Um café especial produzido na Fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas, no sul de Minas Gerais, alcançou nesta sexta-feira (16) o preço equivalente a aproximadamente R$ 134,6 mil por saca de 60 quilos em um leilão internacional realizado em Tóquio, no Japão. O produto, da variedade geisha e processado pelo método natural, foi arrematado pela empresa japonesa Snow Beans por US$ 200 a libra-peso, colocando a produção brasileira entre os cafés mais valorizados do evento organizado pela Alliance for Coffee Excellence (ACE).
O valor de R$ 134,6 mil corresponde à conversão proporcional do preço para uma saca convencional de 60 quilos, unidade utilizada como referência no mercado cafeeiro. Na operação efetivamente realizada, entretanto, foram comercializados apenas 10 quilos de café, pelo total de US$ 4.410, equivalentes a aproximadamente R$ 22,4 mil. A distinção é importante porque o preço divulgado representa uma referência calculada, e não o pagamento por uma saca inteira.
O café foi produzido por Luiz Paulo Dias Pereira Filho, integrante da quarta geração de uma família de cafeicultores da Mantiqueira de Minas. A negociação ocorreu durante a SCAJ 2026 – World Specialty Coffee Conference and Exhibition, feira internacional realizada entre 14 e 17 de outubro, na capital japonesa. O leilão reuniu produtores reconhecidos em competições internacionais de qualidade, com participação de compradores presenciais e pela internet.
O resultado reforça a capacidade dos cafés especiais brasileiros de alcançar valores elevados em mercados internacionais, especialmente quando apresentam características sensoriais diferenciadas, origem reconhecida e disponibilidade limitada. A operação, contudo, ocorreu em condições específicas de um leilão beneficente e não representa o preço habitual do café produzido no Brasil.
Café brasileiro foi vendido por US$ 4.410 em lote de 10 quilos
Os registros oficiais da Alliance for Coffee Excellence confirmam que o café da Fazenda Santuário Sul foi negociado a US$ 200 por libra-peso. O lote tinha peso anunciado de 22,05 libras, equivalente a aproximadamente 10 quilos, e recebeu lance vencedor de US$ 4.410, apresentado pela Snow Beans, empresa japonesa que atua no mercado de cafés especiais.
A partir desses valores, cada quilo foi comercializado por aproximadamente US$ 441. Considerando uma taxa de conversão próxima de R$ 5,09 por dólar, o preço corresponde a cerca de R$ 2,24 mil por quilo. Uma quantidade de 100 gramas representaria aproximadamente R$ 224 em valor proporcional, antes de despesas adicionais com transporte, torrefação, tributos e comercialização.
A conversão para uma saca de 60 quilos resulta em aproximadamente US$ 26,46 mil, equivalentes a R$ 134,6 mil pela referência cambial utilizada. O cálculo permite comparar o valor com a unidade tradicional do setor, mas não significa que uma saca completa tenha sido vendida nessas condições.
O microlote comercializado correspondia a apenas um sexto do peso de uma saca convencional. A aplicação do mesmo preço a uma quantidade seis vezes maior pressupõe condições que não foram efetivamente testadas na negociação. A disponibilidade restrita do produto e a natureza beneficente do evento são fatores relevantes para compreender o valor obtido.
O lance vencedor também não constitui uma cotação aplicável à produção regular da fazenda. O preço foi definido em uma disputa específica entre compradores especializados, interessados em cafés de origem identificada e características valorizadas no segmento de alta qualidade.
Fazenda Santuário Sul obteve o maior preço entre os cafés brasileiros
A edição de 2026 do Legends of Excellence Charity Auction reuniu 12 lotes de produtores de seis países: Brasil, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua. Cada participante disponibilizou aproximadamente 10 quilos de café, em uma iniciativa que combinou reconhecimento internacional da qualidade produtiva e arrecadação de recursos para projetos sociais.
Entre os representantes brasileiros, o lote da Fazenda Santuário Sul alcançou o maior valor. O segundo café nacional foi produzido pela Fazenda Sertãozinho, vinculada ao Café Orfeu, também em Minas Gerais. Da variedade arara e processado pelo método natural, esse produto foi arrematado por US$ 151 a libra-peso, totalizando US$ 3.329,55.
A comparação revela que o café de Luiz Paulo Dias Pereira Filho recebeu um preço aproximadamente 32,5% superior ao obtido pela Fazenda Sertãozinho. A diferença demonstra a valorização relativa entre os dois microlotes, embora não permita concluir que uma variedade seja necessariamente mais valiosa que outra em todas as condições comerciais.
Na classificação geral do leilão, o geisha brasileiro alcançou o quarto maior preço por libra-peso. A primeira colocação ficou com a Finca El Puente, de Honduras, cujo café geisha lavado atingiu US$ 333 por libra, sendo arrematado por compradores da Coreia do Sul.
A segunda posição foi ocupada pela Cafetalera Buenos Aires, da Nicarágua, com US$ 270,50 por libra. Em terceiro lugar apareceu a Finca La Salsa, de Honduras, com US$ 223. O café da Fazenda Santuário Sul ficou imediatamente atrás desses produtores, superando os demais participantes da competição.
