A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou uma nova dimensão no WhatsApp, onde canais de mobilização política passaram a reunir milhões de seguidores e a organizar ações coordenadas nas redes sociais. Nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, o chamado “Exército do Lula” ultrapassou a marca de 8 milhões de inscritos, enquanto a “Tropa do Flávio” superou 2 milhões. As duas estruturas, administradas por parlamentares próximos aos candidatos, tornaram-se instrumentos de comunicação política na reta final do segundo turno, marcado para domingo (25).
O crescimento dos canais acontece em meio à intensificação das campanhas digitais e à tentativa dos dois grupos políticos de ampliar a circulação de mensagens favoráveis aos respectivos candidatos. Diferentemente das plataformas tradicionais, onde publicações dependem de algoritmos de distribuição e recomendações, os canais do WhatsApp permitem que os administradores enviem atualizações diretamente a pessoas que decidiram acompanhá-los. Esse modelo facilita a organização de campanhas de compartilhamento, divulgação de vídeos, convocação para eventos e participação em discussões públicas.
A mobilização também envolve dois deputados federais com forte presença nas redes sociais: André Janones (Rede-MG), responsável pelo canal de apoio a Lula, e Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos administradores da estrutura organizada em favor de Flávio Bolsonaro. Ambos utilizam estratégias de comunicação voltadas à participação dos seguidores, com orientações para divulgar conteúdos, promover assuntos e ampliar a circulação de mensagens eleitorais. A atuação reforça a importância adquirida por influenciadores políticos na organização das campanhas presidenciais.
Exército do Lula ultrapassa 8 milhões de seguidores
O canal “Exército do Lula” registrava 8.002.710 seguidores por volta das 11h desta quinta-feira (22), consolidando uma expansão acelerada nos últimos dias. No sábado (17), a comunidade havia ultrapassado 5 milhões de inscritos, chegando a 6 milhões na terça-feira (20) e a 7 milhões na quarta-feira (21). A sequência evidencia a velocidade com que a estrutura de comunicação organizada por Janones ganhou alcance durante a última semana da campanha.
O deputado utiliza o canal para divulgar orientações de mobilização, vídeos, áudios e mensagens direcionadas aos seguidores. Entre as iniciativas estão campanhas de compartilhamento de conteúdos, divulgação de hashtags e convocações para manifestações públicas relacionadas à disputa presidencial. As atividades são frequentemente apresentadas como “missões”, expressão adotada para organizar a participação dos inscritos em ações nas redes sociais.
A estratégia também busca ampliar a circulação de informações e críticas relacionadas a Flávio Bolsonaro, aproveitando a capacidade de reprodução das mensagens por milhões de seguidores. Parte das ações envolve estimular buscas por assuntos ligados ao adversário e incentivar a participação simultânea em debates digitais. O alcance efetivo dessas iniciativas, entretanto, depende da quantidade de pessoas que visualizam, compartilham ou reproduzem as publicações fora do canal.
Lula entra pessoalmente no canal e convoca transmissão ao vivo
A mobilização ganhou um novo componente nesta quinta-feira com a entrada do próprio presidente Lula no “Exército do Lula”. O petista publicou um vídeo convocando os integrantes para uma transmissão ao vivo marcada para as 19h, utilizando a linguagem de mobilização adotada pelo grupo. A entrada do presidente foi sinalizada no canal por volta das 12h01, depois de articulações para ampliar sua participação direta na comunidade administrada por Janones.
No vídeo, Lula fez referência à linguagem militar utilizada pelos integrantes e pediu que os seguidores acompanhassem a transmissão. A iniciativa aproxima o candidato de uma estrutura digital que já vinha sendo utilizada por aliados para coordenar a circulação de conteúdos favoráveis à sua campanha. A participação direta do presidente também transforma o canal em uma alternativa adicional aos perfis tradicionais mantidos em outras redes sociais.
A transmissão anunciada para a noite desta quinta-feira representa mais uma iniciativa de comunicação direta com apoiadores antes da votação de domingo. Ao utilizar um canal com milhões de seguidores, a campanha passa a contar com um espaço capaz de distribuir avisos e conteúdos para uma audiência previamente reunida. Isso não significa, porém, que todos os inscritos acompanharão a transmissão ou participarão das atividades propostas.
Tropa do Flávio reúne mais de 2 milhões de apoiadores
Do outro lado da disputa, a “Tropa do Flávio” reúne mais de 2 milhões de seguidores e funciona como uma das principais estruturas de mobilização digital da candidatura do senador Flávio Bolsonaro. Criado em 6 de outubro, após o primeiro turno, o canal divulga informações sobre compromissos de campanha, vídeos, críticas ao governo Lula e orientações para participação em ações coletivas nas redes sociais. Nikolas Ferreira, deputado federal pelo PL de Minas Gerais, figura entre os principais responsáveis pela administração e divulgação das atividades.
