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Trump registra recorde de desaprovação de 62% em meio a conflito no Irã

A Erosão do Capital Político: Desaprovação de Donald Trump Reflete Choque Energético e Custo Fiscal de US$ 25 Bilhões

por Eduardo Toscano
03/05/2026 às 22h08
em Mundo
Donald Trump - Gazeta Mercantil

O governo dos Estados Unidos enfrenta um ponto de inflexão em sua sustentação política e fiscal. A desaprovação de Donald Trump atingiu o patamar recorde de 62%, segundo dados da pesquisa Washington Post-ABC News/Ipsos divulgada neste domingo (3). O levantamento, realizado entre 24 e 28 de abril com 2.560 adultos, consolida uma tendência de desgaste acelerado: apenas 37% dos americanos aprovam a condução do atual mandatário. Este cenário é indissociável da crise no Estreito de Ormuz, que paralisou 20% do fluxo global de hidrocarbonetos e elevou os gastos militares diretos para a cifra de US$ 25 bilhões (aproximadamente R$ 126 bilhões).

A deterioração dos índices de aprovação ocorre em áreas nevrálgicas para a manutenção da maioria republicana no Congresso. De acordo com o relatório da Ipsos, 76% dos entrevistados rejeitam a política econômica voltada ao custo de vida, enquanto 72% desaprovam especificamente a gestão da inflação. Com a margem de erro fixada em dois pontos percentuais, os números indicam que a narrativa de prosperidade econômica, pilar da campanha de Trump, foi suplantada pela realidade das bombas de combustível e pela incerteza geopolítica no Oriente Médio.

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O Estreito de Ormuz e a Crise da Oferta Energética

A gênese da atual crise inflacionária e, por consequência, da desaprovação de Donald Trump, reside no bloqueio sistemático da navegação no Golfo Pérsico. Há mais de 60 dias, o governo do Irã interrompeu o tráfego marítimo em Ormuz, permitindo apenas a passagem de embarcações sob sua bandeira. Em uma manobra de retaliação e cerco econômico, os Estados Unidos impuseram, no mês passado, um bloqueio severo aos portos iranianos. O resultado foi a interrupção abrupta do fornecimento de um quinto do petróleo e gás mundial.

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Para a economia americana, o impacto foi imediato e punitivo. O preço da gasolina, um indicador de sensibilidade política extrema nos EUA, registrou altas sucessivas, alimentando o descontentamento nos subúrbios e zonas rurais. A percepção de que a política externa da Casa Branca é a causa direta da perda do poder de compra é compartilhada por 66% dos que desaprovam a guerra atual. Além disso, 61% dos eleitores classificam o conflito contra o Irã como um erro estratégico, o que isola o presidente em uma doutrina de intervenção que não encontra eco na opinião pública contemporânea.

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O Custo da Guerra: US$ 25 Bilhões e o Déficit Fiscal

Na última semana, o Pentágono apresentou sua primeira estimativa oficial sobre o impacto financeiro das hostilidades. A conta de US$ 25 bilhões abrange o deslocamento de porta-aviões, a manutenção de sistemas de defesa em Israel e operações de patrulha ativa. Em um momento de juros elevados e necessidade de ajuste fiscal, o financiamento de uma guerra de atrito no Oriente Médio gera ceticismo entre investidores e economistas, que temem o agravamento do déficit público.

Apesar da pressão, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentou tranquilizar os mercados em entrevista à Fox Business Network neste domingo. Bessent projeta que os preços da energia entrarão em trajetória de queda ainda no segundo semestre de 2026. “Os preços do petróleo, do outro lado deste conflito, serão muito mais baixos”, afirmou o secretário, indicando que a estratégia americana visa uma resolução de curto prazo que force a abertura das vias marítimas e normalize a oferta global. Entretanto, para o eleitorado, o otimismo do Tesouro contrasta com a realidade imediata dos índices de preços.

O “Projeto Liberdade” e a Escala de Riscos Logísticos

Diante do travamento comercial, o presidente anunciou na noite de domingo o lançamento do “Projeto Liberdade”. A operação, prevista para iniciar na manhã de segunda-feira (horário do Oriente Médio), consiste em uma escolta militar de navios retidos em Ormuz. Segundo Trump, o movimento atende a pedidos de “países de todo o mundo” e visa garantir a segurança das vias marítimas restritas.

