A Polícia Federal identificou um compartimento secreto equipado com máquina de contar dinheiro, malas e estruturas destinadas ao armazenamento de valores em um hangar do Aeroporto Internacional de Brasília utilizado por empresas do advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A descoberta ocorreu durante diligências da Operação Sem Desconto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial relacionadas a fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O espaço estava escondido atrás de uma estrutura de madeira e protegido por uma porta metálica aparentemente blindada. Os investigadores consideram que os materiais encontrados podem indicar utilização anterior do ambiente para guardar e movimentar grandes quantias em espécie.
A existência do compartimento foi descrita em um relatório da Polícia Federal obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo e divulgado nesta quarta-feira (21). Segundo o documento citado pela publicação, os agentes encontraram equipamentos utilizados para contagem de cédulas e objetos compatíveis com o transporte de dinheiro em grandes volumes, embora nenhuma quantia tenha sido localizada dentro da sala. A descoberta ampliou as suspeitas sobre a estrutura patrimonial e logística mantida pelo advogado, que também passou a ser investigado em outro procedimento no Supremo Tribunal Federal (STF), relacionado a possíveis operações de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro. O parlamentar nega irregularidades e afirma que sua relação com Willer Tomaz é de amizade.
Denúncia anônima levou policiais de volta ao hangar
A localização da sala ocorreu depois que os agentes da Polícia Federal concluíram uma primeira etapa de buscas nos hangares 36 e 37 da área de aviação executiva do Aeroporto Internacional de Brasília. As instalações eram ocupadas por empresas vinculadas a Willer Tomaz e estavam entre os endereços examinados na investigação autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Após a saída da equipe policial, os investigadores receberam uma denúncia anônima indicando a existência de um compartimento que não havia sido identificado na inspeção inicial. A informação levou os agentes a retornarem ao local para verificar se havia uma estrutura destinada à ocultação de valores.
Conforme o relatório divulgado, a equipe retornou ao hangar por volta das 15h e realizou uma vistoria direcionada ao ambiente apontado na denúncia. Os policiais identificaram alterações na estrutura interna da instalação e encontraram uma barreira de madeira que impedia o acesso convencional ao espaço. Depois de superar o obstáculo, localizaram uma porta metálica robusta, descrita como aparentemente blindada, que protegia uma sala reservada. A abertura permitiu identificar um ambiente organizado para a custódia de objetos e valores, com divisórias internas e equipamentos de contagem de dinheiro.
A Polícia Federal informou que encontrou malas vazias consideradas adequadas ao transporte de grandes volumes de cédulas, além de uma máquina de contar dinheiro e uma estrutura gradeada e compartimentada. Outro equipamento semelhante já havia sido localizado no escritório utilizado pelo advogado durante as diligências. Para os investigadores, a combinação dos materiais e das características arquitetônicas do compartimento reforçou a necessidade de examinar sua finalidade e eventual utilização em operações financeiras. A existência dos equipamentos, isoladamente, não comprova que dinheiro de origem ilícita tenha sido armazenado no local.
PF investiga se dinheiro foi retirado antes da segunda vistoria
Um dos principais pontos da investigação é o intervalo transcorrido entre a primeira inspeção policial e o retorno dos agentes ao hangar. Segundo o relatório divulgado, os investigadores consideraram necessário examinar a possibilidade de que valores tenham sido retirados do compartimento durante esse período. A suspeita surgiu porque o ambiente apresentava características de armazenamento de numerário, mas estava sem dinheiro quando os policiais conseguiram acessar seu interior. Até o momento, não foi divulgada comprovação de que alguma quantia tenha sido efetivamente retirada nesse intervalo.
Os agentes solicitaram a realização de perícia papiloscópica para identificar possíveis impressões digitais de pessoas que utilizaram a sala. O procedimento poderá auxiliar na identificação de quem tinha acesso ao compartimento e dos responsáveis pela manipulação dos materiais encontrados. A investigação também poderá confrontar esses elementos com registros de circulação de funcionários, visitantes e prestadores de serviços nas instalações. A comparação das informações será importante para verificar se houve movimentação de objetos antes ou depois da primeira inspeção.
