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Gestão Nunes pagou quase o triplo por terreno no Grajaú e caso explode no centro do debate em São Paulo

por Carlos Menezes
15/04/2026 às 21h29
em Política
Gestão Nunes Pagou Quase O Triplo Por Terreno No Grajaú E Caso Explode No Centro Do Debate Em São Paulo - Gazeta Mercantil

Gestão Nunes pagou quase o triplo por terreno no Grajaú e caso explode no centro do debate em São Paulo

A gestão Ricardo Nunes (MDB) entrou em nova zona de desgaste após a revelação de que a Prefeitura de São Paulo pagou R$ 26,3 milhões pela desapropriação de um terreno de 138 hectares no Grajaú, na zona sul da capital, valor muito acima do que apontava um parecer técnico anterior da própria administração. A diferença entre a estimativa pública inicial e o montante efetivamente desembolsado chega a pelo menos R$ 17 milhões em valores corrigidos, o que transformou a operação em um dos casos mais sensíveis recentes envolvendo gasto público, desapropriação e política urbana na cidade.

O episódio ganhou repercussão imediata porque reúne elementos de alto impacto: cifra milionária, divergência documental, terreno estratégico para uma área de preservação ambiental, laudo técnico questionado e uma operação concluída no fim do primeiro mandato de Ricardo Nunes (MDB), quando o prefeito já havia sido reeleito. O caso não se limita à compra de uma área específica. Ele expõe uma discussão mais ampla sobre como o município avalia imóveis em regiões ambientais sensíveis, como justifica pagamentos acima de referências anteriores e de que forma protege o interesse do contribuinte em desapropriações custeadas com dinheiro público.

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No centro da controvérsia está um parecer técnico elaborado em setembro de 2020 pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. O documento apontava valor médio de R$ 46 mil por hectare na região a ser desapropriada. Se esse parâmetro fosse aplicado à área de 138 hectares, o custo seria de aproximadamente R$ 9,1 milhões em valores atualizados. O município, no entanto, fechou a desapropriação por R$ 26,3 milhões. A diferença, por si só, já seria suficiente para impulsionar questionamentos. Mas o caso ficou ainda mais delicado porque o mesmo parecer registrava que o terreno estava sendo ofertado no mercado por valor menor, cerca de R$ 4 milhões à época, ou algo como R$ 5,7 milhões em valores atualizados.

Com isso, a narrativa passou a ser inevitável: a gestão Nunes pagou quase o triplo do que o próprio corpo técnico havia projetado e muito acima do valor de oferta que constava em estudo anterior da prefeitura. Em um ambiente político no qual o eleitor e o contribuinte estão cada vez mais atentos a cifras públicas, a desapropriação no Grajaú saiu do campo administrativo e entrou com força total no noticiário político.

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Grajaú transforma desapropriação ambiental em crise de imagem para a gestão Nunes

O caso do Grajaú tem força política porque combina um tema de interesse público legítimo, a preservação ambiental, com uma execução financeira que passou a ser contestada. A área em questão integra o projeto da Fazenda Castanheiras, tratada como a primeira floresta municipal da cidade. Em tese, trata-se de uma iniciativa com valor ecológico, urbano e institucional. O problema é que, quando o custo de aquisição dispara muito acima do que a própria prefeitura estimava, o mérito ambiental deixa de ser suficiente para neutralizar a pressão política.

A gestão Nunes, nesse contexto, enfrenta um desafio de percepção pública. Ao defender a desapropriação com base em laudo mais recente, a administração tenta enquadrar o caso como atualização técnica legítima. Mas a diferença entre os números é grande demais para passar despercebida. Em política, nem sempre vence a explicação mais detalhada; muitas vezes, prevalece a impressão mais simples. E a impressão mais simples aqui é devastadora: a prefeitura pagou muito mais do que previa pagar.

Esse tipo de caso desgasta porque toca em um tema altamente sensível ao eleitor urbano: o uso de dinheiro público. Quando se fala em milhões a mais em uma operação de desapropriação, a discussão imediatamente se desloca para perguntas incômodas. Havia alternativa mais barata? O laudo final refletia de fato a realidade do terreno? Houve excesso? O contribuinte foi protegido? Essas perguntas, uma vez lançadas, tendem a sobreviver por muito tempo no debate público.

Parecer técnico de 2020 apontava cenário muito mais barato

O parecer técnico elaborado em 2020 tem peso central no caso porque partiu da própria estrutura da administração municipal. Segundo o material-base, o estudo considerou valores de IPTU, ITR e pesquisa com corretores e imobiliárias locais para formar o valor médio da terra na região. O documento não apenas sugeria um custo bem inferior para a área, como também registrava que o imóvel em questão estava à venda por montante ainda menor do que a média estimada.

