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SPFW N61: veja os destaques, tendências e desfiles dos 30 anos da semana de moda

Com mais de 20 desfiles, o São Paulo Fashion Week celebrou 30 anos valorizando a moda brasileira, o artesanato e a diversidade; evento terá novo nome em 2027.

por Daniel Wicker
19/10/2026 às 15h20
em Moda
Entre Tendências E Desfiles, Veja Balanço Do São Paulo Fashion Week N61 | Cnn Brasil

A 61ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW) terminou neste domingo (18), encerrando as comemorações dos 30 anos da principal semana de moda brasileira e consolidando uma temporada marcada pela valorização da identidade nacional, do trabalho artesanal e da experimentação estética. Realizado entre 13 e 18 de outubro, o evento ocupou o Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, e diferentes espaços da capital paulista, reunindo estilistas consagrados, marcas independentes e novos criadores. As coleções apresentaram referências que atravessaram a cultura popular, a ancestralidade, a sustentabilidade, a tecnologia e as transformações no comportamento dos consumidores.

Batizada de Imaginários, a temporada destacou a diversidade de linguagens presentes na moda brasileira contemporânea. Enquanto marcas tradicionais revisitaram códigos de alfaiataria, romantismo e sofisticação, novos estilistas exploraram referências periféricas, cultura digital, técnicas manuais e materiais reutilizados. O resultado foi uma programação heterogênea, com propostas que ultrapassaram as tendências de vestuário para abordar temas relacionados à memória, ao território e à expressão individual.

A edição também marcou uma transformação na estratégia comercial do evento. A partir de 2027, a semana de moda passará a utilizar o nome Mantecorp SPFW, resultado de um acordo de direitos de nome, conhecidos como naming rights, com a marca de dermocosméticos da Hypera Pharma. A parceria anunciada durante o encerramento terá vigência até 2034 e representa um novo modelo de associação de longo prazo entre a plataforma de moda e um patrocinador privado.

O balanço da temporada revela, portanto, duas dimensões complementares. De um lado, o fortalecimento de uma produção autoral que procura ampliar a representatividade cultural e regional da moda brasileira. De outro, a necessidade de desenvolver relações comerciais capazes de sustentar a estrutura de um evento que reúne marcas, fornecedores, criadores, profissionais de comunicação e empresas de diferentes segmentos da economia.

SPFW N61 reúne 24 apresentações no acervo oficial

Entre Tendências E Desfiles, Veja Balanço Do São Paulo Fashion Week N61 | Cnn Brasil
Reprodução

A programação do SPFW N61 foi inicialmente anunciada com 26 desfiles, distribuídos ao longo de seis dias. O acervo final publicado no portal oficial do evento relaciona 24 apresentações, incluindo projetos especiais de marcas e iniciativas voltadas à formação de novos profissionais. A diferença demonstra que o calendário inicialmente anunciado passou por ajustes, sem alterar a diversidade de propostas apresentadas durante a temporada.

O Pavilhão das Culturas Brasileiras concentrou grande parte das apresentações, enquanto alguns estilistas optaram por espaços externos. A escolha de diferentes locações permitiu explorar formatos que ultrapassaram a passarela tradicional, incorporando elementos cênicos, performances musicais e intervenções urbanas. Em determinados desfiles, o ambiente passou a integrar diretamente a narrativa das coleções.

A abertura, em 13 de outubro, ficou a cargo de Alexandre Herchcovitch, seguido pela marca Forca, que utilizou a Praça Charles Miller, nas proximidades do Pacaembu, para uma apresentação associada à cultura automobilística. Nos dias seguintes, a programação recebeu nomes como Marina Bitu, À La Garçonne, Martins, Artemisi, Catarina Mina, Ronaldo Fraga, João Pimenta e Lilly Sarti. O encerramento, em 18 de outubro, reuniu Foz, Ammi e Apartamento 03.

A estrutura do evento também incorporou atividades de formação e reflexão sobre a moda. Entre 16 e 18 de outubro, o SPFW Academy promoveu encontros dedicados ao papel da estética e dos imaginários na construção cultural. A iniciativa ampliou a atuação da semana de moda para além dos desfiles, estabelecendo espaços de discussão sobre criação, conhecimento e práticas profissionais.

