O varejo brasileiro deve apresentar resultados financeiros pressionados no terceiro trimestre de 2026, refletindo os efeitos dos juros elevados, do endividamento das famÃlias e da desaceleração do consumo. Relatórios de Bradesco BBI, XP Investimentos e BTG Pactual apontam dificuldades para o crescimento das receitas de redes de vestuário, alimentos e outros segmentos ligados ao mercado doméstico. O cenário ocorre mesmo com a valorização recente das ações de empresas varejistas na Bolsa, movimento que ainda não foi acompanhado por uma recuperação consistente das expectativas de lucro.
O Bradesco BBI projeta um desempenho fraco para a maior parte das companhias de consumo e varejo acompanhadas pelo banco, com desaceleração das vendas nas mesmas lojas e crescimento de receitas inferior à inflação em diversos casos. A instituição identifica maior resiliência em empresas com caracterÃsticas operacionais especÃficas, como Smart Fit (SMFT3), Alpargatas (ALPA4) e Grupo PetzCobasi (AUAU3). A avaliação reflete diferenças entre modelos de negócios, capacidade de expansão e sensibilidade à renda disponÃvel dos consumidores.
A XP também revisou suas projeções para o setor de vestuário, considerando um segundo semestre mais fraco. Em relatório publicado em 18 de outubro, os analistas Pedro Caravina e Laryssa Sumer apontaram dificuldades relacionadas ao consumo, à instabilidade climática e à concorrência internacional. Apesar da perspectiva de receitas mais pressionadas, a instituição mantém recomendações de compra para Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3), considerando os preços atuais em relação às suas estimativas de valor.
Os sinais de desaceleração encontram respaldo nos indicadores oficiais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE), o volume de vendas do comércio varejista cresceu apenas 0,1% em agosto, depois de recuar 0,8% em julho. Na comparação com agosto de 2025, o avanço foi de 0,4%, resultado que revela uma expansão limitada da atividade comercial durante o terceiro trimestre.
Vendas do varejo crescem apenas 0,1% em agosto, mostra IBGE
Os resultados da Pesquisa Mensal de Comércio, divulgados pelo IBGE em 15 de outubro, mostram que o setor continuou enfrentando dificuldades para sustentar uma trajetória de crescimento. A alta de 0,1% em agosto representou uma recuperação insuficiente para compensar a queda de 0,8% registrada no mês anterior. A média móvel trimestral apresentou variação negativa de 0,1%, reforçando a percepção de perda de dinamismo da atividade.
No acumulado dos primeiros oito meses de 2026, o volume de vendas do comércio varejista avançou 1,7%, enquanto o crescimento em 12 meses ficou em 1,6%. Os números indicam expansão em relação ao ano anterior, mas em ritmo limitado e com diferenças relevantes entre segmentos. O comportamento das vendas de produtos essenciais contrasta com o desempenho de categorias que dependem mais diretamente da renda disponÃvel e das condições de crédito.
No comércio varejista ampliado, que inclui veÃculos, autopeças, material de construção e atacado especializado de alimentos, o volume recuou 0,2% em agosto na comparação mensal. Em relação ao mesmo mês de 2025, a expansão foi de apenas 0,1%. A combinação dos indicadores demonstra que a desaceleração não ficou restrita a um único conjunto de atividades.
Os dados setoriais também revelam diferenças importantes. Em agosto, as vendas de móveis e eletrodomésticos caÃram 4,2% na comparação com julho, enquanto hipermercados e supermercados registraram retração de 0,3%. Já o comércio de tecidos, vestuário e calçados apresentou crescimento mensal de 0,6%, insuficiente para reverter as perdas acumuladas nos meses anteriores.
Desempenho do comércio brasileiro em agosto de 2026
| Segmento | Variação mensal | Variação anual |
|---|---|---|
| Comércio varejista | +0,1% | +0,4% |
| Varejo ampliado | -0,2% | +0,1% |
| Vestuário e calçados | +0,6% | -3,9% |
| Móveis e eletrodomésticos | -4,2% | -8,5% |
| Supermercados e alimentos | -0,3% | +0,5% |
| Artigos farmacêuticos e perfumaria | +0,7% | +4,8% |
A comparação anual é particularmente desfavorável para vestuário e eletrodomésticos. Enquanto o varejo total apresentou crescimento de 0,4% em volume, as vendas de roupas e calçados recuaram 3,9%, diferença de 4,3 pontos percentuais em relação à média do comércio. No segmento de móveis e eletrodomésticos, a retração anual de 8,5% indica uma exposição ainda maior às dificuldades do consumo.
