Os bancos brasileiros lucraram US$ 45,841 bilhões em 2025, crescimento de 34,2% sobre o ano anterior, e responderam por 51% de todo o resultado bancário da América Latina. Os dados constam de relatório divulgado em julho de 2026 pela Federação Latino-Americana de Bancos, a Felaban, e consolidam os balanços encerrados em dezembro do ano passado, período marcado por juros elevados, expansão do crédito e resiliência das receitas operacionais das instituições financeiras.
O resultado brasileiro, portanto, não representa o lucro acumulado pelos bancos em 2026. Trata-se da fotografia anual mais recente disponível para comparação entre os sistemas financeiros da região, publicada sete meses depois do encerramento do exercício.
A diferença é relevante porque o ambiente econômico já começou a mudar. Depois de atingir 15% ao ano em 2025, a Selic entrou em trajetória de redução e chegou a 14,25% em junho de 2026. O custo do crédito, porém, permanece elevado, enquanto a inadimplência continuou avançando nos primeiros meses deste ano.
O lucro dos bancos brasileiros subiu US$ 11,675 bilhões em relação aos US$ 34,166 bilhões registrados em 2024. O ganho obtido pelas instituições do país também superou, sozinho, o resultado somado dos demais mercados incluídos no levantamento regional.
Brasil respondeu por mais da metade do lucro bancário latino-americano
Os bancos da América Latina acumularam lucro líquido de US$ 88,996 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025, avanço de 31% na comparação anual. Desse montante, pouco mais de US$ 45,8 bilhões foram gerados no Brasil.
O México apareceu em segundo lugar, com lucro de US$ 17,110 bilhões, equivalente a 19% do total regional. O Chile ficou na terceira posição, com US$ 5,875 bilhões, seguido por Peru, com US$ 4,207 bilhões, e Colômbia, com US$ 3,803 bilhões.
Brasil, México e Chile concentraram 77% do lucro bancário latino-americano. A distância brasileira em relação aos demais países reflete tanto a escala do mercado nacional quanto a diversificação das receitas dos grandes conglomerados financeiros.
As principais instituições brasileiras operam simultaneamente no crédito ao consumo, financiamento empresarial, cartões, seguros, investimentos, administração de recursos, pagamentos e mercado de capitais. Essa estrutura permite compensar a desaceleração de uma área com receitas obtidas em outros segmentos.
A conversão dos resultados para dólares também exige cautela. Movimentos das moedas nacionais podem ampliar ou reduzir os valores apresentados na divisa americana. Ainda assim, a alta de 34,2% registrada pelo Brasil foi suficientemente expressiva para indicar uma expansão relevante dos resultados, e não apenas uma variação provocada pelo câmbio.
A participação brasileira no lucro regional também supera seu peso demográfico e evidencia a profundidade do sistema financeiro do país. O mercado nacional reúne grandes bancos públicos, conglomerados privados, cooperativas de crédito, instituições digitais e empresas especializadas em pagamentos e investimentos.
Juros elevados favoreceram receitas financeiras em 2025
O ciclo de alta da Selic foi uma das principais variáveis enfrentadas pelos bancos ao longo de 2025. A taxa básica começou o ano em 12,25%, subiu para 13,25% em janeiro, avançou para 14,25% em março e alcançou 15% em junho, patamar mantido até dezembro.
Juros elevados aumentam a remuneração de títulos públicos e de ativos bancários indexados à Selic ou ao CDI. Também permitem a revisão das taxas cobradas em novas operações de crédito e nos contratos sujeitos a atualização periódica.
O impacto, contudo, não é unilateralmente favorável às instituições. O mesmo movimento encarece a captação feita por meio de CDBs, letras financeiras e outros instrumentos utilizados para financiar as operações dos bancos.
O Banco Central apontou que a margem de crédito continuou pressionada pelo aumento do custo de captação no segundo semestre de 2025. O crescimento dos resultados operacionais, embora em ritmo menor, foi suficiente para compensar a elevação das provisões destinadas a cobrir possíveis perdas.
Na prática, os bancos conseguiram preservar a rentabilidade mesmo em um cenário de dinheiro mais caro. A combinação entre reajuste das taxas, expansão de determinadas carteiras, receitas de serviços e controle das despesas sustentou os balanços.
Instituições com uma base ampla de depósitos de menor custo tendem a atravessar ciclos de juros elevados em posição mais favorável. Bancos mais dependentes de captações remuneradas pelo mercado enfrentam pressão maior sobre suas margens.