Alexandre Herchcovitch e Forca abrem temporada com romantismo e estética punk

Alexandre Herchcovitch abriu o calendário com uma coleção que reuniu elementos de romantismo, sensualidade e referências à cultura alternativa. A apresentação combinou rendas, transparências, sobreposições, volumes e estampas, utilizando diferentes materiais para aproximar delicadeza e experimentação. O estilista também retomou elementos associados à sua trajetória, incluindo referências ao fetichismo, à lingerie e à cultura clubber.

A proposta reforçou uma tendência identificada em diferentes coleções da temporada: a convivência entre estilos que tradicionalmente ocupam posições opostas. Tecidos leves apareceram ao lado de estruturas marcadas, enquanto formas clássicas foram reinterpretadas com materiais contemporâneos. A mistura permite que uma mesma coleção dialogue com consumidores de perfis diferentes, sem depender de uma única estética dominante.

A Forca apresentou uma abordagem distinta, transformando a Praça Charles Miller em um ambiente de performance automobilística. Sob direção criativa de Vivian Rivaben e Silvio De Marchi, a marca incorporou carros, música e referências à cultura punk e às raves. As roupas exploraram couro, recortes, sobreposições e silhuetas que remetiam a armaduras urbanas.

O contraste entre os dois desfiles demonstrou a amplitude de linguagens reunidas pelo SPFW. Enquanto Herchcovitch partiu da combinação entre sensualidade e romantismo, a Forca destacou tensão, velocidade e referências da cultura de rua. As apresentações também mostraram como os formatos cênicos podem ampliar a identidade de uma marca para além das peças comercializadas.

Artesanato brasileiro ganha protagonismo com Catarina Mina e Ronaldo Fraga

O trabalho artesanal esteve entre os elementos mais recorrentes do SPFW N61. Marcas de diferentes regiões utilizaram bordados, crochê, rendas, aplicações manuais e técnicas tradicionais para construir coleções conectadas à memória cultural brasileira. A valorização dessas práticas apareceu tanto em criações contemporâneas quanto em projetos dedicados explicitamente à preservação de saberes.

A marca cearense Catarina Mina apresentou a coleção Bonito Pra Chover, inspirada na relação entre o sertão e a chegada da chuva à caatinga. O desfile utilizou bordados de canutilhos, rendas, transparências e texturas para representar a transformação da paisagem durante o período chuvoso. A proposta incorporou técnicas manuais como parte central da construção das peças, aproximando moda, território e narrativa ambiental.

A coleção também contou com uma colaboração com a marca Avatim, que participou da criação de um vestido exclusivo e da ambientação olfativa do desfile. A iniciativa ilustrou a integração entre empresas de diferentes segmentos de consumo dentro de uma apresentação de moda. A colaboração amplia as possibilidades de comunicação das marcas, embora seu impacto comercial dependa de resultados posteriores que não foram divulgados.

O projeto Sou de Algodão apresentou uma colaboração com o estilista mineiro Ronaldo Fraga. Intitulada Cartas de Algodão – Poesias para o Futuro, a coleção utilizou o tecido como suporte de narrativas, com versos, ilustrações e bordados associados à memória afetiva. A proposta reforçou a utilização do algodão brasileiro como matéria-prima de criação e como elemento de identidade cultural.

A presença do artesanato em diferentes coleções sugere uma tentativa de valorizar processos produtivos que exigem conhecimento especializado e trabalho intensivo. Entretanto, a utilização de técnicas manuais não assegura, isoladamente, condições adequadas de remuneração ou sustentabilidade econômica. Para avaliar o impacto real dessa produção, também seria necessário conhecer a origem dos materiais, a estrutura de contratação e a remuneração dos profissionais envolvidos.