O levantamento de agosto representa apenas uma parte do terceiro trimestre. Os números referentes a setembro ainda não haviam sido divulgados pelo IBGE até esta segunda-feira (19), e a publicação está prevista para 13 de novembro. Portanto, os dados oficiais disponÃveis ajudam a fundamentar as projeções dos analistas, mas ainda não permitem calcular o desempenho consolidado do comércio entre julho e setembro.
Endividamento atinge 81,7% das famÃlias brasileiras
A situação financeira das famÃlias constitui um dos principais fatores de pressão sobre o comércio. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,7% das famÃlias brasileiras possuÃam dÃvidas em setembro de 2026. O percentual representa uma pequena redução em relação aos 82% registrados em agosto, mas permanece em patamar elevado.
A pesquisa também mostrou que 29,6% das famÃlias tinham contas em atraso, ante 29,9% no mês anterior. A melhora de 0,3 ponto percentual interrompeu parte do avanço recente da inadimplência, embora não tenha eliminado as dificuldades financeiras enfrentadas pelos consumidores. Além disso, 12,5% das famÃlias declararam não possuir condições de quitar suas dÃvidas vencidas.
A distinção entre endividamento e inadimplência é importante para compreender o impacto sobre o consumo. Uma famÃlia pode possuir financiamentos, empréstimos ou despesas parceladas e manter todos os pagamentos em dia. Entretanto, mesmo quando não existe atraso, as parcelas contratadas comprometem parte da renda mensal e reduzem os recursos disponÃveis para novas compras.
A pesquisa da CNC aponta outro sinal de preocupação. O tempo médio de atraso das contas chegou a 65,3 dias em setembro, o maior patamar desde novembro de 2024. Entre os compromissos vencidos, 48,9% apresentavam atrasos superiores a 90 dias, indicando dificuldades persistentes de regularização financeira entre parte dos consumidores.
O comportamento também apresenta diferenças por faixa de renda. Entre as famÃlias com rendimentos de cinco a dez salários mÃnimos, o percentual de endividados aumentou de 77,2% em agosto para 77,9% em setembro. Esse grupo constitui uma parcela importante do público consumidor de redes de vestuário, eletrodomésticos e outros produtos de maior valor agregado.
Para o varejo, a combinação entre endividamento elevado e juros altos pode produzir efeitos simultâneos sobre demanda e rentabilidade. Consumidores comprometidos com parcelas anteriores tendem a dispor de menor margem financeira para realizar novas compras, enquanto as empresas enfrentam custos mais elevados para financiar estoques, operações e investimentos. A intensidade do impacto varia conforme a estrutura de capital e o perfil de clientes de cada companhia.
Selic de 13,75% mantém pressão sobre consumo e crédito
A polÃtica monetária brasileira também influencia as expectativas de desempenho das varejistas. Em setembro, o Comitê de PolÃtica Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano. Apesar da redução de 0,25 ponto percentual, a taxa permanece em nÃvel considerado restritivo, com efeitos sobre o financiamento de consumidores e empresas.
Na ata da reunião de setembro, o Banco Central afirmou que os efeitos da polÃtica monetária contracionista sobre a atividade econômica continuavam se acumulando. A instituição reconheceu a necessidade de manter condições financeiras suficientemente restritivas para assegurar a convergência da inflação à meta. O comunicado também destacou os riscos associados à persistência das pressões inflacionárias e à s expectativas de preços.
Para as varejistas, a manutenção de juros elevados afeta diferentes etapas da operação. O custo de financiar estoques e capital de giro permanece alto, enquanto consumidores que utilizam crédito para compras parceladas enfrentam condições financeiras mais exigentes. Empresas com dÃvida relevante também podem registrar despesas financeiras expressivas, reduzindo o lucro lÃquido mesmo quando conseguem preservar parte de suas margens operacionais.
Uma eventual continuidade dos cortes da Selic poderá aliviar gradualmente essas pressões. Entretanto, a transmissão de mudanças na taxa básica para o crédito ao consumidor não ocorre de maneira imediata ou uniforme. O custo final dos empréstimos também depende da inadimplência, dos riscos de crédito, das despesas de intermediação e das condições comerciais oferecidas pelas instituições financeiras.
