O mercado brasileiro de defensivos agrícolas destinados à cultura do algodão alcançou um faturamento recorde de R$ 8,217 bilhões na safra 2025/26, crescimento de aproximadamente 14% em relação aos R$ 7,19 bilhões movimentados no ciclo anterior. O resultado representa um acréscimo de mais de R$ 1 bilhão nas despesas com proteção das lavouras em apenas uma temporada, segundo levantamento FarmTrak Algodão, realizado pela consultoria Kynetec Brasil. A expansão foi impulsionada pelo maior número de tratamentos fitossanitários e pelo encarecimento do manejo agrícola, especialmente no combate a insetos que comprometem a produtividade e a qualidade da fibra.
O crescimento ocorreu em um momento de redução da área cultivada com algodão no país, evidenciando que a demanda por defensivos não depende exclusivamente da expansão das plantações. A pesquisa identificou aumento da intensidade dos tratamentos, acompanhado pela elevação do valor destinado à proteção das lavouras. A chamada área potencial tratada, indicador que considera a soma das superfícies alcançadas pelas aplicações ao longo do ciclo produtivo, avançou 6%, de 196,31 milhões para 209,07 milhões de hectares. O resultado revela que o crescimento do mercado foi proporcionalmente superior à expansão da cobertura dos tratamentos, indicando maior dispêndio por unidade de área tratada.
A pressão exercida pelo bicudo-do-algodoeiro, uma das principais ameaças à cotonicultura brasileira, aparece entre os fatores centrais desse movimento. O controle da praga movimentou aproximadamente R$ 2 bilhões no período, enquanto os gastos com produtos destinados ao combate de lagartas alcançaram R$ 928 milhões. Juntas, essas duas frentes representam parcela expressiva das despesas com inseticidas e ajudam a explicar por que o setor de proteção de cultivos continua ampliando seu faturamento mesmo diante das oscilações da área plantada.
Gastos com defensivos crescem acima da área tratada
Os dados da Kynetec mostram que o mercado brasileiro de defensivos para algodão passou de R$ 7,19 bilhões na safra 2024/25 para R$ 8,217 bilhões em 2025/26. A diferença nominal de aproximadamente R$ 1,027 bilhão corresponde a uma expansão de 14,3%, resultado que levou o segmento ao maior patamar já registrado na série histórica da consultoria.
Quando os valores são expressos em dólares, o crescimento aparece em proporção menor. O faturamento passou de US$ 1,341 bilhão para US$ 1,478 bilhão, avanço de aproximadamente 10%. A diferença entre as duas moedas reflete as condições cambiais consideradas no levantamento, uma vez que parte dos insumos agrícolas utilizados no Brasil possui custos associados ao mercado internacional.
A pesquisa também identificou uma elevação significativa na intensidade do manejo fitossanitário. O número médio de tratamentos passou de 95 para 107 entre as duas temporadas, crescimento próximo de 13%. O indicador deve ser interpretado como uma medida da intensidade acumulada de utilização dos produtos, e não necessariamente como o número de operações individuais de pulverização realizadas em cada propriedade, já que diferentes produtos podem integrar uma mesma intervenção no campo.
A relação entre os indicadores ajuda a dimensionar a mudança. Enquanto a área potencial tratada aumentou aproximadamente 6%, o faturamento avançou mais que o dobro dessa proporção. Considerando apenas a divisão entre o valor total do mercado e a área potencial tratada, a receita por hectare-equivalente de tratamento cresceu cerca de 7,5%. Esse cálculo não representa uma variação pura de preços, pois também pode refletir mudanças na combinação de produtos, nas doses utilizadas e no perfil dos tratamentos.
Outro indicador relevante é a despesa estimada por hectare físico cultivado. Utilizando o faturamento de R$ 8,217 bilhões e a área de 1,952 milhão de hectares considerada no levantamento, chega-se a um valor próximo de R$ 4,2 mil por hectare. Trata-se de uma relação entre o tamanho do mercado e a área agrícola pesquisada, que não deve ser confundida com o custo individual de uma aplicação de defensivo.
O conjunto dos números revela uma pressão crescente sobre o orçamento destinado à proteção do algodão. Para os produtores, a questão não envolve apenas o preço de compra dos insumos, mas também a quantidade de tratamentos necessários para preservar a produtividade e evitar perdas comerciais.