Sustentabilidade aparece no reaproveitamento de materiais e na criação autoral

A discussão sobre sustentabilidade ganhou espaço em coleções que utilizaram materiais reaproveitados e processos de reconstrução de peças. O tema apareceu particularmente nas apresentações de Uó por Marcelo Sommer, Apartamento 03 e Martins, que exploraram diferentes formas de reaproveitamento e transformação estética. As propostas demonstraram como materiais já existentes podem adquirir novas funções dentro de uma coleção.

A Uó, desenvolvida por Marcelo Sommer e Luiz Monteiro, reuniu referências de lingerie, alfaiataria e automobilismo. A coleção utilizou técnicas de upcycling, processo que transforma peças e materiais preexistentes em novos produtos, preservando parte de seus componentes. Camisolas, ternos, moletons e referências às roupas de corrida foram combinados em criações híbridas.

Na apresentação da Apartamento 03, o estilista Luiz Claudio Silva incorporou sobras de tecidos e materiais reaproveitados à coleção Atempo. Entre os elementos utilizados estavam acessórios produzidos a partir de louças quebradas e reconstruídas, além de peças com sobreposições e bordados. O resultado articulou o reaproveitamento de materiais a uma reflexão sobre memória, passagem do tempo e permanência.

Tom Martins, por sua vez, apresentou uma coleção inspirada em nomes internacionais como Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Martin Margiela, John Galliano e Marc Jacobs. O trabalho explorou o maximalismo, a desconstrução e a sobreposição de materiais, incluindo técnicas de patchwork. A apresentação destacou o papel do reaproveitamento como linguagem criativa, e não apenas como alternativa de produção.

A utilização de materiais recuperados representa uma prática potencialmente relevante para a redução do descarte têxtil, mas não permite concluir que uma coleção tenha impacto ambiental menor sem uma avaliação mais ampla. A produção de roupas também envolve consumo de energia, água, transporte e processos de acabamento. Para medir resultados ambientais, seria necessário comparar indicadores de produção e ciclo de vida dos materiais utilizados.

Tecnologia e impressão 3D ampliam possibilidades da moda

A relação entre moda e tecnologia esteve presente principalmente nas coleções que combinaram engenharia de materiais, técnicas digitais e acabamento artesanal. A Artemisi, comandada por Mayari Jubini, apresentou The Holy Matter, coleção que explorou alquimia, misticismo e construção de formas esculturais. As peças incorporaram estruturas tridimensionais e elementos produzidos com auxílio de impressão 3D.

O desenvolvimento de roupas com características escultóricas exige planejamento de formas, equilíbrio dos materiais e compatibilidade entre estrutura e movimento. O emprego de ferramentas digitais permite experimentar geometrias que seriam mais difíceis de executar exclusivamente por técnicas tradicionais. Entretanto, a produção continua dependendo de etapas manuais de acabamento, montagem e adaptação das peças ao corpo.

A combinação entre tecnologia e artesanato também apareceu em outras marcas que utilizaram bordados tridimensionais, aplicações estruturadas e materiais de diferentes texturas. O resultado reforçou a aproximação entre design de moda, engenharia e experimentação artística. Essa integração amplia o repertório técnico dos criadores, mas também pode elevar os custos de desenvolvimento das coleções.

O avanço dessas técnicas cria oportunidades para fornecedores especializados em materiais, equipamentos e serviços de prototipagem. Ao mesmo tempo, exige formação profissional capaz de integrar conhecimentos digitais e habilidades tradicionais de costura e modelagem. O SPFW funciona como espaço de apresentação dessas possibilidades, embora a adoção comercial em escala dependa de custos, demanda e capacidade produtiva.

Dario Mittmann leva Turma da Mônica para a cultura punk

A cultura popular brasileira também esteve presente no desfile de Dario Mittmann, que apresentou uma homenagem aos 90 anos de Mauricio de Sousa. Personagens da Turma da Mônica foram reinterpretados por meio de referências punk, clubber e da estética pop contemporânea. A coleção utilizou estampas, acessórios e construções de vestuário que aproximaram símbolos conhecidos da cultura infantil de linguagens associadas à moda urbana.

