Ibovespa sustenta patamar de 164 mil pontos em dia de liquidez reduzida e alívio no câmbio
O mercado financeiro brasileiro iniciou a semana demonstrando resiliência diante de um cenário global misto e de volume de negócios contido. Nesta segunda-feira (19), o Ibovespa, principal indicador de desempenho das ações negociadas na B3, encerrou o pregão praticamente estável, registrando uma variação positiva simbólica de 0,03%. Com esse resultado, o índice se manteve no patamar dos 164.849,27 pontos, frustrando a expectativa de investidores que aguardavam movimentos mais bruscos, mas garantindo a preservação dos níveis de suporte técnico importantes para a análise gráfica de curto prazo.
O comportamento do Ibovespa nesta sessão foi fortemente condicionado pelo calendário internacional. O feriado de Martin Luther King Jr. nos Estados Unidos manteve as bolsas de Nova York fechadas, drenando a liquidez global e reduzindo significativamente o fluxo de capital estrangeiro no Brasil, que historicamente responde por uma parcela substancial do volume financeiro diário da bolsa doméstica. Sem a referência de Wall Street e a negociação dos ADRs (American Depositary Receipts) das companhias brasileiras, o mercado local operou em “modo de espera”, guiado majoritariamente por movimentos técnicos e ajustes de carteira de investidores locais.
Enquanto o Ibovespa andou de lado, o mercado de câmbio trouxe alívio. O dólar comercial encerrou o dia em queda de 0,16% frente ao real, cotado a R$ 5,364 na venda. A moeda americana oscilou entre a mínima de R$ 5,346 e a máxima de R$ 5,382, refletindo um enfraquecimento global da divisa dos Estados Unidos, medido pelo índice DXY, que recuou para a casa dos 99 pontos.
O Efeito China e a Pressão sobre as Commodities
A estabilidade do Ibovespa esconde, contudo, uma disputa setorial intensa observada ao longo do dia. O grande fiel da balança para o desempenho negativo de parte da carteira teórica foi a China. A segunda maior economia do mundo divulgou seus dados de crescimento referentes a 2025, reportando uma expansão do PIB de 5,0%. Embora o número tenha atingido exatamente a meta oficial estabelecida por Pequim, a leitura detalhada dos indicadores acendeu a luz amarela nas mesas de operação.
Os dados de atividade industrial e, principalmente, do varejo chinês vieram abaixo das expectativas do mercado, sinalizando que o consumo interno do gigante asiático ainda patina. Para o Ibovespa, que possui uma composição pesada em empresas exportadoras de commodities, essa sinalização foi deletéria. O minério de ferro reagiu negativamente às perspectivas de menor demanda por aço e infraestrutura, impactando diretamente os papéis da Vale e do setor siderúrgico.
A Vale, ação com maior peso individual na composição do Ibovespa, liderou as perdas do dia, arrastando consigo siderúrgicas como CSN e Gerdau. Segundo Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, os “dados mornos” da economia chinesa foram o gatilho para a realização de lucros nessas companhias, impedindo que o índice brasileiro buscasse patamares mais elevados mesmo com o cenário interno mais benigno.
Cenário Interno: Haddad, Galípolo e a Curva de Juros
Se as commodities jogaram contra, o cenário macroeconômico doméstico atuou como um contrapeso positivo, sustentando o Ibovespa no campo azul, ainda que timidamente. O destaque do dia foi a repercussão da entrevista do Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao portal UOL. Em suas declarações, Haddad ofereceu um apoio institucional robusto ao Banco Central (BC) e à condução da política monetária liderada por Gabriel Galípolo.
A harmonia entre a equipe econômica do governo e a autoridade monetária é vista pelo mercado como um pilar fundamental para a ancoragem das expectativas de inflação. O ministro sinalizou enxergar espaço para cortes futuros na taxa básica de juros, a Selic, o que foi interpretado pelos agentes financeiros como um aval político para o ciclo de afrouxamento monetário, desde que as condições técnicas permitam.
Essa sinalização provocou um fechamento (queda) na curva de juros futuros (DI). Com a perspectiva de juros menores no horizonte, setores cíclicos da economia — aqueles que dependem diretamente do custo do crédito e do consumo das famílias — reagiram com vigor, ajudando a equilibrar o Ibovespa.
Além da política monetária, Haddad abordou temas sensíveis do sistema financeiro, defendendo a atuação do BC no processo de liquidação do Banco Master. A fala foi recebida com bons olhos, pois reforça a autonomia do regulador em sanear o sistema e prevenir riscos sistêmicos, transmitindo segurança jurídica e institucional aos investidores que operam no Ibovespa.
Destaques Corporativos: Quem subiu e quem desceu
A dinâmica de “gangorra” do Ibovespa ficou evidente na performance dos ativos. Do lado negativo, além do complexo de mineração e siderurgia afetado pela China, a Natura figurou entre as maiores quedas. O movimento, no entanto, foi classificado por analistas como uma correção técnica natural. Os papéis da gigante de cosméticos haviam acumulado uma valorização de quase 4% na semana anterior, e a ausência de novidades corporativas nesta segunda-feira abriu espaço para que investidores realizassem os lucros recentes.