Esse detalhe altera completamente a narrativa da desapropriação. Não se tratava de uma área sem referência de mercado ou de um terreno cujo valor fosse impossível de estimar previamente. Ao contrário: a prefeitura já havia produzido um material indicando que aquela aquisição poderia ser uma oportunidade para iniciar a futura floresta municipal, justamente em razão das características do imóvel e do valor ofertado.

Quando, anos depois, a operação se concretiza por R$ 26,3 milhões, a distância entre planejamento e execução vira o núcleo do problema. A questão já não é apenas se o terreno tinha relevância ambiental, mas se a transição entre um estudo preliminar vantajoso e um pagamento muito superior foi devidamente justificada e tecnicamente sustentada.

Gestão Nunes diz que valor refletiu mercado atualizado e 37 benfeitorias

Diante da repercussão, a gestão Ricardo Nunes (MDB) sustenta que o valor final considerou o mercado atualizado no momento da imissão na posse, o zoneamento específico da área e 37 benfeitorias existentes no imóvel. Segundo a prefeitura, a avaliação seguiu parâmetros técnicos rigorosos e não pode ser comparada diretamente ao parecer de 2020, tratado pela administração como documento preliminar de planejamento.

A gestão argumenta ainda que o estudo mais antigo não contemplava aspectos concretos do terreno, como edificações, infraestrutura de acesso, cercamentos e cobertura vegetal de alto valor ecológico. As benfeitorias, segundo a versão oficial, foram avaliadas em R$ 2,8 milhões no total.

Essa defesa é importante, mas não elimina a controvérsia. Em casos como esse, o debate público tende a se concentrar menos na existência de justificativa formal e mais na robustez percebida dessa justificativa. E é justamente aí que o caso permanece vulnerável: ainda que a prefeitura afirme ter seguido critérios técnicos, os números continuam projetando um salto expressivo entre referência inicial, oferta registrada e preço pago.

Oferta de R$ 14 milhões amplia a pressão sobre a desapropriação

O episódio ganhou contornos ainda mais delicados porque houve registro de que a prefeitura teria recusado uma proposta mais vantajosa. De acordo com o material-base, durante reunião realizada em 25 de fevereiro de 2025, o coordenador de Fiscalização Ambiental da prefeitura afirmou que o próprio proprietário havia oferecido o terreno por R$ 14 milhões. Ainda assim, a administração seguiu com base em laudo que avaliava o imóvel em aproximadamente R$ 26 milhões.

Esse ponto é potencialmente explosivo. Se confirmado sob a ótica administrativa e documental, ele levanta uma pergunta imediata de alto impacto político: por que pagar R$ 26,3 milhões se havia sinalização de negociação por valor consideravelmente menor? Em qualquer debate sobre gasto público, esse tipo de dúvida tem força própria.

Mesmo quando há justificativas técnicas formais, a recusa de uma cifra mais baixa tende a repercutir mal. O senso comum do contribuinte é direto: se havia chance de pagar menos, por que a administração não o fez? Em termos de imagem pública, essa pergunta é poderosa porque dispensa conhecimento técnico aprofundado e conversa diretamente com a noção de eficiência administrativa.

Laudo de avaliação adotou empreendimento hipotético e virou foco de questionamento

Outro fator decisivo para a repercussão do caso está no método utilizado pelo laudo posterior que serviu de base ao pagamento. Segundo o material-base, a empresa contratada pela prefeitura elaborou estudo de viabilidade técnico-econômica a partir de um empreendimento hipotético compatível com as características do bem. O problema é que o modelo teórico adotado envolvia a construção de chácaras de 5.000 m², embora o terreno real tivesse área construída muito menor e restrições ambientais relevantes.

Esse ponto passou a ser tratado como questionável porque, conforme a avaliação mencionada no texto original, a hipótese de chácaras não seria compatível com as limitações ambientais incidentes sobre a área. Em outras palavras, o terreno pode ter sido precificado com base em um uso potencial que não encontraria respaldo prático nas condições reais do imóvel.

Além disso, o laudo teria adotado o valor de R$ 161 por metro quadrado com base em comparações com outros terrenos à venda na região, enquanto outro laudo da mesma empresa, para um terreno vizinho voltado à mesma floresta municipal, teria chegado a R$ 25 por metro quadrado. Essa discrepância amplia o desconforto e ajuda a explicar por que o caso se tornou tão sensível no noticiário.