A diferença entre esses modelos ajuda a explicar por que o resultado agregado do setor não se distribui de maneira uniforme. Os grandes conglomerados, as instituições digitais e os bancos de nicho apresentam estruturas de custos, riscos e fontes de receita distintas.
Rentabilidade resistiu ao avanço das provisões
O retorno sobre o patrimônio líquido dos bancos brasileiros, indicador conhecido como ROE, chegou a 15,4% ao fim de 2025, de acordo com a Felaban. O percentual ficou acima da média de 14,2% registrada pelo sistema bancário latino-americano.
O ROE mede a relação entre o lucro e o capital aplicado pelos acionistas. Quanto maior o indicador, maior é a capacidade da instituição de gerar resultado com os recursos próprios disponíveis, embora a análise também dependa do nível de risco assumido.
O Banco Central chegou a uma leitura semelhante ao avaliar o Sistema Financeiro Nacional. Segundo a autoridade monetária, instituições com ROE superior a 10% concentravam cerca de 90% dos ativos do sistema ao final de 2025.
As entidades com rentabilidade negativa respondiam por aproximadamente 1% dos ativos. O ROE mediano do sistema ficou em 11,7%, praticamente estável em relação ao período anterior.
O desempenho foi obtido apesar do aumento do custo com provisões. À medida que cresce o risco de atraso ou calote, as instituições precisam reservar mais recursos para absorver perdas esperadas, reduzindo a parcela das receitas que chega ao lucro líquido.
O Banco Central avaliou que a materialização do risco aumentou no crédito às famílias e permaneceu relativamente estável entre as empresas. Os ativos problemáticos avançaram em diferentes modalidades durante o segundo semestre.
Ainda assim, o sistema permaneceu capitalizado e com capacidade de gerar lucros suficientes para reforçar o patrimônio. Essa condição reduz o risco de instabilidade financeira, mas não elimina a pressão sobre os resultados futuros.
Investidores acompanham qualidade do lucro e pagamento de dividendos
O resultado agregado amplia a atenção dos investidores sobre os balanços de Itaú Unibanco (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4), Santander Brasil (SANB11) e BTG Pactual (BPAC11), entre outras instituições negociadas na Bolsa.
O lucro do setor pode fortalecer a distribuição de dividendos e juros sobre capital próprio, além de ampliar a capacidade de financiamento das carteiras. A avaliação das ações bancárias, porém, não depende apenas do tamanho do resultado líquido.
O mercado acompanha a origem do lucro, a evolução da margem financeira, o crescimento das receitas de serviços e o comportamento das provisões. Ganhos apoiados em operações recorrentes tendem a ser considerados mais sustentáveis do que resultados influenciados por eventos extraordinários.
A composição das carteiras também faz diferença. Bancos com maior exposição ao crédito rural, cartões, pequenas empresas ou financiamentos sem garantia podem enfrentar comportamentos distintos em períodos de desaceleração econômica.
O crescimento acelerado do crédito pode elevar as receitas no curto prazo, mas aumenta a vulnerabilidade do balanço quando a inadimplência começa a subir. Instituições mais conservadoras preservam capital, embora possam perder participação para concorrentes dispostos a assumir mais risco.
Os números da Felaban, portanto, oferecem uma visão da força do sistema brasileiro, mas não substituem a análise individual de cada instituição.
Concentração recuou, mas grandes bancos preservaram escala
A rentabilidade elevada dos bancos costuma ser associada ao grau de concentração do mercado. Os dados do Banco Central mostram, no entanto, que a participação das quatro maiores instituições recuou em 2025 nos principais indicadores analisados.
Nos ativos totais, a fatia dos quatro maiores conglomerados caiu de 54,7% em 2024 para 54,1% no ano passado. Nos depósitos, a participação recuou de 57,1% para 55,3%.
Nas operações de crédito, a concentração diminuiu de 57,9% para 57,1%. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil (BBAS3), Itaú Unibanco (ITUB4) e Bradesco (BBDC4) permaneceram entre os líderes dos principais agregados.
A redução ocorreu com o avanço das cooperativas, das instituições não bancárias e dos participantes digitais. Plataformas de investimento e empresas de pagamentos também aumentaram a competição em áreas antes dominadas pelas redes tradicionais.
O movimento, contudo, não foi uniforme. Segmentos que dependem de funding direcionado, grande volume de capital ou redes extensas de distribuição continuam altamente concentrados.
Os quatro maiores participantes respondiam por 93% do financiamento habitacional, por 91,1% do crédito para infraestrutura e desenvolvimento e por 64,6% dos financiamentos rurais e agropecuários.