Os dados oficiais registram arrecadação total de US$ 40.086,91, distribuída entre os 12 lotes, após 396 lances. O café da Santuário Sul respondeu por aproximadamente 11% desse montante, enquanto os dois representantes brasileiros, somados, alcançaram US$ 7.739,55, equivalentes a 19,3% da arrecadação.
Esses percentuais dimensionam a participação brasileira no resultado financeiro do evento e mostram que os dois lotes nacionais concentraram quase um quinto do valor total negociado, embora representassem apenas um sexto da quantidade de lotes oferecidos.
Luiz Paulo Dias acumula 23 participações como finalista do Cup of Excellence
O produtor responsável pelo café de maior valorização entre os brasileiros pertence à quarta geração de uma família tradicional da cafeicultura da Mantiqueira de Minas. Além da Fazenda Santuário Sul, Luiz Paulo Dias Pereira Filho está ligado ao Sítio Senhor Niquinho e é cofundador da CarmoCoffees, empresa especializada na comercialização internacional de cafés de qualidade superior.
Segundo a Alliance for Coffee Excellence, Luiz Paulo é apresentado como 23 vezes finalista do Cup of Excellence, competição internacional que reconhece cafés de destaque por suas características sensoriais. O histórico inclui resultados obtidos por propriedades ligadas à família ao longo de diferentes safras.
Entre os resultados destacados pela entidade está a classificação do Sítio Senhor Niquinho na 13ª posição em 2020, com 88,44 pontos. Em 2021, a Fazenda IP alcançou a segunda colocação, com 90,14 pontos, enquanto em 2023 o Sítio Senhor Niquinho voltou a figurar entre os premiados, com 87,82 pontos.
A trajetória também inclui uma pontuação de 95,85 registrada pela família em 2005, desempenho mencionado pela organização internacional como um dos marcos de sua atuação na produção de cafés especiais.
O reconhecimento acumulado contribuiu para a inclusão do produtor no Legends of Excellence, programa que destaca participantes com histórico consistente de qualidade e contribuição ao desenvolvimento de regiões produtoras.
A atuação de Luiz Paulo também envolve iniciativas de valorização regional, rastreabilidade e aproximação de pequenos e médios cafeicultores com compradores estrangeiros. Por meio da CarmoCoffees, o produtor participa de um modelo de comercialização que busca ampliar o acesso da cafeicultura mineira a mercados especializados.
Variedade geisha e cultivo a 1.300 metros contribuem para diferenciação
O café comercializado pela Fazenda Santuário Sul pertence à variedade geisha, integrante da espécie arábica. Originária da Etiópia, essa variedade conquistou reconhecimento internacional especialmente a partir de competições realizadas no Panamá, onde cafés de perfil sensorial diferenciado passaram a alcançar preços elevados.
O geisha é conhecido por apresentar potencial para aromas florais, notas cítricas e características que podem lembrar determinados tipos de chá. Essas propriedades, entretanto, variam conforme a origem, o ambiente de cultivo, as condições de maturação, o processamento e a torra.
De acordo com o catálogo oficial do leilão, o lote brasileiro foi cultivado a aproximadamente 1.300 metros de altitude, na região de Carmo de Minas. As condições ambientais da Mantiqueira, combinadas com práticas adequadas de manejo, fazem parte dos fatores que podem contribuir para a qualidade dos cafés produzidos na região.
Outro diferencial do produto é o processamento natural. Nesse método, os frutos são secos com casca e polpa, antes da remoção das camadas externas. O procedimento exige controle cuidadoso das condições de secagem para evitar defeitos e preservar as características desejadas na bebida.
Quando conduzido adequadamente, o processamento natural pode favorecer perfis associados à doçura e a notas frutadas. A qualidade final, contudo, depende da interação entre diferentes fatores produtivos e não pode ser atribuída exclusivamente ao método empregado.
A combinação de variedade, origem, altitude, processamento e histórico do produtor contribui para a diferenciação comercial do microlote. Em mercados especializados, essas informações permitem aos compradores identificar produtos com características particulares e avaliar sua disponibilidade em relação à demanda.
Leilão beneficente destinará recursos a projetos sociais e educação
O caráter beneficente da negociação representa uma particularidade importante na interpretação dos valores. Segundo a Alliance for Coffee Excellence, os 12 produtores participantes doaram integralmente os lotes disponibilizados, permitindo que os recursos arrecadados fossem destinados a iniciativas sociais e educacionais.
A organização estabelece que 50% dos valores de arrematação sejam direcionados a projetos sociais em comunidades produtoras. A outra metade será destinada à educação cafeeira em diferentes países, incluindo atividades de capacitação, formação técnica e desenvolvimento profissional.
Dessa forma, os US$ 4.410 obtidos pelo lote da Fazenda Santuário Sul não constituem receita comercial convencional recebida integralmente pelo produtor. O valor corresponde ao arremate de um produto doado para uma iniciativa de financiamento social.