A ausência de dinheiro no compartimento representa uma distinção relevante entre a descoberta física da sala e as suspeitas levantadas pela Polícia Federal. Embora as malas, a máquina de contagem e a estrutura de segurança sejam compatíveis com operações envolvendo dinheiro em espécie, a investigação ainda precisa estabelecer se o local foi utilizado e em quais circunstâncias. Também será necessário identificar a origem de eventuais valores anteriormente armazenados e verificar sua correspondência com registros financeiros e contábeis. Essas informações serão determinantes para esclarecer se a instalação tinha finalidade comercial regular ou se participou de alguma operação de ocultação patrimonial.
Quatro aeronaves foram apreendidas durante a operação
As buscas nos hangares também resultaram na apreensão de quatro aeronaves vinculadas às operações empresariais de Willer Tomaz. Entre os equipamentos relacionados no relatório estão um helicóptero Robinson R66, fabricado em 2012, um avião Cessna 550 Bravo, de 2001, um helicóptero Helibras AS 350 B2, de 2007, e outra aeronave Cessna, fabricada em 2000. Apesar da apreensão judicial, os equipamentos permaneceram acautelados nas instalações aeroportuárias, sob responsabilidade de uma funcionária designada para sua guarda. A medida busca preservar bens e informações considerados relevantes para o andamento da investigação.
A Polícia Federal também obteve cópias de listas de passageiros e diários de bordo relacionados às aeronaves utilizadas pelas empresas do advogado. Os documentos permitem identificar datas, trajetos, passageiros e responsáveis por determinados deslocamentos realizados nos últimos anos. Os investigadores procuram esclarecer se os aviões e helicópteros foram empregados exclusivamente em serviços regulares de transporte aéreo ou se também participaram de movimentações financeiras sob suspeita. A análise poderá ser confrontada com registros bancários, pagamentos, contratos e outras informações já incorporadas aos procedimentos.
O cruzamento entre dados aeronáuticos e movimentações financeiras constitui uma das possibilidades para identificar eventuais inconsistências nas operações investigadas. Registros de voos podem demonstrar quando determinada aeronave esteve em um aeroporto, enquanto documentos bancários e fiscais permitem examinar a movimentação de recursos relacionada a pessoas ou empresas. A coincidência de datas e deslocamentos, entretanto, não constitui prova suficiente de transporte clandestino de valores. Para estabelecer uma eventual irregularidade, seria necessário demonstrar a relação concreta entre as viagens, os recursos movimentados e os envolvidos.
Flávio Bolsonaro utilizou aeronaves ligadas ao advogado
A investigação ganhou repercussão política adicional porque Flávio Bolsonaro mantém relação de amizade com Willer Tomaz e já utilizou aeronaves associadas ao empresário. Registros divulgados anteriormente indicam que o senador realizou viagens particulares em aviões disponibilizados pelo advogado, incluindo deslocamentos com familiares. Essas viagens passaram a receber atenção pública em razão das investigações sobre as atividades empresariais de Tomaz e de seus vínculos com agentes políticos. O uso das aeronaves, por si só, não demonstra participação do parlamentar nas movimentações financeiras examinadas pela Polícia Federal.
A relação entre os dois também aparece em documentos obtidos durante investigações sobre empresas e operações ligadas ao setor de apostas. Em um dos procedimentos, os investigadores identificaram referências a Flávio Bolsonaro em informações bancárias e comunicações relacionadas a estruturas empresariais associadas ao advogado. Entre os elementos examinados estão indícios de vinculação do parlamentar a uma conta da empresa Alcazar Holdings, nos quais ele teria sido identificado como usuário com privilégios de administração. A existência e o alcance efetivo desse possível acesso são aspectos que precisam ser esclarecidos no curso da investigação.
Flávio Bolsonaro afirma que não possui negócios irregulares com Willer Tomaz e sustenta que a relação entre ambos é exclusivamente pessoal. Em 20 de outubro, o candidato solicitou ao ministro Alexandre de Moraes acesso ao procedimento relacionado ao advogado, alegando a necessidade de conhecer as informações que mencionam seu nome. A defesa do senador questiona a interpretação de elementos que poderiam sugerir participação em operações financeiras de terceiros. Até a conclusão das investigações, não é possível atribuir ao candidato responsabilidade pelas instalações ou pelos materiais encontrados no hangar.