O comportamento futuro dos juros constitui, portanto, um fator relevante para a recuperação do setor. A redução das taxas pode diminuir o custo de capital das empresas e ampliar a capacidade de consumo das famÃlias, mas não assegura automaticamente crescimento das vendas. O efeito dependerá da evolução do emprego, da renda, da inflação e do comprometimento financeiro dos consumidores.
XP reduz projeção de lucro da Renner em 13% para 2027
A revisão das estimativas da XP Investimentos demonstra como as dificuldades de consumo estão alterando as expectativas para os resultados corporativos. No relatório publicado em 18 de outubro, a instituição reduziu em 13% sua projeção de lucro lÃquido de 2027 para Lojas Renner. A revisão reflete uma expectativa de receitas mais fracas durante o segundo semestre de 2026 e ajustes nas perspectivas de recuperação operacional.
A Renner continua sendo acompanhada como uma das grandes referências do varejo brasileiro de moda. A companhia possui presença nacional, operações fÃsicas e digitais e uma estrutura de marcas voltadas a diferentes ocasiões de consumo. Entretanto, seu desempenho permanece sensÃvel à evolução da renda disponÃvel, à s despesas operacionais e à intensidade da concorrência.
A XP considera que a empresa poderá obter ganhos de eficiência operacional à medida que suas iniciativas de redução de custos e melhoria de produtividade amadureçam. A instituição destaca a possibilidade de maior diluição das despesas operacionais em 2027, caso as vendas voltem a apresentar crescimento mais consistente. Essa projeção depende, entretanto, da execução das medidas e da evolução efetiva do mercado.
Apesar do corte nas estimativas, a corretora manteve recomendação de compra para LREN3, com preço-alvo de R$ 18 por ação. O valor representa uma estimativa dos analistas, sujeita às hipóteses adotadas no modelo de avaliação e às condições de mercado. Não constitui garantia de valorização nem significa que o preço será necessariamente alcançado.
A diferença entre o desempenho operacional e o valor de mercado das ações é importante para compreender a posição da instituição. Uma companhia pode enfrentar deterioração temporária de resultados e, ainda assim, apresentar potencial de valorização segundo determinados modelos financeiros. Essa avaliação depende do preço atual do ativo, das projeções de lucro, das taxas de desconto e dos riscos considerados.
C&A também tem projeções reduzidas, mas mantém expectativa de recuperação
A C&A Modas aparece entre as companhias afetadas pela revisão das projeções da XP. O relatório reduziu em 2% a estimativa de lucro lÃquido para 2027, considerando as condições mais desafiadoras de consumo durante o segundo semestre de 2026. O ajuste foi proporcionalmente menor do que o realizado para a Renner, refletindo diferenças nas expectativas de desempenho das duas empresas.
A XP destaca iniciativas de melhoria da cadeia de suprimentos da C&A como possÃveis fontes de recuperação das margens. A eficiência na gestão de estoques, no abastecimento de lojas e na disponibilidade de produtos pode contribuir para reduzir perdas comerciais e despesas operacionais. Essas medidas tornam-se particularmente importantes quando o crescimento das receitas é insuficiente para compensar automaticamente a expansão dos custos.
Em ambientes de demanda enfraquecida, a gestão de estoques assume papel central na rentabilidade das redes de moda. Um excesso de produtos pode exigir promoções e descontos, pressionando a margem bruta, enquanto estoques insuficientes provocam perda de vendas. O equilÃbrio depende de previsões de demanda, capacidade logÃstica e velocidade de reposição das coleções.
A corretora manteve recomendação de compra para CEAB3, com preço-alvo de R$ 17 por ação. A análise considera a possibilidade de recuperação operacional e uma avaliação de mercado que, segundo a XP, permanece inferior aos múltiplos históricos observados no setor. Ainda assim, a realização desse potencial depende dos resultados futuros e das condições financeiras da companhia.
A estrutura de capital também faz parte do cenário analisado pelos investidores. Em outubro, a C&A aprovou uma captação de até R$ 500 milhões por meio de emissão de debêntures destinada ao refinanciamento de dÃvidas. A operação ilustra a importância da administração dos passivos financeiros para empresas que atuam em um ambiente de juros elevados.