A proposta explorou o reconhecimento de personagens consolidados entre diferentes gerações. Ao reinterpretá-los em peças contemporâneas, o estilista criou uma conexão entre memória afetiva e cultura digital. O resultado demonstrou como elementos populares podem ser incorporados à moda autoral sem necessariamente reproduzir suas representações tradicionais.

A utilização de personagens também evidencia a importância dos direitos de propriedade intelectual na indústria da moda. Colaborações dessa natureza envolvem marcas e elementos protegidos, cujo uso comercial depende das autorizações aplicáveis. A aproximação entre moda e entretenimento pode abrir oportunidades de licenciamento, produtos especiais e ações de comunicação, conforme os acordos firmados entre os envolvidos.

Outras coleções também recorreram a referências culturais brasileiras. A Normando, criada por Marco Normando e Emídio Contente, utilizou a obra do pintor paraense Ismael Nery como ponto de partida para reinterpretar peças de alfaiataria. As criações combinaram preto, branco, azul, marrom e vermelho, incluindo pinturas manuais, transparências e efeitos visuais que simulavam a sobreposição de roupas.

Dendezeiro reúne Normani, Veigh e Karol Conká em desfile de cultura urbana

A marca baiana Dendezeiro apresentou uma das coleções que mais aproximaram moda, música e cultura urbana durante a temporada. O desfile Oração de Barbearia, desenvolvido pelos estilistas Hisan Silva e Pedro Batalha, reuniu referências do hip-hop brasileiro, da periferia e da estética dos anos 2000. A apresentação contou com participações de nomes como Normani, Veigh, Karol Conká, Julia Costa e Duquesa.

As peças exploraram a combinação entre alfaiataria e streetwear, com materiais como couro, jeans, sarja, jacquard e látex. O trabalho manual também apareceu em aplicações de crochê e detalhes de acabamento. A cartela de cores privilegiou preto, cinza e tons claros, articulando referências de vestuário urbano e peças de construção mais formal.

O desfile ocorreu em um momento de expansão comercial da marca, que anunciou a abertura de sua primeira loja em São Paulo. A iniciativa representa uma mudança importante para uma empresa que consolidou sua identidade criativa a partir de referências culturais da Bahia e de diferentes manifestações da cultura negra brasileira. A entrada no varejo físico paulistano pode ampliar o contato com consumidores e fortalecer a distribuição, embora também envolva novos custos operacionais.

A participação de artistas populares contribuiu para aproximar a apresentação de públicos que acompanham música e entretenimento, além dos consumidores tradicionais de moda. Essa estratégia pode aumentar a visibilidade da marca em canais digitais e redes sociais. Entretanto, a repercussão de um desfile não deve ser confundida automaticamente com crescimento de faturamento ou aumento de vendas, indicadores que dependem de informações comerciais específicas.

Santa Resistência homenageia Mangueira e leva Carnaval à passarela

A estilista Mônica Sampaio apresentou a coleção Otelo Brasileiro: Uma Paixão em Verde e Rosa, pela marca Santa Resistência. Inspirada em referências ligadas à Estação Primeira de Mangueira, a apresentação utilizou as cores verde e rosa em vestidos, conjuntos de alfaiataria, saias volumosas e peças com estampas florais. A proposta aproximou a linguagem do Carnaval da construção de um vestuário contemporâneo.

A coleção também reuniu sedas, penas, bordados e diferentes volumes, articulando referências à cultura popular e técnicas de confecção. A presença de integrantes da bateria da escola de samba no encerramento reforçou a relação entre música, moda e identidade cultural. O desfile apresentou uma interpretação própria desses elementos, sem se limitar à reprodução literal de fantasias carnavalescas.

A utilização de referências regionais e populares apareceu em outras marcas da temporada. A Foz, criada por Antônio Castro, apresentou Expresso Maravilha, coleção inspirada em memórias domésticas e na relação do estilista com suas origens. Cortinas, colchas, almofadas, mosquiteiros e outros elementos do cotidiano foram transformados em referências de textura, estamparia e construção de roupas.

