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IBC-Br sobe 0,3% em agosto, mas queda trimestral de 0,6% confirma desaceleração da economia

Indicador do Banco Central volta a crescer após duas quedas consecutivas, impulsionado pela indústria; juros de 13,75% e enfraquecimento da atividade pressionam perspectivas para o PIB

por Camila Braga
16/10/2026 às 14h29
em Economia
Ibc-Br - Gazeta Mercantil

A atividade econômica brasileira registrou crescimento de 0,3% em agosto de 2026, na comparação com julho, segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado nesta sexta-feira (16). O resultado interrompeu uma sequência de duas quedas mensais, sustentado principalmente pela recuperação da indústria e pelo avanço moderado dos serviços. Apesar da melhora, o indicador acumulou retração de 0,6% no trimestre móvel encerrado em agosto, evidenciando a perda de ritmo da economia brasileira no segundo semestre.

O contraste entre a recuperação mensal e o desempenho trimestral reforça os sinais de desaceleração da atividade, em um ambiente de juros elevados e restrições ao crédito. A taxa Selic permanece em 13,75% ao ano, patamar considerado restritivo pelo Comitê de Política Monetária (Copom), mesmo após os cortes realizados ao longo de 2026. O efeito acumulado da política monetária sobre consumo, investimentos e financiamento das empresas continua sendo um dos principais fatores acompanhados nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB).

Em relação a agosto de 2025, o IBC-Br apresentou expansão de 1,2%. No acumulado de janeiro a agosto, o crescimento foi de 1,6%, mesmo percentual registrado na comparação dos últimos 12 meses. A combinação desses resultados indica uma economia que continua produzindo acima do nível observado no ano anterior, mas que perdeu intensidade na comparação entre períodos mais recentes.

A divulgação ocorre em um momento de revisão das perspectivas de crescimento por instituições financeiras. Embora parte dos analistas ainda espere uma expansão positiva do PIB em 2026, os dados de atividade têm sustentado projeções mais moderadas para o segundo semestre e para 2027.

Indústria cresce 0,9% e sustenta recuperação do IBC-Br em agosto

O principal destaque positivo do levantamento de agosto foi a indústria, que registrou crescimento de 0,9% em relação a julho. O setor apresentou a maior variação positiva entre os componentes do indicador, contribuindo para compensar o desempenho negativo da agropecuária.

Os serviços avançaram 0,2%, enquanto os impostos sobre produtos registraram alta de 0,1%. A agropecuária apresentou retração de 1,8%, o resultado mais fraco entre os setores analisados pelo Banco Central.

O IBC-Br excluindo a agropecuária cresceu 0,3% no período, mesma variação arredondada do índice agregado. O comportamento reforça a importância das atividades industriais e de serviços para o resultado do mês, embora não elimine o enfraquecimento observado na comparação trimestral.

Componente do IBC-Br Agosto ante julho Trimestre encerrado em agosto
IBC-Br total +0,3% -0,6%
Agropecuária -1,8% -0,2%
Indústria +0,9% -1,2%
Serviços +0,2% -0,3%
Impostos sobre produtos +0,1% -1,1%
IBC-Br sem agropecuária +0,3% -0,7%

Os resultados utilizam séries com ajuste sazonal, procedimento que reduz a influência de fatores recorrentes do calendário sobre as comparações entre períodos.

A diferença entre o desempenho industrial de agosto e sua variação trimestral merece atenção. Enquanto o setor cresceu 0,9% no mês, apresentou retração de 1,2% na comparação entre o trimestre encerrado em agosto e os três meses anteriores. Isso demonstra que a recuperação mais recente ainda não foi suficiente para reverter as perdas acumuladas no período.

O comportamento dos serviços apresenta dinâmica semelhante. Apesar da alta mensal de 0,2%, o setor registrou queda de 0,3% no trimestre móvel, revelando que o crescimento recente permanece insuficiente para recompor integralmente o desempenho anterior.

Economia recua 0,6% no trimestre e amplia sinais de enfraquecimento

A contração trimestral de 0,6% constitui o principal sinal de atenção no levantamento do Banco Central. O resultado compara a média da atividade econômica entre junho e agosto com a média observada entre março e maio, permitindo avaliar a evolução da economia em um intervalo mais amplo do que a variação de apenas um mês.

