Ascensão e Ocaso: O Colapso Financeiro e a Liquidação Extrajudicial do Will Bank pelo Banco Central
O sistema financeiro nacional amanheceu sob o impacto de uma nova intervenção regulatória de alta magnitude. Nesta quarta-feira (21), o Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, popularmente conhecida no mercado como Will Bank. A decisão, assinada pelo presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, marca o capítulo final de uma trajetória que oscilou entre o crescimento exponencial e a insolvência financeira. A medida é um desdobramento direto e inevitável da crise que assolou o Banco Master, controlador da instituição, cuja liquidação já havia sido determinada em novembro de 2025.
A queda do Will Bank não é apenas um evento isolado de falência corporativa; é um estudo de caso sobre os riscos de contágio em conglomerados financeiros e a fragilidade de modelos de negócios baseados em expansão agressiva sem o devido alicerce de capital. O ato do Banco Central fundamenta-se no comprometimento irreversível da situação econômico-financeira da fintech, agravada pelo vínculo de controle com o Banco Master.
A Gênese de um Gigante Digital: Do “Meu Pag!” ao Will Bank
Para compreender a magnitude da liquidação do Will Bank, é necessário revisitar sua origem. A instituição nasceu com essa identidade corporativa em 2020, fruto de uma reestruturação estratégica da emissora de cartões de crédito “Meu Pag!. Naquele momento, o objetivo era claro: transformar uma operadora de cartões em um banco digital completo (full bank), capaz de competir com os grandes players do setor.
A estratégia inicial do Will Bank mostrou-se, à primeira vista, avassaladora. Ainda no ano de seu lançamento oficial, a fintech reportou a conquista de 400 mil novas contas, totalizando uma base de 1,6 milhão de clientes. Os resultados financeiros acompanhavam o otimismo operacional: o lucro da instituição avançou impressionantes 338% em 2020, atingindo a cifra de R$ 14,91 milhões. Esses números atraíram os holofotes do mercado de capitais e validaram, temporariamente, a tese de investimento da companhia.
O Will Bank posicionou-se, desde o princípio, como um agente de democratização financeira. Dados divulgados pela própria fintech em 2021 indicavam que cerca de 40% de seus novos clientes estavam tendo acesso a um cartão de crédito pela primeira vez na vida. Essa abordagem de inclusão financeira, focada nas classes C, D e E, tornou-se o DNA da marca.
O Foco Regional e a Narrativa dos “Invisíveis”
Diferente de outros neobancos que concentravam suas operações no eixo Sul-Sudeste, o Will Bank traçou uma rota distinta. A base de usuários da instituição estava fortemente concentrada na região Nordeste, que detinha aproximadamente 60% de sua carteira de clientes. Essa capilaridade regional foi um diferencial competitivo importante, permitindo ao Will Bank navegar em um oceano azul de oportunidades de crédito onde os grandes bancos de varejo tradicionais possuíam menor penetração ou interesse.
Em entrevista concedida ao Brazil Journal na época de ouro da empresa, o então CEO e cofundador Felipe Félix cunhou uma frase que sintetizava a missão da companhia: o Will Bank seria “o banco que diz sim aos invisíveis do crédito. Essa narrativa não apenas humanizava a operação financeira, mas também servia como um poderoso motor de aquisição de clientes, alavancando a marca em um segmento carente de serviços bancários modernos.
Aporte de Capital e a Era do Marketing de Influência
O sucesso inicial e a promessa de escalar a operação no Nordeste atraíram o “smart money” da Faria Lima. Ainda em 2021, o Will Bank protagonizou uma rodada de investimentos robusta, recebendo um aporte de R$ 250 milhões. A operação foi liderada pela XP Investimentos e pela gestora Atmos Capital, dois nomes de peso que conferiram selo de qualidade à governança da fintech naquele período.
Capitalizado, o Will Bank partiu para uma ofensiva de marketing agressiva. A estratégia de comunicação foi desenhada para dialogar diretamente com o público jovem e desbancarizado. A instituição contratou personalidades com forte apelo popular e identificação regional, como o humorista Whindersson Nunes e as cantoras Pabllo Vittar e Danny Bond.
Além disso, o Will Bank buscou inserção na cultura pop televisiva, firmando parcerias com ex-participantes do Big Brother Brasil, como a médica Thelminha Assis, e comprando cotas de patrocínio em programas de audiência massiva, como o Domingão. Essa visibilidade transformou a marca Will Bank em um nome conhecido nos lares brasileiros, mascarando, contudo, os desafios de rentabilidade que uma operação de crédito para público de baixa renda impõe.
A Aquisição pelo Banco Master: O Início do Fim
O ponto de inflexão na história do Will Bank ocorreu com sua venda para o Banco Master. A operação de aquisição foi concluída em fevereiro de 2024. Naquele momento, o Will Bank apresentava-se como um ativo robusto: contava com 1,2 mil colaboradores e atendia uma carteira de cerca de 6 milhões de clientes espalhados por todo o país.
