Os economistas consultados pelo Banco Central reduziram as projeções para a inflação, o crescimento econômico e a cotação do dólar em 2026, segundo o Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (26). A mediana das expectativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,22% para 5,19%, enquanto a estimativa para o dólar no encerramento do ano caiu de R$ 5,13 para R$ 5,05. Para a taxa Selic, a previsão de 2026 permaneceu em 13,25% ao ano, mas houve redução nas expectativas para 2027 e 2028.
Os números, entretanto, apresentam uma particularidade importante: a coleta de informações foi concluída na sexta-feira (23), antes do segundo turno das eleições presidenciais. Por essa razão, as projeções ainda não incorporam os movimentos registrados nos mercados financeiros após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (25). A diferença entre o cenário captado pela pesquisa e as condições observadas nesta segunda-feira deverá ser considerada na interpretação dos indicadores.
Inflação de 2026 recua para 5,19%, mas segue acima da meta
A projeção para a inflação oficial brasileira em 2026 registrou a quarta redução semanal consecutiva, passando de 5,22% para 5,19%. Embora a revisão represente uma melhora marginal nas expectativas, o percentual permanece acima do limite superior de tolerância da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). O objetivo central da política monetária é manter o IPCA em 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Na prática, a estimativa de 5,19% supera em 0,69 ponto percentual o teto de 4,5% estabelecido pelo regime de metas. A diferença mostra que, apesar das revisões recentes, os participantes da pesquisa ainda trabalham com um cenário de inflação elevada para o encerramento de 2026. É importante observar, contudo, que o sistema de metas contínuas considera o comportamento da inflação acumulada em 12 meses, e não apenas a previsão para dezembro.
Para 2027, a expectativa apresentou movimento contrário, subindo de 4,32% para 4,34%, na segunda elevação semanal consecutiva. As projeções para 2028 e 2029 permaneceram em 3,75% e 3,50%, respectivamente. A trajetória indica que os economistas consultados ainda esperam uma aproximação gradual da inflação à meta central, embora os números para os próximos anos permaneçam acima de 3%.
O comportamento das expectativas também pode ser comparado aos indicadores recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IPCA-15 de outubro avançou 0,32%, abaixo dos 0,70% registrados em setembro, enquanto a variação acumulada em 12 meses ficou em 4,62%. A desaceleração da prévia inflacionária oferece um elemento adicional para a avaliação dos preços, mas não garante que o índice oficial encerrará o ano dentro do intervalo de tolerância.
Selic permanece projetada em 13,25% para 2026 e cai nos anos seguintes
No caso dos juros, os economistas mantiveram em 13,25% ao ano a projeção para a Selic no encerramento de 2026. O percentual permanece abaixo da taxa básica atualmente em vigor, de 13,75% ao ano, estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em setembro. A diferença de 0,50 ponto percentual indica que, até o fechamento da pesquisa, o cenário predominante ainda contemplava espaço para novos cortes de juros até dezembro.
As mudanças mais expressivas ocorreram nas estimativas para os anos seguintes. A projeção para o fim de 2027 recuou de 12% para 11,75% ao ano, enquanto a de 2028 passou de 10,50% para 10%. Para 2029, a mediana permaneceu em 10%, sem alteração em relação à semana anterior.
As revisões sugerem que os participantes da pesquisa, antes das eleições, consideravam possível uma redução mais acentuada dos juros no médio prazo. Essa perspectiva pode estar associada à expectativa de desaceleração da inflação e de crescimento econômico mais moderado. Entretanto, as projeções não constituem decisões do Banco Central, que continuará avaliando os dados econômicos e o balanço de riscos em suas próximas reuniões.
A distinção ganha relevância diante da volatilidade registrada nesta segunda-feira nos mercados cambial e de juros futuros. Uma eventual persistência de pressões sobre o câmbio poderá alterar as expectativas de inflação e, consequentemente, as projeções para a trajetória da Selic. O efeito dependerá da duração dos movimentos e da avaliação do Copom sobre sua transmissão para os preços.
Dólar projetado a R$ 5,05 contrasta com a volatilidade após as eleições
As expectativas para o câmbio foram revisadas para baixo em todos os horizontes acompanhados pelo Focus. Para o encerramento de 2026, a mediana recuou de R$ 5,13 para R$ 5,05, marcando a terceira semana consecutiva de redução. Para 2027, a estimativa passou de R$ 5,22 para R$ 5,15, enquanto as projeções para 2028 e 2029 foram ajustadas para R$ 5,20 e R$ 5,28, respectivamente.
O resultado contrasta com o comportamento do mercado à vista nesta segunda-feira. Após fechar a sexta-feira cotado a R$ 4,9931, o dólar apresentou forte valorização na abertura e chegou a superar R$ 5,60 durante as primeiras negociações. O movimento ocorreu em um ambiente de ajustes de posições financeiras após o resultado eleitoral, além de avaliações sobre as perspectivas econômicas para o próximo mandato presidencial.