As quedas registradas em junho e julho reduziram o nível médio de atividade. A alta de agosto interrompeu essa sequência negativa, mas não foi suficiente para compensar as perdas anteriores.

O enfraquecimento aparece em praticamente todos os componentes do indicador. A indústria registrou o recuo trimestral mais intenso, de 1,2%, seguida pelos impostos sobre produtos, com retração de 1,1%. Os serviços caíram 0,3%, enquanto a agropecuária apresentou redução de 0,2%.

Excluindo o setor agropecuário, o indicador recuou 0,7%, desempenho ligeiramente inferior ao observado no índice total. A diferença evidencia que a perda de dinamismo também alcança os segmentos mais diretamente relacionados à produção industrial, ao comércio e à prestação de serviços.

A leitura trimestral é particularmente importante para a avaliação do PIB do terceiro trimestre, embora não represente uma medição definitiva de seu resultado. O período de julho a setembro ainda depende dos indicadores referentes a setembro, que não estavam disponíveis na divulgação desta sexta-feira.

Além disso, o IBC-Br e o PIB oficial utilizam metodologias e bases de informação distintas. Por isso, uma queda do indicador mensal não se traduz necessariamente em retração equivalente das contas nacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

IBC-Br avança 1,6% em 12 meses, mas crescimento perde intensidade

Na comparação com agosto de 2025, a atividade econômica brasileira apresentou crescimento de 1,2%. O resultado mostra que, apesar do enfraquecimento recente, o nível agregado de atividade permanece superior ao observado no mesmo mês do ano anterior.

O desempenho foi desigual entre os setores. A agropecuária registrou a maior expansão interanual, de 5,8%, enquanto os serviços avançaram 1,3%. A indústria teve crescimento de apenas 0,4%, e os impostos sobre produtos aumentaram 0,3%.

Sem a agropecuária, o indicador cresceu 0,9% na comparação anual, abaixo dos 1,2% registrados pelo índice total.

Componente Ante agosto de 2025 Acumulado em 12 meses
IBC-Br total +1,2% +1,6%
Agropecuária +5,8% +2,7%
Indústria +0,4% +0,7%
Serviços +1,3% +2,0%
Impostos sobre produtos +0,3% +0,9%
IBC-Br sem agropecuária +0,9% +1,6%

Os números acumulados em 12 meses mostram que o setor de serviços continua apresentando contribuição importante para a expansão econômica, com crescimento de 2%. Já a indústria avança em ritmo inferior, de 0,7%, evidenciando uma recuperação menos intensa da produção industrial.

A agropecuária acumula crescimento de 2,7%, mas apresenta maior volatilidade nas comparações mensais. As características sazonais da produção agrícola e as diferenças entre períodos de colheita podem provocar variações expressivas, que exigem cautela na interpretação.

A expansão de 1,6% em 12 meses também deve ser analisada em conjunto com os resultados de curto prazo. O indicador acumulado incorpora meses anteriores, quando a atividade apresentou desempenho mais favorável, e pode demorar a refletir integralmente uma desaceleração recente.

Por essa razão, uma economia pode continuar exibindo crescimento positivo em 12 meses mesmo quando os indicadores trimestrais apontam perda de dinamismo.

PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre após avanço de 1,1% no primeiro

Os dados oficiais das Contas Nacionais já indicavam moderação do crescimento antes da divulgação do IBC-Br de agosto. Segundo o IBGE, o Produto Interno Bruto brasileiro avançou 0,5% no segundo trimestre de 2026, após expansão de 1,1% nos três primeiros meses do ano.

A diferença representa uma redução de 0,6 ponto percentual no ritmo de crescimento trimestral, embora os dois períodos tenham registrado expansão da atividade.

O resultado do segundo trimestre demonstra que a economia continuava crescendo, mas em velocidade menor do que a observada no início de 2026. Os dados mensais posteriores do Banco Central acrescentam sinais de enfraquecimento, especialmente na indústria e nos serviços.

