O Brasil caiu 22 posições no ranking mundial de crescimento da indústria de transformação e terminou o primeiro trimestre de 2026 na 69ª colocação entre 90 países. A produção manufatureira brasileira recuou 0,1% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto a atividade industrial global avançou 3,1%, segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial com dados harmonizados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial.
O resultado mantém o país no terço inferior da classificação e aprofunda uma perda de dinamismo iniciada após a expansão registrada em 2024. No primeiro trimestre daquele ano, o Brasil ocupava a 33ª posição. Um ano depois, havia recuado ao 47º lugar. Agora, aparece atrás de 68 das 90 economias consideradas no levantamento.
A reação de 1,5% em relação ao quarto trimestre de 2025, já descontados os efeitos sazonais, evitou uma colocação ainda pior. O avanço trimestral brasileiro superou a média mundial de 1,2%, mas ocorreu depois de uma sequência de resultados negativos e não foi suficiente para recuperar a produção perdida ao longo do ano passado.
O ranking mede o ritmo de expansão da produção, e não o tamanho dos parques industriais. A 69ª posição, portanto, não significa que o Brasil tenha a 69ª maior indústria do mundo. O dado mostra que, no período analisado, a manufatura brasileira cresceu menos — ou recuou mais — do que a maioria das economias com informações comparáveis.
Indústria mundial acelera enquanto Brasil permanece estagnado
A produção manufatureira global ganhou velocidade no começo de 2026. Depois de crescer apenas 0,27% no último trimestre de 2025, avançou 1,2% entre janeiro e março. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, a expansão chegou a 3,1%.
O desempenho ocorreu apesar das tensões geopolíticas no Oriente Médio, das disputas comerciais e das pressões inflacionárias que continuam afetando cadeias de suprimento e decisões de investimento. A atividade manufatureira mundial mantém taxas trimestrais positivas desde o início de 2023.
A Ásia e o Pacífico lideraram o crescimento, com avanço de 2% ante o trimestre anterior. Sem a China, a região cresceu 2,2%. A produção chinesa aumentou 1,8%, enquanto países como Coreia do Sul, Índia, Japão, Taiwan e Vietnã apresentaram taxas superiores à média mundial.
Na América Latina e no Caribe, o crescimento foi bem mais modesto, de 0,25% na margem. Em relação ao primeiro trimestre de 2025, a produção regional ainda estava 0,4% menor.
Brasil e México, as duas maiores indústrias da região, seguiram direções diferentes na comparação trimestral. A manufatura brasileira avançou 1,5% sobre o fim de 2025, enquanto a mexicana recuou 0,7%. A Argentina ficou praticamente estável; Colômbia e Peru cresceram, e Chile e Costa Rica apresentaram contrações relevantes.
A recuperação brasileira na margem, porém, partiu de uma base deprimida. No quarto trimestre de 2025, a indústria de transformação havia recuado 1,8% na comparação anual, levando o país à 72ª posição em uma classificação formada por 83 economias.
Selic elevada alcança consumo, crédito e investimento
A trajetória dos juros ajuda a explicar a perda de posições. A taxa Selic passou de 10,50% ao ano em meados de 2024 para 15% em junho de 2025 e permaneceu nesse patamar até janeiro de 2026. Mesmo após o início do ciclo de redução, a taxa básica estava em 14,25% ao ano em julho.
O impacto chega à indústria por diferentes canais. O crédito mais caro reduz a demanda por automóveis, eletrodomésticos, máquinas e outros bens cujo consumo depende de financiamento. Ao mesmo tempo, eleva o custo do capital de giro e diminui a atratividade de projetos industriais de longo prazo.
Empresas que precisam renovar equipamentos passam a comparar o retorno esperado do investimento produtivo com a remuneração oferecida por aplicações financeiras de menor risco. Quando a taxa real de juros permanece elevada, amplia-se o número de projetos adiados, reduzidos ou retirados dos planos de investimento.
O efeito não é imediato. Decisões de política monetária chegam à produção industrial com defasagem, porque contratos, encomendas, estoques e planos de expansão não mudam de uma semana para outra. Por isso, os cortes iniciados em 2026 ainda não foram suficientes para reativar de forma ampla o investimento produtivo.
O ambiente também é afetado pelo endividamento das famílias. Comprometimento maior da renda com parcelas e juros limita a capacidade de consumo, especialmente nos segmentos de bens duráveis, que têm elevado encadeamento industrial.
