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Flávio Bolsonaro se declara presidente eleito do Brasil após derrota e anuncia oposição dos EUA

Senador nega ter fugido, acusa fraude eleitoral sem apresentar provas e contesta decisão do STF; dados do TSE mostram que votação após as 17h não alteraria resultado da eleição.

por Carlos Menezes
28/10/2026 às 18h19
em Política
Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta na qual se apresenta como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais. O documento foi publicado após sua chegada a Miami, nos Estados Unidos, acompanhado da família. Na manifestação, o parlamentar nega ter fugido do país, acusa a Justiça Eleitoral de fraude e anuncia que pretende liderar a oposição brasileira a partir do território americano.

A declaração ocorre três dias depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar a reeleição de Lula, que recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%, encerrando a disputa com uma diferença de 4.430.191 votos em favor do presidente reeleito.

Na carta, o senador rejeita o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral e atribui sua derrota a supostas irregularidades no processo de votação. As acusações não são acompanhadas de provas documentais capazes de demonstrar a ocorrência de fraude ou de invalidar a totalização oficial.

O pronunciamento também inaugura uma nova etapa da atuação política de Flávio Bolsonaro. Em vez de reconhecer o resultado eleitoral e anunciar uma oposição parlamentar convencional, o senador pretende organizar seus aliados a partir dos Estados Unidos, enquanto sustenta publicamente que deveria ter sido reconhecido como vencedor da eleição.

Flávio Bolsonaro afirma ser o verdadeiro presidente eleito do Brasil

A carta foi divulgada inicialmente pelo influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, e posteriormente publicada nas redes sociais do senador. O documento circulou em diferentes versões, com alterações na apresentação e em trechos do conteúdo.

Em uma das versões, Flávio afirma: “Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente do Brasil”. Em outro trecho, reafirma considerar-se o presidente eleito e acusa adversários políticos e integrantes do Judiciário de terem impedido sua vitória.

A autodeclaração não produz efeitos jurídicos sobre o resultado da eleição. Pela legislação brasileira, cabe à Justiça Eleitoral totalizar os votos, proclamar os candidatos eleitos e realizar a diplomação, etapa que formaliza a condição necessária para a posse.

No caso da eleição presidencial, essa atribuição pertence ao TSE, que anunciou oficialmente a vitória de Lula no domingo (25). O reconhecimento unilateral de uma candidatura derrotada não substitui os procedimentos previstos na Constituição e na legislação eleitoral.

A manifestação de Flávio também contém acusações contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem atribui interferência no processo eleitoral e perseguição política. O senador afirma que a atuação do Judiciário teria comprometido a legitimidade da disputa, mas não apresenta, na carta, decisão judicial que tenha declarado a eleição inválida.

Senador nega fuga e afirma que levou a família aos Estados Unidos por segurança

O parlamentar também procurou justificar sua saída do Brasil, ocorrida após a derrota eleitoral. Ele chegou a Miami nesta quarta-feira, depois de passar pela Argentina, acompanhado da esposa e das filhas.

Na carta, Flávio sustenta que não pretendia deixar o território brasileiro, mas decidiu viajar por temer medidas judiciais que, segundo sua avaliação, poderiam restringir sua liberdade e impedir sua atuação política.

“Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”, declarou o senador.

A afirmação representa a versão apresentada por Flávio sobre as circunstâncias da viagem. O parlamentar também nega a existência de mandado de prisão contra ele e descreve uma possível sequência de medidas judiciais, incluindo apreensão de passaporte, monitoramento eletrônico e prisão domiciliar.

Essas declarações não permitem, por si só, estabelecer a situação processual do senador. A existência, o alcance e os efeitos de eventuais determinações judiciais dependem do conteúdo das decisões e dos registros oficiais dos processos correspondentes.

Flávio afirma que decidiu permanecer nos Estados Unidos para proteger a família e continuar exercendo influência sobre a política brasileira. O documento não estabelece uma data para seu retorno ao país.

Flávio agradece a Donald Trump e Javier Milei por acolhimento

O texto também procura projetar a disputa política brasileira no cenário internacional. Flávio Bolsonaro agradece nominalmente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao presidente da Argentina, Javier Milei.

O senador elogia o governo americano e afirma ter encontrado nos Estados Unidos condições de segurança que considera inexistentes no Brasil. Também expressa gratidão a Milei por sua posição política e por sua atuação durante o período em que passou pela Argentina.

Os agradecimentos são apresentados como declarações do próprio parlamentar. Não equivalem, isoladamente, a reconhecimento oficial de sua reivindicação à Presidência do Brasil por parte dos governos americano ou argentino.

