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CRAs da Raízen (RAIZ4) recuperam valor, mas seguem como ativos de alto risco

Após queda a 33,3% do valor nominal, títulos chegam a 43,1%; especialistas alertam para limitações e incertezas da reestruturação

por João Souza
24/06/2026 às 12h21
em Empresas
Raizen (Raiz4) - Gazeta Mercantil
São Paulo, 24 de junho de 2026 – Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) emitidos pela Raízen (RAIZ4), uma das maiores empresas do setor sucroenergético do Brasil, registraram recuperação parcial de preço no mercado secundário nos últimos meses, após terem perdido quase dois terços de seu valor quando a companhia protocolou pedido de recuperação extrajudicial em março. A alta acompanha o avanço do plano de reestruturação de dívidas que envolve cerca de R$ 65 bilhões, mas especialistas alertam que os papéis seguem como aplicações de risco elevado, com acesso restrito e perspectivas incertas para investidores de varejo.
Dados da Pop BR, precificadora de ativos de crédito da LUZ Soluções Financeiras, mostram que, no mês do pedido de recuperação extrajudicial, os CRAs da Raízen (RAIZ4) eram negociados, em média, a 34,4% do PAR – sigla que corresponde ao valor nominal do título, ou seja, o montante que deveria ser pago ao investidor no vencimento, conforme contrato. Em abril, com a incerteza sobre os rumos da negociação com credores, a média recuou ainda mais, para 33,3%. A partir de maio, no entanto, iniciou-se uma trajetória de alta, que levou a cotação média a 43,11% do valor nominal em junho.
Embora represente uma valorização de quase 30 pontos percentuais em relação ao menor patamar registrado, o preço atual ainda fica muito distante do valor original dos papéis. A variação também não é uniforme entre todas as emissões: alguns títulos chegaram a ser negociados acima de 50% do PAR no mês corrente, enquanto outros permanecem na faixa de 37%, conforme levantamento detalhado pela precificadora.

Processo de reestruturação impulsiona primeira reação positiva

A melhora nas cotações coincide com marcos importantes no processo de reorganização financeira da Raízen (RAIZ4). Segundo André Morino, sócio e gerente de dados da LUZ, a formalização do plano de recuperação extrajudicial no início de junho e a confirmação, dias depois, de que mais de 80% dos credores já haviam aderido à proposta foram os principais fatores que reduziram o temor de perdas totais entre os agentes do mercado.
“Quando o pedido foi feito, o cenário era de muita incerteza: não havia definição sobre como os débitos seriam renegociados, quais prazos seriam estabelecidos ou qual parte do valor principal seria mantida. Com a estruturação do plano e a adesão expressiva, o risco percebido cai e isso se reflete diretamente no preço negociado”, explica Morino.
A proposta apresentada pela Raízen (RAIZ4) prevê duas linhas principais de ajuste: a conversão de parte da dívida em participação acionária na companhia e o alongamento do prazo de pagamento do saldo remanescente, com alterações nas taxas de remuneração originais. Para os detentores de CRAs, isso significa que as condições de recebimento dos valores contratados serão diferentes do combinado no início da aplicação.
Mesmo com a redução da tensão, a liquidez dos títulos permanece abaixo do nível anterior à crise. O volume médio negociado no mercado secundário recuou de 86 mil unidades nos três meses anteriores ao pedido de recuperação para 70 mil papéis nos três meses seguintes, indicando que o interesse de compra e venda ainda é menor do que o registrado no ano passado, quando esses ativos figuraram entre os dez mais negociados da categoria.