Riachuelo tem estimativa de lucro elevada apesar da fraqueza nas vendas
A Riachuelo apresenta uma situação diferente nas projeções da XP. Enquanto a instituição reduziu as estimativas de lucro da Renner e da C&A para 2027, elevou em 1% sua previsão para a companhia. O ajuste foi atribuÃdo principalmente à expectativa de expansão da margem bruta, considerada suficiente para compensar parte da receita mais fraca.
A diferença indica que a rentabilidade das varejistas não depende exclusivamente do volume vendido. Alterações na composição das receitas, nos custos das mercadorias e na polÃtica de preços podem influenciar as margens, mesmo quando o crescimento das vendas desacelera. A capacidade de administrar essas variáveis pode produzir resultados distintos entre concorrentes expostas ao mesmo ambiente econômico.
A XP também identifica a recuperação da margem bruta como uma das principais oportunidades operacionais da Riachuelo. O avanço dependerá de fatores como eficiência das coleções, controle de custos, participação de produtos de maior rentabilidade e execução comercial. Entretanto, os ganhos projetados ainda precisam ser confirmados pelos demonstrativos financeiros que serão divulgados nos próximos trimestres.
Para RIAA3, a instituição manteve recomendação de compra e preço-alvo de R$ 14 por ação. O relatório ressalta que a companhia apresenta maior sensibilidade às mudanças no custo de capital em suas projeções de avaliação. Isso significa que alterações nas taxas utilizadas para descontar os fluxos de caixa futuros podem produzir efeitos relevantes sobre o valor estimado das ações.
Revisões e preços-alvo divulgados pela XP para 2027
| Empresa | Revisão do lucro projetado | Preço-alvo |
|---|---|---|
| Lojas Renner (LREN3) | -13% | R$ 18 |
| C&A (CEAB3) | -2% | R$ 17 |
| Riachuelo (RIAA3) | +1% | R$ 14 |
As revisões representam alterações nas estimativas dos analistas, e não resultados financeiros efetivamente registrados pelas empresas. Os preços-alvo também não devem ser interpretados como previsão garantida de cotação futura. Sua validade depende das premissas econômicas, operacionais e financeiras utilizadas nos respectivos modelos.
Smart Fit, Alpargatas e PetzCobasi apresentam perspectivas distintas
Na análise atribuÃda ao Bradesco BBI, a Smart Fit aparece como a principal preferência do banco entre as empresas de consumo e varejo acompanhadas. A instituição considera que a companhia apresenta caracterÃsticas capazes de sustentar seu desempenho relativo, incluindo presença em diferentes paÃses e oportunidades de expansão da rede. A diversificação geográfica reduz a dependência exclusiva das condições do mercado brasileiro, embora não elimine riscos operacionais e financeiros.
A Smart Fit atua no segmento de academias, com um modelo de receitas recorrentes relacionado ao pagamento de mensalidades. Essa caracterÃstica diferencia parte de sua dinâmica comercial daquela observada em redes que dependem principalmente de vendas pontuais de mercadorias. Entretanto, o resultado continua sujeito à evolução da base de alunos, à s despesas com instalações e à capacidade de manter unidades rentáveis.
A Alpargatas também aparece entre as empresas com perspectiva relativamente mais favorável no relatório. A companhia possui exposição ao mercado de calçados e à operação internacional da marca Havaianas, com receitas e custos influenciados por condições comerciais em diferentes regiões. O desempenho depende da combinação entre volume vendido, preços, estrutura de distribuição e eficiência industrial.
O Grupo PetzCobasi, identificado pelo código AUAU3, integra outra categoria de consumo. A companhia atua no mercado de produtos e serviços destinados a animais de estimação, setor cuja demanda apresenta caracterÃsticas diferentes daquelas encontradas em vestuário e bens duráveis. A avaliação de seus resultados também depende da integração operacional, das despesas administrativas e da capacidade de aproveitar ganhos de escala.
A identificação dessas companhias como relativamente mais resilientes não significa ausência de riscos ou expectativa de crescimento garantido. Trata-se de uma avaliação comparativa apresentada pelos analistas, considerando os modelos de negócios e suas projeções. Os resultados efetivos poderão diferir das estimativas conforme a evolução das condições de mercado.
Concorrência internacional aumenta pressão sobre redes de moda
Além dos juros e do endividamento, o varejo brasileiro de vestuário enfrenta concorrência crescente de plataformas internacionais de comércio eletrônico. A XP destacou a intensificação das operações transfronteiriças como um dos fatores que dificultam a recuperação das vendas e a preservação de margens das redes nacionais. O movimento amplia as alternativas disponÃveis aos consumidores e aumenta a comparação de preços entre produtos semelhantes.
