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O que é a emenda Master, proposta que colocou Ciro Nogueira na mira da PF

Texto apresentado no Senado previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a proteção do FGC por investidor e é investigado por suspeita de ter sido elaborado por interesses ligados ao Banco Master

por Júlia Campos
08/05/2026 às 11h50
em Política
O Que É A Emenda Master, Proposta Que Colocou Ciro Nogueira Na Mira Da Pf - Gazeta Mercantil

A chamada emenda Master é uma proposta legislativa apresentada no Senado em 2024 que previa ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) por investidor. O texto, incluído na tramitação da PEC 65/2023, entrou no centro de uma investigação da Polícia Federal por suspeita de ter sido elaborado por pessoas ligadas ao Banco Master e reproduzido pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil. A apuração, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), investiga se a proposta poderia beneficiar o modelo de captação do banco, que oferecia aplicações financeiras com cobertura do FGC e rentabilidade acima dos padrões de mercado.

A emenda Master ganhou esse nome depois que a crise envolvendo o Banco Master avançou para o campo político e regulatório. O ponto central da proposta era aumentar de forma expressiva a garantia oferecida pelo FGC em caso de quebra de instituições financeiras. Na prática, a mudança permitiria que investidores tivessem até R$ 1 milhão protegidos por CPF ou CNPJ, por instituição, em determinadas aplicações cobertas pelo fundo.

A Polícia Federal apura se o texto da emenda Master teria sido produzido dentro do próprio ecossistema do Banco Master e posteriormente apresentado no Senado por Ciro Nogueira. Segundo elementos mencionados na decisão judicial, a proposta teria sido entregue ao parlamentar e reproduzida integralmente. A defesa do senador nega qualquer irregularidade e afirma que sua atuação parlamentar foi regular.

O caso elevou a pressão sobre Ciro Nogueira, sobre o Banco Master e sobre a discussão a respeito dos limites da influência privada na elaboração de normas para o sistema financeiro. A investigação também reacendeu o debate sobre o papel do FGC, instrumento criado para proteger depositantes e investidores, mas que pode se tornar vulnerável quando usado como argumento comercial para captação agressiva de recursos.

O que é a emenda Master

A emenda Master é a emenda número 11 apresentada por Ciro Nogueira em 13 de agosto de 2024 no âmbito da PEC 65/2023, proposta de emenda à Constituição que trata de mudanças na estrutura e no funcionamento do Banco Central. O texto ainda tramita na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e não chegou a ser votado.

O trecho mais sensível da emenda Master previa a ampliação do limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor. Essa alteração teria efeito direto sobre aplicações financeiras emitidas por instituições participantes do fundo, como CDBs, letras de câmbio, letras de crédito e outros instrumentos protegidos dentro das regras vigentes.

Na justificativa da proposta, Ciro Nogueira argumentou que a cobertura brasileira deveria ser ajustada a patamares internacionais. O texto citava o modelo dos Estados Unidos, onde o limite de garantia de depósitos é de US$ 250 mil, valor equivalente a cerca de R$ 1,2 milhão na cotação atual. A justificativa apresentada defendia que o aumento da garantia daria mais segurança aos investidores e aproximaria o Brasil de práticas adotadas em outros mercados.

A emenda Master também previa que o FGC passaria a ser submetido a uma regulação pública, por meio de resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN). O argumento era que a maior parte dos sistemas de garantia de depósitos no mundo possui natureza pública ou algum tipo de supervisão estatal mais direta.

O problema, segundo a investigação, está no contexto em que a proposta foi apresentada e nos possíveis beneficiários da mudança. Para a Polícia Federal, a emenda Master poderia favorecer diretamente bancos médios com forte dependência de captação por produtos garantidos pelo FGC, entre eles o Banco Master.

Como funciona o FGC

O Fundo Garantidor de Crédito é uma entidade privada, sem fins lucrativos, mantida por contribuições das instituições financeiras associadas. Sua função é ressarcir depositantes e investidores dentro de limites estabelecidos quando uma instituição financeira quebra, sofre intervenção ou passa por liquidação.

O FGC funciona como um mecanismo de confiança para o sistema financeiro. Ao saber que parte dos recursos aplicados está protegida, o investidor tende a ter mais segurança para aplicar em instituições menores, não apenas nos grandes bancos. Esse sistema contribui para ampliar a concorrência bancária e reduzir o risco de corridas generalizadas em momentos de estresse.

Atualmente, a garantia ordinária é limitada a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro, respeitados os demais limites previstos nas regras do fundo. A emenda Master buscava multiplicar esse teto por quatro, elevando a cobertura para R$ 1 milhão.

