BC sinaliza corte da Selic e gestoras ampliam apostas em DI até 2029
A iminência do corte da Selic ganhou força após a divulgação da ata mais recente do Banco Central (BC), que ajustou o tom da comunicação e reforçou que o ciclo de flexibilização monetária está próximo de começar. Com a taxa básica atualmente em 15% ao ano, o mercado já precifica redução na próxima reunião do Copom, em março, com divisão entre apostas de 25 e 50 pontos-base.
A sinalização oficial funcionou como gatilho para uma nova rodada de reposicionamento na renda fixa. Gestoras locais e bancos internacionais passaram a ampliar posições aplicadas em juros, sobretudo nos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DI) com vencimento até janeiro de 2029. A leitura predominante é que o corte da Selic deve desencadear compressão adicional dos prêmios na parte curta e intermediária da curva.
O movimento ocorre em um ambiente de moderação gradual da inflação, sinais de desaceleração da atividade econômica e enfraquecimento do dólar no mercado internacional — fatores que reforçam a percepção de espaço técnico para o início do ciclo de afrouxamento monetário.
Mercado já divide apostas entre 25 e 50 pontos-base
Embora o mercado já tivesse incorporado março como possível ponto de partida do corte da Selic, a validação implícita pelo BC intensificou o ajuste das curvas futuras. Instituições financeiras passaram a revisar estratégias diante da possibilidade concreta de início do ciclo.
Relatórios recentes indicam que bancos como Citi e BNP Paribas voltaram a ficar aplicados em juros no Brasil. As posições foram abertas principalmente no DI com vencimento em janeiro de 2029 — considerado intermediário no padrão brasileiro, ainda que em outros mercados seja classificado como prazo mais longo.
O BNP Paribas, em documento assinado por sua economista-chefe e pelo estrategista de Renda Fixa e Câmbio para América Latina, afirma que a mudança de linguagem do BC “aponta para um novo rali nas curvas locais”. A instituição mantém expectativa de redução inicial de 25 pontos-base, mas reconhece que a decisão pode ser apertada entre 25 e 50 pontos-base já na próxima reunião.
O Citi, por sua vez, destaca que historicamente os ciclos de corte da Selic costumam gerar inclinação da curva, com ajuste mais rápido nos vencimentos curtos e reprecificação gradual nos prazos intermediários.
DI até 2029 concentra maior assimetria
O foco das estratégias está na parte curta e intermediária da curva. Profissionais de mercado relatam que os vencimentos mais curtos e médios oferecem melhor relação risco-retorno diante do cenário atual.
A aposta central é que o corte da Selic provoque redução adicional dos prêmios embutidos nesses contratos. Em ciclos anteriores, como os observados em 2016 e 2023, a inclinação da curva nominal foi característica marcante dos primeiros meses de flexibilização monetária.
Os vencimentos mais longos, apesar de apresentarem prêmios elevados, ainda não são considerados atrativos para posições vendidas — estratégia que aposta na queda futura dos juros. O motivo está na combinação de incertezas eleitorais e fragilidade fiscal, que continuam pressionando a ponta longa.
Em outras palavras, mesmo com a proximidade do corte da Selic, o risco estrutural ainda limita o apetite por apostas mais extensas.
Kinea encurta posição diante de risco eleitoral
A Kinea Investimentos, que integra o grupo Itaú (ITUB3; ITUB4), manteve posição aplicada em juros, mas reduziu o horizonte das apostas. Segundo o gestor de Renda Fixa Guilherme Rodrigues, as posições agora se concentram em vencimentos de até um ano.
A estratégia reflete postura mais tática diante da volatilidade política. Embora o mercado reconheça espaço técnico para o corte da Selic, o cenário eleitoral reduz a previsibilidade e comprime a margem para posições direcionais mais longas.
Rodrigues avalia que há espaço para pelo menos 300 pontos-base de ajuste na taxa básica ao longo do ciclo, caso o cenário de inflação e atividade confirme a trajetória de moderação.
Bradesco Asset e Santander veem rali na renda fixa
A Bradesco Asset identificou melhor relação risco-retorno na parte intermediária da curva nominal. Em sua carta mensal, a gestora afirma preservar estratégia de inclinação, com posições aplicadas no segmento intermediário e tomadas na ponta longa.
A avaliação é que o corte da Selic deve acelerar o processo de normalização da estrutura a termo, favorecendo o miolo da curva. Os prêmios ainda incorporam assimetria considerada positiva em ambiente de transição monetária.
A Santander Asset, por sua vez, manteve visão otimista para a renda fixa no início do ano, ampliando posições em juros prefixados e reduzindo exposição a ativos atrelados à inflação. Segundo a instituição, a queda recente da curva nominal contribuiu positivamente para os resultados.
Para fevereiro, a asset do banco espanhol segue aplicada em juros nominais, sustentada pela expectativa de corte da Selic, pela desaceleração da atividade e pela trajetória mais comportada da inflação.
Fiscal e inflação seguem como vetores de risco
Apesar do ambiente favorável, o mercado monitora de perto dois vetores centrais: trajetória fiscal e dinâmica inflacionária.
O espaço para o corte da Selic depende da manutenção das expectativas de inflação ancoradas. Qualquer deterioração relevante nas contas públicas pode pressionar a ponta longa da curva e limitar o ritmo do ciclo.
Além disso, eventual surpresa inflacionária pode levar o BC a adotar postura mais cautelosa, reduzindo a intensidade ou a velocidade do afrouxamento monetário.
Nesse contexto, a comunicação do Copom na próxima reunião será determinante para consolidar ou moderar as apostas.
O que está em jogo na próxima decisão do Copom
Mais do que a magnitude inicial, o mercado estará atento ao guidance implícito na decisão. O início do corte da Selic pode marcar uma mudança estrutural na precificação dos ativos domésticos, redefinindo fluxos para a renda fixa e influenciando também o comportamento do câmbio e da bolsa.
Caso o BC sinalize ciclo consistente e prolongado, o movimento de compressão dos prêmios pode ganhar intensidade. Por outro lado, um discurso mais conservador pode gerar ajuste técnico nas posições recentemente montadas.
A expectativa de corte da Selic já provocou reorganização relevante nas carteiras das principais gestoras. O próximo passo do Banco Central definirá se o rali projetado para a renda fixa se consolida ou se o mercado precisará recalibrar suas apostas nas próximas semanas.