A comparação entre os indicadores exige cuidado metodológico. O PIB trimestral do IBGE representa a principal medida oficial da atividade econômica nacional, calculada a partir de um conjunto amplo de informações sobre produção, consumo, investimentos, gastos públicos e setor externo.

O IBC-Br, por sua vez, é um indicador de acompanhamento conjuntural. Sua principal vantagem está na frequência mensal e na divulgação antecipada em relação às Contas Nacionais, oferecendo informações mais rápidas sobre a direção da atividade.

Desde abril de 2025, o Banco Central também passou a divulgar aberturas setoriais do IBC-Br, permitindo acompanhar separadamente agropecuária, indústria, serviços e impostos sobre produtos.

Essa ampliação facilita a identificação de diferenças entre setores, mas não elimina as divergências metodológicas em relação ao PIB. As estimativas trimestrais do IBGE permanecem indispensáveis para confirmar a magnitude efetiva do crescimento econômico.

Selic de 13,75% mantém crédito caro e restringe recuperação da atividade

O enfraquecimento da economia brasileira ocorre em um ambiente de política monetária ainda restritiva. Na reunião de setembro, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, dando continuidade ao ciclo de flexibilização iniciado anteriormente.

Apesar do corte, os juros permanecem elevados em termos nominais e reais, impondo custos relevantes ao financiamento das famílias e das empresas.

A Selic encerrou janeiro de 2026 em 15% ao ano e passou por reduções sucessivas até alcançar os atuais 13,75%. A diferença acumulada é de 1,25 ponto percentual, mas os efeitos das alterações sobre a atividade econômica não são imediatos.

Decisões de investimento, contratação e consumo financiado dependem das condições de crédito oferecidas pelos bancos, das expectativas de renda e da confiança de empresas e consumidores. Em muitos casos, as mudanças na taxa básica demoram meses para se refletir integralmente nos contratos e nas decisões econômicas.

Na ata da reunião de setembro, o Banco Central reconheceu a moderação gradual da atividade, principalmente em setores mais sensíveis ao ciclo econômico, embora tenha destacado a resiliência de segmentos da economia e a continuidade de um mercado de trabalho aquecido.

O Copom também apontou que a inflação e as expectativas inflacionárias permaneciam acima da meta, justificando a manutenção de uma postura cautelosa na condução dos juros.

Nesse contexto, os dados do IBC-Br acrescentam informações ao debate sobre o ritmo adequado da redução da Selic. Uma desaceleração mais intensa pode diminuir determinadas pressões inflacionárias, mas a decisão de política monetária também depende do comportamento dos preços, das expectativas e dos riscos fiscais e externos.

Bancos revisam projeções de crescimento para 2026 e 2027

O desempenho de agosto intensificou o debate entre economistas sobre a possibilidade de um terceiro trimestre de crescimento próximo de zero ou até de contração da atividade econômica.

Em análise atribuída a Alberto Ramos, responsável pela pesquisa econômica para a América Latina do Goldman Sachs, o indicador reforça a percepção de que os avanços observados em agosto não compensaram as quedas dos meses anteriores.

O banco passou a trabalhar com projeção de crescimento do PIB brasileiro de 1,8% em 2026, abaixo da estimativa anterior de 2%. Para 2027, a previsão atribuída à instituição foi reduzida de 1,2% para 1%.

A XP também trabalha com um cenário de crescimento moderado, com estimativas de expansão de 1,7% em 2026 e 1% em 2027. Para o terceiro trimestre, a instituição identifica um carregamento estatístico negativo de aproximadamente 0,5% a partir das informações disponíveis até agosto.

O carregamento estatístico representa uma estimativa do resultado que seria observado caso a atividade permanecesse, nos meses seguintes, no mesmo nível registrado no último mês conhecido. Não constitui uma previsão definitiva do PIB, mas uma referência para avaliar a posição inicial do indicador diante dos próximos resultados.

As estimativas das instituições refletem modelos próprios e podem ser alteradas conforme novas informações sobre atividade, inflação, crédito e política monetária sejam divulgadas.

Também é importante distinguir essas projeções das estimativas oficiais do Banco Central e do IBGE. Enquanto os bancos elaboram cenários para o desempenho futuro da economia, os órgãos públicos produzem indicadores estatísticos e análises institucionais com metodologias específicas.

