A Petrobras (PETR4) tornou-se a primeira organização brasileira a alcançar o Nível 4 de maturidade em auditoria interna pelo modelo internacional Internal Audit Capability Model (IA-CM), após um processo de validação externa conduzido durante aproximadamente um ano pela Controladoria-Geral da União (CGU). O reconhecimento, anunciado nesta quarta-feira, 4 de novembro, coloca a estatal no segundo patamar mais elevado da metodologia utilizada para avaliar a capacidade das estruturas de auditoria corporativa.
Segundo a Petrobras, a companhia também é a segunda organização do mundo a alcançar o Nível 4 por meio de validação externa. A classificação considera a consolidação dos procedimentos de fiscalização interna, a independência da atividade de auditoria, a utilização de tecnologias para análise de dados e a integração dos mecanismos de controle à gestão de riscos e às decisões estratégicas.
A avaliação foi conduzida pela CGU com base em critérios internacionais desenvolvidos pelo Instituto dos Auditores Internos (IIA), com apoio do Banco Mundial. O modelo possui cinco níveis de maturidade, que representam diferentes estágios de desenvolvimento das atividades de auditoria, desde estruturas iniciais até sistemas capazes de incorporar processos permanentes de aperfeiçoamento.
A formalização do reconhecimento foi programada para as 14h30 desta quarta-feira, durante o evento Rede Qualifica UAIG, na sede da CGU, em Brasília. A cerimônia reúne representantes de unidades de auditoria governamental para apresentar resultados de avaliações e experiências relacionadas ao aprimoramento dos mecanismos de controle.
A conquista representa uma evolução na avaliação da capacidade institucional da auditoria da Petrobras. O resultado, entretanto, não constitui uma certificação irrestrita de todas as atividades da companhia nem substitui os procedimentos de fiscalização financeira, contábil e operacional realizados pelos órgãos responsáveis.
Nível 4 indica auditoria integrada à gestão de riscos e à governança
O modelo IA-CM estabelece cinco níveis progressivos de capacidade. O primeiro, denominado Inicial, caracteriza organizações cujas práticas de auditoria ainda dependem principalmente de iniciativas individuais e procedimentos pouco estruturados.
No Nível 2, chamado Infraestrutura, passam a existir processos sustentáveis e repetíveis, com recursos e mecanismos básicos de planejamento. O Nível 3, Integrado, exige a aplicação uniforme de práticas profissionais, gestão de qualidade e procedimentos de auditoria baseados em riscos.
O Nível 4, denominado Gerenciado, representa uma etapa mais avançada. Nele, a atividade de auditoria passa a integrar informações disponíveis em diferentes áreas da organização para aprimorar a governança, a gestão de riscos e a avaliação dos controles internos.
A metodologia considera oito processos-chave associados ao Nível 4, distribuídos entre áreas como planejamento da força de trabalho, qualidade dos serviços, relacionamento com a administração, gerenciamento de riscos e supervisão independente.
Entre esses processos estão a capacidade de realizar avaliações abrangentes sobre governança e controles, a utilização de indicadores quantitativos e qualitativos de desempenho e a contribuição da auditoria para o aperfeiçoamento da gestão.
O modelo também exige que a estratégia de auditoria considere os riscos relevantes da organização e que a estrutura responsável tenha condições de apresentar avaliações independentes à alta administração.
Na prática, isso significa que a auditoria deixa de atuar apenas na verificação posterior de procedimentos e passa a contribuir de maneira mais sistemática para a identificação de vulnerabilidades, o acompanhamento de recomendações e a prevenção de falhas operacionais.
O patamar alcançado pela Petrobras ainda está abaixo do Nível 5, denominado Otimizado. Essa etapa representa a integração de mecanismos permanentes de aprendizado e melhoria contínua, com participação de diferentes áreas da organização e contribuições externas.
Avaliação da CGU examinou processos desenvolvidos pela Petrobras
O reconhecimento foi precedido por aproximadamente um ano de validação externa conduzida pela Controladoria-Geral da União. O trabalho examinou a maturidade das práticas de auditoria interna da estatal segundo os critérios estabelecidos pelo IA-CM.
A Petrobras informou que o processo considerou a evolução de seus mecanismos de controle, a estruturação dos procedimentos profissionais, os investimentos em tecnologia e a capacidade de utilizar informações corporativas na análise de riscos.
A participação da CGU acrescenta uma etapa de avaliação externa ao processo de desenvolvimento da auditoria. Diferentemente de uma autoavaliação conduzida exclusivamente pela própria organização, a validação envolve a análise de evidências por uma instituição externa responsável por verificar o atendimento dos requisitos aplicáveis.
A metodologia utilizada pela CGU prevê avaliações internas periódicas e verificações independentes destinadas a examinar a qualidade das atividades de auditoria. Essas avaliações podem identificar práticas institucionalizadas e oportunidades de aperfeiçoamento.