O canal também incentiva seus participantes a compartilhar conteúdos relacionados à candidatura de Flávio e a responder às críticas feitas por adversários políticos. Entre as iniciativas estão campanhas para ampliar a visibilidade de determinados assuntos, mobilizações envolvendo vídeos publicados em outras plataformas e ações apresentadas pelos administradores como respostas à desinformação atribuída aos opositores. Essas atividades demonstram a utilização do WhatsApp como instrumento de articulação entre diferentes ambientes digitais.
Embora reúna uma quantidade menor de seguidores que a comunidade administrada por Janones, a estrutura ligada a Flávio dispõe de uma base própria de comunicação direta. O número de inscritos não permite, isoladamente, determinar qual campanha possui maior capacidade de mobilização efetiva, já que alcance, participação e influência dependem de fatores distintos. Também não há equivalência automática entre seguidores de canais políticos e eleitores dispostos a votar em determinado candidato.
Janones e Nikolas disputam visibilidade nas redes sociais
A rivalidade entre os dois canais tornou-se especialmente visível na terça-feira (20), quando apoiadores das candidaturas promoveram campanhas concorrentes no X, antigo Twitter. A “Tropa do Flávio” incentivou a publicação da expressão “Não calem os nordestinos”, relacionada a uma controvérsia envolvendo um vídeo divulgado por Nikolas Ferreira. A mobilização levou o assunto a ganhar destaque na plataforma, desencadeando uma reação organizada por seguidores de Lula.
Janones respondeu incentivando a utilização de expressões como “Nordestinos com Lula”, “Lula em Juazeiro” e “Lula em Petrolina”. As publicações associadas à campanha petista também ganharam espaço entre os assuntos mais comentados, demonstrando a capacidade dos canais de estimular ações simultâneas em outras plataformas. A alternância das expressões no ranking, entretanto, não permite estabelecer que uma mobilização tenha sido a causa exclusiva da perda de visibilidade da outra.
O episódio ilustra uma transformação na organização das campanhas digitais, nas quais canais de mensagens são utilizados para orientar atividades realizadas publicamente em redes sociais. O WhatsApp funciona como espaço de coordenação, enquanto plataformas como X, Instagram e TikTok tornam-se ambientes de circulação e disputa por atenção. A combinação permite que conteúdos produzidos por um número relativamente pequeno de administradores sejam reproduzidos por uma audiência muito mais ampla.
Diferença de seguidores não representa intenção de voto
A comparação entre os dois canais revela uma diferença expressiva de audiência, mas exige cuidados de interpretação. Os mais de 8 milhões de inscritos no “Exército do Lula” representam aproximadamente quatro vezes o número registrado pela “Tropa do Flávio”, considerando os patamares divulgados nesta quinta-feira. Essa relação descreve apenas o tamanho das comunidades digitais, sem medir o comportamento eleitoral de seus integrantes.
Um mesmo usuário pode acompanhar simultaneamente os canais das duas candidaturas, assim como jornalistas, pesquisadores e pessoas interessadas em informações políticas podem seguir essas comunidades sem apoiar os respectivos candidatos. Além disso, o número de seguidores não revela quantas pessoas efetivamente visualizam cada publicação, compartilham mensagens ou executam as orientações recebidas. Por essa razão, os indicadores não substituem pesquisas eleitorais realizadas com metodologia de amostragem representativa.
Outro fator importante é a origem das comunidades e o momento de sua expansão. O canal administrado por Janones já existia antes de assumir sua atual função eleitoral, enquanto a estrutura ligada a Flávio foi organizada após o primeiro turno. As diferenças de trajetória, divulgação e tempo de funcionamento impedem uma comparação direta sobre a eficiência de crescimento das duas iniciativas.
Como funcionam os canais políticos no WhatsApp
Os canais do WhatsApp são ferramentas de comunicação unidirecional, nas quais administradores publicam atualizações para pessoas que optaram por acompanhar determinado conteúdo. Os seguidores podem visualizar mensagens, reagir com emojis e participar de enquetes, mas não possuem o mesmo mecanismo de conversação aberta encontrado nos grupos tradicionais. Essa característica permite que os responsáveis mantenham maior controle editorial sobre o material distribuído.
As atualizações aparecem em uma área separada das conversas particulares, e os seguidores podem compartilhar conteúdos em outros aplicativos ou encaminhá-los para contatos individuais. A plataforma também disponibiliza ferramentas de acompanhamento de audiência e engajamento aos administradores. A combinação dessas funcionalidades ajuda a explicar por que canais com milhões de inscritos se tornaram relevantes para campanhas que procuram disseminar informações rapidamente.