Na ponta oposta, o setor de utilities (serviços públicos) e as empresas sensíveis aos juros garantiram a sustentação do Ibovespa. Construtoras e incorporadoras, como Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3), operaram em forte alta. O setor de saúde também se destacou, com a Hapvida (HAPV3) reagindo positivamente ao fechamento da curva de juros.
Essas empresas se beneficiam duplamente de um cenário de juros em queda: primeiro, porque suas dívidas se tornam mais baratas de rolar; segundo, porque o crédito mais acessível estimula a demanda por imóveis e planos de saúde. A fala de Haddad, portanto, teve um efeito direto na precificação desses ativos, servindo como um colchão de amortecimento para o Ibovespa diante da queda da Vale.
Câmbio e Cenário Internacional: O Fator Trump
Enquanto o Ibovespa lutava para se manter estável, o mercado de câmbio refletia as tensões geopolíticas e a política americana. A queda do dólar ante o real (-0,16%) não foi um evento isolado, mas parte de um movimento global. O índice DXY, que mede a força da moeda americana contra uma cesta de divisas fortes (como Euro e Iene), recuou 0,34%, fechando aos 99,05 pontos.
Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, explica que a “retórica agressiva” do ex-presidente e atual player político Donald Trump tem pesado sobre a moeda americana. Nesta segunda-feira, Trump ameaçou impor novas tarifas comerciais à Europa e elevou o tom em relação a disputas territoriais envolvendo a Groenlândia. Esse aumento da temperatura geopolítica gerou aversão ao risco nas bolsas europeias, que fecharam majoritariamente em queda, mas, paradoxalmente, enfraqueceu o dólar.
Investidores globais, receosos com as consequências de uma nova guerra comercial, buscaram proteção não na moeda americana, mas em ativos reais defensivos. Ouro e prata registraram alta, funcionando como o principal canal de transmissão de risco do dia. Para o Brasil, esse enfraquecimento global do dólar foi benéfico, retirando pressão sobre a inflação importada e contribuindo para o cenário de juros que favoreceu as ações domésticas do Ibovespa.
Análise Técnica e Perspectivas para a Semana
O fechamento do Ibovespa aos 164.849 pontos mantém o índice dentro de uma faixa de congestão lateral. Analistas técnicos apontam que, para retomar uma tendência de alta consistente, o benchmark precisa romper a resistência psicológica dos 165.000 pontos com volume financeiro robusto — algo que não ocorreu nesta segunda-feira devido ao feriado nos EUA.
A baixa liquidez, citada por Shahini como fator determinante para a “baixa amplitude” das oscilações, deve ser normalizada a partir de terça-feira, com o retorno de Wall Street. A expectativa é que o fluxo estrangeiro volte a ditar o ritmo do Ibovespa, testando a resiliência do mercado brasileiro frente aos dados chineses e às incertezas políticas americanas.
O suporte imediato do Ibovespa encontra-se na região dos 163.500 pontos. Enquanto o índice se mantiver acima desse patamar, a tendência de curto prazo permanece neutra a positiva, sustentada pela perspectiva de queda da Selic. Contudo, qualquer deterioração adicional no cenário de commodities ou ruídos na comunicação entre Fazenda e Banco Central poderiam desencadear uma correção mais severa.
O Papel da Liquidez e a Dinâmica dos Investidores
A sessão desta segunda-feira serviu como um laboratório para observar o comportamento do investidor local sem a interferência maciça dos algoritmos de negociação de alta frequência baseados em Nova York. O que se viu foi um Ibovespa cauteloso, mas não pessimista. A ausência de pânico, mesmo com a queda das commodities, sugere que o “preço justo” dos ativos brasileiros já embute parte dos riscos externos.
A estabilidade do Ibovespa também reflete a migração de fluxo para ativos de renda fixa que, apesar da queda na curva futura, ainda oferecem prêmios atrativos em termos reais. O investidor institucional local aproveitou a calmaria para rebalancear posições, vendendo exportadoras e comprando empresas voltadas ao mercado interno (o chamado kit Brasil), apostando na tese defendida por Haddad de convergência econômica.
O dia 19 de janeiro de 2026 encerrou-se como um pregão de transição. O Ibovespa mostrou força ao não sucumbir à pressão negativa vinda da China, encontrando suporte na melhora das expectativas de juros domésticos e no alívio cambial. A estabilidade de +0,03% pode parecer inexpressiva numericamente, mas carrega uma vitória simbólica de manutenção de patamar em um dia de aversão ao risco na Europa e falta de liquidez americana.
Para os próximos dias, a atenção dos investidores do Ibovespa estará voltada para a normalização dos negócios em Nova York e para novos desdobramentos sobre a política econômica chinesa. Se o governo asiático anunciar estímulos para combater a fraqueza no varejo, o índice brasileiro poderá ganhar a tração necessária para romper o teto dos 165 mil pontos. Caso contrário, a seletividade continuará sendo a regra, com o mercado punindo commodities e premiando a economia interna, à espera de que as promessas de juros menores se concretizem na próxima reunião do Copom.