Inseticidas concentram metade do mercado
Os inseticidas permaneceram como a principal categoria de defensivos utilizados na cotonicultura brasileira, movimentando aproximadamente R$ 4,119 bilhões durante a safra 2025/26. O montante corresponde a cerca de 50% de todo o mercado de proteção de cultivos do algodão, proporção que evidencia a importância econômica do controle de pragas na estrutura de custos da atividade.
Na temporada anterior, o faturamento da categoria havia alcançado R$ 3,606 bilhões. O crescimento foi de aproximadamente 14%, acompanhando a expansão do mercado total. A área potencial tratada com inseticidas também aumentou, passando de 79,15 milhões para 87,66 milhões de hectares, avanço próximo de 11%.
A combinação desses indicadores mostra que os inseticidas possuem participação no faturamento superior à sua representatividade na área potencial tratada. Enquanto respondem por metade dos gastos com defensivos, representam aproximadamente 42% da área-equivalente acumulada de tratamentos. Essa diferença reflete características do manejo de insetos, que pode exigir produtos com custos distintos daqueles utilizados no controle de doenças e plantas daninhas.
O principal destaque foi o bicudo-do-algodoeiro, responsável por aproximadamente R$ 2 bilhões em despesas com controle fitossanitário. O valor equivale a quase um quarto de todo o mercado de defensivos utilizados no algodão e a aproximadamente metade do faturamento registrado pela categoria de inseticidas. Segundo a Kynetec, o combate à praga exigiu, em média, 18 tratamentos ao longo da temporada.
O bicudo, identificado cientificamente como Anthonomus grandis, ataca estruturas reprodutivas da planta, incluindo botões florais e frutos em formação, provocando danos que podem comprometer o desenvolvimento e o rendimento da lavoura. Sua capacidade de reprodução e permanência nas regiões produtoras exige uma estratégia contínua de monitoramento e controle, frequentemente iniciada antes mesmo do estabelecimento de uma nova safra.
O problema ultrapassa os limites de uma única propriedade. Como o inseto pode se deslocar entre áreas próximas e sobreviver durante a entressafra, medidas isoladas tendem a apresentar eficácia limitada quando as lavouras vizinhas não seguem práticas adequadas de manejo.
Bicudo-do-algodoeiro exige controle durante a safra e na entressafra
A pressão do bicudo sobre a produção brasileira foi um dos temas centrais do 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em setembro de 2026, em Belo Horizonte. Durante o encontro, pesquisadores e especialistas destacaram que o combate à praga precisa começar antes do plantio e continuar após a colheita, com ações coordenadas entre produtores.
O pesquisador Guilherme Rolim, do Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt), explicou que o inseto pode desenvolver cinco ou seis gerações durante um único ciclo da cultura. Essa capacidade reprodutiva, combinada à possibilidade de sobrevivência em estruturas vegetais remanescentes, torna o manejo especialmente complexo nas regiões de produção intensiva.
Entre as medidas recomendadas estão a destruição adequada das soqueiras, o cumprimento do vazio sanitário, o monitoramento com armadilhas e a adoção de estratégias integradas de controle. Essas práticas permitem reduzir a população da praga antes do início da temporada seguinte, diminuindo a necessidade de intervenções emergenciais durante o desenvolvimento das plantas.
Pesquisas conduzidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também reforçam a importância do monitoramento populacional do bicudo. O acompanhamento permite identificar a presença do inseto, avaliar sua evolução e orientar decisões de manejo de acordo com as condições encontradas em cada região produtora.
A intensificação dos tratamentos, portanto, não deve ser interpretada automaticamente como aumento de eficiência na proteção das lavouras. Uma quantidade maior de aplicações pode indicar pressão fitossanitária elevada, enquanto o manejo integrado busca combinar controle químico, práticas culturais e monitoramento para reduzir perdas e evitar intervenções desnecessárias.
Para os agricultores, o desafio consiste em equilibrar o custo das medidas de proteção com o potencial de prejuízo provocado pelas pragas. A eficiência econômica depende não apenas do número de aplicações, mas também da escolha do momento correto, da eficácia dos produtos utilizados e da capacidade de prevenir novas infestações.
Lagartas movimentam R$ 928 milhões e ampliam participação nos custos
Além do bicudo, as lagartas contribuíram para elevar a demanda por inseticidas na safra 2025/26. Segundo o levantamento da Kynetec, os gastos com produtos destinados ao controle desse grupo de pragas alcançaram R$ 928 milhões, ante R$ 795 milhões na temporada anterior.
