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Oncoclínicas (ONCO3) tenta renegociar dívida em meio a disputa societária bilionária

Com apenas 29,79% dos créditos abrangidos pelo plano de recuperação extrajudicial representados por adesões, companhia enfrenta impasse entre acionistas, decisão judicial contra exigência da CVM e pressão para reorganizar suas operações

por João Souza
30/10/2026 às 09h46
em Empresas
Oncoclínicas (Onco3) - Gazeta Mercantil

A Oncoclínicas (ONCO3) enfrenta uma disputa societária bilionária enquanto tenta avançar na renegociação de aproximadamente R$ 5,7 bilhões em dívidas. A companhia, especializada no tratamento de câncer, informou na quinta-feira (29) que seu plano de recuperação extrajudicial reúne adesões equivalentes a 29,79% dos créditos considerados para o cálculo do quórum legal, percentual ainda insuficiente para alcançar o apoio necessário à aprovação da proposta.

O impasse financeiro ocorre paralelamente a uma disputa entre acionistas que envolve uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) estimada pelo mercado em até R$ 14 bilhões. A operação havia sido determinada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mas teve sua exigibilidade suspensa provisoriamente pela Justiça Federal de São Paulo em 23 de outubro.

A decisão judicial levou a Oncoclínicas a cancelar uma assembleia extraordinária marcada para 3 de novembro, na qual os acionistas discutiriam a suspensão dos direitos políticos do fundo Josephina III, ligado à gestora americana Centaurus. O fundo questiona a obrigação de comprar ações dos demais investidores, decorrente de uma reorganização societária realizada em novembro de 2024.

A combinação de elevado endividamento, divergências entre acionistas e dificuldades operacionais aumenta a incerteza sobre o futuro da empresa. A prioridade financeira é obter apoio suficiente dos credores para concluir a reestruturação, preservar liquidez e dar continuidade às atividades assistenciais.

Plano de recuperação da Oncoclínicas tem adesão de 29,79% dos créditos

Em fato relevante divulgado em 29 de outubro, a Oncoclínicas comunicou o protocolo de uma versão atualizada de seu plano de recuperação extrajudicial, em andamento na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo.

A proposta abrange aproximadamente R$ 5,7 bilhões em créditos, excluídas as obrigações entre empresas do próprio grupo. Segundo a companhia, o documento recebeu ajustes de redação e adequações complementares que não modificam materialmente as condições econômicas e financeiras apresentadas anteriormente.

A adesão registrada equivale a 29,79% do valor dos créditos considerados para o quórum, e não necessariamente ao mesmo percentual em número de credores. Para alcançar o patamar legal de mais da metade dos créditos abrangidos, a empresa ainda precisa ampliar significativamente o apoio à proposta.

A recuperação extrajudicial permite que uma companhia negocie condições de pagamento com seus credores e submeta o acordo à homologação judicial. Diferentemente da recuperação judicial, o procedimento busca estruturar previamente a renegociação, embora também esteja sujeito a requisitos legais, manifestações dos credores e decisões da Justiça.

A Oncoclínicas declarou confiar na obtenção das adesões adicionais dentro do prazo previsto na legislação. Uma vez cumpridas as exigências, o plano seguirá para análise judicial, com possibilidade de apresentação de impugnações pelos credores.

O resultado das negociações é determinante para o futuro financeiro da rede. Sem apoio suficiente, a empresa poderá precisar reformular a proposta ou avaliar outras medidas de reorganização de suas obrigações, incluindo a possibilidade de recorrer à recuperação judicial.

Disputa entre Centaurus e acionistas envolve OPA de até R$ 14 bilhões

A controvérsia societária começou a ganhar dimensão regulatória depois de uma reorganização realizada em 4 de novembro de 2024, envolvendo estruturas de investimento ligadas à Centaurus e ao Goldman Sachs.

Na operação, o fundo Josephina III passou a deter diretamente aproximadamente 16,05% das ações da Oncoclínicas. O percentual ultrapassou o limite de 15% estabelecido no estatuto social da companhia para a incidência de uma cláusula de proteção societária conhecida no mercado como poison pill.

Esse mecanismo prevê, em determinadas circunstâncias, que um investidor que alcance participação relevante seja obrigado a realizar uma oferta de compra das ações pertencentes aos demais acionistas. A finalidade é proteger a estrutura acionária contra alterações significativas de concentração de capital sem a possibilidade de saída dos outros investidores.

