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Perdeu dinheiro na Bolsa após as eleições? Veja os riscos de vender ações ou comprar mais

Queda de 17,5% do Ibovespa após a reeleição de Lula expõe investidores que apostaram no resultado eleitoral e exige revisão das carteiras

por Camila Braga
30/10/2026 às 08h26
em Mercados
Ibovespa Fecha Praticamente Estável Nesta Segunda-Feira, 29 De Junho De 2026 - Gazeta Mercantil

A queda de 17,5% do Ibovespa nos quatro primeiros pregões após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou investidores diante de uma decisão que pode ampliar as perdas acumuladas no mercado acionário. Quem aumentou a participação em ações apostando na vitória da oposição agora precisa avaliar se deve reduzir posições, preservar os investimentos ou aproveitar os preços mais baixos para realizar novas compras.

O principal índice da B3 encerrou a quinta-feira (29) aos 169.186,42 pontos, após recuar 1,06% na sessão. Na sexta-feira anterior ao segundo turno, em 23 de outubro, estava em 205.082,56 pontos. A diferença representa uma desvalorização de aproximadamente 35,9 mil pontos, em um movimento que atingiu ações de diferentes setores e alterou as expectativas para juros, câmbio e crescimento econômico.

A turbulência começou na segunda-feira (26), primeiro pregão depois da votação, quando o Ibovespa caiu 13,88%. As perdas continuaram nas três sessões seguintes, embora em intensidades diferentes. O movimento refletiu a revisão das expectativas políticas e fiscais dos investidores, em um ambiente também influenciado pelas condições econômicas internacionais e pelos resultados das companhias brasileiras.

Para quem concentrou recursos na Bolsa antes da eleição, o problema não se limita à desvalorização das ações. Uma carteira construída para aproveitar determinado resultado político pode ter assumido riscos incompatíveis com os objetivos financeiros do investidor. A necessidade de recuperar rapidamente o patrimônio pode levar a operações ainda mais arriscadas.

As orientações de educação financeira da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) indicam que a escolha dos investimentos deve considerar três fatores fundamentais: capacidade de suportar perdas, necessidade de liquidez e prazo de utilização dos recursos. Esses critérios continuam relevantes independentemente do resultado eleitoral ou das expectativas de recuperação do mercado.

Queda de 17,5% da Bolsa amplia perdas de quem concentrou investimentos em ações

O impacto financeiro da desvalorização depende da composição de cada carteira. Um investidor que tivesse R$ 100 mil integralmente expostos a uma aplicação que reproduzisse exatamente o desempenho do Ibovespa entre 23 e 29 de outubro teria registrado uma redução aproximada de R$ 17,5 mil no valor do patrimônio, desconsiderando taxas, impostos e eventuais rendimentos.

Se apenas 20% desse mesmo patrimônio estivesse aplicado em um investimento com comportamento idêntico ao índice, a perda correspondente seria de aproximadamente R$ 3,5 mil, mantendo-se inalterado o valor dos demais ativos. A comparação ilustra como a concentração em renda variável amplia o efeito das oscilações do mercado sobre o patrimônio total.

Os cálculos também mostram que recuperar uma queda de 17,5% exige uma valorização posterior superior a esse percentual. Para retornar dos 169.186,42 pontos registrados na quinta-feira ao patamar de 205.082,56 pontos observado antes do segundo turno, o Ibovespa precisaria avançar aproximadamente 21,2%.

Isso ocorre porque a recuperação passa a ser calculada sobre uma base menor. O mesmo princípio se aplica às ações individuais, embora cada empresa apresente desempenho próprio e possa registrar perdas ou ganhos superiores aos do índice.

A desvalorização, entretanto, não significa que todos os investidores efetivamente perderam dinheiro na mesma proporção. O resultado depende do preço de aquisição dos papéis, da data de entrada no mercado e da composição da carteira. Quem comprou ações muito antes do período eleitoral pode ainda acumular ganhos, mesmo depois da correção recente.

Vender ações depois da queda pode consolidar prejuízos

Uma das decisões mais delicadas envolve a venda de papéis que sofreram desvalorização expressiva. A liquidação de uma posição pode transformar uma perda até então registrada na cotação de mercado em prejuízo efetivamente realizado, caso o valor recebido seja inferior ao custo de aquisição.

Isso não significa que manter todas as ações seja necessariamente a melhor alternativa. O preço pago originalmente não determina o valor futuro de uma empresa. Uma companhia que perdeu capacidade de gerar caixa, aumentou significativamente seu endividamento ou enfrenta dificuldades operacionais pode continuar se desvalorizando, mesmo depois de uma queda acentuada.