A carta dirige ainda um apelo à comunidade internacional para que acompanhe a situação política brasileira. Flávio sustenta que a atuação do Judiciário ameaça o exercício da oposição e pede atenção externa às acusações que apresenta contra as instituições nacionais.

Ao internacionalizar seu discurso, o senador procura manter visibilidade política fora do Brasil e estabelecer uma interlocução com lideranças estrangeiras. O documento, entretanto, não apresenta uma iniciativa diplomática formal nem uma medida de reconhecimento internacional de sua reivindicação eleitoral.

TSE contabilizou 34.393 votos após as 17h, contra vantagem de 4,43 milhões de Lula

Uma das principais acusações formuladas por Flávio Bolsonaro envolve a decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que permitiu o prolongamento da votação até as 19h no segundo turno das eleições presidenciais.

O senador considera que a medida comprometeu a igualdade de condições entre os eleitores e afirma que o crescimento da votação de Lula entre o primeiro e o segundo turno seria uma impossibilidade matemática. A argumentação, porém, não demonstra como a extensão do horário poderia explicar a diferença final entre os candidatos.

Um levantamento oficial divulgado pelo TSE em 27 de outubro permite dimensionar a questão. Segundo o tribunal, foram registrados 34.393 votos após as 17h no segundo turno em território nacional. Desse total, 32.399 ocorreram entre 17h e 18h, outros 1.981 entre 18h e 19h e apenas 13 depois das 19h.

A diferença final entre Lula e Flávio Bolsonaro foi de 4.430.191 votos, número aproximadamente 129 vezes superior ao total de votos registrados após as 17h.

Mesmo na hipótese extrema de todos os 34.393 votos terem sido destinados a um único candidato, essa quantidade seria insuficiente para inverter o resultado oficial da eleição presidencial.

Há ainda uma distinção importante: nem todos os votos registrados depois das 17h decorreram necessariamente da prorrogação determinada pelo STF. A legislação eleitoral já assegura o direito de votar aos eleitores que estejam na fila no horário regular de encerramento, mediante os procedimentos previstos para as seções eleitorais.

Portanto, o total divulgado pelo TSE não pode ser interpretado automaticamente como a quantidade de votos acrescentados exclusivamente pela decisão judicial. Os dados mostram, de qualquer forma, que o volume de votos posterior ao horário regular foi muito inferior à vantagem obtida pelo presidente reeleito.

Decisão de Cristiano Zanin considerou problemas no transporte de eleitores

A extensão do período de votação teve origem na Reclamação 101673, apresentada ao STF em razão de problemas relacionados à oferta de transporte público coletivo em municípios da Bahia.

A ação questionava a redução dos serviços de transporte em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, sob o argumento de que a situação prejudicava o deslocamento dos eleitores e contrariava a obrigação de garantir transporte público gratuito nos dias de eleição.

Segundo o comunicado oficial do STF, as duas candidaturas que disputavam a Presidência relataram dificuldades relacionadas ao transporte de eleitores. Diante dessas manifestações, o ministro Cristiano Zanin autorizou a continuidade da votação até as 19h nas seções que ainda permaneciam abertas às 17h.

A decisão não determinou a reabertura de todas as urnas do país. O alcance da medida ficou restrito aos locais em que os trabalhos eleitorais ainda não haviam sido encerrados no horário originalmente previsto.

O TSE informou, no próprio domingo, que a votação prosseguiria apenas nessas seções. A Justiça Eleitoral também suspendeu temporariamente o recebimento dos boletins de urna, a totalização e a divulgação dos resultados, retomando essas operações depois das 19h.

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, reconheceu posteriormente que a decisão gerou dificuldades operacionais. Segundo ele, a alteração do horário ocorreu quando milhares de urnas já haviam sido encerradas, exigindo adaptações nos sistemas de apuração e na organização das equipes eleitorais.

Nunes Marques afirmou que o tribunal precisou administrar uma situação inédita e destacou os riscos operacionais envolvidos em uma mudança decidida poucas horas antes do encerramento da votação. Apesar das dificuldades, a Justiça Eleitoral informou que conseguiu executar os procedimentos necessários e concluir a apuração.

Esses registros documentam a controvérsia operacional provocada pela decisão, mas não demonstram que tenha ocorrido a fraude eleitoral alegada por Flávio Bolsonaro.

Carta acusa Justiça de perseguição política e cita Jair Bolsonaro

Outro eixo do pronunciamento envolve as críticas ao Supremo Tribunal Federal e às medidas judiciais relacionadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Flávio afirma que a situação enfrentada por seu pai demonstra os riscos que considera presentes para integrantes da oposição. Segundo o senador, permanecer no Brasil poderia submetê-lo a restrições semelhantes e limitar sua capacidade de mobilização política.