Operação investiga suspeitas de lavagem de dinheiro ligadas ao INSS
A ação realizada nos hangares integra uma fase da Operação Sem Desconto, deflagrada oficialmente em 4 de agosto de 2026, com autorização do ministro André Mendonça. Na ocasião, a Polícia Federal cumpriu 18 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Maranhão, conforme comunicado institucional. O procedimento investiga movimentações financeiras e patrimoniais que poderiam ter sido utilizadas para ocultar a origem e o destino de recursos relacionados a possíveis fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS. As apurações também examinam a participação de pessoas físicas, empresas, contas bancárias de terceiros e estruturas empresariais.
Segundo informações divulgadas pelo Supremo Tribunal Federal, o procedimento busca esclarecer suspeitas de lavagem de dinheiro que teriam como possível beneficiário o senador Weverton Rocha (PDT-MA). A Polícia Federal descreveu Willer Tomaz como um dos personagens centrais da estrutura patrimonial investigada, em razão de suas relações com empresas, imóveis, aeronaves, operadores financeiros e agentes políticos. Para os investigadores, essa rede poderia ter sido utilizada para movimentar recursos e organizar operações destinadas a dificultar a identificação de seus verdadeiros beneficiários. As suspeitas permanecem sob apuração e não representam conclusão judicial sobre a responsabilidade dos envolvidos.
A identificação de uma sala reservada no hangar acrescenta um elemento material à investigação sobre a utilização de estruturas logísticas para movimentação de patrimônio. O ponto central será determinar se o compartimento estava associado a atividades comerciais legítimas ou se poderia integrar um mecanismo de ocultação de recursos. A resposta depende de informações sobre o funcionamento das empresas, os serviços efetivamente prestados, os contratos firmados e os registros de utilização das instalações. A investigação também deverá distinguir a responsabilidade individual de cada pessoa ou empresa eventualmente relacionada aos fatos.
Investigação sobre Flávio Bolsonaro tramita em outro inquérito
Paralelamente à Operação Sem Desconto, outro procedimento foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a Willer Tomaz e suas possíveis conexões financeiras com Flávio Bolsonaro. O caso teve origem em uma investigação conduzida pela Polícia Federal no Rio Grande do Sul, que examinava operações envolvendo empresas do setor de apostas e instituições de pagamento. Após a identificação de informações relacionadas ao senador, os elementos pertinentes foram encaminhados à instância competente para a análise de fatos envolvendo autoridade com foro por prerrogativa de função. O ministro Alexandre de Moraes foi sorteado relator do procedimento.
Entre os pontos examinados estão movimentações financeiras de empresas ligadas ao advogado, pagamentos de despesas, viagens e possíveis vínculos bancários com o candidato presidencial. Os investigadores procuram esclarecer se determinadas transações possuíam justificativas comerciais regulares ou se poderiam representar mecanismos de circulação e ocultação de valores. A apuração sobre essas operações é distinta da investigação originalmente autorizada por André Mendonça a respeito das suspeitas envolvendo Weverton Rocha. A separação dos procedimentos é fundamental para evitar atribuir automaticamente a Flávio Bolsonaro todos os fatos identificados nas buscas contra o advogado.
O surgimento de elementos relacionados ao senador também ampliou o debate sobre a transparência das relações entre agentes públicos e empresários que mantêm contratos, participações societárias e estruturas financeiras complexas. Do ponto de vista jurídico, relações pessoais e atividades comerciais não são ilícitas por natureza, mesmo quando envolvem pessoas investigadas. Eventuais responsabilidades criminais dependem da identificação de condutas específicas, conhecimento dos fatos e provas obtidas regularmente. Esses critérios deverão orientar a avaliação das informações coletadas pelos investigadores.
Rancho com praia artificial e túnel subterrâneo também foi alvo de buscas
A Operação Sem Desconto também alcançou uma propriedade rural vinculada a Willer Tomaz, localizada em Planaltina de Goiás, no entorno do Distrito Federal. Durante a diligência, os agentes identificaram uma estrutura de lazer de grandes proporções, incluindo praia artificial, lago com píeres, motos aquáticas e construções junto à água. O relatório também descreve a existência de um túnel subterrâneo que conecta áreas da propriedade separadas por uma via pública. As instalações chamaram a atenção dos investigadores pelo elevado padrão patrimonial.