A presença dessas narrativas reforça a diversidade de territórios representados no SPFW. Criadores de diferentes regiões utilizaram referências locais como elementos de identidade de suas coleções, aproximando a moda brasileira de experiências que ultrapassam os grandes centros de consumo. A continuidade desse movimento dependerá da capacidade de transformar visibilidade em oportunidades comerciais e de distribuição.

Novas marcas ampliam diversidade de linguagens e técnicas

O SPFW N61 também abriu espaço para criadores que ainda estão consolidando sua presença no calendário nacional. Entre as estreias esteve a Ammi, marca de Amanda Felisberto, que apresentou a coleção Forma Viva. O trabalho explorou crochê, renda e formas inspiradas na natureza, com construções que aproximaram flores, pétalas e estruturas orgânicas da silhueta humana.

A apresentação valorizou a modelagem tridimensional e o acabamento artesanal, utilizando os materiais para criar volumes e efeitos visuais. A participação de modelos como Isabelli Fontana, Vivi Orth e Gianne Albertoni reforçou a presença de diferentes gerações na passarela. O desfile também evidenciou as possibilidades de utilização do crochê em peças elaboradas para ocasiões especiais.

Outra estreia foi a Hisha, marca mineira comandada por Giovanna Resende, que apresentou a coleção Alforje. A proposta teve como referência a Estrada Real, a geologia e elementos ligados à tradição da montaria. As roupas combinaram modelagens fluidas, bordados, cristais e pedrarias, aproximando referências históricas e territoriais de uma estética contemporânea.

O surgimento de novas marcas no calendário é relevante para a renovação da indústria criativa. Desfiles dessa dimensão podem proporcionar contato com compradores, fornecedores, profissionais especializados e canais de comunicação. Entretanto, o crescimento comercial de uma grife depende também de capacidade produtiva, formação de preços, distribuição e manutenção da qualidade em escala.

Diversidade de corpos e idades marca encerramento do SPFW N61

A última apresentação da temporada ficou a cargo da Apartamento 03, dirigida criativamente por Luiz Claudio Silva. A coleção Atempo reuniu modelos trans, mulheres negras e profissionais maduras que participaram da trajetória do evento ao longo de diferentes temporadas. A escolha do elenco reforçou a proposta de refletir sobre tempo, memória e experiência.

As roupas apresentaram calças amplas, vestidos transparentes, mantôs bordados e sobreposições, em uma cartela que incluiu branco, preto, azul-ciano, vermelho e verde. A utilização de materiais reaproveitados também integrou a narrativa. O trabalho combinou rigor técnico de acabamento com formas que valorizavam diferentes corpos e trajetórias.

A presença de modelos com perfis diversos dialogou com uma das transformações mais visíveis da moda nas últimas décadas. A representação de diferentes idades, identidades e características físicas ganhou espaço em campanhas, passarelas e discursos institucionais. Entretanto, a consolidação dessa mudança depende da continuidade das oportunidades profissionais e da diversidade efetiva nos processos de contratação e criação.

O encerramento do SPFW com essa proposta estabeleceu uma ligação entre os 30 anos de história do evento e o debate sobre os próximos caminhos da moda brasileira. A apresentação não se concentrou apenas na novidade estética, mas também nas trajetórias de profissionais e na permanência de suas contribuições. Essa perspectiva complementou as experimentações tecnológicas e culturais observadas ao longo da semana.

Mercado Livre aproxima passarela do comércio eletrônico

A participação do Mercado Livre representou uma das principais iniciativas de aproximação entre a plataforma de moda e o comércio digital. A empresa apresentou o desfile-conceito Brasil de Encontros, com curadoria do stylist Daniel Ueda, reunindo peças disponíveis em seu marketplace. O projeto buscou mostrar tendências de vestuário e ampliar a conexão entre referências criativas e produtos comercializados por vendedores da plataforma.

A iniciativa evidencia uma mudança no relacionamento entre semanas de moda e empresas de tecnologia. Tradicionalmente associadas à apresentação de coleções autorais e ao relacionamento com compradores especializados, as passarelas também passaram a funcionar como ambientes de comunicação para plataformas de comércio eletrônico. A utilização de produtos disponíveis para compra aproxima a experiência estética de possibilidades concretas de consumo.