Essa característica também influencia a formação dos preços. Além das qualidades sensoriais e da disponibilidade limitada, os compradores participam de uma operação cuja arrecadação possui finalidade beneficente. O resultado não deve, portanto, ser utilizado como referência automática para contratos regulares de compra e venda de café.
A exposição internacional proporcionada pelo evento, entretanto, pode contribuir para ampliar o reconhecimento comercial dos produtores participantes. O encontro reúne representantes de torrefadoras, importadores, compradores especializados e profissionais envolvidos na cadeia internacional do café.
Safra brasileira deve alcançar 67,6 milhões de sacas em 2026
A valorização obtida pelo microlote mineiro ocorre em um ano de expansão da produção nacional. Segundo o terceiro levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 24 de setembro, a safra brasileira de café está estimada em 67,6 milhões de sacas de 60 quilos em 2026, crescimento de 19,6% em relação a 2025.
A projeção representa o maior volume da série histórica da estatal e reflete a combinação de bienalidade positiva das lavouras, aumento da área em produção e melhora da produtividade. A área produtiva foi estimada em 1,95 milhão de hectares, expansão de 5,1% sobre o ano anterior.
Para o café arábica, espécie à qual pertence o geisha comercializado no Japão, a Conab prevê colheita de 48,2 milhões de sacas, aumento de 34,8% em relação à safra anterior. O volume corresponde a aproximadamente 71,3% de toda a produção brasileira estimada para 2026.
Minas Gerais continua exercendo papel central nesse mercado. A produção mineira de arábica foi projetada em 34,96 milhões de sacas, o equivalente a aproximadamente 72,5% do total nacional da espécie. Apenas as regiões sul e centro-oeste do estado deverão responder por 15,93 milhões de sacas.
Esses números mostram a dimensão da cafeicultura mineira e ajudam a contextualizar a origem do produto premiado no exterior. O estado reúne propriedades voltadas à produção em grande escala e fazendas especializadas em microlotes de qualidade superior.
A comparação também revela diferenças importantes entre os segmentos. Enquanto a maior parte da produção brasileira abastece canais comerciais de grande volume, os cafés especiais podem conquistar valorização adicional por atributos sensoriais, rastreabilidade, reputação e relacionamento com compradores.
O preço obtido no Japão não representa o valor médio do café mineiro ou brasileiro, mas evidencia uma alternativa de diferenciação econômica para produtores capazes de alcançar padrões exigidos pelo mercado de especialidades.
Resultado reforça a presença internacional dos cafés especiais brasileiros
A comercialização do geisha da Fazenda Santuário Sul amplia a visibilidade da Mantiqueira de Minas em um segmento internacional no qual a qualidade e a identificação de origem influenciam diretamente a disposição dos compradores em pagar preços superiores.
O desempenho de Luiz Paulo Dias Pereira Filho também demonstra a importância de uma trajetória construída por meio de investimentos produtivos, participação em competições e acesso a canais especializados de comercialização. O histórico da família ajuda a explicar o reconhecimento alcançado pelo lote, embora não seja possível atribuir o valor obtido a um único fator.
A presença brasileira entre os quatro maiores preços do leilão representa um resultado relevante para o posicionamento internacional dos cafés especiais do país. Ao mesmo tempo, a comparação com os demais participantes revela a existência de concorrência qualificada de produtores da América Central, especialmente Honduras e Nicarágua.
A negociação registrada em Tóquio deve ser interpretada dentro de suas características específicas: um lote de aproximadamente 10 quilos, vendido em uma competição beneficente, por US$ 200 a libra-peso. A equivalência de R$ 134,6 mil por saca serve como referência para dimensionar o preço alcançado, mas não corresponde a uma transação efetiva de 60 quilos.
O resultado documentado é que a Snow Beans arrematou o café brasileiro por US$ 4.410, colocando a Fazenda Santuário Sul na quarta posição geral e na liderança entre os representantes nacionais. A venda reforça o reconhecimento da cafeicultura de qualidade superior da Mantiqueira de Minas e evidencia o valor atribuído a produções selecionadas no mercado internacional.
Fontes:
Alliance for Coffee Excellence — Resultado oficial do Legends of Excellence Charity Auction de 16 de outubro de 2026, com valores de arrematação, quantidades comercializadas, identificação dos compradores e classificação dos lotes.
Alliance for Coffee Excellence — Catálogo oficial Legends of Excellence 2026, com informações sobre produtores, propriedades, variedades, processamento, altitude e histórico de participação no Cup of Excellence.
Alliance for Coffee Excellence — Apresentação institucional e regulamento do leilão beneficente, com informações sobre a destinação dos recursos arrecadados.
Alliance for Coffee Excellence — Histórico da Fazenda Santuário Sul e de Luiz Paulo Dias Pereira Filho, com registros de participações e classificações em competições internacionais.
Companhia Nacional de Abastecimento — Terceiro Levantamento da Safra de Café de 2026, divulgado em 24 de setembro, com estimativas de produção, produtividade, área cultivada e participação de Minas Gerais.










