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Agrolend mira R$ 2 bilhões no crédito rural enquanto inadimplência faz bancões recuarem

Instituição pretende mais que dobrar a carteira ao ocupar espaço deixado pelos bancos, mas expansão ocorre em meio ao aumento dos atrasos no campo.

por Daniel Wicker
24/07/2026 às 12h35
em Agronegócio,Destaque,Notícias
Crédito Rural - Gazeta Mercantil

A Agrolend pretende elevar sua carteira de crédito para aproximadamente R$ 2 bilhões até o fim de 2026, mais que o dobro dos R$ 968 milhões registrados em dezembro do ano passado. A estratégia, detalhada pelo fundador e co-CEO Alan Glezer, busca aproveitar a redução da oferta de crédito rural pelos grandes bancos em meio ao aumento da inadimplência, das recuperações judiciais e do custo financeiro enfrentado pelo agronegócio brasileiro.

A instituição aposta que a retração das principais fontes de financiamento abriu espaço para operações com produtores capitalizados, empresas de insumos, distribuidores e grandes grupos da cadeia agroindustrial. Em vez de ampliar indiscriminadamente a exposição ao setor, a Agrolend pretende concentrar o crescimento em clientes considerados mais resilientes e com capacidade de pagamento comprovada.

O plano é agressivo. Para alcançar R$ 2 bilhões, a companhia precisará adicionar mais de R$ 1 bilhão à carteira em apenas um ano, enquanto parte do sistema financeiro adota critérios mais restritivos para novos empréstimos ao campo.

O cenário combina uma demanda ainda elevada por capital de giro com menor disponibilidade de recursos. Produtores precisam financiar sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e despesas da safra, mas enfrentam margens menores, juros altos e preços agrícolas abaixo dos picos observados no início da década.

É nesse desequilíbrio que a Agrolend identifica sua oportunidade. A expansão, entretanto, exigirá que a instituição preserve a qualidade da carteira enquanto amplia rapidamente o volume de operações em um mercado marcado por crescente deterioração do risco.

Carteira de crédito cresceu 15 vezes em três anos

A Agrolend encerrou 2025 com R$ 968 milhões em carteira de crédito, resultado que representou uma expansão de aproximadamente 15 vezes em relação aos R$ 58 milhões registrados três anos antes.

Os ativos totais alcançaram R$ 1,5 bilhão, enquanto o lucro líquido somou R$ 23,9 milhões, o melhor resultado anual desde a fundação da empresa, em 2020.

A instituição iniciou suas atividades como sociedade de crédito direto e, em 2023, recebeu autorização do Banco Central para alterar seu objeto social e se transformar em sociedade de crédito, financiamento e investimento.

A mudança ampliou as possibilidades de captação e de concessão de crédito. Embora a Agrolend se apresente comercialmente como uma plataforma financeira digital voltada ao agronegócio, sua classificação regulatória não é a de banco múltiplo ou banco comercial.

O crescimento recente também foi acompanhado por uma mudança no perfil dos clientes. A empresa nasceu com foco em pequenos e médios produtores, utilizando tecnologia para simplificar análise, contratação e liberação de recursos.

Nos últimos anos, passou a atuar com maior intensidade em operações estruturadas de atacado. O modelo inclui financiamentos para empresas agrícolas, fornecedores de insumos e subsidiárias de grupos multinacionais, além do atendimento direto aos produtores.

Essa mudança permite a realização de contratos maiores. Segundo Glezer, a instituição já possui capacidade para estruturar operações individuais entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões, especialmente quando empresas precisam financiar vendas de fertilizantes, defensivos ou outros insumos.

Inadimplência rural permanece próxima do recorde

A ambição da Agrolend contrasta com o ambiente mais difícil do crédito rural. Dados do Banco Central mostram que a inadimplência das operações direcionadas a pessoas físicas no campo chegou a 7,6% em maio de 2026.

O indicador considera contratos com pelo menos uma parcela vencida há mais de 90 dias. Em fevereiro, a taxa atingiu 7,72%, o maior nível da série histórica iniciada em 2011.

Em março, houve recuo para 7,16%. O percentual voltou a subir para 7,51% em abril e chegou a 7,6% no mês seguinte, mostrando que a deterioração perdeu velocidade, mas ainda não foi revertida.

O Relatório de Política Monetária do Banco Central também apontou retração nas concessões de crédito rural no trimestre encerrado em abril. Segundo a autoridade monetária, a carteira tem sido afetada pela inadimplência elevada e pela transferência de parte da demanda de financiamento para instrumentos do mercado de capitais.

A combinação ajuda a explicar o comportamento mais cauteloso das instituições tradicionais. Quando os atrasos aumentam, os bancos elevam provisões para perdas, endurecem os critérios de aprovação e reduzem limites para segmentos considerados mais vulneráveis.

