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Tarcísio apoia plano dos EUA de classificar PCC e CV como organizações terroristas

por Júlia Campos
12/03/2026 às 18h18
em Política
Tarcísio Apoia Plano Dos Eua De Classificar Pcc E Cv Como Organizações Terroristas - Gazeta Mercantil

Tarcísio de Freitas vê como oportunidade a classificação do PCC e CV como organizações terroristas pelos EUA

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), declarou nesta quarta-feira que considera como uma “oportunidade” a iniciativa dos Estados Unidos de enquadrar facções brasileiras, como o Primeiro Comando Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas. A medida, segundo o governo norte-americano, reflete a percepção de que esses grupos representam uma “ameaça significativa à segurança regional”, devido à atuação no tráfico de drogas, na violência urbana e em crimes transnacionais.

“Enxergo isso como uma oportunidade, porque, a partir do momento em que um governo como o dos Estados Unidos encara o PCC como organização terrorista, e é, de fato, o que eles são, fica mais fácil. Fica aberto o caminho da cooperação para que a gente possa integrar inteligência, trazer recursos financeiros e fazer um combate ainda mais efetivo”, afirmou Tarcísio em entrevista a jornalistas, após agenda no Centro Operacional do Metrô de São Paulo.

Leia também: Cosan (CSAN3) recebe propostas por fatia na Rumo (RAIL3) em plano para reduzir alavancagem.

Essa declaração reforça o posicionamento do governador, que já em novembro do ano passado havia defendido a classificação do PCC como uma organização terrorista. Segundo especialistas em segurança e diplomacia, a decisão americana pode intensificar a colaboração entre Brasil e Estados Unidos, abrindo espaço para integração de inteligência e recursos financeiros no combate às facções criminosas.


Avaliação dos EUA sobre o PCC e CV

O Departamento de Estado norte-americano destacou em nota que o PCC e o CV estão entre as organizações que mais preocupam autoridades de segurança no hemisfério. “Os Estados Unidos consideram que organizações criminosas brasileiras, incluindo o PCC e o CV, representam ameaças significativas à segurança regional em razão de seu envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional”, afirmou a nota.

Essa postura reforça a visão americana de que o combate às facções brasileiras vai além das fronteiras nacionais e possui repercussão internacional, considerando o impacto do tráfico de drogas e do crime organizado em toda a América Latina.


Implicações políticas e soberania nacional

Especialistas em política externa alertam que a classificação das facções brasileiras como terroristas pode ter efeitos controversos para o Brasil. Para formuladores da política externa brasileira, a medida poderia ser interpretada como um aval para interferência militar direta no país, questionando a soberania nacional.

O tema também ganhou cunho eleitoral, com integrantes da oposição utilizando a questão para criticar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sugerindo uma suposta leniência do Executivo em relação a grupos criminosos. O debate evidencia o delicado equilíbrio entre cooperação internacional em segurança e a proteção da autonomia nacional.

No Brasil, o governo tem defendido que qualquer aprofundamento da cooperação bilateral em segurança deve respeitar a soberania do país. A pressão americana sobre o tema, segundo relatos de Brasília, estaria sendo impulsionada por um núcleo político do Departamento de Estado, liderado por Rubio, identificado como mais alinhado à direita americana e simpático ao campo bolsonarista.


Riscos internos da classificação terrorista

Especialistas ouvidos por veículos de imprensa brasileiros destacam que equiparar facções como PCC e CV a organizações terroristas pode gerar equívocos na abordagem do crime. O professor de Direito Penal da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), Thiago Bottino, ressalta que organizações criminosas não possuem o traço de contestação política típico do terrorismo.

“Grupos terroristas trabalham para inviabilizar o funcionamento do Estado. As organizações criminosas são o contrário, dependem que tudo continue como está para continuar a cometer crimes”, explica Bottino. Segundo ele, o objetivo dessas facções é lucrar — seja por meio do tráfico de drogas, crimes financeiros ou corrupção —, sem a existência de manifesto político ou bandeira ideológica.

O cientista político Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, alerta que a classificação de grupos criminosos como terroristas já foi utilizada em outros países, como México e Venezuela, para legitimar ações militarizadas das Forças Armadas dos EUA no combate ao crime organizado. A recente prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro exemplifica essa política intervencionista em regiões estratégicas.


Impacto na cooperação internacional

Caso os EUA avancem na classificação oficial do PCC e CV como organizações terroristas, o Brasil poderá ampliar a integração de inteligência e de recursos financeiros na luta contra o crime organizado. Isso inclui medidas de monitoramento, compartilhamento de informações estratégicas e ações coordenadas para desmantelar redes de tráfico e lavagem de dinheiro.

No contexto global, a decisão americana reforça a necessidade de o Brasil desenvolver políticas de segurança pública robustas, capazes de responder a ameaças transnacionais, mas sem comprometer a soberania do país. Para o governo paulista, a medida abre caminho para reforço tecnológico, capacitação de órgãos de segurança e mobilização de recursos internacionais.


Desafios jurídicos e sociais

A proposta de classificar o PCC e CV como organizações terroristas também levanta questionamentos jurídicos internos. No Brasil, a legislação prevê medidas específicas para organizações criminosas, mas não contempla a tipificação como terrorismo de forma direta para facções locais. Isso gera debate sobre a adequação legal e a interpretação do conceito de terrorismo aplicado a grupos sem motivação política explícita.

Além das implicações jurídicas, especialistas apontam riscos sociais. A militarização da segurança pode aumentar tensões em áreas urbanas dominadas por facções, impactando comunidades e criando cenários de conflito mais agressivos. O equilíbrio entre combate à criminalidade e preservação de direitos civis será um ponto crítico nas próximas discussões.


Estratégia brasileira frente à classificação

O governo federal tem enfatizado que o combate ao crime organizado deve se basear em cooperação internacional, mas sempre respeitando a autonomia nacional. O foco está em intensificar ações de inteligência, aprimorar a integração entre polícias estaduais e federais e fortalecer órgãos de investigação financeira para desarticular redes criminosas.

Especialistas sugerem que o Brasil aproveite a classificação como oportunidade para reforçar acordos bilaterais em segurança, implementar tecnologia de monitoramento e capacitar agentes públicos para enfrentar crimes transnacionais, sem depender exclusivamente de ação militar estrangeira.


A discussão sobre a classificação do PCC e CV como organizações terroristas evidencia a complexidade da segurança pública brasileira em um contexto globalizado. O tema envolve política internacional, soberania nacional, legislação interna, cooperação bilateral e impactos sociais diretos. A perspectiva de integração com os Estados Unidos pode representar avanços no combate ao crime, mas exige equilíbrio cuidadoso para evitar tensões políticas, jurídicas e sociais no país.

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