Máquinas e equipamentos expõem fraqueza do investimento
A composição da produção mostra que a estagnação não foi homogênea. De acordo com o Iedi, a indústria de transformação ficou estável no primeiro trimestre quando comparada ao mesmo período de 2025, mas os setores mais ligados ao investimento apresentaram retrações expressivas.
A produção de máquinas e equipamentos caiu 9,4%. Máquinas, aparelhos e materiais elétricos recuaram 2,2%, enquanto a indústria química teve queda de 2,5%.
Esses segmentos integram o grupo de média-alta intensidade tecnológica, cuja produção diminuiu 1,6% no primeiro trimestre. O desempenho reforça a leitura de que o investimento empresarial permanece como uma das partes mais frágeis da atividade industrial.
A fabricação de bens de capital perdeu força ao longo do trimestre. Depois de crescer perto de 3% em janeiro e fevereiro, apresentou avanço de apenas 0,6% em março, na série com ajuste sazonal.
Bens de capital incluem máquinas, equipamentos e instalações utilizados para produzir outros bens e serviços. Uma queda persistente nessa categoria pode limitar a expansão futura da capacidade produtiva, a modernização das fábricas e os ganhos de produtividade.
A indústria automobilística apresentou comportamento mais favorável, com crescimento de 2,2% no primeiro trimestre. O resultado, entretanto, não foi suficiente para compensar as perdas dos demais ramos de média-alta tecnologia.
Farmacêuticas sustentam alta tecnologia, mas peso é reduzido
A indústria de alta intensidade tecnológica registrou crescimento de 4,9% sobre o primeiro trimestre de 2025, o melhor desempenho entre os grupos analisados pelo Iedi.
O avanço foi concentrado na fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos, cuja produção aumentou 14,3%. A expansão do segmento compensou perdas em outras atividades classificadas como de alta tecnologia.
O complexo eletrônico recuou 2,1%, pressionado pelas quedas de 5,6% na fabricação de material de escritório e informática e de 5,2% em instrumentos médicos, ópticos e de precisão. O ramo aeronáutico também apresentou retração de 5,2%.
A concentração reduz o alcance da melhora. A alta tecnologia responde por aproximadamente 6% da indústria de transformação brasileira, participação insuficiente para alterar sozinha o resultado agregado.
No cenário mundial, a situação foi diferente. Os segmentos de média-alta e alta tecnologia avançaram 1,9% na comparação trimestral e 5,9% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
A produção global de computadores e eletrônicos aumentou 4,1% em apenas três meses e mais de 13% em um ano. A expansão está ligada aos investimentos em inteligência artificial, infraestrutura de dados, semicondutores e modernização tecnológica.
A diferença de composição ajuda a explicar parte da distância entre o Brasil e os países que lideram o ranking. Economias com maior participação de eletrônicos, equipamentos digitais e tecnologias avançadas capturaram com mais intensidade o ciclo internacional de investimentos.
Alimentos e derivados de petróleo impedem queda maior
Na outra ponta, os setores de média-baixa intensidade tecnológica tiveram papel decisivo para evitar uma contração mais profunda da indústria brasileira.
A produção desse grupo avançou 0,3% no primeiro trimestre, sustentada principalmente pelas indústrias de alimentos, bebidas e fumo, que cresceram 2,6%, e pela fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, com alta de 2,1%.
O resultado mostra uma indústria apoiada em atividades tradicionais e com forte ligação com recursos naturais, consumo básico e commodities. Esses segmentos respondem por pouco mais da metade da indústria de transformação e, por isso, exercem influência maior sobre o índice agregado.
Outras áreas do mesmo grupo permaneceram no campo negativo. A fabricação de produtos de madeira, papel e celulose recuou 3,3%. Têxteis, vestuário, couro e calçados tiveram queda de 5,7%, enquanto produtos de metal diminuíram 4%.
Na faixa de média intensidade tecnológica, a produção cresceu apenas 0,1%. A metalurgia recuou 1,1%, e produtos de minerais não metálicos caíram 1%.
A composição revela que a melhora trimestral de 1,5% não representou uma recuperação disseminada. O avanço ficou concentrado em poucos setores, enquanto ramos diretamente ligados à modernização produtiva, ao investimento e à demanda por bens duráveis continuaram sob pressão.
Metodologias explicam diferenças entre Unido e IBGE
Os números da Unido e do Iedi podem apresentar pequenas diferenças em relação à Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
A Unido utiliza séries harmonizadas e ajustadas sazonalmente para permitir a comparação direta entre países. A base internacional reúne índices de produção industrial fornecidos por instituições nacionais e complementados, quando necessário, por estimativas estatísticas.