A existência de uma grande audiência, entretanto, não comprova que todas as mensagens sejam recebidas ou visualizadas pelos participantes. A efetividade depende do comportamento dos usuários, da frequência de acesso à plataforma e da disposição individual para compartilhar conteúdos. Por isso, os números públicos de seguidores precisam ser diferenciados das métricas internas de visualização e engajamento.
TSE estabelece limites para propaganda eleitoral no WhatsApp
A expansão dos canais ocorre sob as regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral para a propaganda na internet. A Resolução TSE nº 23.610, atualizada para as eleições de 2026, permite a utilização de aplicativos de mensagens e redes sociais para divulgação de conteúdos eleitorais, desde que sejam respeitadas as restrições legais. Entre as práticas proibidas estão a contratação de disparos em massa irregulares e a utilização de conteúdos ilícitos ou desinformativos em desacordo com a legislação.
A regulamentação também reconhece a possibilidade de mobilização orgânica por pessoas naturais, incluindo ações simultâneas de compartilhamento de publicações, divulgação de hashtags e convocação para eventos virtuais ou presenciais. Isso significa que a existência de orientações coordenadas em um canal não caracteriza, por si só, uma infração eleitoral. A análise jurídica depende da natureza do conteúdo, da forma de distribuição e das circunstâncias específicas de cada atividade.
No dia 15 de outubro, o TSE aprovou uma alteração nas regras para utilização de endereços eletrônicos registrados entre o primeiro e o segundo turno. A mudança dispensou o prazo de espera de 48 horas após a comunicação à Justiça Eleitoral, permitindo o uso imediato desses canais pelas candidaturas durante o intervalo entre as votações. A obrigatoriedade de informar os endereços e os mecanismos de fiscalização foram mantidos.
A distinção entre comunicação orgânica e disparo irregular é particularmente importante diante do crescimento das comunidades políticas. Seguir voluntariamente um canal e receber atualizações publicadas por seus administradores não corresponde automaticamente à contratação de sistemas de envio massivo de mensagens para destinatários sem consentimento. Eventuais irregularidades precisam ser examinadas conforme as regras específicas da Justiça Eleitoral e as características das operações realizadas.
Mobilização digital ganha importância na reta final da eleição
A ampliação das comunidades de WhatsApp evidencia o investimento das candidaturas na comunicação direta com segmentos interessados em acompanhar a disputa presidencial. Os canais oferecem uma estrutura permanente para divulgar agendas, transmitir pronunciamentos e incentivar a participação em atividades públicas, reduzindo a dependência exclusiva de entrevistas, debates e propaganda eleitoral tradicional. Essa mudança também amplia o papel de parlamentares e influenciadores capazes de reunir grandes audiências digitais.
Para as campanhas, uma das principais vantagens operacionais está na possibilidade de distribuir conteúdos rapidamente e estimular sua reprodução em diferentes plataformas. Para os eleitores, o modelo oferece acesso contínuo às mensagens divulgadas pelos candidatos e seus aliados, mas também exige atenção à origem das informações e à veracidade das afirmações compartilhadas. A velocidade da distribuição pode favorecer tanto o acesso a informações legítimas quanto a circulação de conteúdos enganosos.
A proximidade do segundo turno aumenta a relevância das ferramentas de mobilização, especialmente diante da programação de transmissões ao vivo, debates e eventos de campanha. As duas candidaturas procuram manter seus apoiadores informados e participativos até o encerramento do período eleitoral. O impacto concreto dessas iniciativas sobre o comportamento do eleitorado, entretanto, não pode ser determinado apenas pelo volume de seguidores ou pela presença de hashtags nos assuntos mais comentados.
Com mais de 10 milhões de inscrições somadas nos dois principais canais de mobilização, sem descontar possíveis usuários presentes em ambas as comunidades, o WhatsApp consolidou-se como uma das estruturas de comunicação da disputa presidencial de 2026. A entrada de Lula no canal administrado por Janones e a atuação de Nikolas Ferreira na comunidade ligada a Flávio demonstram a importância atribuída pelos dois campos políticos à organização digital. A dimensão efetiva dessa mobilização será avaliada não apenas pelos números de audiência, mas também pela transparência, pela legalidade das práticas adotadas e pela capacidade de manter um debate público baseado em informações verificáveis.
Fontes
Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.610/2019, com alterações das Resoluções nº 23.732/2024 e nº 23.755/2026.
Tribunal Superior Eleitoral — Comunicado oficial de 15 de outubro de 2026 sobre mudanças nas regras de propaganda eleitoral entre turnos.
Tribunal Superior Eleitoral — Orientações oficiais sobre propaganda eleitoral na internet e utilização de aplicativos de mensagens nas eleições de 2026.
WhatsApp — Central de Ajuda, documentação oficial sobre funcionamento, privacidade e administração de canais.
WhatsApp — Central de Ajuda, informações oficiais sobre métricas de audiência, compartilhamento de publicações e interação dos seguidores.









