A quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega à reta final da disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com seu histórico de investigações novamente no centro do debate político. O candidato, que construiu parte de sua campanha em torno do combate à corrupção, é alvo de um inquérito da Polícia Federal sobre suspeitas de irregularidades no financiamento de uma cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro. O caso envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, e movimentações financeiras estimadas em dezenas de milhões de reais. As suspeitas se somam a episódios anteriores relacionados a desvios de salários de assessores, transações imobiliárias e operações de uma franquia de chocolates.
A trajetória judicial de Flávio Bolsonaro reúne acusações com situações processuais distintas. O episódio mais conhecido, envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz, resultou em denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, posteriormente rejeitada pela Justiça após a anulação de provas. Já a investigação sobre os recursos associados ao Banco Master permanece em andamento, sem conclusão definitiva sobre a responsabilidade criminal do senador. A distinção entre investigações antigas encerradas e suspeitas atualmente examinadas é essencial para compreender o alcance dos questionamentos que acompanham o candidato.
Banco Master: investigação envolve R$ 134 milhões negociados para filme
O episódio mais recente envolve o financiamento de Dark Horse, produção cinematográfica dedicada à trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Documentos e comunicações examinados pela Polícia Federal apontam negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro que teriam alcançado aproximadamente R$ 134 milhões. Desse montante, cerca de R$ 61 milhões teriam sido efetivamente transferidos em operações realizadas durante 2025. Os investigadores procuram esclarecer a origem, a destinação e a natureza dos recursos, além da possível existência de contrapartidas relacionadas à atuação política do senador.
Parte dos valores teria sido encaminhada a estruturas financeiras nos Estados Unidos, incluindo um fundo associado a pessoas próximas de Eduardo Bolsonaro. A investigação examina se os recursos foram integralmente destinados à produção cinematográfica ou se também financiaram despesas de terceiros. Mensagens e áudios incorporados ao material investigativo indicam que Flávio manteve contato direto com Vorcaro e participou de cobranças relacionadas à liberação de parcelas. A identificação dos beneficiários finais das transferências constitui um dos pontos centrais da apuração.
Outro aspecto envolve possíveis relações financeiras entre empresas associadas ao ex-banqueiro e atividades profissionais vinculadas ao senador. As informações divulgadas sobre o inquérito mencionam aproximadamente R$ 1,5 milhão em notas fiscais que teriam sido emitidas para empresas relacionadas a Vorcaro. A investigação busca esclarecer a natureza dos serviços, sua efetiva prestação e eventual conexão com os pagamentos destinados ao projeto cinematográfico. A existência de notas fiscais ou de relações comerciais, isoladamente, não demonstra a prática de irregularidade.
Flávio Bolsonaro reconheceu que procurou Daniel Vorcaro para buscar financiamento privado para o filme sobre seu pai, mas nega ter cometido qualquer crime. O senador afirmou que sua participação estava relacionada à identificação de investidores e não à administração operacional dos recursos. Também confirmou um encontro com o ex-banqueiro após a imposição de medidas cautelares, justificando que pretendia encerrar a relação comercial e avaliar alternativas de financiamento. Sua defesa sustenta que não houve oferta de vantagens indevidas em troca dos investimentos.
A repercussão ultrapassou a esfera policial e chegou ao Senado Federal. Em setembro, o Partido dos Trabalhadores apresentou uma representação ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar solicitando a abertura de procedimento disciplinar contra Flávio Bolsonaro. A iniciativa questiona a relação do parlamentar com o ex-controlador do Banco Master e as informações prestadas sobre o financiamento do filme. O pedido representa uma frente de responsabilização parlamentar distinta da investigação criminal, sem significar reconhecimento de culpa ou aplicação automática de sanções.
Rachadinha: movimentações de Fabrício Queiroz deram origem às suspeitas
O principal episódio anterior envolvendo Flávio Bolsonaro começou com movimentações financeiras consideradas atípicas na conta de Fabrício Queiroz, ex-policial militar que trabalhou como assessor parlamentar do então deputado estadual. Informações produzidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontaram operações de aproximadamente R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017. As movimentações deram origem a investigações sobre a possibilidade de servidores devolverem parte de seus vencimentos a integrantes do gabinete, prática conhecida como rachadinha. O Ministério Público fluminense passou a examinar pagamentos, transferências bancárias e relações entre funcionários nomeados na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Entre os registros que despertaram atenção estava um cheque de R$ 24 mil destinado a Michelle Bolsonaro, esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro. A família afirmou que o valor correspondia à devolução parcial de um empréstimo pessoal concedido a Queiroz. Os investigadores também identificaram transferências realizadas por familiares do ex-assessor que ocupavam cargos em gabinetes ligados à família Bolsonaro. Essas operações passaram a integrar a apuração sobre a possível apropriação de recursos provenientes de salários pagos pelo poder público.
