A Fitch Ratings rebaixou nesta quinta-feira (22) a classificação de crédito da RaÃzen (RAIZ4) para o nÃvel de inadimplência restrita, conhecido como restricted default (RD), após o avanço do plano de recuperação extrajudicial da companhia. A decisão representa um novo agravamento da avaliação de risco do grupo, que negocia a reestruturação de aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dÃvidas financeiras. A mudança ocorre enquanto a empresa prepara um aumento de capital de pelo menos R$ 3,5 bilhões e uma ampla reorganização societária.
A agência reduziu os ratings de longo prazo da RaÃzen e de sua subsidiária RaÃzen Energia de ‘C’ para ‘RD’, tanto em moeda nacional quanto estrangeira. Na escala brasileira, as classificações passaram de ‘C(bra)’ para ‘RD(bra)’. A alteração reflete o entendimento de que a renegociação das obrigações financeiras representa um evento de inadimplência segundo os critérios de avaliação da Fitch.
O rebaixamento não significa que a companhia tenha encerrado suas atividades ou entrado automaticamente em processo de falência. A classificação indica que determinadas obrigações foram afetadas por um processo de reestruturação considerado equivalente à inadimplência, mesmo que a empresa continue operando. A distinção é particularmente importante para compreender os riscos enfrentados por credores, acionistas e parceiros comerciais.
Por que a Fitch classificou a RaÃzen como inadimplente?
A decisão está relacionada à s condições previstas no plano de recuperação extrajudicial, homologado pela Justiça de São Paulo em 30 de julho. O acordo permite modificar prazos e formas de pagamento de determinadas dÃvidas financeiras, inclusive para credores que não aderiram individualmente à proposta. Na avaliação da Fitch, a alteração compulsória das condições originalmente contratadas caracteriza um evento de crédito suficientemente grave para justificar a classificação RD.
O plano recebeu apoio de credores titulares de aproximadamente 81,6% dos créditos financeiros sujeitos à renegociação. A homologação judicial tornou suas disposições obrigatórias para os participantes da categoria abrangida, incluindo aqueles que não concordaram com os novos termos. O mecanismo permite reorganizar o endividamento sem exigir a abertura de uma recuperação judicial tradicional.
Entre as medidas previstas estão a suspensão de pagamentos abrangidos pelo acordo e a capitalização de juros durante a implementação da reestruturação. Também estão contempladas alternativas de conversão de dÃvidas em participação acionária e substituição de obrigações por novos instrumentos financeiros. Essas operações buscam reduzir a pressão sobre o caixa, mas alteram as condições de recuperação dos valores devidos aos credores.
A Fitch já havia sinalizado essa possibilidade em março, quando reduziu a classificação da RaÃzen para ‘C’. Na ocasião, a agência afirmou que o avanço formal do processo de renegociação poderia levar ao enquadramento da companhia como inadimplente em determinadas obrigações. A revisão anunciada nesta quinta-feira representa, portanto, a materialização de um risco anteriormente identificado.
RaÃzen prepara aumento de capital de pelo menos R$ 3,5 bilhões
Paralelamente à renegociação das dÃvidas, a RaÃzen anunciou na quarta-feira (21) uma proposta de aumento de capital de, no mÃnimo, R$ 3,5 bilhões. A operação prevê a emissão de pelo menos 14 bilhões de ações ordinárias e preferenciais, ao preço de R$ 0,25 por papel. O valor máximo da capitalização ainda dependerá da participação dos investidores, da conversão de créditos e das demais condições estabelecidas no plano.
A emissão faz parte da estratégia para fortalecer a estrutura financeira da empresa e permitir a continuidade da reorganização. Além da entrada de novos recursos, o processo poderá transformar parte do endividamento em participação societária. Com isso, credores poderão passar a integrar o capital da companhia, modificando a distribuição de poder entre os acionistas.
