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Presidente da Unafisco depõe à PF após críticas à operação contra auditores da Receita

por Júlia Campos
20/02/2026 às 21h40
em Política
Unafisco: Kleber Cabral É Intimado Pelo Stf Após Críticas - Gazeta Mercantil

Kleber Cabral, do Unafisco é intimado pelo STF

Presidente da Unafisco depõe à PF após críticas a operação contra auditores da Receita e caso avança no STF

O presidente da Unafisco depõe à PF em meio ao aprofundamento de um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e apura a divulgação de fake news, com desdobramentos que alcançaram a atuação de auditores da Receita Federal. Kleber Cabral, que comanda a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Unafisco), foi ouvido por cerca de uma hora na tarde desta sexta-feira (20), em depoimento prestado por videoconferência. A oitiva foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes e, segundo informações públicas, o teor do depoimento permanece sob segredo de Justiça.

A intimação ocorre após Cabral criticar, em entrevistas à imprensa, a operação da Polícia Federal (PF) que mirou servidores da Receita sob suspeita de acessos ilegais e vazamento de dados sigilosos relacionados a ministros do STF e familiares. O episódio ganhou dimensão institucional por tocar em duas frentes sensíveis: o uso de sistemas fiscais — que têm rastreabilidade — e o debate sobre proporcionalidade de medidas cautelares aplicadas a servidores públicos investigados.

Leia também: Rodrigo Mudrovitsch é eleito presidente da Corte Interamericana.

O que motivou a oitiva de Kleber Cabral

O presidente da Unafisco depõe à PF após ter se posicionado publicamente contra a operação, afirmando que as medidas impostas aos auditores teriam efeito de constrangimento e impacto direto sobre a atuação da categoria. Em entrevista, Cabral declarou que providências dessa natureza buscariam “humilhar, constranger e amedrontar” e fez uma comparação que repercutiu amplamente, ao dizer ser “menos arriscado fiscalizar membros do PCC do que altas autoridades da República”.​

A própria Unafisco informou que Cabral foi ouvido “na condição de investigado” no âmbito do Inquérito das Fake News, e atribuiu a convocação às declarações dadas à imprensa na quarta-feira (18). O procedimento, conforme a entidade, corre sob sigilo, motivo pelo qual o presidente não comentaria o conteúdo do depoimento no momento. No plano político-institucional, a oitiva torna-se um marcador de tensão entre liberdade de crítica, preservação de investigações em curso e a proteção de instituições que operam com informações sensíveis.

A operação da PF contra auditores da Receita: medidas e suspeitas

A operação da PF ocorreu na terça-feira (17), com cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão em cidades do Rio de Janeiro, Bahia e interior de São Paulo, segundo relatos públicos. As medidas foram determinadas por Alexandre de Moraes a partir de uma representação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Entre as cautelares aplicadas aos quatro alvos, foram noticiados: apreensão de celulares, afastamento da função pública, uso de tornozeleira eletrônica, cancelamento de passaportes e proibição de sair do país.

Os investigados podem responder, conforme descrito nas reportagens, por violação de sigilo funcional, acesso indevido a sistemas de informação e vazamento de dados sigilosos. Do ponto de vista do controle de sistemas, o caso se apoia na premissa de que acessos deixam trilhas, o que permite auditoria interna e reconstrução de eventos com base em logs e relatórios técnicos.

STF fala em “múltiplos acessos ilícitos” e Receita cita auditoria e rastreabilidade

Em nota divulgada sobre o caso, o STF afirmou que, nos autos da investigação, “foram constatados diversos e múltiplos acessos ilícitos ao sistema” da Receita Federal, com posterior vazamento de informações sigilosas. Essa formulação é relevante porque indica, na narrativa oficial, que a apuração não se sustentaria em um único evento isolado, mas em um conjunto de acessos considerados irregulares.​

Já a Receita Federal declarou que uma auditoria estava em andamento e que irregularidades detectadas foram comunicadas ao relator no Supremo, ressaltando que os sistemas são rastreáveis e permitiram identificar acessos indevidos. No noticiário, também foi reportado que o STF solicitou auditoria nos sistemas para identificar desvios de acesso a dados de ministros, parentes e outras pessoas em um recorte de anos, incorporando o trabalho a procedimentos internos da Corregedoria. Esse ponto reforça o caráter técnico do caso: investigações dessa natureza tendem a se ancorar em evidências documentais e registros de acesso, mais do que em depoimentos isolados.

A versão apresentada pela Unafisco e o debate sobre proporcionalidade

Em declarações à imprensa, Cabral relatou que um auditor teria confirmado acesso a dados ligados a um parente do ministro Gilmar Mendes, mas negou que se tratasse de informação sigilosa de contas bancárias. Segundo Cabral, o servidor — lotado no interior de São Paulo — teria acessado uma informação para checar se a pessoa era conhecida de longa data com o mesmo sobrenome, reconhecendo que o procedimento não era permitido. O dirigente afirmou ainda que o auditor não teria ultrapassado a tela inicial e que o caso “não tem absolutamente nada a ver” com os fatos investigados, tese que busca dissociar um acesso pontual de uma suposta estrutura de vazamento.​

Esse contraste entre versões é parte do que alimenta o caráter institucional do episódio. De um lado, há a nota do STF indicando “múltiplos acessos ilícitos” e vazamento posterior; de outro, há a narrativa do representante sindical/associativo apontando risco de generalização e efeito intimidatório sobre a fiscalização de autoridades. Para o ambiente de governança pública, a discussão envolve também a mensagem transmitida a carreiras de Estado: como punir e investigar condutas irregulares sem criar incentivos para paralisia, autocensura funcional ou temor difuso na rotina de fiscalização.

Os próximos passos e o efeito institucional do caso

O fato de que o presidente da Unafisco depõe à PF em um inquérito sob relatoria de Alexandre de Moraes adiciona um capítulo de alta visibilidade ao caso, com potencial de repercussão prolongada por envolver Receita, PF, PGR e STF. A depender do avanço das apurações, o caso pode se desdobrar em novas diligências, análises de logs, confrontos de informações e decisões sobre manutenção, revisão ou reforço de cautelares. Ao mesmo tempo, entidades representativas tendem a manter pressão pública sobre proporcionalidade e garantias de ampla defesa, enquanto as instituições investigativas enfatizam preservação do sigilo e integridade das provas.

No curto prazo, o eixo central segue sendo a apuração de acessos a sistemas e eventual vazamento de dados fiscais, tema que, pela própria natureza, coloca em choque a proteção da privacidade e o dever de responsabilização administrativa e penal. Em paralelo, a oitiva de Cabral reforça que as declarações públicas de dirigentes de entidades podem ser interpretadas como elemento relevante em inquéritos sensíveis, sobretudo quando o procedimento tramita sob sigilo e envolve instituições de Estado em ambiente polarizado. O episódio, assim, deixa de ser apenas um caso corporativo e passa a ser um termômetro de como o sistema de Justiça e os órgãos de controle lidam com vazamentos, críticas públicas e medidas cautelares em investigações com alto impacto político.

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