O crescimento foi de aproximadamente 17%, percentual superior à expansão de 14% do mercado total de defensivos para algodão. A diferença sugere que o controle de lagartas ganhou importância relativa na composição das despesas fitossanitárias durante o período pesquisado.
As lagartas podem atingir diferentes partes do algodoeiro, incluindo folhas e estruturas reprodutivas, dependendo da espécie e do estágio de desenvolvimento das plantas. A intensidade dos danos está relacionada à população de insetos, às condições ambientais e à capacidade de detecção e intervenção dos produtores.
A ampliação dos gastos com esse tipo de controle não permite concluir, isoladamente, que todas as regiões tenham enfrentado aumento de infestação na mesma proporção. O faturamento de defensivos também pode ser influenciado por mudanças nos produtos empregados, no custo das formulações e na estratégia de manejo adotada pelas propriedades.
Ainda assim, a expansão da categoria reforça a relevância do controle de insetos para a rentabilidade da cotonicultura brasileira. O algodão possui um ciclo relativamente longo e apresenta períodos de elevada sensibilidade a ataques de pragas, exigindo acompanhamento técnico contínuo e decisões ajustadas às condições de cada lavoura.
Fungicidas e herbicidas também ampliam faturamento
Embora os inseticidas concentrem a maior parte das despesas, outras categorias de defensivos também registraram crescimento na safra 2025/26. Os fungicidas movimentaram aproximadamente R$ 1,986 bilhão, representando cerca de 24% do mercado total. O desempenho foi associado à procura por produtos de maior valor agregado e ao manejo de doenças que podem comprometer o desenvolvimento das plantas.
Os fungicidas são utilizados para controlar agentes causadores de doenças, cuja incidência varia conforme fatores como umidade, temperatura, condições de cultivo e suscetibilidade das variedades plantadas. A necessidade de tratamento depende das características de cada região e das condições observadas durante o ciclo agrícola.
Os herbicidas ocuparam a terceira posição entre as principais categorias, com faturamento próximo de R$ 1,143 bilhão, crescimento de aproximadamente 6,3% em relação ao ciclo anterior. Esses produtos são empregados no controle de plantas daninhas que competem com o algodoeiro por água, nutrientes e luminosidade, além de interferirem nas operações de cultivo e colheita.
Nematicidas, produtos para tratamento de sementes e outras soluções de proteção agrícola movimentaram aproximadamente R$ 986 milhões, respondendo por cerca de 12% do mercado. O segmento reúne tecnologias voltadas a problemas fitossanitários distintos, desde o controle de organismos presentes no solo até a proteção das plantas durante as fases iniciais de desenvolvimento.
A distribuição do faturamento mostra que o manejo do algodão exige intervenções contra diferentes grupos de organismos que afetam a produção. Embora o combate a insetos permaneça predominante, o controle de doenças, plantas daninhas e problemas relacionados ao solo também representa parcela importante dos custos operacionais.
Produção recorde contrasta com redução da área plantada
O avanço das despesas com defensivos ocorre em uma temporada na qual a área cultivada com algodão recuou no Brasil. Segundo o 12º levantamento da safra de grãos 2025/26, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em setembro, o país deve produzir aproximadamente 4,14 milhões de toneladas de pluma, volume recorde na série histórica da estatal.
A estimativa representa crescimento de 1,5% em relação ao ciclo anterior, apesar da redução de 3,2% na área plantada, calculada em aproximadamente 2,02 milhões de hectares. A produtividade média foi projetada em 2.053 quilos de pluma por hectare, avanço de 4,9% e também o maior nível da série histórica.
Os números indicam que a produção brasileira ampliou seu potencial de rendimento mesmo com uma superfície cultivada menor. Essa evolução resulta de um conjunto de fatores que inclui condições climáticas, características das lavouras, tecnologias agrícolas e práticas de manejo, não sendo possível atribuí-la exclusivamente ao aumento do uso de defensivos.
A relação entre produtividade e custos de proteção é particularmente importante para os produtores. Quando o rendimento por hectare aumenta, uma mesma área pode gerar maior volume de produto comercializável. Entretanto, a rentabilidade dependerá da comparação entre a receita obtida com a fibra e o conjunto das despesas, incluindo fertilizantes, sementes, defensivos, máquinas, mão de obra, financiamento e transporte.
