Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro indicam que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), utilizava uma residência ligada ao então controlador do Banco Master no Lago Sul, em Brasília, inclusive em ocasiões nas quais o banqueiro não estava no imóvel. Os registros conhecidos apontam pelo menos seis acessos entre junho e novembro de 2025 e mostram que a disponibilidade da casa havia sido combinada diretamente entre os dois.
O material amplia o quadro já conhecido sobre a proximidade pessoal entre Motta e Vorcaro porque não descreve apenas encontros entre ambos. As mensagens indicam que o deputado dispunha da residência mesmo na ausência do banqueiro e que funcionários responsáveis pelo imóvel eram orientados a recebê-lo. Não há, porém, elementos públicos que permitam determinar o objetivo de cada visita, quem acompanhava Motta ou se assuntos relacionados às funções públicas do presidente da Câmara eram tratados nesses encontros.
A sequência ganha relevância institucional pelo período em que ocorreu. Motta foi eleito presidente da Câmara em 1º de fevereiro de 2025, com 444 votos, passando a comandar uma das duas Casas do Congresso e a ocupar o segundo posto na linha de sucessão da Presidência da República. Parte dos registros de acesso à residência é posterior à sua chegada ao comando da Câmara, embora existam indícios de que o uso de imóveis vinculados a Vorcaro tenha começado antes.
As mensagens, por si sós, não demonstram prática de crime, favorecimento legislativo ou contrapartida entre o parlamentar e o empresário. Elas documentam, entretanto, um grau de acesso privado que passa a ter interesse público diante da posição institucional ocupada por Motta e das investigações e procedimentos regulatórios que posteriormente atingiram Vorcaro e o conglomerado Master.
Acesso à casa foi organizado diretamente com Vorcaro
Um dos registros anteriores à eleição de Motta para a presidência da Câmara é de outubro de 2024. Na ocasião, o deputado informou a Vorcaro que estava próximo de um imóvel e perguntou se poderia receber ali uma pessoa identificada como “Arthur”. A resposta do banqueiro foi de que a casa estava à disposição do parlamentar. O contexto das mensagens divulgadas não permite afirmar, de maneira independente, a identidade do interlocutor mencionado ou o assunto que seria tratado.
Já em 2025, depois de assumir o comando da Câmara, a dinâmica aparece de maneira mais estruturada. Vorcaro repassou ao deputado o contato do funcionário responsável pela residência de Brasília e explicou que Motta poderia combinar diretamente a forma como gostaria de ser recebido. Semanas depois, o presidente da Câmara perguntou se poderia passar pelo local na hora do almoço. Vorcaro respondeu que deixaria a casa depois de um compromisso e indicou que o imóvel estaria disponível.
A partir daí, aparecem comunicações do funcionário ao banqueiro informando que receberia Motta. Os registros identificados são de 24 de junho, 28 de agosto, 5 de setembro, 18 de setembro, 25 de setembro e 17 de novembro de 2025. Em diferentes mensagens, o funcionário avisa que receberia “Hugo” para almoço ou em períodos da tarde e da noite.
O padrão é relevante porque indica mais do que uma visita eventual ao dono da casa. Em algumas ocasiões, Vorcaro estava fora ou tinha outros compromissos, e a residência permanecia disponível ao deputado. Ainda assim, os diálogos conhecidos não revelam o conteúdo das reuniões realizadas no imóvel e não permitem concluir que todos os registros tenham correspondido a encontros políticos ou empresariais.
Um cruzamento com a agenda pública da Câmara também não esclarece a finalidade dessas passagens pela residência. Em 28 de agosto de 2025, por exemplo, a agenda de Motta registrava sessões do Plenário às 9h, às 14h e às 16h. Em 18 de setembro, havia sessões marcadas para 10h e 14h. Já a consulta referente a 25 de setembro não apresenta compromisso na agenda pública disponibilizada pela Câmara. A ausência de registro, contudo, não significa que uma eventual reunião privada devesse necessariamente constar do sistema institucional.
Último registro antecedeu crise aberta do Master
O episódio temporalmente mais sensível aparece em 17 de novembro de 2025. Naquela data, o funcionário responsável pela casa informou Vorcaro de que receberia Motta à noite. O banqueiro pediu apenas que fosse avisado previamente sobre esse tipo de utilização do imóvel.
Horas depois, o caso Banco Master entraria em uma fase decisiva. Em 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., do Banco Master de Investimento, do Letsbank e da corretora do grupo, além de impor regime especial ao Banco Master Múltiplo. Segundo a autoridade monetária, a decisão foi motivada pela “grave crise de liquidez” do conglomerado, pelo comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira e por graves violações das normas aplicáveis às instituições financeiras.
Na mesma data, a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, produziu medidas que atingiram dirigentes relacionados às operações entre Master e BRB. O banco público brasiliense informou oficialmente ao mercado que a investigação estava em andamento e que colaboraria com as autoridades. O episódio marcou a transformação de um problema que vinha sendo acompanhado pelos órgãos reguladores em uma crise financeira, policial e institucional de alcance nacional.