A comparação, entretanto, exige cautela porque os dois indicadores possuem naturezas diferentes. A cotação observada durante o pregão representa o preço da moeda naquele momento, enquanto o Focus reúne estimativas para o encerramento de cada ano. Além disso, os dados divulgados nesta segunda-feira refletem opiniões registradas antes do evento eleitoral, o que limita sua utilização como referência para avaliar as expectativas atuais.
Nesse contexto, a próxima edição do relatório poderá oferecer informações adicionais sobre como os economistas incorporaram o resultado das urnas e as oscilações financeiras às suas projeções. Isso não significa necessariamente que haverá revisões proporcionais à movimentação observada em um único pregão. A formação das expectativas dependerá também das sinalizações de política econômica e das condições internas e internacionais.
PIB de 2026 cai para 1,80% e reforça perspectiva de crescimento moderado
As estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) também foram reduzidas. Para 2026, a previsão de expansão da economia brasileira passou de 1,83% para 1,80%, enquanto a projeção para 2027 recuou de 1,32% para 1,31%. Ambas registraram a segunda semana consecutiva de revisão para baixo.
Para 2028, a expectativa permaneceu em crescimento de 1,81%, e a estimativa para 2029 continuou em 2%. Os números apontam para uma trajetória de expansão relativamente moderada, segundo as avaliações dos participantes da pesquisa. A manutenção de projeções abaixo de 2% em três dos quatro anos acompanhados também sugere expectativas contidas para o ritmo de crescimento econômico.
A combinação de crescimento projetado mais fraco com inflação ainda elevada constitui um dos aspectos relevantes do levantamento. Em condições normais, uma atividade econômica menos aquecida pode contribuir para reduzir pressões sobre os preços, mas essa relação depende de fatores como produtividade, câmbio, mercado de trabalho e comportamento dos custos de produção. Por isso, a desaceleração esperada do PIB não assegura, isoladamente, uma convergência mais rápida da inflação à meta.
Confira todas as projeções do Focus de 26 de outubro
Inflação — IPCA
| Ano | Anterior | Atual |
|---|---|---|
| 2026 | 5,22% | 5,19% |
| 2027 | 4,32% | 4,34% |
| 2028 | 3,75% | 3,75% |
| 2029 | 3,50% | 3,50% |
Taxa Selic — ao final do ano
| Ano | Anterior | Atual |
|---|---|---|
| 2026 | 13,25% | 13,25% |
| 2027 | 12,00% | 11,75% |
| 2028 | 10,50% | 10,00% |
| 2029 | 10,00% | 10,00% |
Produto Interno Bruto — PIB
| Ano | Anterior | Atual |
|---|---|---|
| 2026 | 1,83% | 1,80% |
| 2027 | 1,32% | 1,31% |
| 2028 | 1,81% | 1,81% |
| 2029 | 2,00% | 2,00% |
Dólar — cotação projetada para o fim do ano
| Ano | Anterior | Atual |
|---|---|---|
| 2026 | R$ 5,13 | R$ 5,05 |
| 2027 | R$ 5,22 | R$ 5,15 |
| 2028 | R$ 5,29 | R$ 5,20 |
| 2029 | R$ 5,30 | R$ 5,28 |
Próximo Focus deverá mostrar como expectativas evoluíram após as eleições
A principal limitação da edição divulgada nesta segunda-feira está na defasagem temporal entre o encerramento da coleta e a mudança das condições de mercado. Como o levantamento foi concluído em 23 de outubro, os dados retratam as expectativas anteriores ao segundo turno, sem incorporar os movimentos ocorridos a partir do domingo. Essa característica não compromete a validade estatística da pesquisa, mas exige atenção ao comparar seus resultados com as cotações observadas após a eleição.
A próxima divulgação, prevista para 3 de novembro, deverá reunir informações coletadas ao longo desta semana, período em que os participantes poderão revisar suas avaliações sobre juros, inflação, crescimento e câmbio. Ainda assim, mudanças nas projeções não poderão ser automaticamente atribuídas a um único acontecimento, uma vez que o cenário econômico também será influenciado por indicadores domésticos, decisões de política monetária e condições internacionais.
O Focus continua sendo uma referência importante para acompanhar a evolução das expectativas econômicas, mas não deve ser confundido com uma previsão oficial do Banco Central. Os números representam medianas de estimativas apresentadas por instituições financeiras e consultorias participantes do levantamento. Sua principal contribuição está em mostrar como essas expectativas se modificam ao longo do tempo, permitindo identificar tendências, divergências e possíveis mudanças na percepção dos agentes econômicos.
Fontes
Banco Central do Brasil — Relatório Focus divulgado em 26 de outubro de 2026, com expectativas de mercado coletadas até 23 de outubro.
Banco Central do Brasil — Comunicado nº 45.963, de 16 de setembro de 2026, sobre a definição da taxa Selic.
Banco Central do Brasil e Conselho Monetário Nacional — Resolução CMN nº 5.141/2024 e informações sobre o regime de metas contínuas para a inflação.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), outubro de 2026.