O modelo pode contribuir para ampliar a visibilidade de diferentes fornecedores, dependendo dos critérios de seleção e das condições comerciais oferecidas pela plataforma. Entretanto, a participação em um desfile não garante resultados equivalentes para todos os vendedores. O impacto sobre vendas, alcance de clientes e faturamento dependerá de indicadores que não foram apresentados no balanço da temporada.

A presença do Mercado Livre também demonstra a importância crescente da distribuição digital para a indústria da moda. Marcas precisam administrar diferentes canais de comercialização, desde lojas próprias e plataformas de terceiros até operações multimarcas. O desafio envolve preservar identidade, controlar custos e oferecer uma experiência de compra consistente em cada ambiente.

Mantecorp assume nome do SPFW em acordo válido até 2034

O encerramento da temporada foi acompanhado pelo anúncio de uma parceria comercial que modificará o nome do São Paulo Fashion Week a partir de 2027. A Mantecorp Skincare, marca da Hypera Pharma, adquiriu os direitos de nome do evento em um acordo previsto até 2034. Com a mudança, a plataforma passará a ser identificada comercialmente como Mantecorp SPFW.

O modelo de naming rights consiste na associação contratual de uma marca ao nome de um evento, instalação ou projeto durante determinado período. A operação pode proporcionar ao patrocinador exposição recorrente e integração de sua identidade às atividades desenvolvidas pela plataforma. Para o organizador, representa uma modalidade de relacionamento comercial de longo prazo, com condições financeiras e contrapartidas definidas contratualmente.

A Mantecorp já atuou como apresentadora oficial da edição N61, ao lado do Mercado Livre. Segundo comunicado institucional da própria marca, a participação incluiu experiências de cuidados com a pele, maquiagem e produtos de proteção solar. A estratégia procura ampliar a presença da companhia no universo da moda e aproximar seus produtos de atividades relacionadas à beleza e ao comportamento.

A marca também participou de outras iniciativas do setor em 2026, incluindo ações ligadas ao Rio Fashion Week e colaborações com diferentes grifes. A associação ao SPFW representa uma ampliação dessa estratégia de comunicação. O acordo até 2034 estabelece um horizonte comercial que ultrapassa uma única edição e permite a continuidade de iniciativas ao longo dos próximos anos.

O valor financeiro do contrato não foi divulgado publicamente. Por isso, não é possível calcular quanto a operação acrescentará às receitas do evento ou qual será o retorno econômico efetivo para a patrocinadora. Também não há base documental para estimar valores anuais ou comparar diretamente o acordo com contratos comerciais de outros eventos.

Moda brasileira amplia integração entre cultura e negócios

O balanço do SPFW N61 demonstra que a semana de moda funciona como um espaço de conexão entre diferentes atividades econômicas. A produção de uma coleção envolve designers, modelistas, costureiros, fornecedores têxteis, profissionais de imagem, empresas de tecnologia e prestadores de serviços. A realização de desfiles acrescenta demandas relacionadas à cenografia, iluminação, logística, produção audiovisual e comunicação.

A diversidade de marcas presentes amplia as possibilidades de relacionamento comercial dentro desse ambiente. Empresas de dermocosméticos, plataformas digitais e fornecedores de matérias-primas utilizaram a programação para apresentar produtos e desenvolver ações institucionais. A existência dessas parcerias mostra como a moda pode funcionar como um ponto de convergência entre setores diferentes da economia criativa.

Entretanto, a presença de patrocinadores e a realização de desfiles não permitem determinar, por si só, o impacto econômico total do evento. Para estimar sua contribuição em geração de empregos, receitas ou movimentação financeira, seria necessário conhecer os gastos de produção, contratos, investimentos das marcas e despesas de visitantes. Esses dados não foram apresentados de forma consolidada no balanço público consultado.

Outro desafio está relacionado à transformação da visibilidade em negócios duradouros. Uma apresentação pode ampliar o reconhecimento de uma marca, mas a continuidade de suas operações depende de vendas, margens, financiamento e organização produtiva. Para criadores independentes, o acesso a capital e a canais de distribuição pode ser tão importante quanto a repercussão de uma coleção.