O recorde de faturamento do mercado de defensivos não significa, portanto, que os produtores tenham obtido lucros igualmente recordes. Ele demonstra que o valor movimentado pelos insumos de proteção cresceu, enquanto o resultado econômico da atividade depende de variáveis adicionais.
Mato Grosso mantém liderança, mas registra retração de 8% na área
O levantamento da Kynetec identificou uma redução de aproximadamente 8% na área cultivada com algodão em Mato Grosso, principal estado produtor do país. Segundo a pesquisa, a superfície plantada passou de 1,502 milhão para 1,376 milhão de hectares entre as safras 2024/25 e 2025/26.
A retração equivale a aproximadamente 126 mil hectares e reforça a importância de acompanhar os custos por unidade de produção, em vez de considerar apenas o tamanho total do mercado. Uma área menor pode conviver com gastos elevados quando a intensidade do manejo aumenta ou quando há maior utilização de produtos de custo superior.
A pesquisa FarmTrak Algodão foi elaborada com base em entrevistas presenciais realizadas em quase 270 propriedades de diferentes regiões produtoras. Segundo a metodologia divulgada, a cobertura corresponde a aproximadamente 97% da área de algodão considerada no levantamento, estimada em 1,952 milhão de hectares.
A diferença entre essa estimativa e os 2,02 milhões de hectares projetados pela Conab deve ser observada com cautela. As instituições utilizam metodologias e abrangências próprias, de modo que os números não são necessariamente intercambiáveis.
O desempenho de Mato Grosso possui grande influência sobre a dinâmica nacional de insumos porque o estado concentra a maior parcela da produção de algodão. As estratégias de controle de pragas adotadas na região, especialmente contra o bicudo, afetam diretamente a demanda por inseticidas e outros produtos de proteção vegetal.
Custos de produção tornam manejo mais decisivo para a rentabilidade
O faturamento recorde de R$ 8,2 bilhões evidencia o peso crescente dos defensivos agrícolas na cadeia produtiva do algodão. A expansão do mercado ocorreu simultaneamente ao aumento da intensidade dos tratamentos e à necessidade de controlar pragas capazes de provocar perdas relevantes de produtividade.
Para a indústria de proteção de cultivos, o resultado representa a ampliação de um mercado de elevado valor agregado. Para os produtores, porém, a mesma evolução corresponde a um aumento das despesas que precisam ser compensadas pela produtividade, pela qualidade da fibra e pelas condições de comercialização.
Essa diferença de perspectiva é essencial para interpretar os números. O crescimento das vendas de defensivos pode favorecer fabricantes e distribuidores, mas também indicar um ambiente de maior dificuldade fitossanitária para quem produz. Não há relação automática entre o faturamento da indústria de insumos e a rentabilidade das fazendas.
A expansão mais rápida do valor de mercado em comparação com a área potencial tratada também sugere que a análise dos custos precisa considerar a composição dos produtos utilizados. Tecnologias de maior valor podem elevar as despesas, mas sua eficiência econômica depende da capacidade de prevenir perdas suficientes para justificar o investimento.
Nesse cenário, a adoção de estratégias de manejo integrado, associadas ao monitoramento de pragas e ao cumprimento das medidas sanitárias durante a entressafra, ganha importância para reduzir riscos e racionalizar aplicações. O objetivo é preservar o potencial produtivo sem transformar o aumento permanente dos gastos em uma consequência inevitável da atividade agrícola.
A safra 2025/26 apresenta, assim, dois recordes que precisam ser analisados em conjunto: o maior faturamento da série histórica do mercado de defensivos para algodão, apontado pela Kynetec, e a maior produção nacional de pluma estimada pela Conab. Enquanto a produtividade avança, o desafio do setor será assegurar que o custo crescente de proteção das lavouras não comprometa os ganhos econômicos proporcionados pelo aumento da produção.
Fontes
Kynetec Brasil — Levantamento FarmTrak Algodão, safra 2025/26, conforme dados divulgados em outubro de 2026.
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) — 12º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, publicado em setembro de 2026.
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Algodão) — Circular Técnica 143, sobre aspectos bioecológicos, monitoramento e controle populacional do bicudo-do-algodoeiro.
Congresso Brasileiro do Algodão — Informações técnicas apresentadas no 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em setembro de 2026.










