A queda de 13,88% do Ibovespa na segunda-feira (26), acompanhada pela disparada de 8,21% do dólar, abriu uma nova discussão entre instituições financeiras sobre o comportamento dos ativos brasileiros após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto algumas análises apontam espaço para novas perdas diante das incertezas fiscais, outras avaliam que parte expressiva da desvalorização está relacionada à reversão de posições assumidas antes do resultado eleitoral, sem necessariamente representar uma deterioração equivalente dos fundamentos econômicos do paÃs.
O Ibovespa encerrou o primeiro pregão após o segundo turno aos 176.608,23 pontos, segundo a B3, depois de atingir a mÃnima intradiária de 169.516,43 pontos. A intensidade do movimento levou a bolsa a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em situações de forte queda. O dólar comercial terminou o dia próximo de R$ 5,40, depois de superar R$ 5,60 durante a sessão.
Nesta terça-feira (27), antes da abertura do mercado acionário, investidores acompanham as avaliações de bancos internacionais, as expectativas sobre a futura equipe econômica e o comportamento dos juros de longo prazo. A principal dúvida é se o ajuste observado na segunda-feira já incorporou os riscos relacionados ao próximo mandato presidencial ou se haverá uma nova rodada de desvalorização.
As análises divulgadas pelo BTG Pactual, pelo J.P. Morgan Private Bank e pela Gavekal Research mostram diferenças importantes na interpretação do episódio. As instituições concordam que o resultado eleitoral contrariou as expectativas de parte dos investidores, mas divergem quanto à intensidade e à duração dos efeitos sobre o mercado brasileiro.
BTG Pactual vê risco de novas perdas e aponta atenção para os juros
O BTG Pactual identifica a reprecificação dos ativos como consequência da surpresa eleitoral e das dúvidas relacionadas à polÃtica econômica do próximo mandato.
Em comunicação extraordinária publicada em 26 de outubro, a equipe de estratégia macroeconômica do banco destacou que momentos de volatilidade excepcional podem produzir movimentos de preços intensificados pelo posicionamento dos investidores.
A instituição considera que a definição da equipe econômica, as mudanças no Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027 e a apresentação de medidas fiscais estruturais serão elementos fundamentais para determinar o comportamento dos mercados depois do ajuste inicial.
Entre os cenários discutidos nas análises de mercado do BTG está a possibilidade de o Ibovespa se aproximar de 170 mil pontos, patamar que representa uma queda de aproximadamente 17% em relação ao fechamento de sexta-feira (23), anterior à eleição.
Entretanto, parte expressiva desse movimento já ocorreu. Considerando o encerramento de segunda-feira, aos 176.608 pontos, uma queda adicional até 170 mil pontos corresponderia a aproximadamente 3,7%.
O Ãndice chegou, inclusive, a negociar abaixo desse nÃvel durante a sessão anterior, quando atingiu 169.516 pontos. Isso demonstra a importância de distinguir projeções formuladas antes do pregão dos preços efetivamente observados após a abertura do mercado.
Outro fator de preocupação é a trajetória dos juros reais de longo prazo. A possibilidade de manutenção de taxas elevadas por um perÃodo prolongado tende a pressionar o valor das ações, sobretudo de empresas mais dependentes de financiamento, crédito e consumo doméstico.
Apesar dos riscos, o BTG recomenda cautela diante de decisões tomadas durante movimentos extremos do mercado. A instituição avalia que a normalização dos preços dependerá de sinais concretos sobre a condução da polÃtica fiscal e a formação de uma base de governabilidade.
J.P. Morgan prevê correção, mas não vê mudança duradoura nas perspectivas econômicas
Em análise publicada na segunda-feira, o J.P. Morgan Private Bank apresentou uma interpretação menos pessimista sobre as consequências econômicas de médio prazo da reeleição de Lula.
O relatório, assinado pelas estrategistas Nur Cristiani e Mary Sangurima, reconhece a possibilidade de pressão adicional sobre os ativos brasileiros no curto prazo, principalmente porque o mercado havia incorporado expectativas de vitória de Flávio Bolsonaro.