O reconhecimento concedido à Petrobras demonstra que os procedimentos examinados atenderam aos requisitos necessários ao Nível 4. Não significa, porém, que todos os riscos da companhia tenham sido eliminados ou que eventuais falhas futuras estejam descartadas.
A distinção é relevante porque uma auditoria interna considerada madura possui melhores condições institucionais para avaliar riscos e controles, mas não substitui a responsabilidade da administração pela condução dos negócios e pelo cumprimento das normas aplicáveis.
Auditoria da Petrobras atua diretamente na estrutura de governança
A Petrobras mantém sua Auditoria Interna vinculada ao Conselho de Administração, com atribuições de avaliação e assessoramento relacionadas à gestão, aos controles internos e aos riscos corporativos.
Segundo os documentos institucionais da companhia, a área deve prestar informações e apoio ao Conselho de Administração, ao Comitê de Auditoria Estatutário, à Diretoria Executiva e a outras instâncias de governança, preservando a independência necessária à execução de seus trabalhos.
A estrutura também atende a demandas do Conselho Fiscal e de órgãos externos de controle, conforme suas competências e os procedimentos internos estabelecidos pela estatal.
O Comitê de Auditoria Estatutário possui responsabilidades específicas no acompanhamento das demonstrações financeiras, na avaliação dos mecanismos de gerenciamento de riscos e na supervisão das atividades de auditoria interna.
Entre suas atribuições estão a análise de relatórios sobre controles contábeis, financeiros, operacionais e legais, além do acompanhamento das recomendações apresentadas pelas unidades responsáveis pela fiscalização.
A existência dessas instâncias procura estabelecer mecanismos de supervisão independentes das áreas diretamente responsáveis pela execução das atividades empresariais.
Para uma companhia com operações em exploração e produção de petróleo, refino, logística, comercialização e investimentos de grande escala, a capacidade de identificar riscos e acompanhar decisões administrativas envolve diferentes unidades e sistemas corporativos.
O alcance do Nível 4 indica que a estrutura de auditoria examinada pela CGU possui processos institucionalizados para integrar essas informações e apoiar a avaliação dos riscos relevantes.
Investimentos em tecnologia contribuíram para reconhecimento
A Petrobras atribuiu parte do resultado ao investimento contínuo em capacitação profissional e modernização dos recursos utilizados pelas equipes de auditoria.
A companhia destacou a ampliação da utilização de ferramentas de análise de dados, que permitem examinar informações provenientes de diferentes sistemas corporativos e identificar situações que demandam investigação ou acompanhamento.
Essas tecnologias podem auxiliar na seleção de operações para auditoria, no monitoramento de indicadores e na identificação de inconsistências em processos administrativos e financeiros.
O uso de recursos tecnológicos, entretanto, não representa uma garantia automática de qualidade. Sua efetividade depende da confiabilidade das informações examinadas, da metodologia de análise, da atuação dos profissionais responsáveis e do acompanhamento das recomendações apresentadas.
O desenvolvimento da auditoria também exige investimento em conhecimento técnico. As equipes precisam compreender os riscos associados às atividades empresariais e aplicar critérios profissionais compatíveis com a complexidade das operações.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou, no comunicado institucional divulgado nesta quarta-feira, que o reconhecimento confirma o fortalecimento dos processos de controle e a independência da auditoria.
Segundo a executiva, o resultado decorre de uma trajetória de investimentos em capacitação, inovação tecnológica e alinhamento às práticas internacionais de governança.
A administração também destacou a participação do Conselho de Administração e do Comitê de Auditoria Estatutário no processo de aperfeiçoamento da estrutura interna.
Certificação não substitui auditoria independente das demonstrações financeiras
O reconhecimento pelo IA-CM possui finalidade diferente da auditoria externa das demonstrações financeiras, procedimento obrigatório para companhias abertas e realizado por profissionais independentes.
Enquanto a auditoria externa examina as informações contábeis e emite opinião sobre sua apresentação conforme as normas aplicáveis, a auditoria interna possui atuação mais abrangente sobre governança, controles, processos e riscos empresariais.
A validação do Nível 4 não corresponde, portanto, a uma aprovação irrestrita dos balanços financeiros da Petrobras. Também não equivale a uma declaração de inexistência de irregularidades em contratos, investimentos ou procedimentos administrativos.
O resultado diz respeito à maturidade da estrutura responsável por avaliar esses processos dentro da organização.
Para os acionistas e demais participantes do mercado de capitais, a qualidade das atividades de auditoria constitui um componente da governança corporativa, mas deve ser analisada juntamente com as demonstrações financeiras, os riscos operacionais, as obrigações regulatórias e as informações divulgadas ao mercado.
A certificação também não produz, por si mesma, alterações nas receitas, nos custos, nos dividendos ou no valor das ações PETR3 e PETR4.
Seus efeitos potenciais estão relacionados à capacidade institucional de supervisionar processos, identificar vulnerabilidades e contribuir para a prevenção de perdas. A existência de benefícios financeiros mensuráveis dependeria de indicadores adicionais, não apresentados no comunicado de reconhecimento.