Em junho de 2020, Fabrício Queiroz foi preso preventivamente em Atibaia, no interior de São Paulo, em um imóvel ligado ao advogado Frederick Wassef, que representava integrantes da família Bolsonaro. A localização do ex-assessor ampliou a repercussão política do caso e provocou questionamentos sobre seus vínculos com o então presidente da República. Flávio afirmou que desconhecia a presença de Queiroz na residência do advogado e negou participação em qualquer esquema de desvio de salários. A família Bolsonaro também sustentou que eventuais irregularidades cometidas pelo ex-assessor seriam de responsabilidade individual dele.
Loja de chocolates entrou na investigação por suspeita de lavagem de dinheiro
Uma das frentes da investigação analisou a movimentação financeira de uma franquia da Kopenhagen da qual Flávio Bolsonaro era sócio, localizada no shopping Via Parque, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O Ministério Público suspeitou que depósitos em espécie registrados nas contas da empresa pudessem servir para dar aparência de legalidade a recursos provenientes do suposto esquema de rachadinha. Segundo os investigadores, aproximadamente R$ 1,6 milhão teria sido movimentado de maneira incompatível com características esperadas do faturamento comercial. A análise relacionava datas de depósitos, receitas declaradas e pagamentos de despesas pessoais.
Para a acusação, o estabelecimento poderia ter funcionado como instrumento de circulação de recursos de origem não esclarecida. A suspeita envolvia a possibilidade de registrar determinadas quantias como receitas de vendas, independentemente da efetiva comercialização de produtos. A defesa negou as irregularidades e argumentou que pagamentos em dinheiro são habituais no varejo, especialmente em períodos de maior movimento, como a Páscoa e o Natal. Os elementos utilizados nessa frente investigativa foram atingidos pelas decisões judiciais que invalidaram provas da apuração principal.
Compra e venda de imóveis também foram questionadas
As transações imobiliárias realizadas por Flávio Bolsonaro e sua esposa constituíram outra frente das investigações conduzidas pelo Ministério Público do Rio. Os promotores examinaram negociações de apartamentos em bairros como Copacabana, Laranjeiras e Barra da Tijuca, buscando identificar diferenças entre valores declarados e quantias efetivamente pagas. Uma das suspeitas era de que parte das aquisições tivesse envolvido dinheiro em espécie não registrado integralmente nos instrumentos contratuais. A posterior revenda de determinados imóveis por valores superiores também foi analisada como possível mecanismo de ocultação da origem de recursos.
Entre as operações examinadas estava a aquisição de dois apartamentos em Copacabana, em 2012, seguida de revenda aproximadamente 15 meses depois. O Ministério Público questionou a valorização dos imóveis e a eventual existência de pagamentos paralelos aos valores formalizados. Flávio Bolsonaro afirmou que suas operações imobiliárias eram legais, estavam documentadas em cartório e haviam sido declaradas aos órgãos competentes. Assim como ocorreu com a investigação da loja de chocolates, os elementos probatórios vinculados ao caso da rachadinha perderam validade nas decisões posteriores dos tribunais superiores.
Familiares de Adriano da Nóbrega ocuparam cargos no gabinete
Outra controvérsia envolvendo o período em que Flávio Bolsonaro foi deputado estadual diz respeito à contratação de familiares do ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, posteriormente apontado por investigadores como integrante de organização criminosa. A mãe e a ex-esposa de Adriano ocuparam cargos vinculados ao gabinete parlamentar, circunstância examinada pelo Ministério Público no contexto das investigações sobre assessores. Os investigadores suspeitaram que elas não exercessem regularmente as funções correspondentes aos cargos e repassassem parte de seus salários a Fabrício Queiroz. Flávio afirmou que as contratações ocorreram por indicação do antigo assessor.
Os vínculos políticos também aparecem em registros oficiais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2005, Flávio Bolsonaro apresentou o Projeto de Resolução nº 1.067, que concedia a Medalha Tiradentes ao então tenente Adriano da Nóbrega. A homenagem foi aprovada e formalizada pela Resolução nº 931 daquele ano, conforme a documentação legislativa. O registro comprova a iniciativa parlamentar, mas não constitui, por si só, demonstração de participação do senador nas atividades criminosas posteriormente atribuídas ao homenageado.