Essa alteração teria impacto relevante sobre o mercado. Bancos menores poderiam oferecer aplicações com valores mais elevados sob a proteção do FGC. Investidores, por sua vez, poderiam concentrar recursos maiores em instituições de maior risco, com a percepção de que estariam protegidos em caso de quebra.

Para críticos da proposta, o aumento do limite poderia criar incentivos inadequados. Se uma instituição financeira oferece remuneração muito acima da média e conta com uma garantia robusta para atrair investidores, o risco final pode ser deslocado para o fundo e, indiretamente, para o conjunto do sistema bancário que financia o mecanismo.

Por que a proposta interessava ao Banco Master

O Banco Master cresceu de forma acelerada no mercado ao vender produtos de investimento com taxas superiores às praticadas por grandes bancos. Parte desses produtos tinha cobertura do FGC, o que tornava a oferta mais atraente para investidores dispostos a buscar rentabilidade elevada sem assumir, ao menos na aparência, todo o risco da instituição emissora.

Segundo as investigações, esse modelo de captação teria sido central para a expansão do banco. A instituição oferecia aplicações protegidas pelo FGC e prometia retornos acima dos padrões de mercado. Os recursos captados, de acordo com a apuração, teriam sido direcionados a operações consideradas de alto risco ou suspeitas de irregularidades.

Nesse contexto, a emenda Master poderia ampliar a capacidade de captação de bancos como o Master. Com uma garantia de até R$ 1 milhão por investidor, a instituição poderia vender volumes maiores de aplicações financeiras protegidas, reduzindo a resistência de clientes a alocar recursos em uma instituição de risco mais elevado.

A investigação sustenta que interlocutores ligados ao Banco Master viam a proposta como uma medida de grande impacto para o setor. Mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro, dono do banco, indicariam comemoração pela apresentação da emenda. Em uma das mensagens mencionadas na apuração, o banqueiro teria afirmado que o projeto seria uma “bomba atômica” no mercado financeiro, por beneficiar bancos médios e reduzir o poder dos grandes.

Esse ponto tornou a emenda Master um dos focos centrais da Operação Compliance Zero. Para os investigadores, a proposta não seria apenas uma iniciativa legislativa abstrata sobre o sistema financeiro, mas uma medida que poderia atender a interesses específicos de uma instituição em crise.

Liquidação do Master elevou pressão sobre o FGC

A crise do Banco Master ganhou dimensão sistêmica depois da liquidação da instituição pelo Banco Central. Com a quebra do banco e de instituições ligadas ao conglomerado, o FGC precisou acionar sua estrutura para ressarcir investidores dentro dos limites de garantia.

O impacto estimado foi de aproximadamente R$ 52 bilhões, considerando também instituições associadas ao grupo, como Will Bank e Banco Pleno. O valor é apontado como o maior desembolso da história do fundo, o que reforçou a preocupação de reguladores, bancos e investidores com os riscos de modelos de captação agressivos baseados na proteção do FGC.

A emenda Master passou a ser analisada sob esse pano de fundo. Se o limite de cobertura já estivesse em R$ 1 milhão no momento da liquidação, o desembolso potencial do FGC poderia ter sido ainda maior. A proposta, portanto, deixou de ser apenas um debate regulatório e passou a ser vista como uma peça de possível impacto bilionário para o sistema financeiro.

O episódio também colocou em discussão a governança do próprio FGC. Embora o fundo seja privado, sua atuação tem relevância pública, pois protege a estabilidade do sistema financeiro e a confiança de investidores. Uma mudança no limite de cobertura altera incentivos de bancos, investidores e reguladores.

Para o mercado, a principal preocupação é evitar que a garantia funcione como estímulo a práticas excessivamente arriscadas. Quando a proteção é muito ampla, instituições podem captar recursos a custos elevados e aplicar em operações de risco, enquanto investidores tendem a prestar menos atenção à solidez do emissor.

PF apura se texto foi redigido por interesses privados

A decisão do ministro André Mendonça afirma que a Polícia Federal reuniu indícios de que a emenda Master teria sido elaborada por assessores ou interlocutores ligados ao Banco Master. Segundo a apuração, o texto teria sido entregue na residência de Ciro Nogueira e posteriormente reproduzido pelo senador no Senado.

Ainda de acordo com a investigação, mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro indicariam que o banqueiro acompanhou a apresentação da proposta e teria comemorado o conteúdo final. A decisão menciona a afirmação de que o texto teria saído “exatamente” como enviado.

A Polícia Federal também apura se houve outros episódios semelhantes envolvendo minutas de projetos de interesse do grupo. Segundo a decisão, em 2023, Vorcaro teria determinado a retirada de envelopes da residência do senador com textos de interesse particular, que depois teriam sido levados a um escritório indicado pelo banqueiro e entregues a um servidor vinculado ao parlamentar.