Comércio e serviços enfrentam desafio de manter crescimento com crédito restrito

A desaceleração da economia brasileira apresenta consequências diferentes entre os setores produtivos. Atividades dependentes de financiamento, como determinados segmentos do comércio, construção civil e aquisição de bens duráveis, tendem a apresentar maior sensibilidade às condições de juros.

O custo do crédito afeta tanto os consumidores quanto as empresas. Para as famílias, taxas elevadas aumentam o valor das prestações e restringem a capacidade de assumir novos financiamentos. Para as companhias, ampliam as despesas financeiras e podem reduzir a atratividade de investimentos em expansão.

Os serviços, embora apresentem características distintas, também podem sofrer os efeitos de um consumo mais moderado. Segmentos ligados à renda disponível das famílias dependem da evolução dos salários, do emprego e dos preços de bens essenciais.

Na indústria, a atividade está relacionada a fatores adicionais, como demanda externa, custos de produção, investimentos empresariais e formação de estoques. A recuperação mensal de 0,9% registrada em agosto constitui um resultado positivo, mas a retração trimestral de 1,2% indica que o setor ainda enfrenta dificuldades para manter uma trajetória consistente de crescimento.

A manutenção de um mercado de trabalho aquecido pode oferecer algum suporte ao consumo, mas não elimina os efeitos das condições financeiras restritivas.

O comportamento desses fatores será determinante para avaliar se a economia conseguirá recuperar o ritmo ao longo do quarto trimestre ou se continuará apresentando crescimento moderado.

Próximo IBC-Br será decisivo para avaliar desempenho do terceiro trimestre

O resultado de setembro, cuja divulgação pelo Banco Central está prevista para 16 de novembro, será especialmente importante para completar a avaliação da atividade econômica no terceiro trimestre de 2026.

Com os números de julho e agosto já conhecidos, o último mês do trimestre permitirá verificar se a recuperação observada em agosto teve continuidade ou se representou apenas uma interrupção temporária das quedas anteriores.

A próxima divulgação também poderá trazer revisões nos resultados previamente publicados. Como ocorre com diversos indicadores econômicos, as séries do IBC-Br são atualizadas à medida que novas informações estatísticas se tornam disponíveis.

O dado oficial do PIB do terceiro trimestre, a ser divulgado pelo IBGE, fornecerá a medida consolidada do desempenho econômico entre julho e setembro, permitindo comparar os sinais antecipados pelo Banco Central com o resultado efetivo das Contas Nacionais.

Até lá, a leitura dos indicadores disponíveis mostra uma economia que permanece em expansão na comparação anual, mas apresenta dificuldades para sustentar o crescimento no curto prazo.

A alta de 0,3% em agosto representa uma recuperação depois de dois meses de retração, porém não modifica o diagnóstico central revelado pelo IBC-Br: a atividade econômica brasileira perdeu força no terceiro trimestre, com queda de 0,6% na comparação trimestral móvel e resultados negativos em todos os seus principais componentes nessa mesma base.

A intensidade e a duração dessa desaceleração dependerão da evolução do crédito, dos investimentos, do consumo e das condições monetárias. Os próximos dados permitirão avaliar se a recuperação de agosto constitui o início de uma estabilização ou se o crescimento brasileiro continuará limitado pelos efeitos acumulados dos juros elevados.

Fontes:

Banco Central do Brasil — Divulgação do Índice de Atividade Econômica de agosto de 2026, publicada em 16 de outubro, com resultados agregados, componentes setoriais e comparações mensais, trimestrais e anuais.

Banco Central do Brasil — Metodologia do IBC-Br e documentação das séries setoriais utilizadas no acompanhamento da atividade econômica.

Banco Central do Brasil — Ata da 281ª reunião do Comitê de Política Monetária, realizada em setembro de 2026, com avaliação da conjuntura econômica e decisão de reduzir a Selic para 13,75% ao ano.

Banco Central do Brasil — Histórico das taxas básicas de juros e decisões do Copom ao longo de 2026.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, resultados do PIB referentes ao primeiro e segundo trimestres de 2026.

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