O parlamentar utiliza essa avaliação para justificar sua permanência nos Estados Unidos. A carta apresenta a saída do país como uma decisão destinada a preservar sua atuação pública, e não como abandono de suas responsabilidades políticas.

O documento também contém acusações de corrupção e abuso de autoridade dirigidas genericamente a integrantes do Judiciário. Essas manifestações são posicionamentos do senador e não constituem comprovação das irregularidades apontadas.

A distinção é relevante porque eventuais crimes, abusos ou desvios funcionais precisam ser examinados a partir de fatos individualizados, provas e procedimentos legais. A manifestação política de um candidato, mesmo quando contém acusações graves, não equivale a uma constatação judicial.

Flávio anuncia que comandará a oposição dos Estados Unidos

Apesar de ter deixado o Brasil, o senador afirma que continuará participando da organização política de seus aliados e pretende exercer influência sobre a atuação da oposição no Congresso Nacional.

Na carta, Flávio se dirige diretamente a parlamentares e governadores que apoiou durante a campanha eleitoral. Entre os nomes mencionados está o senador Rogério Marinho (PL-RN), apontado por ele como seu candidato à presidência do Senado Federal.

“Por isso, liderarei a oposição daqui”, afirmou Flávio, ao comunicar sua intenção de manter uma atuação política organizada a partir do exterior.

O senador também promete realizar pronunciamentos regulares dirigidos à população brasileira e apresentar, nos próximos dias, uma estratégia de mobilização de seus apoiadores.

Segundo o texto, essa articulação deverá utilizar meios pacíficos e legítimos. A carta, entretanto, não detalha a estrutura operacional da mobilização, as medidas que serão propostas nem os instrumentos parlamentares que pretende utilizar.

A iniciativa representa uma tentativa de preservar a liderança política do grupo mesmo após a derrota presidencial. Flávio recebeu quase 60 milhões de votos no segundo turno, resultado que demonstra a dimensão de seu eleitorado, embora não lhe confira a condição de presidente eleito.

A atuação a partir dos Estados Unidos também abre questões sobre a participação do senador nas atividades legislativas brasileiras, especialmente diante das regras de exercício do mandato e das exigências de comparecimento às sessões parlamentares. Eventuais consequências institucionais dependerão das circunstâncias concretas e das normas aplicáveis.

Resultado eleitoral continua válido e diplomação está prevista para dezembro

A carta de Flávio Bolsonaro não altera, por si só, o calendário institucional estabelecido para a conclusão das eleições de 2026.

O Tribunal Superior Eleitoral proclamou a reeleição de Lula em 25 de outubro e deverá cumprir as etapas posteriores previstas na legislação, incluindo o processamento de eventuais questionamentos e a diplomação dos candidatos eleitos.

Pelo calendário oficial, a diplomação deverá ocorrer até 18 de dezembro. O procedimento é responsável por formalizar a condição dos eleitos perante a Justiça Eleitoral e antecede a posse para o novo mandato presidencial, prevista para 5 de janeiro de 2027.

Eventuais contestações ao resultado precisam ser apresentadas pelos instrumentos jurídicos cabíveis, dentro dos respectivos prazos e acompanhadas dos elementos probatórios exigidos pela legislação. Declarações públicas que questionam a legitimidade da eleição não suspendem automaticamente seus efeitos.

A manifestação divulgada nesta quarta-feira, portanto, tem significado político distinto de seus efeitos jurídicos. Flávio Bolsonaro mantém sua contestação à reeleição de Lula, reivindica para si a vitória presidencial e anuncia uma estratégia de oposição internacionalizada. O resultado oficialmente proclamado pelo TSE, entretanto, permanece sendo a vitória de Lula por 51,79% dos votos válidos, enquanto a Justiça Eleitoral segue responsável pelas etapas formais de conclusão do processo.

Fontes:

Flávio Bolsonaro — Carta à Nação Brasileira, divulgada publicamente em 28 de outubro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do segundo turno das Eleições 2026, publicado em 26 de outubro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Eleições 2026: cerca de 34 mil votos foram registrados após as 17h no segundo turno, publicado em 27 de outubro de 2026.

Supremo Tribunal Federal — STF prorroga votação até as 19h em locais onde urnas permaneceram abertas após as 17h, publicado em 25 de outubro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Esclarecimento sobre prorrogação da votação, divulgado em 25 de outubro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.751/2026, sobre os atos gerais do processo eleitoral.

Tribunal Superior Eleitoral — Calendário eleitoral das Eleições Gerais de 2026 e regras oficiais de diplomação dos candidatos eleitos.

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