O SPFW também atua como espaço de formação e circulação de conhecimento. O projeto Cria Costura, realizado em sua oitava edição, reuniu 30 participantes em atividades de desenvolvimento de técnicas de criação e modelagem, sob orientação da estilista Simone Nunes. A apresentação inspirada na obra de Roberto Burle Marx demonstrou a possibilidade de integrar capacitação profissional e visibilidade pública.

SPFW chega aos 30 anos com desafios de crescimento e sustentabilidade

As comemorações de três décadas do São Paulo Fashion Week permitem observar mudanças importantes na moda brasileira desde a criação do evento. O calendário ampliou a presença de marcas autorais, abriu espaço para diferentes regiões e incorporou novas formas de apresentação e relacionamento com o público. A edição N61 reforçou essa diversidade por meio de coleções que combinaram memória, tecnologia, artesanato e cultura urbana.

A sustentabilidade apareceu como tema recorrente, especialmente na reutilização de materiais e na valorização do trabalho manual. Entretanto, o avanço dessa agenda depende de ações que ultrapassem a apresentação de coleções conceituais. Transparência na cadeia produtiva, remuneração adequada, gestão de resíduos e redução de impactos ambientais são fatores necessários para avaliar a consistência das práticas adotadas pelas empresas.

A digitalização representa outro desafio. O crescimento das plataformas de comércio eletrônico amplia o acesso dos consumidores a produtos e marcas, mas também intensifica a concorrência e exige investimentos em tecnologia, logística e comunicação. Para os criadores, será importante encontrar formas de utilizar esses canais sem comprometer sua identidade comercial e suas condições de rentabilidade.

A mudança para Mantecorp SPFW, prevista para 2027, acrescenta uma nova dimensão à transformação do evento. O contrato de longo prazo pode ampliar as oportunidades de relacionamento comercial e planejamento, embora seu impacto financeiro dependa das condições efetivamente negociadas e da execução das iniciativas previstas. A preservação do espaço para a moda autoral será um dos elementos relevantes para acompanhar essa etapa.

O encerramento da temporada N61 mostrou uma produção brasileira marcada pela coexistência de técnicas tradicionais e experimentações contemporâneas. Das referências ao sertão nordestino às criações associadas à cultura urbana, passando pelo uso de impressão 3D e pelo reaproveitamento de materiais, os desfiles apresentaram diferentes caminhos para a criação de moda no país.

Ao completar 30 anos, o São Paulo Fashion Week encerra um ciclo comemorativo e inicia outro, com nova identidade comercial e a continuidade do desafio de aproximar criação, indústria e mercado. O resultado da temporada demonstra a diversidade de propostas que convivem no calendário nacional, enquanto os próximos anos deverão indicar como essa produção poderá ampliar sua sustentabilidade econômica e sua presença no mercado brasileiro e internacional.

Fontes

São Paulo Fashion Week — Acervo oficial da edição SPFW Imaginários 2026, com registro de 24 apresentações e descrição das coleções.

São Paulo Fashion Week — Programação institucional da 61ª edição, realizada entre 13 e 18 de outubro de 2026.

São Paulo Fashion Week — Registros oficiais dos desfiles de Herchcovitch; Alexandre, Forca, Catarina Mina, Artemisi, Dario Mittmann e João Pimenta.

São Paulo Fashion Week — Registros oficiais dos desfiles de Dendezeiro, Santa Resistência, Normando, Foz, Ammi, Hisha e Apartamento 03.

São Paulo Fashion Week — Registros institucionais dos projetos Mercado Livre, Sou de Algodão e Cria Costura na edição N61.

São Paulo Fashion Week — Programação do SPFW Academy 2026, realizado de 16 a 18 de outubro no Pavilhão das Culturas Brasileiras.

Mantecorp Skincare — Comunicado institucional sobre a participação como apresentadora oficial do São Paulo Fashion Week 2026 e as ações desenvolvidas durante a temporada.

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