O comércio varejista brasileiro encerrou agosto de 2026 com volume de vendas aproximadamente 1,3% inferior ao recorde histórico registrado em março, apesar do crescimento de 0,1% na comparação com julho. O resultado, divulgado nesta quinta-feira (15) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma que a atividade perdeu intensidade depois de alcançar seu ponto mais elevado desde o início da série histórica, em janeiro de 2000. A pequena recuperação de agosto também não compensou a retração de 0,8% observada no mês anterior, mantendo o setor em um patamar inferior ao registrado no encerramento do primeiro trimestre.
O contraste entre o desempenho atual e o recorde de março acrescenta uma dimensão importante à análise da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC). Embora o varejo acumule crescimento de 1,7% nos oito primeiros meses de 2026 e de 1,6% no período de 12 meses, a trajetória mensal revela dificuldades para sustentar a expansão que marcou o início do ano. Desde abril, o comércio passou a alternar quedas expressivas com avanços modestos, sem recuperar integralmente as perdas registradas depois do pico histórico.
A desaceleração também surpreendeu as expectativas do mercado financeiro. A mediana das projeções indicava crescimento de 0,7% em agosto, enquanto o resultado efetivo ficou em apenas 0,1%, diferença de 0,6 ponto percentual. A combinação entre vendas praticamente estáveis, retração em segmentos de bens duráveis e juros ainda elevados reforça a avaliação de que o consumo das famílias enfrenta um período de acomodação, mesmo com a sustentação proporcionada pelo mercado de trabalho.
Varejo atingiu recorde em março e passou a perder força a partir de abril
A trajetória de 2026 começou com três meses consecutivos de expansão. Em janeiro, as vendas cresceram 0,5% na comparação com dezembro de 2025, considerando a série com ajuste sazonal e as revisões posteriores. Fevereiro apresentou avanço de 0,8%, enquanto março registrou crescimento de 0,5%, levando o comércio varejista ao maior nível da série histórica. O desempenho dos três primeiros meses estabeleceu uma base elevada para as comparações seguintes e indicava, naquele momento, uma expansão relativamente disseminada do consumo.
A mudança ocorreu em abril, quando o setor sofreu retração de 1,1%, de acordo com a série revisada. O resultado eliminou uma parcela significativa dos ganhos acumulados no trimestre anterior e interrompeu a sequência de recordes. Em maio, o varejo cresceu 0,2%, seguido de avanço de 0,3% em junho, movimentos insuficientes para recompor a perda de abril. Julho trouxe novo recuo de 0,8%, e a alta de agosto recuperou somente uma pequena parte desse resultado negativo.
Para avaliar a dimensão da desaceleração, a Gazeta Mercantil reconstruiu a evolução mensal do índice, tomando março de 2026 como referência igual a 100. O cálculo utiliza as variações mensais dessazonalizadas disponíveis na série da PMC e considera o encadeamento das taxas, em vez de simplesmente somar os percentuais. Dessa forma, é possível visualizar a distância entre o volume de vendas de cada mês e o recorde alcançado no primeiro trimestre.
Evolução do comércio varejista brasileiro em 2026
| Mês | Variação mensal | Índice relativo ao pico |
|---|---|---|
| Janeiro | +0,5% | 98,7 |
| Fevereiro | +0,8% | 99,5 |
| Março | +0,5% | 100,0 |
| Abril | -1,1% | 98,9 |
| Maio | +0,2% | 99,1 |
| Junho | +0,3% | 99,4 |
| Julho | -0,8% | 98,6 |
| Agosto | +0,1% | 98,7 |
Fonte: IBGE, Pesquisa Mensal de Comércio. Variações mensais da série com ajuste sazonal, consideradas as revisões disponíveis. Índice relativo calculado pela Gazeta Mercantil com março de 2026 = 100. Valores aproximados, sujeitos a diferenças de arredondamento e revisões estatísticas.
O levantamento mostra que agosto terminou praticamente no mesmo nível relativo de janeiro, apesar dos recordes registrados durante o primeiro trimestre. A perda acumulada entre março e agosto é de aproximadamente 1,3%, enquanto a comparação entre junho e agosto aponta recuo próximo de 0,7%. O resultado indica que o crescimento observado no início do ano não se transformou em uma trajetória contínua de expansão ao longo dos meses seguintes.
A distância em relação ao recorde não significa, entretanto, que o comércio tenha retornado aos níveis de períodos economicamente mais fracos. O pico de março representou o ponto mais elevado de uma série que começou em 2000, e o setor continuou operando em patamar historicamente alto mesmo após as perdas posteriores. A principal mudança está na direção recente das vendas: a atividade deixou de renovar máximas e passou a apresentar oscilações próximas da estabilidade, intercaladas por quedas mais intensas.
Revisões do IBGE modificam a leitura do desempenho mensal
A comparação histórica também exige atenção às revisões estatísticas realizadas pelo IBGE. As taxas inicialmente divulgadas podem ser alteradas em publicações posteriores em razão da chegada de novas informações das empresas pesquisadas, correções de dados e atualizações do ajuste sazonal. Por essa razão, números publicados em meses diferentes nem sempre representam uma sequência diretamente comparável sem considerar a versão mais recente da série.
