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Delação Premiada de Vorcaro: Cunhado Fabiano Zettel e Familiares Devem Ser Incluídos no Acordo do Banco Master

Com Daniel Vorcaro preso na sede da Polícia Federal em Brasília, advogados trabalham para estruturar acordo que pode retirar parentes do foco das investigações da Operação Compliance Zero — estratégia semelhante à adotada por Mauro Cid

por Júlia Campos - Repórter de Política
25/03/2026 às 17h13 - Atualizado em 15/05/2026 às 17h13
em Política, Destaque, Notícias
Delação Premiada De Vorcaro: Cunhado Fabiano Zettel E Familiares Devem Ser Incluídos No Acordo Do Banco Master - Gazeta Mercantil - Política

Delação Premiada de Vorcaro: Cunhado Fabiano Zettel e Familiares Devem Ser Incluídos no Acordo do Dono do Banco Master

A delação premiada de Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, promete movimentar o cenário político e jurídico brasileiro nos próximos meses de forma que vai muito além do que os documentos já públicos sugerem. Segundo apuração, a equipe de advogados do ex-banqueiro trabalha para incluir no acordo de colaboração premiada o nome do cunhado, o pastor e empresário Fabiano Zettel — figura apontada pelas investigações da Polícia Federal (PF) como um dos principais operadores financeiros do esquema investigado pela Operação Compliance Zero.

A delação premiada de Vorcaro ainda está em fase de formatação interna. Nenhuma lista de temas — os chamados “anexos” do acordo — foi apresentada formalmente às autoridades. Mas a estratégia já está traçada, e a inclusão de Zettel é um de seus pilares centrais.


Quem é Fabiano Zettel e por que ele é peça-chave na delação premiada de Vorcaro

Para compreender o peso de Fabiano Zettel nesse acordo, é preciso entender o papel que ele desempenhava na estrutura financeira de Daniel Vorcaro. De acordo com as investigações da Polícia Federal, Zettel funcionava como uma espécie de operador financeiro do ex-banqueiro: ele era responsável pela gestão de fundos de investimento e pela realização de pagamentos das mais diversas naturezas.

A dinâmica era precisa e hierarquicamente clara: periodicamente, Zettel prestava contas a Vorcaro, apresentando o detalhamento dos gastos realizados e pedindo autorização formal para efetuar novas despesas. Era, portanto, um papel de execução — mas de execução central, que colocava Zettel no coração das operações financeiras investigadas.

Entre os pagamentos que passaram pelas mãos de Zettel e que foram revelados até agora pelas investigações da PF, dois se destacam pela gravidade e pelo alcance político. O primeiro são os repasses ao resort Tayayá, que tinha participação acionária de uma empresa ligada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli. O segundo é ainda mais impactante: pagamentos feitos a Luiz Phillipi Mourão, identificado como o “sicário” que comandava um braço armado destinado a ameaçar adversários de Vorcaro e que também era responsável por invasões de sistemas de investigação.

Zettel é casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel. O casal tem uma filha de dois anos, e Natália está atualmente grávida — circunstâncias que adicionam urgência e carga emocional às negociações em curso. A família de Vorcaro tem demonstrado preocupação especial com a situação de Zettel e com o impacto que uma eventual condenação poderia ter sobre a família nuclear.


A estratégia da defesa: benefícios penais e exclusão das investigações

Segundo interlocutores da família de Vorcaro, o plano é que Fabiano Zettel seja formalmente incluído no acordo de delação premiada para apresentar seu relato sobre os fatos que testemunhou. Em troca, ele obteria benefícios do ponto de vista penal — a lógica clássica da colaboração premiada, que prevê redução de pena, regimes diferenciados de cumprimento ou mesmo perdão judicial, a depender do grau de contribuição do delator e de sua posição hierárquica nos fatos.

A tese central da defesa de Zettel é que ele atuava exclusivamente no cumprimento de ordens e que seu papel no esquema era, portanto, secundário. Essa argumentação é estratégica: quanto menor o grau de protagonismo reconhecido na organização criminosa, maiores os benefícios que a legislação permite conceder ao colaborador.

Além de Zettel, a delação premiada de Vorcaro deve contemplar também benefícios para outros familiares do ex-banqueiro. Natália Vorcaro, irmã de Daniel, chegou a ser alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, sob a acusação de ter se beneficiado de desvios de fundos do Banco Master. Henrique, pai tanto de Daniel quanto de Natália, também aparece nas investigações dentro desse mesmo contexto. A expectativa nos bastidores jurídicos é que o acordo de Daniel seja suficientemente abrangente para retirar pai e irmã do foco central das apurações.


O precedente do caso Mauro Cid: o modelo que inspira a defesa de Vorcaro

A estratégia adotada pela defesa de Daniel Vorcaro não é inédita no cenário jurídico brasileiro. O caso que serve de referência — e que seus advogados certamente têm em mente — é a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O acordo assinado entre Cid e o STF foi estruturado de forma a garantir que seu pai e sua esposa fossem formalmente excluídos das investigações da Polícia Federal. O mecanismo funcionou: ao oferecer provas e relatos de valor para os investigadores, Cid conseguiu não apenas benefícios pessoais, mas a proteção jurídica de seus familiares mais próximos.

Esse precedente é relevante porque demonstra que a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal já aceitaram, em ao menos um caso de alta repercussão nacional, a lógica de incluir familiares nas cláusulas protetoras de um acordo de colaboração premiada. A questão que permanece em aberto é se o relato e as provas que Vorcaro tem a oferecer terão valor probatório e ineditismo suficientes para justificar condições igualmente favoráveis.