Fazenda Castanheiras tem peso ambiental, mas custo reacende debate sobre prioridade fiscal

A Fazenda Castanheiras se insere em um projeto de preservação ambiental com raízes antigas na política urbana paulistana. Os estudos para transformar os arredores em unidade de conservação remontam à década de 2000, em meio aos impactos ambientais gerados pela construção do trecho sul do Rodoanel. O objetivo era resguardar grandes áreas verdes e proteger nascentes e fragmentos de mata em uma região pressionada pela expansão urbana.

Esse contexto impede que o caso seja tratado apenas como uma transação imobiliária comum. A área tem função estratégica em uma agenda de preservação que, em si, possui legitimidade. O problema é que a legitimidade ambiental do projeto não blinda automaticamente a administração contra críticas sobre custo, valuation e racionalidade do gasto.

Ao contrário: quanto mais nobre o objetivo declarado, maior costuma ser a cobrança pública por transparência, coerência e boa gestão dos recursos empregados. É justamente isso que faz o episódio ganhar musculatura política. A gestão Nunes não está sendo cobrada por preservar área verde, mas por ter feito isso em termos que passaram a ser vistos como financeiramente controversos.

Projeto da floresta municipal pode custar muito mais do que o previsto

Outro dado que amplia a repercussão do caso é a evolução do custo total projetado para a área da futura floresta municipal. Segundo o material-base, o parecer técnico de 2020 estimava que seriam necessários cerca de R$ 28 milhões, em valores corrigidos, para desapropriar toda a área abrangida pelo decreto da época, então estimada em 424 hectares. Agora, considerando o valor já pago e as notas de empenho emitidas para terrenos que formarão a floresta, a conta supera R$ 66 milhões, mesmo para uma área menor do que a inicialmente planejada.

Esse dado muda o tamanho do debate. O caso deixa de ser um questionamento pontual sobre um único terreno e passa a envolver a sustentabilidade financeira do projeto como um todo. Se a base de custo explodiu antes mesmo da consolidação plena da área, o tema tende a permanecer na agenda pública à medida que novas desapropriações avancem.

Para a oposição, para órgãos de controle e para setores atentos à execução orçamentária, esse tipo de diferença abre espaço para novas cobranças. A cada nova etapa do projeto, a tendência será comparar custo prometido e custo realizado, alimentando um ciclo permanente de escrutínio.

Caso no Grajaú pode virar símbolo de discussão maior sobre desapropriações em São Paulo

O episódio do Grajaú também tem potencial para ultrapassar a conjuntura imediata e se tornar referência mais ampla no debate sobre desapropriações na cidade. São Paulo convive historicamente com disputas envolvendo avaliação de imóveis, uso de laudos, compensações urbanísticas e conflitos entre planejamento público e preço da terra. Quando um caso reúne números tão expressivos e justificativas tão discutidas, ele tende a virar símbolo.

Esse simbolismo importa porque impacta a confiança da população na capacidade da prefeitura de conduzir grandes projetos urbanos com equilíbrio entre interesse público e responsabilidade fiscal. Em cidades densas e caras como São Paulo, cada desapropriação relevante carrega tensão própria entre valor ambiental, função urbana e custo orçamentário. Quando essa tensão explode em uma operação específica, o efeito respinga sobre todas as demais.

O caso ainda pode gerar novos desdobramentos, já que processos para incorporação de terrenos vizinhos continuam em andamento. Isso significa que a discussão sobre a Fazenda Castanheiras está longe de acabar. E cada novo passo administrativo pode reavivar as perguntas centrais que já cercam a gestão: quanto a prefeitura vai pagar, com base em quais critérios e como justificará esses números ao contribuinte?

Terreno do Grajaú leva gasto público ao centro da pressão sobre Ricardo Nunes

A desapropriação do terreno no Grajaú já se transformou em mais do que uma operação fundiária ligada à política ambiental. Ela virou um teste direto de credibilidade para a gestão Ricardo Nunes (MDB). A combinação entre valor elevado, laudo controverso, oferta menor registrada, parecer anterior mais baixo e projeto ambiental em expansão empurrou o caso para o centro do debate político paulistano.

Em situações como essa, o desgaste não vem apenas da cifra, mas da narrativa que ela produz. E a narrativa que se consolida é simples, forte e difícil de neutralizar: a gestão Nunes pagou quase o triplo por um terreno no Grajaú, em um negócio que agora exige explicação pública cada vez mais robusta. Quanto mais a discussão avançar, menos o caso será apenas sobre um imóvel e mais ele será sobre método, transparência e confiança na gestão do dinheiro público em São Paulo.

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