O ponto central é distinguir uma oscilação provocada pela mudança de percepção dos investidores de uma deterioração efetiva das condições financeiras do negócio. A avaliação envolve resultados operacionais, capacidade de pagamento de dívidas, perspectivas de receitas e necessidade de novos financiamentos.

Empresas com endividamento elevado merecem atenção especial quando as taxas de juros de mercado sobem. O aumento do custo de financiamento pode comprometer margens, reduzir investimentos e pressionar o lucro futuro, principalmente em setores dependentes de crédito.

Por outro lado, companhias com geração consistente de caixa, capacidade de repassar custos e menor necessidade de capital externo podem apresentar maior resistência financeira. Essas características, entretanto, não impedem oscilações relevantes em suas ações.

Também importa o prazo do investimento. Quem precisa utilizar o dinheiro nos próximos meses enfrenta condições diferentes das de um investidor com horizonte de vários anos. A possibilidade de aguardar uma eventual recuperação só existe quando não há necessidade imediata de resgatar os recursos.

Comprar ações que ficaram mais baratas exige avaliar os fundamentos

A queda acentuada do mercado pode criar oportunidades para investidores que dispõem de recursos e mantêm uma estratégia de longo prazo. Entretanto, uma ação negociada por valor muito inferior ao registrado semanas antes não está necessariamente barata em relação à capacidade de geração de resultados da empresa.

O preço de mercado representa apenas uma parte da avaliação. Indicadores como lucro, dívida líquida, fluxo de caixa, retorno sobre o capital e perspectivas de crescimento ajudam a determinar se a cotação oferece uma relação adequada entre risco e potencial de retorno.

A mudança nas expectativas para os juros também interfere nessa análise. Quando o mercado passa a exigir retornos maiores para investir em ativos brasileiros, o valor presente dos resultados futuros das companhias pode diminuir. Esse efeito tende a ser especialmente relevante para empresas cujo valor depende de lucros projetados para muitos anos adiante.

A correção da Bolsa também não ocorreu de maneira uniforme. Empresas pertencentes ao mesmo setor podem apresentar níveis diferentes de exposição ao cenário econômico, conforme a estrutura de capital, o perfil de clientes e a participação de receitas internacionais em seus negócios.

Por isso, utilizar exclusivamente a distância entre a cotação atual e a máxima anterior como critério de compra pode levar a decisões equivocadas. O retorno a preços históricos não é garantido, e uma empresa pode permanecer negociada em patamares inferiores durante períodos prolongados.

A realização de compras adicionais também modifica a exposição da carteira. Mesmo que os novos aportes reduzam o preço médio de aquisição, eles aumentam o capital comprometido com o mesmo ativo. Se a desvalorização continuar, o prejuízo financeiro total poderá crescer.

Renda fixa ganha importância com juros elevados e maior incerteza

A instabilidade do mercado acionário recolocou os investimentos de renda fixa no centro das decisões de alocação. A taxa Selic está em 13,75% ao ano, conforme a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro, enquanto as taxas negociadas para determinados vencimentos futuros passaram por ajustes diante das novas expectativas econômicas.

A diferença entre os dois indicadores é importante. A Selic representa a taxa básica definida pelo Banco Central, enquanto os juros futuros refletem negociações de mercado e incorporam expectativas sobre inflação, política monetária e riscos fiscais.

Investimentos pós-fixados vinculados à Selic ou ao CDI oferecem uma forma de remuneração associada aos juros de curto prazo, sem exigir que o investidor acerte antecipadamente a direção das taxas de longo prazo. A adequação desses produtos, porém, depende de liquidez, custos, tributação e risco de crédito.

No caso dos títulos públicos, o Tesouro Selic apresenta comportamento diferente dos papéis prefixados e indexados à inflação. Embora também esteja sujeito a variações de preço, costuma apresentar menor sensibilidade às mudanças nas taxas de mercado do que títulos de prazo longo.

Os títulos Tesouro IPCA+ oferecem remuneração vinculada à inflação acrescida de uma taxa real contratada. Quando mantidos até o vencimento, observadas as condições do investimento, permitem preservar o poder de compra do capital segundo a referência do IPCA. Entretanto, podem registrar desvalorizações expressivas antes desse prazo.

O Tesouro Nacional esclarece que os preços dos títulos são atualizados conforme as condições de negociação do mercado. Quando as taxas exigidas pelos investidores sobem, o valor de mercado dos títulos prefixados e indexados à inflação tende a cair. Quanto maior o prazo e a sensibilidade do título aos juros, mais intensa pode ser essa oscilação.