A combinação entre redução da concentração agregada e domínio persistente em determinadas linhas mostra que a competição avançou, mas ainda encontra barreiras estruturais.
Lula usa lucro dos bancos para defender ambiente de negócios
O desempenho das instituições financeiras também passou a integrar o discurso econômico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em fevereiro de 2026, durante cerimônia no Instituto Butantan, em São Paulo, Lula afirmou que o sistema financeiro e os empresários nunca haviam ganhado tanto dinheiro quanto em seu governo.
A declaração foi usada pelo presidente para rebater críticas de que sua administração estaria voltada exclusivamente a programas sociais. Ao citar os lucros empresariais, Lula procurou sustentar que políticas de transferência de renda e valorização salarial não impediram a rentabilidade do setor privado.
O relatório divulgado pela Felaban confirma que o sistema bancário obteve forte expansão dos resultados em 2025, durante o terceiro mandato de Lula. Os dados, entretanto, não medem o grau de satisfação dos banqueiros com o governo nem permitem concluir que o setor financeiro apoie determinada política ou candidatura.
A rentabilidade dos bancos depende de um conjunto de fatores que inclui política monetária, qualidade do crédito, regulação, concorrência, eficiência administrativa e decisões próprias de cada instituição.
A Selic, uma das principais variáveis para o setor, é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, que possui autonomia legal. A política fiscal do governo influencia as expectativas e a curva de juros, mas não determina diretamente a taxa básica.
O resultado de US$ 45,8 bilhões pode ser incorporado ao embate político, mas sua interpretação econômica exige separar o desempenho dos balanços da relação institucional entre o governo e o mercado financeiro.
Comparação com orçamento da Educação não sustenta valor em dobro
A dimensão do lucro bancário levou à comparação com o orçamento federal da Educação, mas os dados oficiais não confirmam que os bancos tenham lucrado o equivalente ao dobro dos recursos reservados para a área.
O Orçamento da União de 2026 destinou R$ 233,7 bilhões à Educação. O lucro dos bancos está expresso em dólares e precisa ser convertido para reais antes de qualquer comparação.
Mesmo considerando diferentes taxas de câmbio observadas ao longo do período, os US$ 45,841 bilhões representam um montante próximo ou pouco superior ao orçamento educacional, e não duas vezes maior.
Além da diferença numérica, são grandezas de natureza distinta. O lucro bancário é um resultado contábil obtido por instituições públicas e privadas depois da dedução de despesas, impostos e provisões.
O orçamento da Educação representa autorização para despesas públicas distribuídas entre programas, órgãos, universidades, institutos federais e políticas educacionais. A comparação pode demonstrar a escala do sistema financeiro, mas não deve ser apresentada como equivalência direta.
Crédito caro e inadimplência deslocam a pressão para 2026
Embora os números divulgados pela Felaban retratem 2025, os indicadores mais recentes do Banco Central mostram que o ambiente bancário continua desafiador em 2026.
Em maio deste ano, o estoque de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,3 trilhões, alta de 9,5% em doze meses. O crédito destinado às famílias somou R$ 4,6 trilhões, enquanto as operações com empresas alcançaram R$ 2,7 trilhões.
A taxa média das novas concessões atingiu 33,4% ao ano. No crédito livre, em que as condições são negociadas entre bancos e clientes, a média chegou a 49,5%.
Para as famílias, a taxa média do crédito livre ficou em 62,8% ao ano. Para as empresas, alcançou 25,2%. O spread bancário situou-se em 22,1 pontos percentuais, 1,6 ponto acima do registrado um ano antes.
A inadimplência total chegou a 4,7% em maio, com avanço de um ponto percentual em doze meses. Entre as pessoas físicas, atingiu 5,6%. Nas operações com empresas, ficou em 3,2%.
Esses números mostram que a redução da Selic ainda não se traduziu em alívio amplo para os tomadores. A transmissão da política monetária ocorre de forma gradual e depende, além da taxa básica, do risco de crédito, do custo de captação e da concorrência.
Para os bancos, o desafio será preservar a rentabilidade em um cenário no qual os juros começam a cair, mas os atrasos continuam avançando. A redução da Selic pode pressionar a remuneração de determinados ativos, ao mesmo tempo que tende a estimular novas operações e melhorar a capacidade de pagamento dos clientes.
O recorde registrado em 2025 fortaleceu o capital das instituições e ampliou a margem para distribuição de resultados aos acionistas. A trajetória de 2026, porém, dependerá menos do lucro já contabilizado e mais da velocidade com que o crédito caro e a inadimplência responderão ao novo ciclo monetário.