No relatório de outubro, a XP informou que o volume de encomendas vinculadas ao programa Remessa Conforme alcançou aproximadamente 26 milhões a 27 milhões de pacotes mensais. Segundo a instituição, o movimento correspondeu a um crescimento anual de 76% em agosto, após mudanças nas regras tributárias incidentes sobre determinadas compras internacionais. A informação foi utilizada para dimensionar a intensificação da concorrência no comércio eletrônico.
A presença de plataformas estrangeiras influencia diferentes aspectos da operação varejista. Empresas nacionais precisam considerar preços, variedade de produtos, prazo de entrega e custo de aquisição de clientes, além de investimentos em tecnologia e logÃstica. A competição pode pressionar margens quando exige promoções mais intensas ou redução de preços.
Entretanto, a resposta das varejistas locais não depende apenas de competir pelo menor preço. Rede fÃsica, possibilidade de troca, disponibilidade imediata de produtos e reconhecimento das marcas também integram a decisão de compra. A capacidade de combinar canais digitais e lojas fÃsicas pode representar um diferencial comercial, dependendo do perfil do consumidor.
A XP também aponta a instabilidade climática como elemento que dificultou a administração das coleções no terceiro trimestre. Temperaturas diferentes das esperadas podem alterar a demanda por determinados produtos e comprometer o planejamento dos estoques. O impacto varia conforme a região, a estação e o perfil de mercadorias oferecidas pelas empresas.
Valorização das ações ainda não acompanha recuperação dos lucros
O BTG Pactual destaca uma diferença importante entre o desempenho recente das ações de varejistas e as perspectivas de resultados operacionais. Segundo a avaliação atribuÃda ao banco, parte da valorização dos papéis ocorreu por expansão dos múltiplos de mercado e redução das taxas utilizadas para descontar fluxos de caixa futuros. O movimento não foi acompanhado, na mesma proporção, por revisões positivas das projeções de lucro lÃquido.
A distinção ajuda a compreender por que uma ação pode subir mesmo quando as expectativas de receitas permanecem fracas. O valor atribuÃdo a uma empresa depende tanto da geração de resultados esperada quanto da taxa de retorno exigida pelos investidores. Se o custo de capital estimado diminui, o valor presente dos fluxos financeiros projetados pode aumentar, mesmo sem crescimento equivalente no lucro operacional.
A XP apresentou uma simulação que dimensiona essa sensibilidade. Segundo seus modelos, uma redução de um ponto percentual no custo de capital próprio poderia elevar os valores estimados por fluxo de caixa descontado entre aproximadamente 8% e 10%, mantendo constantes as demais premissas. A estimativa ilustra o efeito das taxas de desconto sobre a avaliação financeira das companhias.
O exercÃcio não representa uma previsão de valorização efetiva das ações. Os preços negociados na Bolsa também respondem à s expectativas de crescimento, aos riscos empresariais, à liquidez e à s decisões dos participantes do mercado. Uma redução do custo de capital pode ser parcialmente compensada por revisões negativas de receita ou aumento de despesas.
Para que uma recuperação das cotações seja acompanhada por melhora consistente dos fundamentos, os bancos identificam a necessidade de evolução dos resultados financeiros. A redução das despesas com juros, a recuperação das margens e o crescimento sustentável das vendas constituem fatores que poderão influenciar a avaliação das empresas nos próximos exercÃcios.
Queda dos juros pode aliviar varejo em 2027, mas recuperação depende de execução
As projeções para 2027 incorporam a possibilidade de condições financeiras menos restritivas. A XP trabalha com cenário de redução da Selic para 13,25% ao final de 2026 e 11,50% em meados de 2027, segundo as premissas apresentadas em seu relatório setorial. Esses valores representam estimativas da instituição, não decisões já tomadas pelo Banco Central.
Uma redução gradual dos juros poderá produzir efeitos positivos sobre o setor por diferentes canais. O financiamento do consumo tende a ficar menos oneroso, enquanto empresas com dÃvidas vinculadas a taxas flutuantes podem apresentar diminuição das despesas financeiras. Também poderá haver alterações na atratividade relativa dos investimentos de renda fixa e renda variável.
