa. Fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes estão sujeitos a responsabilidades relacionadas à organização desses sistemas, enquanto os consumidores devem entregar os produtos nos pontos apropriados. O regulamento também trata do armazenamento, do transporte, do tratamento e da prestação de informações sobre os resultados da operação.
A legislação diferencia os produtos eletroeletrônicos de outras categorias de resÃduos, como pilhas, baterias e lâmpadas, que possuem sistemas especÃficos. Também estabelece obrigações para os consumidores quanto à separação dos aparelhos e à remoção de dados pessoais. Essas disposições ajudam a explicar por que a nova modalidade dos Correios estabelece restrições de recebimento e exige procedimentos próprios para o envio.
O paÃs já conta com outras iniciativas de recolhimento mantidas por fabricantes, estabelecimentos comerciais e entidades gestoras, como a Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos (Abree) e a Green Eletron. A parceria entre os Correios e a Circular Brain acrescenta uma alternativa à infraestrutura existente, sem substituir as obrigações legais das empresas responsáveis pela colocação dos produtos no mercado.
Para a indústria de reciclagem, uma coleta mais abrangente pode aumentar a disponibilidade de matérias-primas secundárias, incluindo cobre, alumÃnio, ferro e plásticos recuperados. O potencial econômico depende da composição dos resÃduos, dos custos de transporte e processamento e da existência de compradores para os materiais recuperados. A chamada economia circular busca justamente manter esses recursos em utilização por mais tempo, reduzindo a quantidade destinada à disposição final.
O inÃcio da operação nas agências representa uma ampliação dos canais de recebimento disponÃveis ao público, mas ainda não há resultados divulgados sobre o volume recolhido especificamente pela parceria. A evolução desses indicadores permitirá identificar se a facilidade de acesso se traduzirá em maior coleta formal de resÃduos eletrônicos no paÃs. Enquanto isso, consumidores já podem utilizar as unidades habilitadas para encaminhar gratuitamente aparelhos de pequeno porte, respeitando as condições estabelecidas para o serviço.
Fontes:
Correios — comunicado institucional de 14 de outubro de 2026 sobre o lançamento da coleta gratuita de eletroeletrônicos em parceria com a Circular Brain.
Global E-waste Statistics Partnership — estatÃsticas brasileiras de geração e coleta formal de resÃduos eletroeletrônicos referentes a 2022.
União Internacional de Telecomunicações e Instituto das Nações Unidas para Treinamento e Pesquisa — Global E-waste Monitor 2024.
Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos ResÃduos Sólidos — informações sobre a operação e regulamentação da logÃstica reversa de eletroeletrônicos.
Presidência da República — Decreto nº 10.240/2020, que regulamenta a logÃstica reversa de equipamentos eletroeletrônicos de uso doméstico.