Para o ministro André Mendonça, os elementos indicariam a necessidade de aprofundamento das investigações. A decisão aponta que os episódios poderiam ultrapassar os canais ordinários de interlocução entre agentes políticos e representantes da iniciativa privada.

Apesar disso, a apuração ainda está em andamento. Os investigados têm direito à defesa, e as suspeitas precisarão ser comprovadas no curso do processo. A existência de mensagens, minutas e registros de reuniões não representa, por si só, condenação ou comprovação definitiva de crime.

Ciro Nogueira nega irregularidades

A defesa de Ciro Nogueira repudiou qualquer ilação de ilicitude sobre a conduta do senador e afirmou que sua atuação parlamentar ocorreu dentro das prerrogativas do mandato. Os advogados sustentam que o parlamentar não teve participação em atividades ilícitas e que está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.

Em nota, a defesa argumentou que medidas investigativas graves e invasivas não deveriam ser tomadas com base em trocas de mensagens atribuídas a terceiros. Os advogados também indicaram que a legalidade das medidas deverá ser discutida tecnicamente nas cortes competentes.

A estratégia defensiva tende a se concentrar em dois pontos. O primeiro é a prerrogativa parlamentar de apresentar emendas e propostas legislativas. O segundo é a tentativa de afastar a ideia de que a emenda Master teria sido apresentada como contrapartida a vantagens indevidas.

O caso, no entanto, tem forte repercussão política porque envolve um senador influente, presidente de um dos maiores partidos do país e ex-ministro da Casa Civil. Ciro Nogueira é um dos principais nomes do Centrão e tem histórico de atuação em articulações relevantes no Congresso.

A investigação também atinge pessoas próximas ao parlamentar. Entre os alvos está Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador, que, segundo a decisão, deverá usar tornozeleira eletrônica, entregar o passaporte e não manter contato com outros investigados.

Operação bloqueou R$ 18,85 milhões

Na nova fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal cumpriu 10 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária nos estados do Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. A decisão também determinou o bloqueio de bens, direitos e valores no total de R$ 18,85 milhões.

Entre os alvos da prisão temporária está Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro. Segundo a investigação, ele integraria o núcleo financeiro-operacional do grupo ligado ao banqueiro e teria participação em supostas práticas de lavagem de dinheiro por meio de sociedades e movimentações patrimoniais.

A decisão menciona conversas atribuídas a Daniel Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro sobre pagamentos mensais que teriam como destinatário Ciro Nogueira. Os valores citados nas mensagens variariam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil. Em um dos diálogos, Daniel teria reclamado de atraso em pagamentos relacionados ao senador.

A Polícia Federal também aponta suspeitas de outras vantagens indevidas, como hospedagens em hotéis, refeições em restaurantes de alto padrão, disponibilização de cartão para despesas pessoais e uma operação societária com deságio estimado em R$ 12 milhões.

Esses elementos são tratados pela investigação como indícios que justificaram as medidas cautelares. Caberá ao processo apurar a origem dos valores, a natureza das relações entre os envolvidos e se houve vínculo entre eventuais vantagens e a apresentação da emenda Master.

Caso reacende debate sobre lobby e regulação financeira

A emenda Master tornou-se um caso emblemático por reunir três dimensões sensíveis: a atuação de agentes privados no Congresso, a regulação do sistema financeiro e o uso do FGC como instrumento de segurança para investidores.

A interlocução entre empresas, entidades setoriais e parlamentares faz parte da rotina legislativa. Setores econômicos frequentemente apresentam sugestões, estudos e propostas de alteração normativa. O problema surge quando a investigação aponta suspeita de que uma proposta tenha sido elaborada por um interessado direto e apresentada no Parlamento em possível troca por vantagens indevidas.

No caso da emenda Master, a Polícia Federal busca esclarecer se a iniciativa foi uma proposta legítima de política financeira ou se representou uma tentativa de beneficiar uma instituição específica em momento de expansão agressiva e fragilidade regulatória.

O episódio também pressiona o debate sobre a supervisão de bancos médios. A quebra do Banco Master expôs riscos associados a instituições que captam volumes relevantes oferecendo retornos elevados com respaldo da garantia do FGC. Para reguladores e participantes do mercado, a questão central é como preservar a concorrência sem permitir que a proteção do fundo seja usada para ampliar riscos sistêmicos.

A discussão deve continuar no Congresso, no Banco Central e no próprio sistema financeiro. A emenda Master ainda não foi votada, mas sua inclusão na investigação da PF transformou uma proposta técnica sobre garantia de depósitos em um dos principais pontos de tensão política e institucional envolvendo o caso Banco Master.

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