O crescimento de junho, por exemplo, foi inicialmente divulgado como 0,5%, mas passou a constar como 0,3% no levantamento de agosto. A revisão altera a intensidade da recuperação observada antes da queda de julho e contribui para uma leitura mais precisa da trajetória do varejo. O mesmo cuidado se aplica às taxas dos meses anteriores, que devem ser consideradas dentro de uma base estatística coerente para evitar distorções no cálculo das variações acumuladas.
O encadeamento mensal também esclarece uma diferença frequentemente ignorada na interpretação dos indicadores. Uma queda de 0,8% seguida de crescimento de 0,1% não representa simplesmente uma perda de 0,7% por subtração direta, porque cada variação incide sobre uma base diferente. Quando as duas taxas são compostas, o recuo acumulado entre junho e agosto fica próximo de 0,70%. A diferença é pequena neste caso, mas o procedimento torna-se relevante em comparações históricas mais longas ou em períodos de maior volatilidade.
A média móvel trimestral reforça a percepção de perda de dinamismo. O indicador, que suaviza as oscilações de cada mês, apresentou variação negativa de 0,1% no trimestre encerrado em agosto, repetindo o resultado observado em julho. Esse comportamento mostra que o crescimento pontual de agosto não foi suficiente para modificar a tendência recente de estabilidade com viés de enfraquecimento.
Móveis e eletrodomésticos acumulam queda superior a 8% em julho e agosto
A fragilidade do comércio torna-se mais evidente quando analisados os segmentos que dependem de decisões de compra de maior valor. Móveis e eletrodomésticos registraram retração de 4,2% em agosto, repetindo a queda mensal de julho na série revisada. Consideradas conjuntamente, as duas variações representam perda aproximada de 8,2% no volume de vendas em relação a junho, resultado significativamente mais intenso que o recuo observado no varejo agregado.
Na comparação com agosto de 2025, as vendas de móveis e eletrodomésticos diminuíram 8,5%, configurando uma das principais pressões negativas sobre o comércio. O segmento retirou 0,6 ponto percentual da variação interanual do varejo, que terminou positiva em apenas 0,4%. O contraste mostra como uma atividade específica pode exercer influência importante sobre o resultado nacional, mesmo quando outros grupos continuam apresentando crescimento.
O comportamento desses produtos merece atenção especial por sua relação com as condições de financiamento. Compras de móveis, refrigeradores, televisores e outros eletrodomésticos frequentemente envolvem parcelamento e podem ser adiadas quando as famílias enfrentam restrições orçamentárias ou consideram elevados os custos do crédito. Os números do IBGE não identificam diretamente a causa das decisões de consumo, mas a retração de bens duráveis é compatível com um ambiente no qual as condições financeiras continuam influenciando o ritmo das compras.
A desaceleração também atingiu o comércio de tecidos, vestuário e calçados. Embora o segmento tenha crescido 0,6% em agosto frente a julho, suas vendas permaneceram 3,9% abaixo do nível registrado um ano antes. Na comparação interanual, a atividade completou três meses consecutivos de resultados negativos, evidenciando que a pequena reação mensal ainda não foi suficiente para reverter integralmente a perda de desempenho.
Farmácias e informática ajudam a sustentar as vendas
O enfraquecimento do comércio não ocorreu de maneira uniforme. Das oito atividades pesquisadas pelo IBGE, seis registraram crescimento em agosto, com destaque para equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, que avançaram 6,3%. Outros artigos de uso pessoal e doméstico cresceram 1,4%, enquanto combustíveis e lubrificantes tiveram expansão de 1,1%.
O comércio de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria registrou crescimento de 0,7% na comparação mensal e de 4,8% em relação a agosto de 2025. O setor completou 42 meses consecutivos de expansão na comparação interanual, demonstrando comportamento diferente daquele observado em categorias mais sujeitas ao adiamento das compras. No acumulado de 2026, a atividade apresenta crescimento de 4,6%, acima dos 1,7% registrados pelo varejo como um todo.
A importância do segmento farmacêutico também aparece na composição do índice nacional. Segundo o IBGE, a atividade acrescentou 0,5 ponto percentual à variação interanual de agosto, contribuição superior ao próprio crescimento agregado de 0,4%. Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo contribuíram com outros 0,3 ponto percentual, apesar da queda mensal de 0,3% registrada pelo grupo. Essas influências positivas ajudaram a compensar parte das perdas concentradas em móveis, eletrodomésticos e vestuário.
O resultado revela uma composição desigual do consumo, na qual determinados produtos mantêm demanda relativamente sustentada enquanto outros enfrentam oscilações mais intensas. A diferença entre os segmentos também explica por que a existência de seis atividades com crescimento mensal não resultou em expansão expressiva do índice geral. A participação econômica de cada categoria, e não simplesmente a quantidade de resultados positivos, determina sua contribuição para a taxa nacional.
