A Nestlé registrou crescimento orgânico de 4% nas vendas do terceiro trimestre de 2026, impulsionada pela recuperação dos volumes comercializados e pelo desempenho dos mercados emergentes. O resultado, divulgado nesta quinta-feira (22), representa uma aceleração em relação aos trimestres anteriores e reforça a estratégia da multinacional suíça de ampliar o faturamento por meio do consumo efetivo de seus produtos, reduzindo a dependência de reajustes de preços. Entre julho e setembro, as vendas globais alcançaram 22,76 bilhões de francos suíços, ante 21,64 bilhões no mesmo período de 2025.
O principal indicador dessa recuperação foi o crescimento interno real, conhecido pela sigla RIG, que avançou 2,8% no trimestre, contra 1,8% registrado entre abril e junho. A métrica considera as variações de volume e do mix de produtos vendidos, permitindo identificar quanto do crescimento decorre da atividade comercial, independentemente dos reajustes de preços. A contribuição dos preços para a expansão orgânica ficou em 1,1%, evidenciando uma mudança na composição do crescimento da companhia.
Mercados emergentes lideram expansão das vendas
Os países emergentes continuaram como principal motor de crescimento da Nestlé, registrando expansão orgânica de 6,8% no terceiro trimestre, acompanhada de aumento de 4,3% no indicador de volume e mix. Nos mercados desenvolvidos, o avanço orgânico foi de 2,2%, com crescimento interno real de 1,9%. A diferença entre as regiões demonstra a importância dos mercados de maior potencial de consumo para sustentar a expansão global da fabricante de alimentos e bebidas.
A divisão que reúne Ásia, Oceania e África apresentou crescimento orgânico de 6,4%, com avanço de 5% no crescimento interno real. A Índia destacou-se com expansão orgânica de 20%, enquanto outros mercados asiáticos e do Oriente Médio também registraram resultados expressivos. O desempenho regional foi favorecido pela comercialização de alimentos, produtos de nutrição e bebidas, incluindo marcas internacionais como Nescafé, Maggi e KitKat.
Nas Américas, o crescimento orgânico atingiu 3,3%, enquanto o aumento dos volumes e do mix chegou a 2,4%. A América Latina apresentou desempenho superior à média regional, com expansão orgânica de 5,2% e crescimento interno real de 3,7%. Brasil e México foram destacados pela companhia como importantes contribuintes para a recuperação comercial, especialmente diante da moderação dos reajustes de preços.
Brasil ganha importância na estratégia global da Nestlé
O desempenho brasileiro reforça a relevância do país nos planos de expansão da multinacional, que anunciou em setembro investimentos de 310 milhões de francos suíços em nutrição e saúde até 2028. O programa contempla a construção de uma fábrica em Ituiutaba, Minas Gerais, destinada principalmente à produção de fórmulas infantis, além da modernização de outras operações industriais. A nova unidade receberá aproximadamente 94 milhões de francos suíços e deverá criar cerca de 100 empregos diretos.
A fábrica mineira tem previsão de iniciar suas atividades no segundo trimestre de 2028, atendendo ao mercado brasileiro e a oportunidades de exportação. A companhia também planeja ampliar a estrutura industrial de Araçatuba, no interior de São Paulo, e aumentar em 15% a produção de soro de leite até 2029, ingrediente utilizado em produtos de nutrição. Os investimentos representam uma aposta na ampliação da capacidade produtiva brasileira, mesmo em um cenário internacional de pressão sobre custos e margens.
A combinação de crescimento comercial e investimentos industriais oferece uma perspectiva relevante para o mercado brasileiro de alimentos e produtos nutricionais. A expansão da capacidade instalada pode aumentar a demanda por matérias-primas, embalagens, transporte e serviços industriais, com efeitos potenciais sobre fornecedores locais. A concretização desses impactos, entretanto, dependerá do ritmo de implantação dos projetos e da evolução do consumo nos próximos anos.
Alimentos para animais e produtos alimentícios sustentam crescimento
Entre as principais categorias de negócios, os produtos para animais de estimação apresentaram crescimento orgânico de 5,3%, acompanhados de avanço de 4,3% no indicador de volume e mix. A divisão foi beneficiada pelo desempenho dos alimentos para gatos e pela expansão comercial de marcas como Purina Pro Plan e ONE. A companhia também identificou melhora na correspondência entre os pedidos dos varejistas e as vendas efetivas aos consumidores, sinalizando maior equilíbrio entre demanda e estoques.
A área de alimentos e snacks cresceu 5%, impulsionada principalmente por chocolates, produtos culinários e pela recuperação de alimentos congelados nos Estados Unidos. Marcas como KitKat e Maggi contribuíram para o desempenho, enquanto a expansão de volumes e do mix da categoria chegou a 5,4%. O resultado indica que produtos de consumo recorrente continuam desempenhando papel relevante na sustentação das receitas da multinacional.
O segmento de café registrou crescimento orgânico de 3,4%, com contribuição de 2% dos preços e de 1,3% dos volumes e mix. A Nestlé destacou o desempenho de Nescafé e Starbucks, além da recuperação gradual das vendas nos Estados Unidos após reajustes realizados anteriormente. Já a divisão de águas e bebidas premium apresentou expansão orgânica de 12,3%, beneficiada pelo crescimento do consumo e pela valorização de seu portfólio.
Nem todas as atividades, entretanto, acompanharam a recuperação do grupo. A divisão de nutrição avançou apenas 0,3% em termos orgânicos, com queda de 1,1% no crescimento interno real, refletindo dificuldades em determinadas linhas de produtos e efeitos remanescentes do recolhimento de fórmulas infantis. A diferença entre os segmentos mostra que a melhora consolidada ainda convive com desafios operacionais específicos.