As medidas societárias necessárias à operação serão submetidas a assembleias marcadas para 30 de outubro. Caso recebam aprovação, o conselho de administração deverá deliberar sobre o aumento de capital em 5 de novembro. O cronograma divulgado pela RaÃzen prevê o exercÃcio do direito de preferência entre 6 de novembro e 7 de dezembro, sujeito à s condições e aprovações aplicáveis.
A companhia trabalha com a possibilidade de homologar a capitalização em dezembro e concluir as principais etapas da recuperação extrajudicial até 31 de março de 2027. O calendário, entretanto, depende do cumprimento de condições contratuais, regulatórias e societárias. Eventuais atrasos poderão prolongar a incerteza sobre a estrutura financeira definitiva do grupo.
Acionistas da RaÃzen (RAIZ4) enfrentam risco elevado de diluição
Para os atuais acionistas, a emissão de bilhões de novos papéis representa um dos principais riscos da reorganização. Quando uma companhia aumenta substancialmente a quantidade de ações em circulação, a participação percentual de quem não acompanha a operação pode diminuir. Esse efeito é conhecido como diluição acionária e pode afetar tanto a influência societária quanto a parcela dos resultados futuros atribuÃda a cada investidor.
A dimensão potencial do processo é expressiva. A proposta de emissão mÃnima de 14 bilhões de ações, combinada à possibilidade de conversão de créditos em capital, poderá modificar profundamente a composição acionária da RaÃzen. O impacto definitivo dependerá do número de papéis efetivamente emitidos e das condições aplicáveis a cada classe.
A empresa prevê direito de preferência aos acionistas elegÃveis, permitindo que participem da capitalização conforme as regras que forem aprovadas. Entretanto, o exercÃcio desse direito exige novos recursos financeiros, o que pode limitar a capacidade de participação de investidores individuais. Quem optar por não subscrever os novos papéis ficará exposto à redução proporcional de sua participação.
A reorganização também poderá modificar a identificação das ações na Bolsa. A proposta prevê transformar as atuais preferenciais em ações preferenciais classe A, que passariam a ser negociadas sob o código RAIZ5, em substituição ao RAIZ4, caso as deliberações sejam aprovadas. A mudança de ticker é uma alteração societária e não representa, por si só, valorização ou recuperação do investimento.
Separação entre energia e combustÃveis integra recuperação
Outra frente importante da reestruturação envolve a separação das operações do grupo em dois grandes negócios. A RaÃzen Energia concentrará as atividades ligadas à produção de açúcar, etanol e bioenergia, enquanto a RaÃzen CombustÃveis reunirá as operações de distribuição de combustÃveis. A reorganização busca estabelecer estruturas financeiras e societárias mais adequadas à s caracterÃsticas de cada atividade.
As duas operações possuem dinâmicas econômicas distintas. A produção de açúcar e etanol está exposta à s condições climáticas, aos preços internacionais das commodities e aos investimentos necessários para o processamento de cana-de-açúcar. Já a distribuição de combustÃveis depende principalmente dos volumes comercializados, das margens operacionais e da eficiência logÃstica.
A separação poderá facilitar a avaliação individual de cada negócio e permitir estruturas de financiamento diferentes. Entretanto, também exigirá decisões sobre a distribuição das dÃvidas, a transferência de ativos e a composição dos novos órgãos de governança. Essas definições serão fundamentais para estabelecer a capacidade de pagamento das empresas após a conclusão do processo.
A RaÃzen Energia também avançou nos procedimentos para sua futura negociação no mercado de capitais. A subsidiária recebeu autorização da Comissão de Valores Mobiliários para converter seu registro de categoria B para categoria A, condição que amplia as possibilidades de emissão de valores mobiliários. A efetiva listagem das ações, porém, ainda depende das demais etapas regulatórias e societárias.