Petrobras também havia alcançado nível máximo em avaliação correcional
O reconhecimento da auditoria interna ocorre após outra mudança na estrutura de governança da Petrobras. Em 2025, a companhia informou que sua área de Responsabilização Disciplinar havia alcançado o Nível 5 no Modelo de Maturidade Correcional (CRG-MM), utilizado no Sistema de Correição do Poder Executivo Federal.
Naquela avaliação, também conduzida no âmbito da CGU, foram examinados requisitos relacionados à independência, à atuação preventiva, à transparência das atividades e à capacitação das equipes responsáveis por procedimentos correcionais.
A certificação correcional está vinculada à apuração de irregularidades e à responsabilização disciplinar, enquanto o IA-CM examina a maturidade da atividade de auditoria interna. São modelos diferentes, com objetivos e critérios próprios, de modo que os níveis obtidos não podem ser comparados diretamente.
Em julho de 2025, a Petrobras também implantou sua Corregedoria-Geral, estrutura destinada a centralizar procedimentos investigativos e disciplinares anteriormente distribuídos entre diferentes áreas da organização.
A criação da unidade reuniu atividades relacionadas à integridade corporativa, à responsabilização disciplinar e à apuração de determinadas condutas administrativas.
As iniciativas demonstram a existência de frentes distintas de aprimoramento institucional, envolvendo auditoria, integridade e responsabilização. Embora relacionadas à governança, essas áreas possuem responsabilidades específicas e mecanismos próprios de supervisão.
CGU utiliza modelo internacional para avaliar auditorias governamentais
O IA-CM foi desenvolvido em 2009 pelo Instituto dos Auditores Internos, com apoio do Banco Mundial, como referência para avaliar a capacidade de auditorias internas do setor público.
A metodologia é utilizada para orientar processos de desenvolvimento institucional, identificar requisitos ainda não consolidados e estabelecer etapas de aperfeiçoamento das atividades de controle.
No Brasil, a CGU adotou o modelo como referência para seu Programa de Gestão e Melhoria da Qualidade, em conjunto com normas aplicáveis à auditoria interna governamental.
Entre os instrumentos utilizados estão avaliações periódicas, acompanhamento de resultados, identificação de deficiências e validações externas das práticas adotadas pelas instituições participantes.
O encontro realizado nesta quarta-feira integra a Rede Qualifica UAIG, iniciativa destinada a compartilhar experiências e reconhecer avanços entre unidades de auditoria interna governamental.
Além da Petrobras, a programação reúne representantes da Embrapa, da Empresa Gestora de Ativos (Emgea), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), da Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb), do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e do Centro de Controle Interno da Aeronáutica (Cenciar).
A programação prevê apresentações sobre os resultados alcançados e os desafios relacionados à evolução das estruturas de auditoria.
Próximo estágio exige aperfeiçoamento contínuo dos processos
A obtenção do Nível 4 estabelece uma nova referência para as atividades de auditoria da Petrobras, mas não representa o encerramento do processo de desenvolvimento institucional.
A metodologia IA-CM prevê um quinto nível de maturidade, no qual a auditoria deve incorporar mecanismos mais amplos de aperfeiçoamento contínuo, avaliar resultados produzidos para a organização e atuar como agente de mudanças na qualidade dos processos.
Para avançar nessa direção, as instituições precisam demonstrar capacidade de manter práticas consolidadas, integrar avaliações internas e externas e utilizar os resultados para aperfeiçoar permanentemente suas atividades.
A Petrobras não anunciou um prazo para buscar o Nível 5, nem apresentou um orçamento específico para essa eventual etapa.
O reconhecimento concedido pela CGU confirma o atendimento dos requisitos do Nível 4 pela estrutura avaliada, após um processo de verificação independente. Sua relevância está na institucionalização de mecanismos de auditoria capazes de apoiar decisões, acompanhar riscos e avaliar controles em uma organização com operações industriais e financeiras de grande escala.
A efetividade desses mecanismos continuará dependendo de sua aplicação cotidiana, da independência das equipes e da capacidade da administração de implementar as recomendações decorrentes dos trabalhos de auditoria.
Fontes:
Petrobras — comunicado institucional de 4 de novembro de 2026 sobre a validação externa do Nível 4 de maturidade em auditoria interna pelo modelo IA-CM.
Controladoria-Geral da União — comunicado de 28 de outubro de 2026 sobre o evento Rede Qualifica UAIG e o reconhecimento da Petrobras como primeira unidade brasileira a alcançar o Nível 4.
Controladoria-Geral da União — documentação oficial do Modelo de Capacidade de Auditoria Interna, com a descrição dos cinco níveis de maturidade e dos processos-chave de avaliação.
Petrobras — informações institucionais sobre governança corporativa, atribuições da Auditoria Interna e responsabilidades do Comitê de Auditoria Estatutário.
Petrobras — comunicado institucional sobre a criação da Corregedoria-Geral em 2025 e o reconhecimento da área de Responsabilização Disciplinar no Modelo de Maturidade Correcional.