Por isso, o registro da possível utilização da residência por Motta em 17 de novembro chama atenção pela proximidade temporal com a ruptura do banco. Essa coincidência de datas, entretanto, não autoriza concluir que Motta soubesse antecipadamente das medidas que seriam adotadas pelas autoridades, nem que o encontro estivesse relacionado à situação financeira do Master. Até o momento, os elementos públicos sobre a visita não estabelecem essa conexão.
Relação entre Motta e o entorno do Master já chegou ao Senado
A relação entre pessoas próximas ao presidente da Câmara e o Banco Master também passou a ser objeto formal de questionamento no Congresso. Em maio de 2026, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou requerimento para que o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, prestasse informações sobre uma suposta operação de empréstimo contratada pela empresária Bianca Medeiros, identificada no documento oficial como cunhada de Hugo Motta, junto ao Banco Master.
O requerimento não constitui acusação nem estabelece responsabilidade de Motta sobre a operação. Seu conteúdo mostra, porém, que a relação entre o banco e o círculo familiar do deputado deixou de ser apenas objeto de reportagens e passou a integrar procedimentos formais de fiscalização parlamentar.
O próprio Senado qualificou a operação como “suposta” ao solicitar informações ao Banco Central. Essa distinção é relevante porque investigações, requerimentos parlamentares e mensagens privadas possuem valores probatórios diferentes. Para atribuir responsabilidade criminal ou administrativa seria necessário demonstrar atos concretos, eventual participação do parlamentar e uma relação entre esses atos e benefícios recebidos, elementos que não decorrem automaticamente do uso da residência de um empresário.
Também não se pode estabelecer, a partir dos registros divulgados, ligação entre as visitas à casa do Lago Sul e decisões tomadas por Motta como presidente da Câmara. A presidência controla uma série de procedimentos legislativos e administrativos, mas qualquer hipótese de interferência em favor do Master exigiria identificar atos específicos, datas, interessados e nexo com a relação particular revelada nas mensagens.
Caso Master acumulou investigações e sanções
A dimensão pública dessa proximidade aumentou ao longo de 2026 à medida que as apurações sobre o conglomerado avançaram. Em julho, a Polícia Federal informou, ao anunciar a décima fase da Operação Compliance Zero, que investigava uma possível organização dedicada, entre outros pontos, à interferência em investigações criminais, ao monitoramento ilícito de pessoas ligadas a autoridades e à obtenção indevida de informações sigilosas. A PF ressaltou que os fatos poderiam configurar, em tese, crimes contra o sistema financeiro e outros delitos.
Em setembro de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários também julgou processo administrativo envolvendo o antigo Banco Master e pessoas e empresas relacionadas. A CVM aplicou multa de R$ 20 milhões a Daniel Vorcaro e de R$ 12,5 milhões ao Banco Master, dentro de um conjunto de penalidades que ultrapassou R$ 200 milhões. Essas sanções pertencem a procedimento próprio e não têm relação demonstrada com Hugo Motta ou com as visitas ao imóvel de Brasília.
É justamente essa separação que delimita o significado dos novos registros. As mensagens acrescentam evidência documental sobre a extensão da relação pessoal entre o presidente da Câmara e Vorcaro, mas não provam que Motta tenha participado das irregularidades atribuídas a executivos ou empresas do conglomerado.
Quando eleito presidente da Câmara, Motta afirmou publicamente que transparência deveria ser uma exigência de todos os Poderes e defendeu mecanismos para ampliar o acesso da sociedade às informações públicas. A revelação de que utilizava uma residência privada disponibilizada por um empresário posteriormente submetido a investigações coloca agora sob escrutínio a natureza dessa relação e, principalmente, a necessidade de esclarecer para que o imóvel era usado.
Até a divulgação dos registros, não havia explicação pública detalhando o motivo das seis visitas identificadas em 2025, quem participou delas ou se alguma tratou de interesses do Banco Master perante o Congresso. A assessoria de Motta, procurada na apuração que revelou as mensagens, não apresentou manifestação sobre o uso da residência. A ausência de resposta não equivale a admissão de irregularidade, mas deixa sem esclarecimento a principal questão levantada pelo material: por que o presidente da Câmara dispunha de acesso recorrente a uma casa controlada por Daniel Vorcaro em Brasília, inclusive quando o próprio banqueiro não estava presente.
Fontes:
Banco Central do Brasil — comunicado e atos sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master
Câmara dos Deputados — perfil, eleição e agenda pública do presidente Hugo Motta
Senado Federal — Requerimento da Comissão de Assuntos Econômicos nº 62 de 2026
Polícia Federal — Operação Compliance Zero
Comissão de Valores Mobiliários — processo administrativo sancionador envolvendo Banco Master e Daniel Vorcaro