Mercado secundário de CRAs é dominado por investidores institucionais

Um ponto central para entender o comportamento desses ativos é a estrutura do mercado onde são negociados. Diferentemente das ações da Petrobras (PETR4), Vale (VALE3) ou Itaú Unibanco (ITUB4), que têm pregão aberto na B3 e permitem a entrada e saída com facilidade para qualquer investidor, os CRAs operam predominantemente no chamado mercado de balcão, com negociações fechadas entre instituições financeiras.
Isso significa que, embora pessoas físicas possam adquirir esses papéis diretamente em corretoras como a Nord Investimentos ou a Casa do Investidor no momento da emissão, encontrar compradores no mercado secundário costuma ser mais difícil, especialmente em períodos de instabilidade. “Para quem comprou e pretende manter até o vencimento, o caminho é aguardar os efeitos da reestruturação. Mas quem precisa vender antes enfrenta obstáculos naturais e, em situações de risco, acaba aceitando descontos expressivos”, afirma Michael Viriato, assessor de investimentos e sócio-fundador da Casa do Investidor.
Na prática, quando uma empresa como a Raízen (RAIZ4) entra em processo de recuperação, as corretoras passam a exigir margens de segurança maiores para assumir o risco de ficar com os títulos em carteira. Como a demanda diminui, o preço de negociação cai para níveis que refletem não apenas a capacidade de pagamento da emissora, mas também a dificuldade de encontrar um comprador disposto a assumir o ativo.
“Uma empresa em recuperação extrajudicial, independentemente do setor, não se configura como uma aplicação convencional. Os riscos são assimétricos: o potencial de ganho pode ser limitado, mas a possibilidade de perdas adicionais permanece até que todos os termos do acordo sejam cumpridos integralmente”, alerta Viriato.

Valorização recente não elimina incertezas para o investidor

Para quem observa a alta de quase 10 pontos percentuais no último mês e cogita comprar os papéis na expectativa de novos ganhos, analistas recomendam cautela. A Raízen (RAIZ4) segue com um endividamento elevado e precisará cumprir todas as metas operacionais e financeiras previstas no plano de reestruturação para que os credores recebam os valores acordados. Qualquer alteração no cenário econômico, nas condições climáticas que afetam a safra de cana ou nas políticas de preços de combustíveis e energia pode impactar a capacidade de geração de caixa da companhia.
Marília Fontes, sócia da Nord Investimentos e especialista em renda fixa, lembra que o desconto atual ainda é muito elevado em comparação com títulos de crédito privado de empresas sem dificuldades financeiras. “Negociar a 43% do valor nominal significa que o mercado precifica um risco considerável. Quem vende nesses níveis costuma ser quem precisa de recursos imediatos e não pode esperar dois, três ou mais anos para receber os valores ajustados”, diz.
Para quem já detém os CRAs da Raízen (RAIZ4), a decisão de manter ou vender depende do perfil de risco e da necessidade de liquidez. “Se o investidor consegue permanecer com o papel até o final do processo, pode receber um retorno maior do que se vender hoje. Mas não há garantias: o acordo pode sofrer alterações, e o desempenho da empresa ao longo do tempo definirá o resultado final”, complementa Fontes.
Outro fator que pesa na análise é o cenário de juros no Brasil. Com a taxa Selic mantida em patamares elevados, existem alternativas de renda fixa com menor risco e remuneração previsível, o que reduz o atrativo de aplicações que exigem tolerância a perdas e acompanhamento constante.

Reação dos CRAs sinaliza ajuste de expectativas no mercado de crédito

A evolução dos preços dos CRAs da Raízen (RAIZ4) também serve como indicador de como o mercado de crédito privado reage a eventos de estresse. A recuperação parcial mostra que, uma vez que há clareza sobre os termos da renegociação, os agentes passam a atribuir valores mais alinhados com a nova realidade da empresa, mas sem eliminar o prêmio de risco.
Para o setor de agronegócio, a situação chama a atenção, pois os CRAs são instrumentos fundamentais para financiar a produção e a comercialização de produtos do campo. Emissões de grandes empresas funcionam como referência para os papéis de companhias menores, e o caso da Raízen (RAIZ4) pode influenciar as condições de captação de recursos no mercado nos próximos meses.
Enquanto a Raízen (RAIZ4) avança com a implementação do plano de reestruturação, os preços dos CRAs devem continuar sensíveis a cada nova informação divulgada: resultados operacionais, geração de caixa, alterações no acordo com credores ou decisões judiciais que possam interferir no andamento do processo. A valorização registrada até aqui é apenas o primeiro passo em um caminho que ainda deve levar anos para ser concluído.

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