Varejo ampliado cai 0,2% e reforça quadro de desaceleração
O comércio varejista ampliado apresentou desempenho inferior ao indicador restrito em agosto, com retração de 0,2% frente a julho. O resultado sucedeu uma alta de 0,5% no mês anterior e voltou a colocar o índice ampliado no campo negativo. A modalidade incorpora, além das atividades tradicionais do varejo, o comércio de veículos, motocicletas, partes e peças, materiais de construção e o atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo.
Entre as atividades adicionais, veículos, motocicletas, partes e peças recuaram 1,0% em agosto, enquanto material de construção apresentou queda de 2,0%. Na comparação com agosto de 2025, o primeiro segmento ainda registrou crescimento de 1,5%, mas o segundo apresentou retração de 3,8%. A diferença entre as bases de comparação mostra que uma atividade pode continuar acima do nível observado no ano anterior e, simultaneamente, perder intensidade na trajetória mensal mais recente.
O varejo ampliado acumula crescimento de 1,7% nos oito primeiros meses de 2026 e de 1,4% no período de 12 meses. A média móvel trimestral, entretanto, apresentou recuo de 0,3% em agosto, resultado mais negativo que o registrado pelo varejo restrito. A leitura conjunta dos indicadores aponta para uma desaceleração que alcança tanto o comércio cotidiano quanto atividades associadas a decisões de compra de maior valor.
Juros elevados ajudam a explicar a cautela nas compras
A perda de dinamismo ocorre mesmo após o início de um processo gradual de redução da taxa básica de juros. Em setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central diminuiu a Selic para 13,75% ao ano, dando continuidade aos cortes realizados ao longo de 2026. Apesar da flexibilização, a taxa permanece em nível elevado, e seus efeitos sobre o crédito ao consumidor não são imediatos.
As condições de financiamento dependem também dos riscos de inadimplência, do prazo das operações e das taxas efetivamente cobradas pelas instituições financeiras. Assim, a redução da Selic pode levar algum tempo para alcançar integralmente os empréstimos e parcelamentos disponíveis às famílias. Essa defasagem ajuda a compreender por que setores mais dependentes de crédito podem continuar apresentando fraqueza mesmo quando a política monetária começa a se tornar menos restritiva.
O próprio Banco Central reconheceu, na decisão de setembro, a existência de uma moderação gradual da atividade econômica, especialmente em segmentos mais sensíveis ao ciclo de juros. O comportamento do comércio varejista é compatível com esse diagnóstico, embora a PMC não permita estabelecer uma relação causal direta entre as decisões de política monetária e cada resultado mensal. A evolução da renda, da inflação e das expectativas dos consumidores também participa desse processo.
As diferenças regionais acrescentam outra dimensão ao quadro nacional. Em agosto, 14 das 27 unidades da Federação registraram crescimento do comércio, com destaque para Rondônia, Amapá e Mato Grosso do Sul, que apresentaram altas de 5,8%, 5,3% e 2,7%, respectivamente. O Espírito Santo teve a retração mais intensa, de 3,8%, enquanto São Paulo avançou 0,6% e o Rio de Janeiro recuou 1,1%, demonstrando que a estabilidade nacional resultou de movimentos bastante distintos entre os estados.
Recuperação do recorde dependerá de crescimento mais consistente
A comparação com o pico de março estabelece uma referência objetiva para acompanhar a recuperação do comércio nos próximos meses. Com o índice relativo situado em aproximadamente 98,7 em agosto, seria necessário crescimento acumulado próximo de 1,3% para retornar ao nível recorde, considerando a mesma base de cálculo e sem novas revisões. Esse percentual não representa uma previsão, mas a dimensão aproximada da recuperação necessária para recompor o volume perdido desde o primeiro trimestre.
O desafio é que o desempenho recente tem sido marcado por oscilações pequenas no campo positivo e quedas de maior intensidade. O crescimento de agosto, embora tenha interrompido a retração imediatamente anterior, ainda não fornece evidências de uma reversão sustentada. Ao mesmo tempo, o avanço acumulado de 1,7% no ano e o fato de o comércio permanecer relativamente próximo de seu recorde histórico impedem interpretar o resultado como uma contração generalizada da atividade varejista.
A próxima divulgação da Pesquisa Mensal de Comércio, referente a setembro de 2026, está prevista para 13 de novembro. Os dados permitirão verificar se o setor conseguiu reduzir a distância em relação ao recorde de março, especialmente nas atividades que registraram as maiores perdas recentes. A evolução de móveis e eletrodomésticos, supermercados e dos indicadores de crédito deverá ocupar posição central nessa análise, porque ajudará a distinguir uma recuperação mais ampla de uma simples oscilação mensal próxima da estabilidade.
Fontes:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Pesquisa Mensal de Comércio, caderno de indicadores de agosto de 2026, publicado em 15 de outubro de 2026.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Pesquisa Mensal de Comércio, caderno de indicadores de julho de 2026 e séries mensais revisadas.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Divulgação da Pesquisa Mensal de Comércio referente a março de 2026 e identificação do recorde histórico de vendas.
Banco Central do Brasil — Comunicado nº 45.963, de 16 de setembro de 2026, e histórico da taxa Selic.