Esse ajuste não costuma ficar restrito aos produtores com problemas financeiros. Modelos de risco aplicados em larga escala podem provocar uma retração generalizada da oferta, atingindo também empresas e produtores com boa produtividade, patrimônio relevante e baixo endividamento.

A Agrolend pretende explorar justamente essa diferença. A instituição afirma utilizar uma seleção individualizada para separar tomadores pressionados financeiramente daqueles que continuam apresentando fundamentos sólidos.

Juros e queda das commodities comprimiram as margens

O atual ciclo de dificuldades começou depois de um período excepcionalmente favorável para o agronegócio. Entre 2021 e 2022, os juros estavam em níveis inferiores aos atuais, enquanto a soja chegou a ser negociada perto de R$ 180 por saca em algumas regiões.

Os preços elevados estimularam investimentos em máquinas, expansão de áreas cultivadas, aquisição de insumos e aumento da produção. Parte desses investimentos foi financiada com crédito rural, linhas bancárias, operações com fornecedores e títulos ligados ao agronegócio.

A reversão veio com o aumento dos juros, a valorização dos insumos e a queda das cotações agrícolas. A soja recuou para patamares próximos de R$ 120 por saca em determinadas praças, reduzindo a receita esperada por produtores que haviam elevado custos e endividamento.

A alta do custo financeiro agravou o problema. Empréstimos renovados a taxas maiores passaram a consumir parcela crescente da geração de caixa, especialmente em propriedades com baixa produtividade, dependência de terras arrendadas ou menor capacidade de armazenagem.

O resultado foi o aumento dos pedidos de renegociação e das recuperações judiciais. Embora o agronegócio brasileiro permaneça competitivo no mercado internacional, a situação financeira varia amplamente conforme região, cultura, nível tecnológico e estrutura patrimonial.

Produtores com terra própria, elevada produtividade e gestão profissional tendem a suportar melhor a queda das margens. Já aqueles com custos fixos elevados, arrendamentos caros e dívidas de curto prazo ficam mais expostos às oscilações das commodities.

Essa heterogeneidade sustenta a estratégia da Agrolend, mas também representa seu principal desafio. Crescer no crédito rural exige capacidade de identificar quais empresas atravessam um problema temporário e quais apresentam deterioração estrutural.

Bancões reduzem exposição depois da expansão

Banco do Brasil (BBAS3), Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Santander Brasil (SANB11) e Caixa Econômica Federal ampliaram sua participação no financiamento ao agronegócio durante o período de maior rentabilidade do setor.

Além das linhas tradicionais do Plano Safra, as instituições avançaram em operações com recursos livres, capital de giro, financiamento de máquinas, títulos privados e crédito para empresas da cadeia produtiva.

A deterioração da qualidade das carteiras alterou esse movimento. Os bancos passaram a exigir mais garantias, reduzir limites, rever preços e priorizar clientes com histórico mais longo de relacionamento.

O Banco do Brasil (BBAS3), maior financiador individual do agronegócio brasileiro, possui uma exposição particularmente relevante. A piora dos indicadores do campo aumenta a pressão sobre provisões e pode afetar o resultado da instituição, mesmo quando existem garantias vinculadas aos contratos.

Bancos privados enfrentam dinâmica semelhante. O custo de manter capital reservado para operações consideradas mais arriscadas reduz a atratividade de uma expansão acelerada no crédito rural.

A retração também alcançou empresas internacionais de fertilizantes, defensivos e outros insumos que tradicionalmente financiam seus clientes. Com juros maiores em mercados desenvolvidos, o custo global do capital subiu e reduziu a disponibilidade de financiamento comercial.

Para produtores e empresas do campo, o efeito é uma menor variedade de fontes. A necessidade de crédito continua, mas os financiadores exigem taxas mais altas, garantias adicionais e demonstrações financeiras mais detalhadas.

Agrolend aposta em velocidade e operações sob medida

A Agrolend pretende competir com os grandes bancos por meio de três fatores: rapidez na análise, flexibilidade na estruturação e especialização no agronegócio.

Em operações ligadas à venda de insumos, o tempo pode ser decisivo. Uma distribuidora pode precisar de recursos para concluir uma compra, financiar um cliente ou aproveitar uma condição comercial disponível por poucos dias.

Bancos de grande porte normalmente possuem processos mais longos, com diferentes níveis de aprovação, áreas de risco e comitês. A Agrolend afirma conseguir tomar decisões em prazos menores por operar com uma estrutura mais enxuta e análise concentrada.

A instituição também passou a atender clientes maiores. Esse movimento reduz a dependência de uma grande quantidade de pequenos contratos, mas aumenta a concentração da carteira.

Uma operação de R$ 100 milhões representa mais de 10% da carteira registrada no fim de 2025. Mesmo com garantias e boa avaliação de crédito, a inadimplência de um único cliente de grande porte poderia produzir impacto relevante.

O crescimento para R$ 2 bilhões tende a reduzir proporcionalmente essa concentração, desde que a expansão ocorra com diversificação entre empresas, regiões, produtos e cadeias agrícolas.

