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Shell mais que dobra lucro ajustado no 1T26, mas prevê queda na produção

Petrolífera superou estimativas de analistas, elevou dividendos e anunciou recompra de US$ 3 bilhões em ações.

por João Souza
07/05/2026 às 12h43
em Empresas
Petrolífera Superou Estimativas De Analistas, Elevou Dividendos E Anunciou Recompra De Us$ 3 Bilhões Em Ações. - Gazeta Mercantil

A Shell registrou lucro ajustado de US$ 6,915 bilhões no primeiro trimestre de 2026, mais que o dobro dos US$ 3,26 bilhões apurados no quarto trimestre de 2025, segundo balanço divulgado nesta quinta-feira, 7 de maio. O resultado superou a projeção média de US$ 6,36 bilhões de analistas consultados pela Vara Research, mas veio acompanhado de um alerta sobre queda na produção no segundo trimestre, em meio aos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre ativos e operações da companhia.

O desempenho reforça a resiliência financeira da Shell em um ambiente de volatilidade nos preços de energia, mas também expõe riscos operacionais e geopolíticos relevantes para o setor de petróleo e gás. A companhia informou que a produção da unidade integrada de gás deverá cair para uma faixa entre 580 mil e 640 mil barris de óleo equivalente por dia no segundo trimestre, ante 909 mil barris de óleo equivalente por dia no primeiro trimestre.

Leia também: Petrobras (PETR4) eleva produção em 16,4% no 1T26 e exportação dispara 61%.

Na área de upstream, que reúne exploração e produção de petróleo e gás, a Shell projeta produção entre 1,62 milhão e 1,82 milhão de barris de óleo equivalente por dia no segundo trimestre. No primeiro trimestre, essa produção havia ficado em 1,84 milhão de barris de óleo equivalente por dia.

Lucro da Shell supera estimativas do mercado

O lucro ajustado de US$ 6,915 bilhões ficou acima da expectativa média do mercado e marcou uma recuperação expressiva em relação ao trimestre imediatamente anterior. A comparação sequencial foi favorecida por ganhos em trading, otimização de portfólio e condições mais favoráveis em algumas linhas de negócio ligadas à volatilidade do mercado de energia.

Na comparação anual, o resultado também mostrou avanço. Reportagens internacionais apontaram que o lucro ajustado da Shell cresceu em relação ao primeiro trimestre de 2025, quando a companhia havia registrado US$ 5,58 bilhões. O desempenho colocou a empresa acima das estimativas de analistas e reforçou a capacidade de geração de caixa do grupo mesmo em cenário operacional mais instável.

O balanço também destacou a elevação de dividendos. A Shell anunciou aumento de 5% no dividendo trimestral, para US$ 0,3906 por ação ordinária, sinalizando manutenção da política de remuneração ao acionista em meio a um ambiente ainda volátil para petróleo, gás natural e derivados.

Para investidores, o lucro acima das expectativas é positivo, mas não elimina dúvidas sobre produção, caixa e alocação de capital. A própria companhia reduziu o ritmo de recompras de ações, em movimento interpretado como tentativa de preservar flexibilidade financeira diante de incertezas operacionais e geopolíticas.

Produção de gás deve cair no segundo trimestre

O principal ponto de atenção do balanço foi a projeção de queda na produção no segundo trimestre. A unidade integrada de gás, uma das áreas estratégicas da Shell, deve produzir entre 580 mil e 640 mil barris de óleo equivalente por dia, abaixo dos 909 mil barris de óleo equivalente por dia registrados no primeiro trimestre.

A redução projetada é significativa e reflete impactos associados ao conflito no Oriente Médio. A instabilidade regional tem afetado operações, logística, infraestrutura e percepção de risco em uma das regiões mais importantes para o suprimento global de energia.

A Shell também prevê queda na produção de upstream. A faixa estimada para o segundo trimestre, entre 1,62 milhão e 1,82 milhão de barris de óleo equivalente por dia, fica abaixo do patamar de 1,84 milhão de barris de óleo equivalente por dia observado no primeiro trimestre.

Esse movimento importa porque a produção é um dos pilares da geração de receita das grandes petroleiras. Mesmo quando preços e trading compensam parte da volatilidade, uma queda de volumes pode pressionar resultados futuros, especialmente se vier acompanhada de custos mais altos ou interrupções prolongadas.

Conflito no Oriente Médio pesa sobre perspectivas

O conflito no Oriente Médio tornou-se um dos principais vetores de risco para o setor de energia em 2026. A região concentra parte relevante da produção global de petróleo e gás, além de rotas logísticas estratégicas para o comércio internacional de combustíveis.

No caso da Shell, os efeitos aparecem tanto na produção quanto na gestão financeira. A volatilidade de preços pode beneficiar operações de trading e otimização no curto prazo, mas também amplia incertezas sobre fluxo de caixa, estoques, capital de giro e continuidade operacional.

A companhia informou que a produção total de petróleo e gás caiu 4% em relação ao trimestre anterior, em parte pelo impacto do conflito em ativos no Catar, segundo cobertura internacional sobre o balanço. Ao mesmo tempo, a instabilidade no mercado de energia elevou oportunidades em áreas de comercialização, derivados e produtos químicos.

Essa combinação explica o contraste do resultado: lucro ajustado forte no primeiro trimestre, mas perspectiva de volumes menores no trimestre seguinte. Para investidores, o balanço mostra que a empresa ainda consegue capturar ganhos em ambientes voláteis, mas permanece exposta a choques geopolíticos.