Adriano da Nóbrega morreu em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia. Sua morte ocorreu em meio à repercussão das investigações sobre milícias e grupos de extermínio no Rio de Janeiro. As suspeitas envolvendo familiares nomeados no gabinete de Flávio integraram o conjunto de fatos examinados na investigação da rachadinha. A invalidação das provas atingiu também essa frente acusatória, impedindo que os elementos então reunidos sustentassem a denúncia judicial original.
Justiça rejeitou denúncia da rachadinha em 2022
O desfecho judicial da investigação sobre a rachadinha ocorreu em 16 de maio de 2022, quando o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia apresentada contra Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outras 15 pessoas. A acusação havia sido formalizada pelo Ministério Público em 2020 e abrangia suspeitas de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. A decisão foi tomada depois que o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal invalidaram elementos probatórios utilizados na investigação. Diante das decisões superiores, o próprio Ministério Público pediu o encerramento da ação.
A relatora do caso, desembargadora Maria Augusta Vaz Monteiro de Figueiredo, reconheceu que a denúncia havia sido fundamentada em elementos posteriormente considerados ilícitos. Sem essas informações, deixou de existir o suporte probatório necessário para o prosseguimento da acusação criminal. O Tribunal de Justiça esclareceu que a rejeição por falta de justa causa não impedia, em tese, a retomada de investigações mediante outros elementos válidos. A decisão, portanto, não correspondeu a uma sentença condenatória nem a um julgamento de mérito que declarasse comprovadas ou inexistentes as condutas investigadas.
A distinção tem importância jurídica e política diante da disputa presidencial de 2026. Flávio Bolsonaro não pode ser apresentado como condenado pelos fatos relacionados à rachadinha, uma vez que a denúncia foi rejeitada. Por outro lado, a anulação de provas por razões processuais não equivale a uma conclusão judicial de que todas as movimentações financeiras examinadas eram regulares. O histórico do processo permite compreender tanto a origem das suspeitas quanto os limites impostos pelas decisões judiciais à sua utilização em uma acusação criminal.
Novo inquérito recoloca a transparência financeira na campanha
O caso envolvendo Daniel Vorcaro apresenta características distintas porque se refere a operações financeiras mais recentes e permanece sob investigação. Entre os principais pontos está a necessidade de identificar quem contratou os serviços relacionados ao filme, quais empresas receberam os pagamentos e quem efetivamente controlava os recursos após as transferências. Também é relevante esclarecer se os valores foram utilizados exclusivamente no projeto cinematográfico ou se tiveram outras destinações. Essas questões são fundamentais para determinar se as transações constituíram investimentos privados regulares ou se envolveram práticas ilícitas.
A existência de diferentes intermediários e de transferências internacionais torna o rastreamento financeiro particularmente importante. A apuração depende da análise de contratos, comprovantes bancários, registros contábeis e eventuais vínculos entre os participantes das operações. Também exige estabelecer se houve benefícios pessoais ou políticos indevidos associados à condição de parlamentar de Flávio Bolsonaro. Nenhuma dessas hipóteses pode ser tratada como comprovada antes da conclusão das investigações e da avaliação das autoridades competentes.
No plano eleitoral, a sucessão de controvérsias amplia o confronto entre o discurso anticorrupção da campanha bolsonarista e os questionamentos sobre as relações financeiras do candidato. O histórico da rachadinha continua sendo explorado politicamente, embora o processo correspondente tenha sido encerrado sem condenação. A investigação sobre o Banco Master acrescenta uma dimensão atual ao debate por envolver operações realizadas durante o mandato de senador e valores significativamente superiores aos discutidos nos episódios anteriores. O tema também introduz questionamentos sobre transparência de financiamentos privados relacionados a projetos com evidente associação política.
Com a votação marcada para domingo, 25 de outubro, Flávio Bolsonaro enfrenta o desafio de apresentar esclarecimentos sobre sua relação com o antigo controlador do Banco Master enquanto mantém sua candidatura à Presidência da República. As investigações anteriores ajudam a contextualizar sua trajetória pública, mas não substituem a necessidade de examinar individualmente os fatos e as provas de cada procedimento. O novo inquérito poderá produzir conclusões próprias, independentemente do resultado dos processos encerrados em 2022. Até lá, as suspeitas permanecem sujeitas à apuração, ao contraditório e à presunção de inocência.
Fontes
Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro — denúncia criminal apresentada em 2020
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro — processo nº 0072696-34.2020.8.19.0000 e decisão de 16 de maio de 2022
Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro — Projeto de Resolução nº 1.067/2005 e Resolução nº 931/2005
Senado Federal — Petição do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar nº 14/2026
Tribunal Superior Eleitoral — calendário oficial das Eleições Gerais de 2026