A Centaurus sustenta que não houve uma aquisição efetiva de novas ações, mas uma redistribuição de participações que já integravam sua estrutura de investimentos antes da abertura de capital da Oncoclínicas. Por essa interpretação, a operação estaria abrangida por uma exceção prevista no estatuto.

A área técnica da CVM inicialmente concordou com o entendimento de que a oferta não seria exigível. Entretanto, em reunião realizada em 25 de agosto de 2026, o colegiado da autarquia decidiu em sentido contrário, reconhecendo a obrigação de realizar a OPA.

A determinação estabeleceu prazo máximo de 60 dias para a operação, com atualização do preço desde novembro de 2024. As estimativas divulgadas no mercado apontam que o desembolso poderia variar de R$ 6 bilhões a R$ 14 bilhões, dependendo dos critérios utilizados para calcular a oferta.

Esses montantes são projeções relacionadas à controvérsia, e não valores definitivamente reconhecidos como devidos pela Justiça.

Justiça suspende exigência da CVM e Oncoclínicas cancela assembleia

O fundo Josephina III contestou a determinação administrativa na Justiça Federal, argumentando que a CVM teria ultrapassado os limites de sua competência ao exigir o cumprimento de uma obrigação prevista exclusivamente no estatuto da companhia.

Em 23 de outubro, a 21ª Vara Cível Federal de São Paulo concedeu uma liminar suspendendo provisoriamente os efeitos da decisão da autarquia. O juiz Paulo Cezar Neves Junior considerou relevantes as questões apresentadas sobre a competência regulatória, o contraditório e a ampla defesa no procedimento administrativo.

A decisão impede, por enquanto, que o fundo seja obrigado a executar a OPA nos termos determinados pelo colegiado, bem como a aplicação das penalidades relacionadas ao descumprimento dessa exigência enquanto estiver vigente a medida.

A liminar, entretanto, não representa um julgamento definitivo sobre a existência ou inexistência da obrigação. O mérito da controvérsia permanece sujeito à análise judicial.

A repercussão foi imediata na administração da Oncoclínicas. Em comunicado divulgado em 28 de outubro, a empresa informou ter cancelado a assembleia extraordinária prevista para 3 de novembro, convocada a pedido de fundos ligados à gestora Latache.

A reunião teria como finalidade deliberar sobre a suspensão dos direitos políticos do Josephina III em razão do alegado descumprimento da obrigação de realizar a oferta pública de ações.

Com a determinação da CVM provisoriamente suspensa, a companhia considerou que a assembleia havia perdido sua finalidade. A Oncoclínicas também esclareceu que não integra, como parte, a ação anulatória apresentada pelo fundo contra a autarquia.

O conflito societário continua relevante para a governança da empresa, especialmente diante das discussões sobre a composição do conselho de administração e a condução da recuperação financeira.

Prejuízo de R$ 3,7 bilhões em 2025 aprofundou crise financeira

A deterioração das contas da Oncoclínicas antecede as disputas mais recentes entre seus acionistas. A empresa encerrou 2025 com prejuízo líquido consolidado de aproximadamente R$ 3,67 bilhões, depois de registrar perdas de R$ 717 milhões em 2024.

O resultado de 2025 foi pressionado por problemas na recuperação de créditos e por perdas relevantes em aplicações financeiras, além dos efeitos de sua estrutura de endividamento.

Entre os principais impactos registrados nas demonstrações financeiras está uma perda de R$ 430,9 milhões relacionada a aplicações financeiras no Banco Master, instituição submetida à liquidação extrajudicial pelo Banco Central em novembro de 2025.

A companhia também reconheceu perdas expressivas associadas a valores a receber da Unimed Ferj, operadora de saúde do Rio de Janeiro. Os problemas de recebimento pressionaram o capital de giro e contribuíram para agravar as dificuldades financeiras do grupo.

O avanço das despesas financeiras, somado à necessidade de recursos para a manutenção das operações, reduziu a capacidade da rede de absorver novos choques de liquidez.

As demonstrações de 2025 também trouxeram preocupações sobre a continuidade operacional, em um contexto de pressão sobre o caixa e necessidade de renegociação com credores.

Conflitos com credores e negociações frustradas dificultam reestruturação

A reorganização financeira envolve interesses de fornecedores, instituições financeiras, investidores e credores vinculados a contratos de expansão da rede hospitalar.

Entre as controvérsias divulgadas está uma disputa envolvendo créditos associados ao empresário Lucas Kallas e a contratos de construção de hospitais. Informações sobre as negociações apontam para valores potencialmente superiores aos montantes inicialmente considerados, mas o reconhecimento e o tratamento dessas obrigações dependem das condições contratuais e das disputas correspondentes.