A velocidade de aprovação também precisa ser equilibrada com a qualidade da análise. Em momentos de expansão, instituições financeiras podem ser pressionadas a flexibilizar critérios para atingir metas comerciais.

A Agrolend sustenta que iniciou o endurecimento de sua política ainda em 2023, antes da fase mais intensa da deterioração do crédito rural. A medida teria permitido entrar no atual ciclo com menor exposição a produtores vulneráveis.

Inadimplência de 0,7% vira principal ativo da estratégia

A instituição informou ter encerrado 2025 com inadimplência acima de 90 dias de 0,7%, muito abaixo do percentual registrado no crédito rural direcionado a pessoas físicas no sistema financeiro.

O índice de cobertura das operações problemáticas ficou em 386%. Isso significa que as provisões constituídas correspondiam a quase quatro vezes o volume de contratos classificados como inadimplentes pelo critério divulgado.

A Agrolend também reportou alavancagem de 1,9 vez. O indicador compara o tamanho das operações e dos ativos com o capital próprio disponível para absorver perdas.

Instituições financeiras de grande porte normalmente operam com alavancagem superior, o que aumenta a rentabilidade sobre o capital em períodos favoráveis, mas também amplia o impacto de perdas inesperadas.

A estrutura menos alavancada oferece espaço para crescimento. Ao mesmo tempo, dobrar a carteira em um único ano aumentará a necessidade de captação, capital regulatório e provisões.

A Agrolend utiliza Letras de Crédito do Agronegócio como uma de suas fontes de recursos. A estratégia declarada é captar em prazos mais longos e conceder empréstimos mais curtos, reduzindo o risco de descasamento entre vencimentos.

Essa disciplina será testada pela expansão. Para atingir a meta de R$ 2 bilhões, a instituição precisará obter recursos suficientes sem elevar excessivamente o custo de captação nem comprometer a liquidez.

O resultado também dependerá da manutenção do índice de inadimplência. Uma carteira maior tende a trazer novos riscos, especialmente quando o crescimento ocorre em um setor atravessado por renegociações e recuperações judiciais.

Renegociação de dívidas muda o ambiente do crédito rural

O agravamento do endividamento levou o governo e o Conselho Monetário Nacional a criarem novas condições para composição e renegociação de dívidas rurais.

As regras autorizam instituições financeiras a oferecer linhas para liquidação ou amortização de determinadas operações, com prazo de pagamento de até oito anos e início da amortização do principal depois de dois anos.

A adesão, porém, não é automática. Os bancos continuam responsáveis pela análise e pelo risco das novas operações, o que significa que produtores com situação financeira mais frágil podem enfrentar dificuldades para obter aprovação.

A renegociação pode reduzir a pressão de curto prazo e evitar a quebra de empreendimentos economicamente viáveis. Por outro lado, apenas alongar prazos não resolve problemas de baixa produtividade, custos excessivos ou endividamento incompatível com a capacidade de geração de caixa.

Para financiadores especializados, esse ambiente cria oportunidades e riscos. Empresas podem buscar crédito fora das instituições tradicionais para recompor capital de giro, reorganizar dívidas ou financiar a continuidade da produção.

A Agrolend precisará distinguir operações destinadas a sustentar negócios saudáveis daquelas que apenas transferem passivos de um credor para outro.

Queda dos juros será decisiva para a próxima fase do crédito rural

A expansão planejada para 2026 parte da avaliação de que o agronegócio continuará demandando financiamento, mesmo após a piora dos indicadores.

A produção brasileira mantém vantagens relacionadas a clima, disponibilidade de terras, tecnologia, escala e capacidade exportadora. Esses fundamentos não eliminam os ciclos de baixa, mas sustentam a demanda estrutural por capital.

A velocidade da recuperação dependerá principalmente dos juros e dos preços das commodities. Uma redução consistente do custo financeiro aliviaria o caixa dos produtores e facilitaria a renegociação de dívidas.

Preços agrícolas mais altos também poderiam recompor margens, mas o resultado varia de acordo com produtividade, custos logísticos, câmbio e condições climáticas.

Até que esse cenário melhore, a seleção de clientes continuará sendo o principal fator de diferenciação. O espaço deixado pelos grandes bancos pode permitir à Agrolend alcançar os R$ 2 bilhões pretendidos, mas o crescimento só será sustentável se a instituição mantiver controle sobre inadimplência, concentração e liquidez.

A meta coloca a financeira entre os agentes que buscam redesenhar o crédito rural brasileiro. Ao avançar quando os concorrentes recuam, a Agrolend aposta que a crise separará empresas capitalizadas de produtores excessivamente endividados — e que sua análise de risco será capaz de identificar essa diferença antes que ela apareça nos balanços.

Tags: AgrolendagronegócioBanco Centralcrédito no agronegóciocrédito ruralfinanciamento agrícolainadimplência ruralLCAprodutores ruraisrecuperação judicial

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