O relatório global do primeiro trimestre utiliza informações de aproximadamente 135 países, responsáveis por 98,6% do valor adicionado manufatureiro mundial. O ranking elaborado pelo Iedi considera o conjunto menor de economias que apresentam dados completos e comparáveis para o período analisado.
Pela pesquisa do IBGE, a indústria geral brasileira cresceu 1,3% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. Esse resultado foi puxado pela indústria extrativa, que avançou 8,7%.
A indústria de transformação ficou estável nessa mesma comparação. Nos 12 meses encerrados em março, apresentou queda de 0,8%.
A diferença reforça a necessidade de separar indústria geral e indústria de transformação. Mineração e extração de petróleo podem elevar o resultado industrial total, mesmo quando a atividade manufatureira permanece parada ou em retração.
Posição à frente da Alemanha não indica vantagem industrial
Mesmo na parte inferior do ranking, o Brasil ficou à frente de alguns parques industriais tradicionais que também atravessaram dificuldades.
A Alemanha registrou queda de aproximadamente 1% na comparação trimestral. A produção manufatureira europeia recuou 0,72% na margem e 1,2% em relação ao primeiro trimestre do ano passado.
O desempenho inferior de economias avançadas não significa que o Brasil tenha alcançado maior competitividade ou capacidade tecnológica. O ranking mede apenas a velocidade de crescimento em determinado intervalo.
Países com indústrias maduras podem apresentar retrações conjunturais e, ainda assim, manter produtividade, tecnologia, escala exportadora e renda industrial muito superiores às brasileiras.
A comparação ganha significado quando observada ao longo de vários períodos. Em 2024, o Brasil ficou na 24ª posição no ranking anual do Iedi. Em 2025, caiu para o 64º lugar entre 83 economias, pior desempenho desde 2022.
No primeiro trimestre de 2026, a queda ao 69º lugar confirma que a expansão registrada em 2024 não se transformou em uma trajetória contínua de crescimento.
Resultado pressiona margens, emprego e competitividade
Para as empresas, uma indústria estagnada reduz a capacidade de diluir custos fixos e limita ganhos de escala. Companhias com fábricas operando abaixo da capacidade também ficam mais expostas à concorrência de produtos importados.
O efeito varia entre os setores. Exportadores de alimentos, celulose, petróleo e alguns produtos minerais podem compensar a fraqueza doméstica com vendas externas. Fabricantes de máquinas, equipamentos, eletrônicos, produtos de metal e bens duráveis dependem mais do investimento e do crédito interno.
A perda de dinamismo também limita a criação de empregos industriais. A manufatura costuma pagar salários superiores à média de vários serviços de menor produtividade e mantém cadeias extensas de fornecedores, transportadores e prestadores especializados.
No comércio exterior, a fragilidade aparece na dependência de bens tecnológicos importados. O Brasil mantém déficit em produtos de alta intensidade tecnológica, embora as exportações do setor tenham avançado no início de 2026, principalmente com o desempenho da indústria aeronáutica.
A reversão da queda no ranking dependerá de uma recuperação mais disseminada. A redução dos juros pode reativar gradualmente o crédito e os investimentos, mas não elimina entraves relacionados a produtividade, infraestrutura, tributação, qualificação profissional e integração tecnológica.
A reforma tributária sobre o consumo poderá reduzir a cumulatividade de impostos e melhorar a organização das cadeias produtivas, mas seus efeitos serão graduais. O acordo entre Mercosul e União Europeia também pode ampliar mercados, ao mesmo tempo que aumentará a concorrência sobre setores brasileiros menos produtivos.
Juros e bens de capital definirão reação da indústria brasileira
Os próximos resultados mostrarão se o avanço de 1,5% sobre o fim de 2025 foi o início de uma recuperação ou apenas uma correção depois das perdas acumuladas.
O principal sinal virá dos bens de capital. Uma recuperação de máquinas e equipamentos indicaria retomada do investimento e maior confiança das empresas na demanda futura. A continuidade das quedas apontaria para capacidade produtiva ociosa e adiamento de projetos.
A trajetória da Selic também será determinante. Embora o Banco Central tenha iniciado a redução da taxa, o custo do crédito permanece elevado e seus efeitos continuarão alcançando a indústria ao longo dos próximos trimestres.
O Brasil entrou em 2026 com uma reação estatística na margem, mas ainda distante do crescimento observado nas economias industriais mais dinâmicas. A 69ª posição mostra que o desafio não é apenas recuperar a produção perdida, mas mudar sua composição e aproximá-la dos segmentos tecnológicos que lideram a expansão mundial.