Vendas crescem, mas câmbio limita resultado acumulado
Nos primeiros nove meses de 2026, a Nestlé acumulou vendas de 65,87 bilhões de francos suíços, praticamente estáveis em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar da estabilidade nominal, o crescimento orgânico alcançou 3,7%, composto por avanço de 1,9% no indicador de volume e mix e contribuição de 1,8% dos preços. A diferença entre os resultados decorre principalmente do efeito negativo de 3,7% das variações cambiais sobre as receitas consolidadas.
A comparação entre os indicadores revela uma característica importante do desempenho da companhia: a recuperação da demanda ainda não se traduz integralmente em expansão do faturamento contabilizado em francos suíços. A valorização ou desvalorização das moedas nos mercados em que a empresa atua pode reduzir os resultados reportados, mesmo quando as vendas locais apresentam crescimento. Por isso, o desempenho orgânico oferece uma medida mais adequada para avaliar a evolução comercial das operações existentes.
Outro sinal de transformação aparece nas vendas digitais, que registraram crescimento orgânico de 15,3% no terceiro trimestre. O comércio eletrônico representou 21,6% das vendas globais acumuladas da companhia até setembro, demonstrando a crescente importância dos canais digitais na distribuição de alimentos, bebidas e produtos especializados. A expansão desse canal também amplia a necessidade de investimentos em tecnologia, logística e relacionamento direto com consumidores e parceiros comerciais.
Nestlé vende divisão de suplementos por US$ 1 bilhão
Paralelamente à recuperação comercial, a Nestlé avança na reorganização de seu portfólio para concentrar recursos em negócios considerados estratégicos. Em setembro, a empresa anunciou acordo para vender sua operação de vitaminas, minerais e suplementos de consumo de massa à gestora Yellow Wood Partners por US$ 1 bilhão. A transação envolve marcas como Nature’s Bounty, Osteo Bi-Flex e Ester-C, além de instalações industriais e operações de distribuição.
Os ativos incluídos no acordo produziram aproximadamente US$ 1,2 bilhão em vendas durante 2025, segundo informações divulgadas pela companhia. A operação ainda depende de aprovações regulatórias e tem conclusão prevista para o primeiro semestre de 2027. A Nestlé pretende preservar sua atuação em suplementos premium e produtos nutricionais desenvolvidos com base científica, concentrando investimentos nas áreas em que identifica maiores vantagens competitivas.
O reposicionamento faz parte de uma estratégia mais ampla de simplificação das operações e aumento da eficiência financeira. Ao reduzir a exposição a determinadas linhas de negócios, a multinacional busca direcionar capital para segmentos de maior potencial de crescimento e rentabilidade. A eficácia dessa estratégia dependerá não apenas dos recursos obtidos com as alienações, mas também da capacidade de transformar investimentos comerciais e industriais em crescimento consistente das vendas.
Operações na Rússia deixam de ser consolidadas
A Nestlé também informou que deixou de consolidar suas operações na Rússia a partir do final de setembro de 2026, depois que os negócios locais foram colocados sob administração externa temporária por determinação das autoridades russas. A companhia afirmou que permanece proprietária legal dos ativos, mas deixou de exercer controle sobre a gestão das operações. Segundo o comunicado, a mudança não alterou os indicadores de vendas do terceiro trimestre e dos nove primeiros meses do ano.
Em bases anualizadas, as operações russas representavam aproximadamente 2% das vendas globais e entre 3% e 4% do lucro operacional recorrente subjacente e do fluxo de caixa livre. A retirada dos ativos da consolidação contábil envolve o reconhecimento de efeitos patrimoniais relevantes, incluindo a baixa de ativos líquidos de aproximadamente 1,6 bilhão de francos suíços. A companhia estima ainda um impacto desfavorável de cerca de 900 milhões de francos suíços sobre a dívida líquida ao final de 2026.
Nestlé mantém metas financeiras para 2026
Apesar das incertezas econômicas e geopolíticas, a Nestlé manteve suas projeções financeiras para o encerramento de 2026. A companhia espera crescimento orgânico entre 3% e 4% no acumulado do ano, acompanhado de melhora da margem de lucro operacional recorrente subjacente em relação a 2025. A expectativa para o fluxo de caixa livre permanece acima de 9 bilhões de francos suíços.
O presidente-executivo Philipp Navratil atribuiu a recuperação à execução comercial e à estratégia de concentrar investimentos nas atividades mais competitivas. Segundo o executivo, a melhora do crescimento interno real em todas as regiões representa um avanço na busca por uma expansão sustentável, apoiada no aumento efetivo das vendas. A direção pretende manter a disciplina financeira e ampliar a produtividade das operações diante das pressões sobre custos e consumo.
O desempenho do terceiro trimestre coloca a Nestlé em uma posição mais favorável para cumprir suas metas anuais, mas também evidencia diferenças importantes entre mercados e categorias de produtos. Enquanto alimentos para animais, snacks e mercados emergentes apresentam maior dinamismo, parte dos negócios de nutrição ainda enfrenta dificuldades para recuperar volumes. Para os próximos trimestres, a principal questão será a capacidade da multinacional de sustentar o crescimento comercial sem depender de novos reajustes expressivos de preços, preservando margens e geração de caixa.
Fontes
Nestlé S.A. — Third-quarter and nine-month 2026 sales, comunicado oficial de 22 de outubro de 2026.