Sob o guarda-chuva do Banco Master, o portfólio do Will Bank foi diversificado, englobando cartão de crédito e débito, conta digital remunerada, plataforma de investimentos, crédito pessoal e um marketplace. No entanto, a aquisição inseriu a fintech dentro de um conglomerado que, meses depois, enfrentaria suas próprias turbulências. A falta de transparência sobre os valores da transação de compra já sinalizava ao mercado que a operação poderia envolver engenharia financeira complexa para acomodar balanços.
A Radiografia Financeira Pré-Liquidação
Antes da intervenção definitiva decretada nesta quarta-feira, os números do Will Bank revelavam uma dicotomia perigosa: expansão de base de ativos versus deterioração de resultados e liquidez.
Uma análise detida do balanço da instituição mostrava que, apesar de deter R$ 14,4 bilhões em ativos totais, a saúde financeira do Will Bank estava comprometida. A instituição acumulava um prejuízo de R$ 244,7 milhões, um sinal vermelho para qualquer regulador bancário. O patrimônio líquido, na casa de R$ 300 milhões, mostrava-se exíguo para suportar a alavancagem da operação e absorver as perdas recorrentes.
Outro ponto crítico na estrutura de capital do Will Bank era sua dependência de funding. A instituição detinha R$ 6,5 bilhões em depósitos a prazo, majoritariamente captados via Certificados de Depósito Bancário (CDBs). O banco não possuía uma base relevante de depósitos à vista, o que o tornava extremamente vulnerável a crises de confiança. Quando o mercado fecha a torneira de crédito ou os investidores deixam de renovar os CDBs, uma instituição com esse perfil entra rapidamente em colapso de liquidez.
O Efeito Contágio e a Crise do Banco Master
A queda do Will Bank não pode ser dissociada da ruína de sua controladora. Em novembro de 2025, o Banco Central já havia decretado a liquidação extrajudicial do Banco Master, citando uma grave crise de liquidez. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) reportou à época que o Banco Master possuía um patrimônio de R$ 160 bilhões, com R$ 122 bilhões em recursos líquidos.
Naquela ocasião, a autoridade monetária tentou uma manobra cirúrgica: decretou a liquidação de partes do grupo, mas manteve o Banco Master Múltiplo operando sob o Regime Especial de Administração Temporária (RAET). O objetivo do RAET era permitir que uma nova gestão tentasse sanear os ativos e salvar a operação, evitando um risco sistêmico maior. A Will Financeira (razão social do Will Bank) permaneceu sob a alçada desse conglomerado em reestruturação, na esperança de que o ativo digital pudesse ser preservado ou vendido.
O Gatilho Final: O Calote no Arranjo de Pagamentos
As tentativas de blindar a operação do Will Bank da crise da matriz, no entanto, fracassaram. A situação tornou-se insustentável no início desta semana. Na última segunda-feira (19), o mercado foi surpreendido pela informação de que a Will Financeira deixou de cumprir suas obrigações financeiras em um arranjo de pagamentos com a bandeira Mastercard.
No sistema bancário, a falha na liquidação financeira de arranjos de pagamento é considerada um “evento de morte súbita. Significa que o banco não tem caixa para honrar as transações básicas de seus cartões. Diante desse cenário de insolvência explícita, o Banco Central não teve alternativa senão decretar a liquidação extrajudicial do Will Bank.
No ato administrativo, Galípolo foi taxativo: a medida deve-se ao “comprometimento da situação econômico-financeira, da insolvência e do vínculo de controle exercido pelo Banco Master”. Com a liquidação, a gestão da instituição é afastada imediatamente, e um liquidante nomeado pelo BC assume para levantar os ativos remanescentes e organizar o quadro de credores.
O Impacto no Mercado de Fintechs e Neobancos
O encerramento das atividades do Will Bank lança uma sombra de cautela sobre o setor de neobancos no Brasil. O caso demonstra que métricas de vaidade, como número de clientes ou engajamento em redes sociais, não sustentam uma operação bancária se não houver fundamentos sólidos de crédito e capitalização.
Para os 6 milhões de clientes que um dia confiaram na marca Will Bank, resta a incerteza momentânea e a dependência dos mecanismos de proteção do sistema, como o FGC, para eventuais saldos em conta e aplicações. Para o mercado, fica a lição de que a inovação e o marketing, por mais brilhantes que sejam, não revogam as leis da gravidade financeira. A liquidação do Will Bank encerra um ciclo de euforia e inaugura uma era de maior escrutínio e sobriedade para as instituições financeiras digitais no Brasil.
A história do Will Bank, que começou com a promessa de visibilidade aos invisíveis, termina, ironicamente, com o desaparecimento da própria instituição do mapa bancário nacional.