Para o bem do Irã, do Oriente Médio e dos Estados Unidos, informamos a esses países que iremos conduzir seus navios com segurança”, declarou o presidente na rede Truth Social. Embora apresentada como uma missão humanitária e de estabilização comercial, a operação eleva o risco de um confronto naval direto com as forças iranianas. Para o mercado financeiro, o sucesso do “Projeto Liberdade” é o driver crítico para a abertura dos pregões desta semana; qualquer incidente armado pode levar o barril de petróleo a patamares recordes, aprofundando ainda mais a desaprovação de Donald Trump.

Diplomacia sob Tensão: A Proposta de 14 Pontos de Teerã

No campo diplomático, a resolução do conflito parece depender de uma negociação complexa mediada pelo Paquistão. O Irã confirmou ter recebido uma resposta de Washington à sua proposta de 14 pontos para encerrar a guerra. A mídia estatal iraniana informou que o regime está analisando os termos, mas mantém exigências rígidas que incluem:

  • Abertura total da navegação em Ormuz e fim imediato do bloqueio americano ao Irã;

  • Retirada das forças militares dos EUA das áreas adjacentes ao território persa;

  • Liberação de ativos financeiros iranianos congelados no exterior e pagamento de indenizações;

  • Fim das hostilidades em todas as frentes, incluindo o apoio a operações no Líbano.

A estratégia de Teerã é clara: utilizar o gargalo energético como moeda de troca para o levantamento total das sanções econômicas, deixando a discussão sobre o programa nuclear para um segundo momento. Para a Casa Branca, aceitar tais termos seria interpretado como uma derrota geopolítica, enquanto manter o bloqueio sustenta a inflação que destrói a popularidade doméstica.

Reflexos Eleitorais: A Vantagem Democrata no Congresso

A erosão da base republicana é visível nas intenções de voto para a Câmara dos Representantes. Os democratas ampliaram sua vantagem para 49%, contra 44% dos republicanos, um salto significativo em relação aos dois pontos de diferença registrados em fevereiro. A pesquisa WP-ABC/Ipsos destaca que o eleitorado democrata está substancialmente mais motivado a comparecer às urnas em novembro, impulsionado pela rejeição às políticas externa e econômica da atual administração.

O cenário sugere que a desaprovação de Donald Trump não é mais um fenômeno restrito às bolhas de oposição, mas uma tendência que atinge o eleitorado independente, preocupado com a estabilidade dos preços e a segurança nacional. A polarização em torno do conflito e o custo de US$ 25 bilhões tornaram-se o centro do debate eleitoral, obrigando os candidatos republicanos a se distanciarem ou a justificarem os custos de uma guerra sem data para terminar.

Desdobramentos e a Resiliência do Sistema Financeiro

O mercado aguarda a abertura das operações desta segunda-feira sob o signo da incerteza. A eficácia do “Projeto Liberdade” será testada não apenas pela capacidade técnica da Marinha dos EUA, mas pela reação do regime iraniano. Caso a escolta de navios resulte em uma retomada do fluxo comercial sem escalada bélica, o governo Trump poderá reclamar uma vitória tática capaz de estabilizar os preços da gasolina e estancar a sangria de sua popularidade.

Por outro lado, o prolongamento do conflito e a manutenção do bloqueio financeiro ao Irã podem consolidar um quadro de estagflação — baixo crescimento com inflação persistente — que seria letal para as pretensões republicanas nas eleições de meio de mandato. A resiliência da economia americana está sendo testada em sua capacidade de absorver choques externos simultâneos a uma crise de governabilidade interna.

Perspectivas para a Segurança Energética Global

O desfecho do embate em Ormuz definirá o novo padrão da segurança energética para a próxima década. A vulnerabilidade dos estreitos marítimos e a dependência de rotas controladas por regimes hostis forçam uma reavaliação das reservas estratégicas e das fontes de energia. Para o governo Trump, o “Projeto Liberdade” é a cartada final para restaurar a ordem sob os termos americanos, mas o custo político e fiscal já imposto ao país parece ter deixado cicatrizes profundas na confiança do eleitorado.

A desaprovação de Donald Trump, agora em 62%, é o sintoma mais evidente de um país exausto por crises externas e custos domésticos elevados. A capacidade da Casa Branca de converter diplomacia e poderio militar em alívio econômico determinará se o recorde de rejeição de hoje será um pico temporário ou o prelúdio de uma derrota política histórica em novembro.

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