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Dólar sobe mais de 12% e supera R$ 5,60 após reeleição de Lula

Moeda americana registra forte valorização no primeiro pregão após o segundo turno, em meio a ajustes de posições e avaliações sobre as perspectivas econômicas.

por Camila Braga
26/10/2026 às 10h02
em Dólar
Dólar - Gazeta Mercantil

O dólar disparou mais de 12% na manhã desta segunda-feira (26), primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e ultrapassou a marca de R$ 5,60 no mercado à vista. A moeda americana chegou a R$ 5,6047, avanço de 12,25% em relação ao fechamento de sexta-feira (23), quando era negociada a R$ 4,9931. A valorização ocorreu em meio a uma forte onda de aversão ao risco, provocada pela necessidade de investidores reajustarem suas posições depois de um resultado eleitoral que contrariou as expectativas predominantes no mercado financeiro. O movimento também pressionou os contratos futuros de juros e ações, ampliando as preocupações com os efeitos da instabilidade sobre a economia brasileira.

A moeda americana iniciou as negociações com alta de 8,64%, cotada a R$ 5,4247, mas rapidamente intensificou os ganhos. A velocidade da valorização levou a B3 a ampliar novamente os limites de oscilação dos contratos futuros de dólar, numa tentativa de acomodar movimentos mais amplos de preços durante o pregão. No exterior, os contratos de real negociados em Chicago já indicavam forte desvalorização da moeda brasileira desde a noite de domingo (25). A reação simultânea no câmbio, nos juros e nos ativos brasileiros mostrou que o mercado passava por uma reprecificação generalizada do risco associado ao país.

Vitória de Lula surpreende investidores e provoca corrida pelo dólar

O resultado do segundo turno das eleições presidenciais alterou as expectativas que haviam sustentado a valorização dos ativos brasileiros nas semanas anteriores. Segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, recebidos por Flávio Bolsonaro (PL). A diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos confirmou a reversão da vantagem conquistada pelo candidato da oposição no primeiro turno. Parte dos investidores havia montado posições financeiras considerando a possibilidade de uma mudança na orientação econômica do governo a partir de 2027.

A reação desta segunda-feira também precisa ser interpretada à luz do comportamento dos mercados depois do primeiro turno. Na ocasião, o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro havia estimulado a valorização do real, a queda do dólar e a alta expressiva da Bolsa brasileira. Com a confirmação da continuidade de Lula na Presidência, parte dessas operações passou a ser desfeita, gerando pressão adicional sobre a moeda americana. Esse processo ajuda a explicar a intensidade do movimento inicial, que não depende exclusivamente de uma mudança imediata nos fundamentos econômicos do Brasil.

B3 amplia limite do dólar futuro para 12%

Diante da volatilidade, a B3 anunciou mudanças extraordinárias nos limites de oscilação permitidos para determinados contratos futuros. Inicialmente, o teto de valorização dos contratos de dólar e minidólar passou de 6% para 8,4%, mas a medida precisou ser revista após a intensificação das negociações. Em novo comunicado, a operadora da Bolsa elevou o limite superior para 12%, exclusivamente para o pregão desta segunda-feira e para todos os vencimentos dos contratos DOL e WDO. A alteração não representa uma intervenção direta na cotação do dólar à vista, mas uma flexibilização das regras de negociação dos derivativos diante da volatilidade excepcional.

A B3 também ampliou o limite inferior de oscilação dos contratos futuros de Ibovespa e mini-índice para 20% de queda, depois de uma primeira elevação para 15%. Os contratos futuros de juros DI tiveram suas faixas de negociação ajustadas conforme os respectivos vencimentos. As mudanças refletem a dimensão dos movimentos registrados em diferentes segmentos do mercado financeiro. A ampliação dos limites permite que os contratos incorporem variações maiores de preços, mas não elimina o risco de novas perdas nem garante a estabilização das negociações.

Temor fiscal aumenta pressão sobre o real

A principal preocupação dos investidores está relacionada à trajetória das contas públicas brasileiras e à capacidade do governo de estabilizar a dívida nos próximos anos. A continuidade da atual administração mantém em discussão a evolução das despesas obrigatórias, a credibilidade das metas fiscais e o espaço disponível para novas iniciativas de gasto público. O mercado também procura avaliar como propostas defendidas durante a campanha, incluindo mudanças na jornada de trabalho, poderão ser implementadas e quais seriam seus efeitos sobre custos empresariais, produtividade e arrecadação. A ausência de sinalizações imediatas sobre a estratégia fiscal para o próximo mandato amplia a incerteza incorporada aos preços dos ativos.

A alta do dólar, entretanto, não deve ser atribuída exclusivamente às propostas econômicas do presidente reeleito. A desmontagem de posições especulativas, a procura por proteção cambial e a redução da exposição de investidores estrangeiros podem intensificar movimentos de curto prazo. Além disso, fatores internacionais, como os juros americanos, o desempenho das commodities e a liquidez global, continuam influenciando o comportamento do real. A duração da pressão cambial dependerá, portanto, da combinação entre decisões domésticas, expectativas financeiras e condições externas.

