Tayayá Aqua Resort: Irmãos de Toffoli registram salto patrimonial atípico antes de venda milionária
A investigação sobre as ramificações financeiras do Banco Master e suas conexões políticas ganhou um novo e explosivo capítulo. Um levantamento patrimonial detalhado revelou que os irmãos do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), protagonizaram um salto econômico notável ao adquirirem participação no Tayayá Aqua Resort, em Ribeirão Claro (PR). O engenheiro José Eugênio Dias Toffoli e o padre José Carlos Dias Toffoli possuíam, até dezembro de 2020, bens imobiliários que somavam apenas 8,3% do valor aportado no empreendimento turístico, levantando questões sobre a origem dos recursos e a natureza da transação.
A disparidade entre o patrimônio declarado e o investimento realizado coloca o Tayayá Aqua Resort no centro de um imbróglio que envolve a liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, e a atuação jurisdicional do ministro Dias Toffoli, relator de processos sensíveis ligados à instituição financeira.
Nesta análise aprofundada, a Gazeta Mercantil disseca a evolução patrimonial dos familiares do magistrado, as conexões societárias com investigados da Operação Compliance Zero e o impacto político dessa teia de negócios no STF.
A Disparidade Patrimonial: Dos R$ 380 Mil aos R$ 4,55 Milhões
O ponto de partida para a controvérsia reside na análise comparativa dos bens. Segundo dados extraídos de cartórios de São Paulo, Paraná e Distrito Federal, o patrimônio imobiliário somado de José Eugênio e José Carlos era avaliado em cerca de R$ 380 mil (valores corrigidos pela inflação) antes da entrada no negócio do Tayayá Aqua Resort. No entanto, em dezembro de 2020, os irmãos adquiriram cotas do empreendimento por R$ 4,55 milhões.
Essa alavancagem financeira súbita, sem lastro imobiliário aparente correspondente, destoa do padrão de acumulação de riqueza anterior da família. Os bens identificados — dois sítios, uma casa e frações de uma fazenda herdada — estão localizados majoritariamente em Marília (SP) e permanecem em nome dos irmãos, indicando que não houve liquidação de ativos para financiar a compra da participação no resort.
A casa de José Eugênio, por exemplo, adquirida em 1998 com financiamento da Caixa, tem valor de mercado estimado hoje entre R$ 240 mil e R$ 350 mil. Já os lotes de José Carlos, em zona rural, somam valor venal corrigido irrisório frente ao aporte milionário no setor hoteleiro.
O Negócio do Resort e a Conexão Banco Master
A entrada dos Toffoli no Tayayá Aqua Resort não foi um movimento isolado. A operação financeira ganha complexidade quando se analisa a saída. Em 2021, parte da participação dos irmãos foi vendida por R$ 6,7 milhões. O comprador? Um fundo de investimento ligado a Fabiano Zettel, pastor, empresário e, crucialmente, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Zettel foi alvo recente da segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no sistema financeiro. A triangulação é clara: familiares de um ministro do Supremo que relata casos do Banco Master vendem participação societária a um parente do dono do mesmo banco, gerando lucro significativo em curto prazo.
A empresa utilizada pelos irmãos para a transação, a Maridt Participações, teve como sócio principal o fundo gerido pela Reag — gestora também liquidada pelo Banco Central e investigada por fraudes envolvendo o Master. Essa sobreposição de interesses financeiros e jurisdicionais cria um cenário de conflito ético que pressiona a Corte.
A Rotina no Tayayá: De Refúgio a Epicentro de Crise
Embora o ministro Dias Toffoli não figure formalmente como sócio do Tayayá Aqua Resort, sua presença no local é constante e documentada. Registros oficiais indicam que seguranças do STF foram deslocados para a região de Ribeirão Claro por pelo menos 128 dias entre 2020 e 2025, cobrindo feriados e recessos do Judiciário.
O resort tornou-se um hub de encontros de alto nível. Um vídeo de 2023, revelado pelo site Metrópoles, mostra Toffoli recebendo André Esteves, chairman do BTG Pactual, e o empresário Luiz Oswaldo Pastore nas dependências do hotel. Pastore, vale lembrar, já havia cedido carona em seu jato particular para o ministro assistir à final da Libertadores em Lima, poucos dias antes de Toffoli assumir a relatoria de processos do Banco Master.
Essas interações sociais em um ambiente de propriedade familiar (ou ex-familiar) reforçam a percepção de promiscuidade entre o poder judiciário e a elite financeira, justamente no local que agora é investigado por suas conexões societárias suspeitas.
Contradições Familiares e Silêncio dos Envolvidos
A narrativa familiar apresenta fissuras. Cássia Pires Toffoli, esposa de José Eugênio, afirmou ao jornal O Estado de S.Paulo que seu marido “nunca foi sócio” do Tayayá Aqua Resort e desconhecia que a Maridt Participações estava registrada em seu endereço residencial. Essa declaração contradiz frontalmente os documentos cartoriais e os registros da Junta Comercial que detalham a compra e venda de cotas milionárias.
O silêncio dos irmãos José Carlos e José Eugênio diante dos questionamentos da imprensa amplifica as suspeitas. A ausência de uma explicação plausível para a origem dos R$ 4,55 milhões investidos em 2020 deixa em aberto a possibilidade de que os familiares tenham atuado como prepostos ou laranjas em operações financeiras mais amplas.
A Reação Institucional e o Futuro do Caso
Apesar das evidências de atipicidade financeira e das conexões com investigados, o Supremo Tribunal Federal tem adotado uma postura de defesa institucional. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, e o decano Gilmar Mendes manifestaram apoio à regularidade da atuação de Toffoli, blindando o colega contra pedidos de suspeição.
No entanto, a revelação do salto patrimonial dos irmãos adiciona um componente material à crise: o dinheiro. Se antes a discussão girava em torno de viagens e encontros, agora há fluxos financeiros milionários conectando a família do juiz aos investigados por ele. A Procuradoria-Geral da República (PGR), que arquivou pedidos de investigação anteriores, pode ser pressionada a reavaliar o caso à luz desses novos dados patrimoniais.
O Tayayá Aqua Resort, situado às margens de uma represa paranaense, deixou de ser apenas um destino de lazer para se tornar o símbolo de um emaranhado jurídico-financeiro que desafia a credibilidade das instituições brasileiras.
O Rastro do Dinheiro
A compra e venda de participação no Tayayá Aqua Resort pelos irmãos Toffoli não é apenas um negócio imobiliário; é a peça-chave que une pontas soltas na investigação do Banco Master. O salto patrimonial injustificado, a venda para parentes de banqueiros investigados e a frequência do ministro no local formam um tripé de indícios que exige escrutínio rigoroso.
Para o mercado e para a sociedade, resta a pergunta: qual a origem dos recursos que permitiram a um engenheiro e a um padre tornarem-se sócios de um empreendimento de luxo, e qual o real papel dessa transação na teia de influência que cerca o Banco Master?