O processo de formatação do acordo: o que ainda falta para a delação premiada de Vorcaro avançar

Daniel Vorcaro está atualmente preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Nos últimos dias, o ex-banqueiro passou o tempo em intensa interlocução com sua equipe de advogados, trabalhando na construção interna do que será apresentado às autoridades.

A etapa atual — e ainda não concluída — é a elaboração dos chamados “anexos” do acordo: a lista detalhada dos temas sobre os quais Vorcaro está disposto a falar, as provas que tem a oferecer e os fatos que pretende revelar. Apenas com esses anexos formalizados é que a negociação pode avançar para a próxima fase: a discussão das condições do acordo com a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.

É nessa fase que entram em pauta os pontos mais delicados da negociação: o tempo de prisão a ser cumprido, a devolução de recursos desviados e, conforme já sinalizado pelos interlocutores da família, a inclusão de Fabiano Zettel e dos demais familiares nas cláusulas do acordo.

A definição do tempo de prisão é particularmente complexa no caso de Vorcaro. A legislação brasileira sobre colaboração premiada estabelece que, caso o colaborador seja considerado o líder de uma organização criminosa — o que a PF parece estar construindo como tese —, ele não pode receber perdão judicial como benefício. Dentro desse cenário, as opções disponíveis são a redução de até dois terços da pena ou a substituição da pena privativa de liberdade por uma pena restritiva de direitos.


Executivos do Banco Master: defesas independentes e estratégias divergentes

Enquanto o círculo familiar de Vorcaro deve ser contemplado em seu acordo de delação premiada, o cenário é diferente para os ex-executivos do extinto Banco Master. O desenho atual das negociações indica que eles continuarão exercendo suas defesas de forma independente, sem integrar o acordo do ex-dono do banco.

Alguns desses executivos chegaram a ser presos durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro do ano passado. Em depoimentos já prestados à Polícia Federal, eles adotaram a linha defensiva de que não tinham conhecimento das fraudes investigadas e afirmaram ter realizado ações de gestão exclusivamente sob ordens diretas de Vorcaro. Por isso, suas equipes de defesa avaliam que não há motivação estratégica para buscar um acordo de delação — uma vez que a responsabilidade pelos ilícitos estaria, segundo essa tese, concentrada na cúpula representada pelo próprio Vorcaro.

Até o momento, nenhum dos ex-executivos foi procurado por interlocutores do ex-banqueiro para traçar uma estratégia conjunta. Os caminhos seguem paralelos e, por ora, sem pontos de convergência.


João Carlos Mansur e a delação complementar da Reag

O acordo de colaboração premiada de Daniel Vorcaro não é o único em negociação nesse complexo xadrez jurídico. Paralelamente, avança a delação premiada de João Carlos Mansur, dono da gestora de investimentos Reag — outro nome central nas investigações que cerceiam o ecossistema do Banco Master.

Os dois acordos devem ser negociados de forma separada, mas são tratados pelos investigadores como complementares: cada um pode preencher lacunas que o outro deixa em aberto, criando um quadro probatório mais robusto para a Procuradoria-Geral da República.

Um detalhe que chama atenção é que o criminalista José Luís de Oliveira Lima, um dos advogados que conduz a delação de Vorcaro, também está à frente das tratativas envolvendo Mansur. A presença do mesmo jurista nas duas negociações pode facilitar a coordenação de narrativas — mas também pode ser vista pelos investigadores como um elemento a ser monitorado de perto.

Ao final de todo o processo, caberá exclusivamente à PGR e à Polícia Federal decidir quais acordos serão aceitos, quais serão recusados e em que condições cada colaboração será homologada. Esse julgamento levará em conta dois critérios fundamentais: o nível de provas concretas oferecidas e o ineditismo dos relatos apresentados. Acordos que apenas confirmam o que os investigadores já sabem têm valor limitado. O que pode transformar a posição de Vorcaro no processo é aquilo que ninguém mais sabe — e que apenas ele pode revelar.


O que a delação de Vorcaro pode revelar sobre o STF e o sistema financeiro brasileiro

A menção ao resort Tayayá e à participação acionária de uma empresa ligada ao ministro Dias Toffoli não é um detalhe periférico — é potencialmente um dos núcleos mais sensíveis de toda a investigação. As implicações de pagamentos realizados pelo braço financeiro de Vorcaro a uma empresa com conexões com um ministro do Supremo Tribunal Federal ultrapassam o âmbito criminal convencional e tocam em questões institucionais da mais alta relevância.

Da mesma forma, a existência de um “braço armado” coordenado por Luiz Phillipi Mourão — descrito como “sicário” nos documentos da investigação, responsável por ameaças a adversários e por invasões de sistemas de investigação — revela uma estrutura de poder que, se confirmada e detalhada por Vorcaro em sua delação premiada, pode ter consequências que extrapolam o Banco Master e alcançam outros atores do mundo político e financeiro brasileiro.

É precisamente por isso que a delação premiada de Daniel Vorcaro é acompanhada com tanta atenção por diferentes esferas do poder. O que está em jogo não é apenas o destino jurídico de um ex-banqueiro e de seus familiares — é a possibilidade de que esse acordo ilumine ângulos ainda obscuros de uma rede de relações entre o sistema financeiro, o poder político e, eventualmente, o próprio Poder Judiciário.

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