A instituição, entretanto, não considera que o resultado represente necessariamente uma mudança permanente nas perspectivas de crescimento econômico do Brasil.
Na avaliação divulgada pelo banco, parte dos ganhos observados após o primeiro turno deverá ser devolvida, especialmente nos ativos que mais se valorizaram diante da expectativa de uma alteração na orientação econômica do governo.
Entre os segmentos considerados mais vulneráveis estão os bancos e as empresas brasileiras sensÃveis à s taxas de juros. Essas companhias haviam se beneficiado da queda dos juros futuros e das expectativas de melhora das condições financeiras.
Em sentido oposto, empresas exportadoras podem apresentar maior resistência relativa. Vale (VALE3) e Suzano (SUZB3) aparecem entre os exemplos citados pela instituição, devido à exposição de suas receitas ao mercado internacional e aos efeitos de um real mais depreciado.
O J.P. Morgan também destaca que os juros brasileiros continuam elevados em comparação com os de outros mercados emergentes. Essa diferença pode contribuir para limitar a desvalorização da moeda nacional, dependendo das condições globais de liquidez e da percepção de risco.
Para o banco, a escolha do ministro da Fazenda e o orçamento de 2027 serão os primeiros testes concretos da capacidade do governo de responder às preocupações fiscais.
Gavekal considera que queda pode abrir oportunidades de investimento
A Gavekal Research apresenta uma avaliação mais favorável à possibilidade de recuperação dos ativos brasileiros depois da forte correção.
Em relatório publicado em 26 de outubro, intitulado Buy The Dip In Brazil, o analista Rohan Daswani argumenta que a reação negativa está relacionada, em parte, ao encerramento de operações realizadas na expectativa de uma vitória de Flávio Bolsonaro.
Após o primeiro turno, investidores passaram a antecipar uma possÃvel mudança de governo e maior disciplina fiscal. Esse movimento contribuiu para a valorização das ações brasileiras e do real.
A vitória de Lula contrariou parte dessas apostas e provocou a necessidade de desfazer posições, ampliando a pressão vendedora.
Para a consultoria, esse ajuste técnico não elimina necessariamente os fatores estruturais que sustentam o interesse pelo Brasil.
A Gavekal destaca que o paÃs continua oferecendo juros elevados e mantém exposição relevante a commodities, caracterÃsticas que podem atrair investidores internacionais interessados em diversificação e retorno.
A avaliação é de que oportunidades poderão surgir quando a necessidade imediata de liquidação das posições diminuir e os preços passarem a refletir mais diretamente os fundamentos econômicos.
Isso não significa que a recuperação ocorrerá automaticamente ou que o mercado já tenha atingido o menor nÃvel de preços. A persistência das incertezas fiscais poderá prolongar a volatilidade e limitar a disposição dos investidores de assumir riscos.
Dólar a R$ 6 é possÃvel? PolÃtica fiscal será determinante
A possibilidade de novas altas do dólar também entrou no radar dos investidores depois da valorização expressiva registrada na segunda-feira.
A moeda americana terminou a sessão cotada a R$ 5,403, após alcançar aproximadamente R$ 5,60 durante a manhã.
Uma eventual aproximação de R$ 6 dependeria de uma nova deterioração das expectativas sobre a economia brasileira, de pressão adicional sobre os juros e de movimentos de saÃda de recursos do paÃs. Trata-se de uma hipótese de estresse, não de uma trajetória inevitável.
Em sentido contrário, sinalizações de compromisso com o equilÃbrio das contas públicas poderiam favorecer uma redução dos prêmios de risco e aliviar parte da pressão cambial.
O comportamento do dólar também depende de fatores externos, como a polÃtica monetária do Federal Reserve, a força internacional da moeda americana e o apetite global por ativos de paÃses emergentes.
A valorização cambial tem efeitos distintos sobre a economia. Empresas exportadoras podem registrar ganhos em reais sobre receitas obtidas no exterior, enquanto companhias dependentes de importações enfrentam aumento de custos.