Dólar acima de R$ 5,60 ameaça inflação e juros

A valorização da moeda americana cria um novo fator de pressão sobre os preços de produtos e serviços no Brasil. Empresas que dependem de matérias-primas importadas, máquinas, componentes eletrônicos, fertilizantes e outros insumos cotados em dólar podem enfrentar elevação de custos caso o câmbio permaneça em patamares mais altos. Parte desse encarecimento tende a ser absorvida pelas margens de lucro, enquanto outra parcela pode chegar aos consumidores ao longo dos próximos meses. A intensidade do repasse dependerá da concorrência, da capacidade de reajuste das empresas e da duração da desvalorização cambial.

O impacto também pode alcançar a política monetária conduzida pelo Banco Central. Uma desvalorização persistente do real tende a pressionar as expectativas de inflação, dificultando a redução da taxa básica de juros caso comprometa a convergência dos preços à meta. Esse cenário pode provocar elevação dos juros futuros, encarecimento do crédito e adiamento de investimentos produtivos. Ainda assim, uma disparada cambial concentrada em uma única sessão não significa, necessariamente, aumento proporcional da inflação ou mudança automática na condução da Selic.

Empresas podem enfrentar aumento imediato de custos

O efeito da disparada do dólar sobre as empresas brasileiras varia conforme a estrutura de receitas, despesas e endividamento de cada setor. Companhias exportadoras podem se beneficiar da conversão de receitas em moeda estrangeira para reais, embora o resultado dependa de custos dolarizados, operações de proteção cambial e condições comerciais. Em contrapartida, importadores e empresas com obrigações financeiras em dólares, mas receitas predominantemente em reais, podem sofrer deterioração das margens e aumento do peso de suas dívidas. O impacto efetivo também depende do grau de proteção cambial contratado antes da eleição.

A dimensão financeira do movimento pode ser ilustrada por uma operação hipotética de importação de US$ 100 mil. Considerando a cotação de R$ 4,9931 observada na sexta-feira, o custo equivalente seria de R$ 499.310, enquanto a cotação de R$ 5,6047 elevaria esse montante para R$ 560.470. A diferença de R$ 61.160 representa um aumento relevante para empresas com baixo capital de giro ou margens comerciais reduzidas. O exemplo não inclui impostos, tarifas bancárias, instrumentos de proteção ou demais despesas envolvidas numa operação real de importação.

Banco Central pode atuar para conter disfuncionalidades

A intensidade da oscilação cambial também colocou no radar dos investidores a possibilidade de atuação do Banco Central no mercado de câmbio. A autoridade monetária dispõe de instrumentos como leilões de dólares à vista e operações de swap cambial, que podem ser empregados conforme as condições de liquidez e funcionamento do mercado. Essas medidas não significam necessariamente a defesa de uma cotação específica para a moeda americana. Em um regime de câmbio flutuante, o objetivo de eventuais intervenções pode ser reduzir disfuncionalidades e preservar o funcionamento regular das negociações.

A distinção é importante porque uma intervenção pontual não resolve, isoladamente, preocupações persistentes com a política fiscal. Mesmo que operações cambiais diminuam a volatilidade de curto prazo, a trajetória do dólar continuará dependente das expectativas sobre inflação, juros, dívida pública e fluxo de capitais. Uma atuação do Banco Central também não deve ser confundida com compromisso de impedir a valorização da moeda americana. Até o momento considerado nesta reportagem, a possibilidade de intervenção era objeto de avaliação de agentes financeiros, sem confirmação de uma medida extraordinária específica nesta sessão.

Próximos sinais do governo serão decisivos para o dólar

A reação inicial do mercado coloca as primeiras declarações econômicas do governo reeleito no centro das atenções. Investidores deverão acompanhar eventuais mudanças na equipe econômica, a apresentação de prioridades fiscais e as negociações com o Congresso Nacional sobre o Orçamento e a agenda legislativa de 2027. Sinalizações consideradas compatíveis com uma trajetória sustentável da dívida pública podem contribuir para reduzir parte dos prêmios de risco incorporados aos ativos brasileiros. Por outro lado, a percepção de deterioração persistente das contas públicas poderá prolongar a pressão sobre o câmbio e os juros.

O movimento desta segunda-feira representa um teste importante para a confiança dos agentes econômicos, mas ainda não permite determinar um novo patamar permanente para o dólar. A diferença entre uma correção financeira concentrada no período pós-eleitoral e uma mudança estrutural das expectativas será observada nas próximas sessões. Para empresas, consumidores e investidores, o principal risco não está apenas na cotação máxima registrada nesta manhã, mas na possibilidade de que a desvalorização cambial se prolongue e contamine decisões de preços, crédito e investimento. O comportamento do real nos próximos dias dependerá tanto da resposta política e fiscal do governo quanto da capacidade do mercado de absorver o ajuste de posições provocado pelo resultado eleitoral.

Leia também: Itaú (ITUB4), Azul (AZUL3) e Smart Fit (SMFT3): destaques do mercado nesta segunda (26)

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Resultado oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, divulgado em 25 de outubro.

B3 — Comunicados oficiais de 26 de outubro de 2026 sobre ampliação dos limites de oscilação dos contratos futuros de dólar, Ibovespa e juros.

Banco Central do Brasil — Sistema PTAX e informações institucionais sobre o funcionamento do mercado cambial e instrumentos de atuação.

Money Times — Informações de mercado sobre as cotações do dólar à vista na abertura do pregão de 26 de outubro de 2026.

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