Recompra de ações cai para US$ 3 bilhões

A Shell anunciou um novo programa de recompra de ações de US$ 3 bilhões para os próximos três meses. O valor ficou abaixo dos US$ 3,5 bilhões anunciados nos trimestres recentes, indicando maior cautela na alocação de capital.

A recompra de ações é uma forma de remunerar acionistas e reduzir o número de papéis em circulação. Em geral, esse tipo de operação pode favorecer o lucro por ação e sinalizar confiança da administração na geração de caixa futura.

No entanto, a redução do montante sugere que a Shell busca equilibrar retorno aos acionistas, preservação de caixa e fortalecimento do balanço. Em períodos de alta incerteza, grandes petroleiras costumam ajustar programas de recompra para manter liquidez e capacidade de investimento.

A companhia informou que as ações recompradas serão canceladas, conforme prática usual nesse tipo de programa. A iniciativa deverá ser concluída antes da divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, sujeita às condições de mercado.

Dividendos sobem apesar da cautela financeira

Mesmo com a redução na recompra, a Shell elevou o dividendo trimestral em 5%, para US$ 0,3906 por ação ordinária. A decisão mantém a empresa no grupo de grandes companhias globais de energia que seguem priorizando remuneração ao acionista, mesmo diante de incertezas operacionais.

Leia também: Petrobras anuncia distribuição de R$ 21,95 bilhões em dividendos aos acionistas

O aumento do dividendo tende a ser bem recebido por investidores de longo prazo, especialmente fundos e acionistas que acompanham geração de caixa e distribuição recorrente. Para empresas de petróleo e gás, a política de dividendos é um componente central da tese de investimento.

A combinação entre dividendos maiores e recompras menores mostra uma calibragem na estratégia de capital. A Shell preserva o compromisso de remuneração, mas reduz ligeiramente a intensidade de retorno via recompra, mecanismo mais flexível e ajustável conforme o cenário.

Essa diferenciação é relevante. Dividendos costumam ser tratados como sinal de estabilidade e previsibilidade. Recompras, por outro lado, podem ser expandidas ou reduzidas com mais facilidade sem produzir o mesmo impacto reputacional.

Trading e produtos compensam parte da pressão operacional

O desempenho do primeiro trimestre foi sustentado por ganhos relevantes em áreas ligadas a trading, produtos químicos e comercialização. Em ambientes de grande volatilidade, companhias integradas como a Shell podem capturar ganhos por meio de operações de otimização, arbitragem, logística e gestão de estoques.

Essa estrutura diferencia as grandes petroleiras de empresas mais concentradas apenas na produção. A Shell atua em múltiplos elos da cadeia, incluindo exploração, produção, gás natural liquefeito, refino, produtos químicos, distribuição e trading.

Quando há oscilações fortes nos preços de petróleo, gás e derivados, áreas comerciais podem ajudar a amortecer quedas operacionais ou capturar oportunidades de margem. Foi esse um dos fatores que contribuiu para o lucro ajustado acima das estimativas.

Ainda assim, esse tipo de ganho pode ser volátil. O mercado tende a avaliar se a melhora é recorrente ou se dependeu de condições específicas do trimestre. Para investidores, a qualidade do resultado importa tanto quanto o número final do lucro ajustado.

Setor de petróleo segue exposto a preços e geopolítica

O balanço da Shell ocorre em um momento de forte sensibilidade para o setor global de energia. Preços do petróleo, conflitos geopolíticos, política de produção de países exportadores, demanda chinesa, juros globais e transição energética continuam influenciando a avaliação das grandes companhias do setor.

A volatilidade pode beneficiar empresas integradas em determinados trimestres, mas também aumenta o risco de interrupções, pressão sobre custos e dificuldade de planejamento. O conflito no Oriente Médio é particularmente relevante porque afeta uma região central para a oferta global.

Além disso, investidores acompanham a capacidade das petroleiras de financiar dividendos, recompras, investimentos em exploração e projetos de transição energética. A disputa por capital é intensa: acionistas cobram retorno, enquanto governos e reguladores pressionam por segurança energética e redução de emissões.

Nesse contexto, a Shell tenta preservar uma estratégia de equilíbrio. O resultado forte dá margem para remuneração ao acionista, mas a queda projetada de produção e a redução da recompra mostram que a companhia não está imune ao ambiente de risco.

Resultado reforça força financeira, mas produção vira foco do mercado

O primeiro trimestre de 2026 reforçou a capacidade da Shell de entregar lucro robusto em meio à volatilidade global de energia. O lucro ajustado acima de US$ 6,9 bilhões superou expectativas e mais que dobrou em relação ao trimestre anterior, sustentado por ganhos operacionais e comerciais.

O ponto de atenção, porém, está no segundo trimestre. A queda prevista na produção de gás integrado e upstream pode limitar o desempenho futuro, especialmente se os efeitos do conflito no Oriente Médio persistirem ou se os preços de energia perderem força.

Para investidores, a leitura do balanço é dividida. De um lado, a Shell demonstrou geração de resultado, elevou dividendos e manteve recompra bilionária. De outro, reduziu o ritmo de recompras e sinalizou menor produção, o que tende a manter o mercado atento à execução operacional nos próximos meses.

O balanço coloca a Shell em uma posição de força financeira relativa, mas com exposição clara aos riscos que dominam o setor global de petróleo e gás em 2026: geopolítica, volatilidade de preços, interrupções de produção e necessidade de disciplina na alocação de capital.

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