Reestruturação pode melhorar caixa, mas não elimina risco financeiro
A renegociação oferece à RaÃzen a possibilidade de reorganizar vencimentos e reduzir a pressão imediata sobre sua liquidez. Essa melhora, contudo, não significa necessariamente uma recuperação definitiva da situação financeira. A sustentabilidade da companhia dependerá da capacidade de gerar recursos operacionais suficientes para financiar suas atividades e cumprir as novas obrigações.
O histórico recente ajuda a explicar a gravidade da crise. Na documentação apresentada à Justiça, o grupo atribuiu suas dificuldades a uma combinação de investimentos elevados, condições financeiras adversas, problemas climáticos na produção agrÃcola e deterioração de determinadas operações. Esses fatores contribuÃram para aumentar o endividamento e reduzir a flexibilidade financeira da companhia.
O resultado da reestruturação também será diferente para credores e acionistas. Para os primeiros, a conversão de créditos em ações pode significar abrir mão de direitos contratuais de recebimento em troca de participação no negócio. Para os segundos, a redução do endividamento pode melhorar a viabilidade da empresa, mas ao custo de uma potencial diluição expressiva.
Essa diferença demonstra por que uma recuperação operacional não implica necessariamente recuperação do preço das ações. Mesmo que a RaÃzen consiga reduzir suas dÃvidas e fortalecer o caixa, o valor econômico remanescente para os acionistas dependerá da nova quantidade de papéis em circulação e da distribuição dos direitos societários. A reorganização pode preservar a atividade empresarial sem garantir a recomposição das perdas de investidores antigos.
O que acontece agora com a RaÃzen?
A próxima etapa relevante será a assembleia de 30 de outubro, quando os acionistas deverão deliberar sobre mudanças na estrutura de capital, na governança e nas classes de ações. A aprovação dessas medidas será necessária para avançar na capitalização e em outras disposições do plano de recuperação extrajudicial. O resultado das votações poderá influenciar diretamente a velocidade de implementação da reestruturação.
A Fitch deverá acompanhar a conclusão dessas operações antes de realizar uma nova avaliação do perfil de crédito do grupo. Entre os fatores relevantes estarão a dÃvida remanescente, o caixa disponÃvel, o calendário de vencimentos e a capacidade de geração de recursos das empresas reorganizadas. Uma melhora na classificação dependerá de condições financeiras concretas, não apenas da aprovação formal das propostas.
O cenário continuará exigindo atenção dos investidores. Embora o plano de recuperação extrajudicial represente uma tentativa de preservar os negócios e reorganizar as obrigações financeiras, sua execução envolve riscos societários, operacionais e de financiamento. Caso as medidas não produzam os resultados necessários, a companhia poderá enfrentar novas dificuldades e precisar avaliar alternativas mais severas de reorganização.
A classificação de inadimplência restrita marca uma etapa decisiva na crise financeira da RaÃzen. A empresa precisa agora demonstrar que a renegociação de R$ 61,4 bilhões, a entrada de capital e a separação dos negócios serão suficientes para restabelecer uma estrutura sustentável. Para os acionistas de RAIZ4, o principal desafio será compreender quanto valor poderá permanecer nas ações após uma das maiores reestruturações corporativas do paÃs.
Fontes
Fitch Ratings — Relatório de rebaixamento de crédito da RaÃzen para C, de 12 de março de 2026, e critérios de classificação de inadimplência restrita.
RaÃzen S.A. — Comunicado ao mercado de 21 de outubro de 2026 sobre proposta de aumento de capital e cronograma de subscrição.
Comissão de Valores Mobiliários — Documentos societários da RaÃzen relativos à recuperação extrajudicial, capitalização e reorganização do grupo.
Tribunal de Justiça de São Paulo — Sentença de homologação do plano de recuperação extrajudicial da RaÃzen, de 30 de julho de 2026.
RaÃzen S.A. — Propostas da administração para as assembleias de acionistas de 30 de outubro de 2026.








