O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro estiveram na Flórida no mesmo período, em maio de 2025, poucos dias depois de uma transferência de US$ 3,33 milhões relacionada ao financiamento de Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo registros migratórios e dados de rastreamento de aeronaves obtidos pela revista piauí, os dois chegaram a Fort Lauderdale em 1º de maio daquele ano, a bordo de aviões diferentes, com apenas 19 minutos de intervalo entre os pousos. A coincidência também se repetiu na volta ao Brasil, quando as aeronaves deixaram a cidade americana separadas por menos de três horas.
A proximidade de datas ganha relevância porque, em 25 de abril de 2025, seis dias antes das viagens, a Entre Investimentos havia transferido US$ 3.333.334 ao Havengate Development Fund, estrutura nos Estados Unidos que recebeu recursos destinados ao projeto cinematográfico sobre Jair Bolsonaro. O montante correspondia a duas parcelas de um compromisso que previa investimentos de até US$ 24 milhões e elevava para aproximadamente US$ 9 milhões o volume transferido naquele momento. Documentos analisados posteriormente pela Polícia Federal apontaram novos pagamentos, fazendo o total identificado chegar a US$ 12,33 milhões.
A coincidência entre as viagens e os pagamentos não comprova, por si só, a realização de uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro nem estabelece que a ida aos Estados Unidos estivesse relacionada ao filme. Até o momento, não foi apresentada prova pública de que os dois tenham se encontrado durante aqueles dias na Flórida. Willer Tomaz, advogado que acompanhava Flávio na viagem, negou expressamente que tenha ocorrido uma reunião entre o senador e o então banqueiro.
Aviões pousaram com 19 minutos de diferença
Flávio Bolsonaro viajou acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, e de Willer Tomaz. O grupo utilizou um Bombardier Global 6000 pertencente a uma empresa ligada ao empresário Fernando de Castro Marques, um dos controladores da União Química. O avião chegou a Fort Lauderdale em 1º de maio de 2025. Daniel Vorcaro desembarcou no mesmo aeroporto 19 minutos depois, em um Dassault Falcon 7X que havia decolado de Guarulhos.
Os registros consultados na apuração mostram que os períodos de permanência dos dois na Flórida também coincidiram. Na noite de 4 de maio, o avião utilizado por Flávio Bolsonaro decolou de Fort Lauderdale às 22h17, considerando o horário de Brasília. O jato que transportava Vorcaro partiu 2 horas e 47 minutos depois, já durante a madrugada de 5 de maio. Os deslocamentos foram realizados de forma separada e não há registro público que mostre os passageiros reunidos em qualquer momento.
A viagem coincidiu com o fim de semana do Grande Prêmio de Miami de Fórmula 1. Vorcaro esteve, em 3 de maio, na Carbone Beach, festa realizada durante os eventos associados à corrida, acompanhado da então noiva, Martha Graeff. Conversas atribuídas ao ex-banqueiro mostram preocupação depois que ele apareceu ao fundo de imagens publicadas pela influenciadora Camila Coelho, mas não há, nessas mensagens, referência a Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz ou a um compromisso profissional com o senador.
A apuração também não encontrou indicação de que Flávio, Fernanda Bolsonaro ou Tomaz tenham participado da festa frequentada por Vorcaro. Esse dado é relevante porque delimita o que os registros disponíveis permitem afirmar: as viagens coincidiram em local e período, mas os elementos divulgados até agora não demonstram contato pessoal entre o senador e o banqueiro naquela ocasião.
Repasse ocorreu seis dias antes da viagem
O calendário dos pagamentos de Dark Horse acrescenta outro elemento à sequência. Em 25 de abril de 2025, a Entre Investimentos transferiu US$ 3.333.334 ao Havengate. O pagamento ocorreu depois de cobranças relacionadas às parcelas previstas para o projeto cinematográfico e representava, segundo os documentos examinados na investigação, a quarta e a quinta parcelas do compromisso financeiro estabelecido para a produção.