Assim, uma taxa aparentemente elevada não elimina o risco de prejuízo para quem precisar vender antecipadamente. A escolha entre vencimentos curtos, intermediários e longos precisa considerar o momento em que o dinheiro será utilizado.

Crédito privado e dólar também apresentam riscos

A migração para renda fixa não elimina automaticamente a possibilidade de perdas. CDBs, debêntures e outros títulos emitidos por instituições financeiras ou empresas apresentam características diferentes de segurança, liquidez e remuneração.

Nos investimentos de crédito privado, a capacidade de pagamento do emissor é determinante. Uma taxa superior à oferecida por títulos públicos pode representar compensação por riscos adicionais, incluindo a possibilidade de atraso ou inadimplência.

A cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), quando aplicável, também precisa ser considerada dentro das regras e dos limites estabelecidos. Debêntures, por exemplo, não contam com a mesma garantia oferecida a determinadas modalidades de depósitos bancários.

A diversificação internacional constitui outra alternativa para reduzir a dependência de um único mercado. Ativos denominados em dólar podem ajudar a compensar parte das perdas em reais quando a moeda brasileira se desvaloriza, mas essa proteção não é automática.

O retorno de uma aplicação internacional depende tanto da variação cambial quanto do desempenho do investimento no exterior. Uma queda expressiva do ativo estrangeiro pode anular o benefício de uma eventual valorização do dólar.

Comprar moeda estrangeira depois de uma disparada também envolve risco. Caso o real se recupere, o investidor poderá registrar perdas cambiais mesmo que o preço do ativo internacional permaneça estável.

Por essa razão, a exposição ao exterior deve ser analisada como parte da composição patrimonial, e não apenas como reação às oscilações de uma semana.

Resultado das eleições exige revisão da carteira, não apenas das previsões políticas

A reeleição de Lula no segundo turno, realizado em 25 de outubro, provocou uma revisão das expectativas que haviam sustentado parte da valorização dos ativos brasileiros antes da votação. Entretanto, o comportamento futuro da Bolsa dependerá de fatores que ultrapassam o resultado eleitoral.

A definição da política econômica, as medidas fiscais, as decisões do Banco Central, o desempenho das empresas e o ambiente internacional continuarão influenciando a formação dos preços.

A própria queda de quinta-feira ocorreu em uma sessão marcada também por dados de inflação nos Estados Unidos e pela divulgação de balanços corporativos. Isso demonstra que movimentos posteriores à eleição não podem ser atribuídos exclusivamente ao cenário político brasileiro.

Para o investidor, a revisão da carteira envolve verificar quanto do patrimônio está comprometido com renda variável, quais posições dependem das mesmas condições econômicas e se há recursos disponíveis para despesas de curto prazo.

A diversificação deve considerar não apenas a quantidade de ativos, mas também a relação entre seus riscos. Uma carteira formada por várias ações de empresas sensíveis aos juros, por exemplo, pode continuar excessivamente concentrada em uma mesma variável econômica.

As regras de adequação de investimentos ao perfil do cliente, conhecidas como suitability e regulamentadas pela CVM, estabelecem que instituições intermediárias devem considerar objetivos, situação financeira e conhecimento dos riscos na avaliação dos produtos oferecidos.

A revisão também pode incluir a necessidade de rebalanceamento. Esse processo consiste em ajustar as proporções entre classes de ativos para que a carteira volte a refletir a estratégia definida pelo investidor, sem depender exclusivamente da tentativa de prever o próximo movimento do mercado.

O desempenho dos próximos pregões poderá reduzir ou ampliar as perdas acumuladas desde a eleição. Nenhum desses resultados, isoladamente, permitirá determinar se uma carteira está adequada aos objetivos de seu titular.

A principal consequência da turbulência é evidenciar a diferença entre investir com base em uma estratégia patrimonial e concentrar recursos em uma expectativa eleitoral. A recuperação das cotações permanece incerta, enquanto a exposição ao risco e a necessidade de liquidez são condições que podem ser avaliadas independentemente da direção futura do Ibovespa.

Fontes:

B3 — histórico e desempenho do Ibovespa

Banco Central do Brasil — comunicados do Copom e histórico da taxa Selic

Comissão de Valores Mobiliários — Portal do Investidor, orientações sobre perfil de risco, diversificação e liquidez

Tesouro Nacional — Tesouro Direto, regras de negociação e marcação a mercado

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