A Polícia Federal apreendeu quatro equipamentos de armazenamento ligados ao circuito interno de câmeras de segurança da propriedade. O objetivo é preservar registros de circulação de pessoas, veículos e bens que possam contribuir para o esclarecimento das suspeitas examinadas. As imagens poderão auxiliar na identificação de visitantes e na reconstrução de acontecimentos considerados relevantes para os procedimentos investigativos. A análise desse material, entretanto, deverá respeitar os limites estabelecidos nas autorizações judiciais.
A existência de estruturas luxuosas não constitui, isoladamente, evidência de enriquecimento ilícito. O interesse investigativo decorre da necessidade de verificar se o patrimônio declarado é compatível com as fontes de renda e com as operações financeiras realizadas pelos responsáveis. A comparação entre propriedades, empresas, movimentações bancárias e declarações fiscais permite identificar eventuais incompatibilidades patrimoniais. Essa análise também depende da avaliação de documentos que comprovem aquisições, financiamentos, pagamentos e direitos de propriedade.
Defesa de Willer Tomaz nega irregularidades e justifica sala-cofre
Willer Tomaz negou que o compartimento encontrado no hangar fosse utilizado para armazenar dinheiro de origem irregular. Em manifestação divulgada após a revelação do relatório, o advogado afirmou que a sala-cofre e os equipamentos de contagem de cédulas integram a infraestrutura utilizada pelas empresas de aviação na prestação de serviços relacionados ao transporte de valores. Segundo sua versão, os recursos e instalações são necessários para atender atividades comerciais realizadas por empresas de seu portfólio. A defesa classificou como fantasiosa a hipótese de que a estrutura estivesse destinada à ocultação de dinheiro não declarado.
A explicação apresentada pelo advogado estabelece uma linha de investigação que poderá ser confrontada com documentos empresariais e registros de operações. A prestação regular de serviços de transporte de valores pressupõe a existência de contratos, clientes identificáveis e procedimentos de controle compatíveis com a atividade desenvolvida. Esses elementos podem ajudar a esclarecer a finalidade da instalação e o histórico de utilização dos equipamentos encontrados. A confirmação da versão dependerá da documentação disponível e dos resultados das análises policiais.
Descoberta amplia pressão política às vésperas do segundo turno
A revelação da sala oculta ocorre a quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, disputado por Flávio Bolsonaro e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O episódio acrescenta um novo elemento à discussão sobre as relações entre o candidato do PL e empresários investigados por movimentações financeiras consideradas atípicas. A proximidade entre o parlamentar e Willer Tomaz já havia despertado questionamentos em razão de viagens particulares e de referências ao senador encontradas em documentos empresariais. A descoberta no hangar aumenta a relevância pública das explicações sobre essas relações, embora não constitua prova de participação de Flávio em eventual irregularidade.
A investigação também evidencia a complexidade da apuração de possíveis esquemas de lavagem de dinheiro que combinam empresas, patrimônio imobiliário, aeronaves e operações financeiras. A identificação de estruturas físicas destinadas ao armazenamento de valores pode representar uma pista importante, mas não substitui a necessidade de demonstrar a origem dos recursos e sua eventual circulação. Os próximos passos dependerão das perícias, da análise dos registros de voo e do confronto entre documentos financeiros e informações obtidas nas diligências. Somente esse conjunto permitirá estabelecer se houve utilização irregular das instalações e quem seria responsável.
Enquanto a Polícia Federal continua examinando os materiais apreendidos, o caso permanece marcado pela divergência entre as suspeitas dos investigadores e as explicações apresentadas pelo advogado. O compartimento existia e continha equipamentos de contagem e guarda de valores, mas não havia dinheiro em seu interior quando foi vistoriado. A investigação deverá esclarecer se houve movimentação anterior de recursos e se ela possui alguma relação com as operações financeiras sob suspeita. A eventual responsabilização de pessoas envolvidas dependerá de provas individualizadas e de decisões das autoridades competentes.
Fontes
Polícia Federal — Comunicado oficial sobre a nova fase da Operação Sem Desconto, publicado em 4 de agosto de 2026
Supremo Tribunal Federal — Petição nº 16435, decisão do ministro André Mendonça que autorizou buscas e apreensões
Supremo Tribunal Federal — Comunicação institucional de 4 de agosto de 2026 sobre investigação de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial
Polícia Federal — Relatório de diligências nos hangares do Aeroporto Internacional de Brasília, conforme trechos divulgados publicamente em 21 de outubro de 2026