Três dias antes da transferência, o publicitário Thiago Miranda havia cobrado a liberação dos pagamentos. No próprio dia 25 de abril, mensagens atribuídas a Miranda confirmaram a Vorcaro o recebimento dos recursos. O pagamento elevou para aproximadamente US$ 9 milhões o montante que havia sido transferido até aquele momento para a estrutura utilizada no financiamento do filme.
Documentos posteriormente localizados pela Polícia Federal indicaram que o compromisso financeiro previa até US$ 24 milhões, distribuídos em 14 parcelas. As transferências efetivamente encontradas pelos investigadores, contudo, não chegaram a esse valor. Entre fevereiro e setembro de 2025, foram identificados US$ 12.333.335 enviados pela Entre Investimentos ao Havengate. A diferença entre o compromisso contratual e o montante efetivamente transferido não significa, por si só, que o restante do dinheiro tenha sido desviado ou desaparecido, já que a execução do acordo e eventuais alterações precisam ser consideradas separadamente.
O Havengate aparece na investigação como uma das estruturas utilizadas para receber dinheiro destinado ao projeto. A administração do fundo é associada a Paulo Calixto, advogado radicado no Texas e próximo de Eduardo Bolsonaro. Parte das investigações abertas em torno do financiamento busca esclarecer a origem dos recursos, sua destinação e o papel desempenhado pelos envolvidos nas transferências.
Viagem ocorreu durante sequência de pagamentos de Dark Horse
A coincidência temporal ganha dimensão porque o deslocamento de maio ocorreu durante o período em que os pagamentos para o projeto estavam sendo executados. Isso, no entanto, não permite concluir automaticamente que a viagem foi motivada pelo filme ou que tenha havido negociação presencial entre Flávio e Vorcaro nos Estados Unidos. A existência de uma sequência próxima de acontecimentos é um elemento documental a ser considerado pelas investigações, mas não substitui a necessidade de prova sobre eventual encontro ou finalidade comum.
Willer Tomaz afirmou que é falsa a informação de que Flávio Bolsonaro tenha se encontrado com Daniel Vorcaro nos Estados Unidos. O advogado não informou, segundo a reportagem que revelou os registros das viagens, quem custeou os deslocamentos realizados naquele período. Quando a ida de Flávio aos Estados Unidos foi divulgada anteriormente, o senador declarou que a viagem tinha caráter pessoal e familiar.
Flávio Bolsonaro e a defesa de Vorcaro também foram procurados pela publicação responsável pela apuração e não apresentaram respostas sobre os novos dados até a divulgação da reportagem. A ausência de manifestação sobre os registros de voo não modifica, contudo, o fato de que não há comprovação pública de encontro entre os dois na Flórida.
Flávio se reuniu com integrante do governo americano ao voltar
Flávio Bolsonaro voltou a Brasília no início de 5 de maio de 2025. No mesmo dia, recebeu no Senado Ricardo Pita, então conselheiro para assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado dos Estados Unidos. A reunião havia adquirido repercussão porque ocorria em um período no qual integrantes da família Bolsonaro discutiam publicamente a possibilidade de sanções americanas contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Depois do encontro, Flávio negou que esse fosse o assunto tratado. Segundo o senador, a conversa com Ricardo Pita esteve relacionada ao combate ao crime organizado e à cooperação em segurança entre Brasil e Estados Unidos. O encontro durou pouco mais de 40 minutos e ocorreu no gabinete parlamentar em Brasília.
A presença de Ricardo Pita fazia parte de uma agenda de representantes americanos no Brasil. David Gamble, outro funcionário do Departamento de Estado cuja visita havia sido associada publicamente por Eduardo Bolsonaro à discussão de eventuais sanções, não participou da reunião com Flávio. A representação diplomática americana também havia indicado que a agenda da comitiva envolvia temas de segurança e combate a organizações criminosas.
