Expansão Oxxo Femsa Brasil: rede mira abertura de uma loja por dia em estratégia de crescimento
A Femsa, controladora mexicana e maior engarrafadora de Coca-Cola do mundo, intensifica a sua presença no Brasil após a saída da parceira Raízen, ajustando a expansão da rede Oxxo com metas ambiciosas e foco em eficiência operacional. Com o objetivo de inaugurar até 100 lojas em 2026, todas no Estado de São Paulo, a companhia busca consolidar sua marca, aprimorar processos internos e construir uma operação sustentável no longo prazo.
Retomada da expansão e ritmo de crescimento
O ritmo da Oxxo no Brasil sofreu desaceleração em 2025 após a separação da Raízen, que assumiu as 1.256 unidades da Shell Select e Shell Café. Ao fim de 2025, o Grupo Nós, responsável pela operação da Oxxo, contava com 607 lojas, apenas 13 a mais do que no ano anterior. A empresa agora planeja um crescimento mais cadenciado, priorizando qualidade e gestão de categorias, conforme destacou o CEO José Antonio Fernandez.
A meta de longo prazo é ousada: abrir “um Oxxo por dia” em alguns anos, superando a velocidade registrada na chegada ao país, quando a companhia inaugurava uma loja a cada 42 horas. O objetivo é atingir até 10 mil unidades no Brasil, distribuídas em áreas estratégicas e com atenção à rentabilidade.
Desafios financeiros e queima de caixa
Desde sua chegada ao Brasil em 2020, o Oxxo apresenta desafios financeiros. O modelo de lojas de proximidade só teve lucro no primeiro ano de operação, e atualmente continua a queimar caixa. No ano-safra de 2025/2026, o Grupo Nós reportou R$ 340 milhões de prejuízo, mesmo com crescimento de 33,6% na receita. A operação brasileira ainda não atingiu o breakeven, e a Femsa busca equilibrar expansão com rentabilidade.
O crescimento das vendas nas lojas maduras é central para o plano de consolidação. No último trimestre de 2025, o aumento de 18,3% em unidades com pelo menos um ano de operação marcou o terceiro ano consecutivo de crescimento de dois dígitos. A estratégia é maximizar o faturamento por loja, reduzindo o peso das despesas gerais (SG&A), que representam atualmente 40% da receita líquida, para patamares próximos a 28% com maior escala.
Estratégia de adensamento e logística
O Oxxo no Brasil segue o modelo de proximidade, o que exige logística eficiente devido à ausência de grandes áreas de estoque. O abastecimento precisa ser frequente, em média duas vezes por semana, e a rede mantém um centro de distribuição em Cajamar, na Grande São Paulo. Apesar do planejamento, problemas de ruptura na cadeia e falta de produtos ainda ocorrem em algumas unidades.
O foco atual é consolidar e densificar regiões já atendidas. Das mais de 600 lojas, a maior concentração está na capital paulista e na região metropolitana. Essa estratégia permite reduzir custos logísticos e otimizar operações antes de intensificar a abertura de novas unidades.
Competição e desafios do mercado brasileiro
A operação do Oxxo no Brasil enfrenta concorrência acirrada. Mercadinhos independentes, padarias e serviços de delivery rápido, como Zé Delivery, iFood e Rappi, aumentam a pressão sobre o modelo de lojas de proximidade. Concorrentes tradicionais, como Carrefour Express e Minuto Pão de Açúcar, também têm enfrentado desafios financeiros e limitação de expansão, reforçando a importância de planejamento estratégico e seleção de pontos comerciais rentáveis.
Além disso, custos elevados com aluguel — estimados entre 15% e 18% da receita para algumas unidades — e despesas com mão de obra impactam diretamente na margem operacional. Enquanto no México uma loja Oxxo funciona com um a dois funcionários por turno e salário médio de 75 pesos mexicanos por hora (~R$ 22), no Brasil o custo é quase o dobro devido ao salário mínimo e à rotatividade elevada.
Adaptação do modelo mexicano ao Brasil
O modelo de sucesso da Femsa no México envolve alta eficiência operacional, baixa dependência de funcionários e forte integração de serviços, incluindo pagamentos e retirada de produtos de e-commerce. No Brasil, a empresa busca adaptar o modelo à realidade local, priorizando vendas de alimentos prontos, bebidas e conveniência. Atualmente, cerca de 20% do faturamento do Oxxo brasileiro vem de alimentação, especialmente salgados e cafés.
A Femsa também planeja ampliar a oferta de serviços adicionais, como venda de cartões pré-pagos, ingressos para shows e pontos de retirada de compras online, aumentando o fluxo de clientes e potencializando a receita por loja.
Perspectivas de rentabilidade e breakeven
Segundo a administração da Femsa, o breakeven para a operação brasileira depende de atingir cerca de mil lojas, ponto em que a diluição de custos gerais e logísticos se tornaria suficiente para gerar lucro consistente. A companhia não divulga dados detalhados de resultado líquido, mas projeta margens brutas próximas a 38% e faturamento médio de R$ 300 mil por loja, métricas que ainda estão 5% a 10% abaixo do ideal.
A experiência internacional da Femsa, com mais de 25 mil lojas na América Latina e presença em Europa e EUA, fornece know-how operacional, permitindo que o Oxxo adapte processos e tecnologias à realidade brasileira, mantendo competitividade e escalabilidade.
Crescimento sustentável e visão de longo prazo
A estratégia atual da Oxxo no Brasil combina expansão moderada, consolidação das lojas existentes e otimização operacional. A intenção da Femsa é criar uma rede eficiente, capaz de crescer em número de unidades sem comprometer rentabilidade, garantindo que a marca se estabeleça de forma sólida no país.
O desafio é equilibrar ritmo de expansão, controle de custos e adaptação cultural, considerando peculiaridades do mercado brasileiro, desde custos de mão de obra até hábitos de consumo. A longo prazo, a meta de alcançar 10 mil lojas no país permanece, mas exige planejamento estratégico, logística robusta e adaptação contínua às demandas locais.
A Femsa, ao impor sua operação e metodologia, busca consolidar a marca Oxxo no Brasil como referência em conveniência e proximidade, replicando os êxitos observados em outros países, mas ajustando o modelo à complexidade do mercado brasileiro.