A empresa também passou por negociações para atrair novos investidores. Em abril de 2026, a Oncoclínicas comunicou o encerramento das tratativas com Porto e Fleury, que avaliavam uma operação envolvendo ativos e atividades da rede.

A alternativa poderia ter contribuído para a reorganização operacional e financeira, mas as negociações não resultaram em acordo definitivo.

A multiplicidade de interesses torna o processo especialmente complexo. Enquanto credores buscam recuperar valores emprestados ou fornecidos à companhia, acionistas discutem direitos societários e eventuais compensações relacionadas à oferta pública de ações.

Essas frentes não são juridicamente equivalentes. A obrigação discutida na CVM diz respeito às relações entre acionistas, enquanto o plano de recuperação extrajudicial envolve a reestruturação das dívidas da companhia com seus credores.

Ainda assim, os dois processos afetam o ambiente de governança e a capacidade de construir soluções negociadas para a continuidade do negócio.

Continuidade dos tratamentos depende da recuperação operacional

A crise financeira possui consequências que vão além dos investidores. Por atuar no tratamento oncológico, a Oncoclínicas depende de uma operação contínua que envolve profissionais especializados, medicamentos, equipamentos e contratos com fornecedores e operadoras de saúde.

Dificuldades no capital de giro podem comprometer o abastecimento e a regularidade dos serviços. Ao longo de 2026, a empresa enfrentou problemas operacionais relacionados ao fornecimento de medicamentos e à reorganização de sua estrutura de atendimento.

A administração vem adotando medidas para preservar o funcionamento das unidades, mas a estabilidade financeira de longo prazo depende da recuperação do fluxo de caixa, da redução do endividamento e da capacidade de manter os compromissos necessários à assistência médica.

A renegociação com fornecedores estratégicos é particularmente importante porque parte dos insumos utilizados nos tratamentos possui elevado custo e exige disponibilidade regular.

A eventual aprovação da recuperação extrajudicial não resolverá automaticamente todos os problemas da companhia. Além de reprogramar obrigações financeiras, será necessário restabelecer condições sustentáveis de operação e reduzir a exposição a novos desequilíbrios.

O que pode acontecer com a Oncoclínicas nos próximos meses

O futuro da Oncoclínicas depende de duas frentes que avançam simultaneamente. Na esfera financeira, a companhia precisa ampliar a adesão ao plano de recuperação extrajudicial e obter sua homologação judicial. No campo societário, permanece em discussão a obrigação de realização de uma oferta pública de aquisição de ações.

A liminar concedida ao Josephina III altera temporariamente a situação regulatória, mas não encerra a disputa entre os acionistas. Novas decisões judiciais ou administrativas poderão modificar as condições que atualmente impedem a execução da oferta.

Para os credores, o principal ponto de atenção será a capacidade da companhia de cumprir o plano proposto e manter recursos suficientes para suas operações. Para os acionistas, permanecem os riscos relacionados ao valor dos papéis, à governança e à necessidade de financiamento futuro.

A atualização divulgada em 29 de outubro mostra que o processo de recuperação ainda depende de novas adesões, apesar dos avanços nas negociações. A companhia afirma acreditar que conseguirá atingir o percentual necessário dentro do prazo legal, mas não apresentou garantia de conclusão do acordo.

Enquanto esses impasses permanecem sem solução definitiva, a Oncoclínicas enfrenta o desafio de reorganizar uma dívida bilionária e preservar a continuidade de uma operação de saúde que depende de recursos financeiros e estabilidade administrativa.

Fontes:

Oncoclínicas — Fato Relevante de 29 de outubro de 2026, atualização do plano de recuperação extrajudicial.

Oncoclínicas — Fato Relevante de 28 de outubro de 2026, cancelamento da assembleia extraordinária.

Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Decisão do Colegiado de 25 de agosto de 2026, Processo nº 19957.003474/2025-07.

Oncoclínicas — Fato Relevante de 23 de outubro de 2026, plano de recuperação extrajudicial.

Oncoclínicas — Demonstrações financeiras consolidadas de 2025.

Oncoclínicas — Fato Relevante de 14 de abril de 2026, encerramento das negociações com Porto e Fleury.

Justiça Federal de São Paulo — Decisão liminar de 23 de outubro de 2026, Processo nº 5028082-56.2026.4.03.6100.

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