Não há elemento divulgado que conecte essa reunião institucional no Senado à viagem de Flávio à Flórida ou aos pagamentos de Dark Horse. Os acontecimentos são próximos no calendário, mas tratam de episódios distintos e não devem ser apresentados como partes de uma mesma operação sem documentação que sustente essa relação.
Períodos nos Estados Unidos voltaram a coincidir em maio
Os registros revelam ainda outra coincidência de viagens no mesmo mês. Flávio Bolsonaro esteve em Dallas entre 15 e 18 de maio de 2025, enquanto Daniel Vorcaro permaneceu em Fort Lauderdale entre os dias 16 e 18. Nesse caso, os dois estavam em cidades diferentes, separadas por mais de 1.700 quilômetros.
Dallas chama atenção no contexto da investigação porque abriga o escritório de Paulo Calixto, administrador ligado ao Havengate, fundo que recebeu as remessas associadas ao filme. Mesmo assim, não há comprovação divulgada até agora de que Flávio tenha se reunido com Calixto durante essa passagem pelo Texas nem de que tenha mantido contato presencial com Vorcaro naquele período.
A existência dessas coincidências de agenda integra um conjunto mais amplo de elementos que passaram a ser examinados após a revelação das relações entre Vorcaro, as transferências realizadas pela Entre Investimentos e o financiamento de Dark Horse. Os investigadores buscam reconstruir a cadeia financeira do projeto e esclarecer as circunstâncias em que os recursos foram solicitados, enviados e utilizados.
Documentos apontaram repasses de US$ 12,33 milhões
As informações que vieram a público ao longo de 2026 ampliaram o valor conhecido das remessas destinadas ao Havengate. A Polícia Federal identificou US$ 12.333.335 em transferências feitas entre fevereiro e setembro de 2025, dentro de um compromisso que previa até US$ 24 milhões. Entre esses pagamentos está uma remessa de US$ 1.666.667 realizada em 16 de setembro de 2025, posterior ao período que inicialmente havia sido apontado como o fim das contribuições de Vorcaro ao projeto.
O caso passou a integrar investigações sobre a origem e o caminho dos recursos vinculados ao filme. Parte dos elementos foi extraída de mensagens, documentos financeiros e materiais encontrados no celular de Daniel Vorcaro. As apurações ainda estão em andamento e a existência dos repasses não representa, isoladamente, conclusão de responsabilidade criminal de qualquer pessoa mencionada.
No caso específico da viagem de maio de 2025, os registros acrescentam uma coincidência objetiva de local, data e horário: Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro chegaram ao mesmo aeroporto da Flórida em jatos distintos, separados por 19 minutos, e deixaram a região com intervalo inferior a três horas. Isso ocorreu seis dias depois da transferência de US$ 3.333.334 destinada ao Havengate.
O dado amplia a cronologia já conhecida da relação entre os personagens envolvidos no financiamento de Dark Horse, mas permanece uma fronteira factual importante: até agora, os registros divulgados demonstram a presença simultânea de Flávio e Vorcaro na Flórida, não um encontro entre eles. A apuração sobre se houve contato, qual teria sido sua finalidade e se existe alguma ligação entre as viagens e os pagamentos depende de evidências adicionais.
Fontes
Revista piauí — apuração de Breno Pires e Allan de Abreu baseada em registros migratórios dos Estados Unidos, dados de rastreamento de aeronaves, documentos e mensagens relacionados ao financiamento de Dark Horse.
Polícia Federal — documentos e representação incorporados às investigações sobre as transferências destinadas ao Havengate Development Fund.
Conselho de Controle de Atividades Financeiras — registros financeiros relacionados às remessas ao Havengate.
Senado Federal — informações relativas à agenda de Flávio Bolsonaro e à reunião com Ricardo Pita, em 5 de maio de 2025.