Movimentos persistentes de desvalorização do real também podem pressionar preços de combustÃveis, insumos industriais e produtos importados, influenciando as expectativas de inflação.
Contas públicas serão o principal teste do próximo governo
A situação fiscal aparece como o principal ponto de convergência entre as avaliações das instituições financeiras.
Dados do Prisma Fiscal de outubro, divulgados pelo Ministério da Fazenda, mostram que a mediana das projeções do mercado para o déficit primário do Governo Central em 2026 passou de R$ 52,271 bilhões para R$ 53,048 bilhões.
Para 2027, a estimativa recuou de R$ 45,350 bilhões para R$ 44 bilhões. Embora represente uma melhora em relação à pesquisa anterior, a projeção continua indicando resultado primário negativo.
O levantamento também aponta expectativa de que a dÃvida bruta do governo alcance 83,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 e 87% em 2027.
Esses números ajudam a explicar a atenção dedicada pelo mercado à capacidade do governo de administrar despesas, ampliar receitas e estabilizar a trajetória do endividamento público.
A composição da nova equipe econômica poderá influenciar as expectativas sobre a continuidade das regras fiscais e a disposição do Executivo de negociar mudanças orçamentárias com o Congresso Nacional.
O resultado das eleições legislativas também será relevante, já que o presidente precisará construir apoio parlamentar para aprovar propostas que dependam de alterações legais.
O J.P. Morgan avalia que um Congresso de orientação mais conservadora poderá limitar mudanças mais amplas na polÃtica econômica e exigir negociações adicionais do governo.
O que pode fazer o Ibovespa voltar a subir?
Depois da queda expressiva de segunda-feira, a possibilidade de recuperação dependerá da combinação de fatores polÃticos, econômicos e financeiros.
O primeiro deles será a redução da pressão vendedora provocada pelo encerramento de posições montadas antes das eleições. Caso esse movimento perca intensidade, o mercado poderá apresentar recuperação técnica mesmo sem mudanças imediatas nas perspectivas econômicas.
Outro fator será o comportamento dos juros futuros. Uma redução dos prêmios exigidos pelos investidores tende a beneficiar ações de empresas relacionadas ao consumo, ao crédito e ao investimento doméstico.
A definição de uma equipe econômica capaz de transmitir previsibilidade sobre a condução das contas públicas também poderá contribuir para estabilizar os preços.
Por outro lado, novas dúvidas sobre a trajetória da dÃvida, o orçamento federal ou a execução das regras fiscais poderão prolongar a instabilidade.
O mercado externo representa uma variável adicional. A evolução dos preços do petróleo e do minério de ferro, as decisões de polÃtica monetária dos Estados Unidos e o desempenho das bolsas internacionais poderão influenciar especialmente as ações de maior peso no Ibovespa.
A forte queda registrada após a eleição não permite, isoladamente, concluir que as empresas brasileiras perderam valor econômico na mesma proporção. Parte do ajuste pode refletir mudanças no custo de capital, nas expectativas de lucros e nas posições dos investidores.
Da mesma forma, a intensidade das perdas não garante uma recuperação rápida.
O principal desafio dos próximos pregões será determinar quanto da reação inicial já foi incorporado aos preços e quais riscos permanecerão até que o governo apresente definições mais concretas sobre a polÃtica econômica de 2027.
Fontes:
B3 — Dados oficiais do pregão de 26 de outubro de 2026 e comunicado de acionamento do circuit breaker.
BTG Pactual Macro Strategy — Atualização de Cenário, de 26 de outubro de 2026.
J.P. Morgan Private Bank — Segundo turno das eleições no Brasil: Lula conquista o quarto mandato, análise de 26 de outubro de 2026.
Gavekal Research — Buy The Dip In Brazil, relatório de Rohan Daswani, de 26 de outubro de 2026.
Ministério da Fazenda — Prisma Fiscal de outubro de 2026, divulgado pela Secretaria de PolÃtica Econômica.