Entretanto, a recuperação das margens não dependerá apenas de decisões de polÃtica monetária. A capacidade de executar melhorias logÃsticas, administrar estoques, controlar despesas e preservar a competitividade comercial continuará determinante para os resultados. Companhias com estratégias operacionais mais eficientes podem apresentar desempenhos diferentes mesmo diante de condições macroeconômicas semelhantes.
O nÃvel de endividamento das famÃlias representa outro condicionante importante. Ainda que as taxas de juros diminuam, consumidores com parcelas elevadas ou dÃvidas atrasadas podem precisar de tempo para recompor sua capacidade financeira. Dessa forma, o impacto sobre as vendas pode ocorrer gradualmente e variar entre segmentos de consumo essencial e discricionário.
A inflação também precisa ser considerada. Um ambiente de preços mais estáveis tende a preservar o poder de compra, mas aumentos persistentes em despesas essenciais podem limitar a parcela da renda disponÃvel para roupas, eletrodomésticos e outros produtos. O comportamento do mercado de trabalho e dos rendimentos reais será relevante para determinar a intensidade da eventual recuperação.
Resultados do 3T26 devem mostrar quais varejistas conseguem preservar margens
A temporada de balanços do terceiro trimestre deverá oferecer informações adicionais sobre a capacidade das empresas de enfrentar o ambiente de consumo enfraquecido. Entre os indicadores acompanhados pelos analistas estarão as vendas nas mesmas lojas, o crescimento da receita lÃquida, a margem bruta, as despesas operacionais e o resultado financeiro. Cada um desses elementos permite avaliar uma dimensão diferente do desempenho corporativo.
As vendas nas mesmas lojas, também chamadas de same-store sales ou SSS, ajudam a identificar a evolução comercial de unidades comparáveis, reduzindo o efeito de novas inaugurações. Um crescimento positivo desse indicador pode demonstrar melhora operacional, enquanto resultados inferiores à inflação podem indicar expansão nominal acompanhada de perda de volume real. A metodologia de cálculo, entretanto, pode variar entre empresas.
A margem bruta mostra a parcela da receita que permanece depois dos custos diretamente associados à s mercadorias vendidas. Sua preservação pode refletir eficiência de compras, melhora na composição dos produtos e maior disciplina promocional. Entretanto, margens brutas elevadas não garantem aumento do lucro lÃquido quando despesas administrativas e financeiras também crescem.
A geração de caixa será outro indicador relevante. Empresas podem apresentar lucro contábil e, simultaneamente, enfrentar necessidade elevada de recursos para financiar estoques, recebÃveis e investimentos. A relação entre resultado operacional e caixa efetivamente produzido ajuda a avaliar a capacidade de sustentar operações e reduzir endividamento.
O conjunto das projeções aponta para um terceiro trimestre de crescimento limitado no varejo brasileiro, com maior pressão sobre empresas dependentes de consumo discricionário. Os dados oficiais de agosto e os indicadores de endividamento de setembro sustentam a avaliação de um ambiente desafiador, mas ainda não substituem os resultados corporativos que serão divulgados pelas companhias.
A recuperação esperada para 2027 dependerá de uma combinação de fatores. Juros menores podem reduzir pressões financeiras, mas o desempenho também exigirá melhora do consumo, disciplina de custos e capacidade de execução das estratégias comerciais. Até lá, os balanços do terceiro trimestre deverão mostrar quais companhias conseguiram preservar rentabilidade em um mercado marcado por vendas fracas e maior seletividade dos consumidores.
Fontes
Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica — Pesquisa Mensal de Comércio de agosto de 2026, divulgada em 15 de outubro de 2026.
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor de setembro de 2026, divulgada em 8 de outubro de 2026.
Banco Central do Brasil — Ata da 281ª reunião do Comitê de PolÃtica Monetária, realizada em 15 e 16 de setembro de 2026.
Banco Central do Brasil — Relatório de PolÃtica Monetária de setembro de 2026, com avaliação das condições monetárias e da atividade econômica.
XP Investimentos — Relatório Varejo XP: Atualizando nossas estimativas do setor de vestuário após o segundo trimestre, de Pedro Caravina e Laryssa Sumer, publicado em 18 de outubro de 2026.
XP Investimentos — Relatório Varejo XP: Mapeando a precificação do setor de vestuário brasileiro, publicado em 11 de junho de 2026.









