O Santander Brasil (SANB11) registrou lucro líquido gerencial recorrente de R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre de 2026, queda de 17,6% em relação ao mesmo período do ano passado e de 20,4% ante os três primeiros meses deste ano. O balanço, divulgado nesta quarta-feira, 29 de julho, antes da abertura da B3, ficou abaixo da projeção de R$ 3,90 bilhões reunida pela LSEG, pressionado pelo aumento das provisões para perdas com crédito, pela redução da margem financeira e pela deterioração da rentabilidade.
A diferença entre o lucro do Santander Brasil e o consenso de mercado chegou a aproximadamente 23%. O resultado interrompeu a sequência de recuperação apresentada pelo banco ao longo de 2025, quando o ganho recorrente havia avançado de R$ 3,659 bilhões no segundo trimestre para R$ 4,086 bilhões no encerramento do ano.
O retorno sobre o patrimônio líquido médio, indicador usado para medir a capacidade de um banco de remunerar o capital dos acionistas, caiu para 12,5%. O índice estava em 16% no primeiro trimestre de 2026 e em 16,4% no mesmo intervalo de 2025.
A queda ocorreu mesmo com a expansão de 5,8% da carteira de crédito ampliada, que encerrou junho em R$ 714,769 bilhões. O crescimento dos empréstimos, entretanto, não foi suficiente para compensar a elevação das despesas com provisões e a compressão dos spreads cobrados dos clientes.
Provisões consomem parte relevante das receitas
O principal fator de pressão sobre o lucro do Santander Brasil foi o resultado de provisões para devedores duvidosos, conhecido no mercado como PDD. A linha atingiu R$ 7,654 bilhões no segundo trimestre, avanço de 20,6% em relação aos R$ 6,344 bilhões registrados entre janeiro e março.
Na comparação anual, o aumento foi de 11,5%. O banco atribuiu a elevação a reforços de provisões relacionados a casos específicos no atacado, à revisão dos critérios de baixa de créditos considerados irrecuperáveis e à persistência de um ambiente econômico desfavorável para parte dos clientes.
A despesa bruta com provisões chegou a R$ 8,260 bilhões, alta de 21% no trimestre e de 6,5% em um ano. O impacto foi parcialmente compensado por R$ 607 milhões em recuperações de crédito. Esse valor cresceu 25,7% ante o primeiro trimestre, mas ficou 32,3% abaixo do observado um ano antes.
O custo de crédito alcançou 3,81%, contra 3,73% no trimestre anterior e 3,90% no segundo trimestre de 2025. Embora permaneça ligeiramente abaixo do nível de um ano atrás, o avanço trimestral mostra que o banco precisou destinar parcela maior das receitas para absorver perdas esperadas.
O resultado operacional caiu 45,2% em três meses e 39,1% em um ano, para R$ 2,525 bilhões. Antes dos impostos, o lucro gerencial somou R$ 2,537 bilhões, retração de 44,6% sobre o primeiro trimestre e de 39,6% na comparação anual.
O lucro recorrente foi favorecido pelo reconhecimento de R$ 584 milhões na linha de Imposto de Renda e Contribuição Social. No trimestre anterior, essa rubrica havia representado uma despesa de R$ 677 milhões. A diferença tributária ajudou a limitar a queda do resultado final.
O banco também reconheceu uma provisão trabalhista não recorrente de R$ 291 milhões. Após esse efeito, o lucro líquido gerencial ficou em R$ 2,723 bilhões. Pelo critério contábil, o Santander Brasil apurou R$ 2,667 bilhões, redução de 25,8% em um ano.
Inadimplência de pessoas físicas chega a 5,1%
O índice de inadimplência superior a 90 dias permaneceu em 3,3% entre março e junho, mas avançou 0,7 ponto percentual em relação aos 2,6% registrados um ano antes.
Entre as pessoas físicas, a inadimplência de longo prazo chegou a 5,1%, ante 4,9% no primeiro trimestre e 4% em junho de 2025. O aumento anual de 1,1 ponto percentual mostra a pressão exercida pelo elevado nível de endividamento das famílias e pelo custo do crédito.
Na pessoa jurídica, o indicador recuou de 1,8% para 1,6% no trimestre, mas permaneceu acima dos 1,2% observados um ano antes. Nas pequenas e médias empresas, a inadimplência superior a 90 dias caiu para 5,3%, depois de ter alcançado 6% em março. No atacado, permaneceu em 0,2%.
Os atrasos entre 15 e 90 dias, considerados uma medida antecedente da inadimplência de longo prazo, encerraram o trimestre em 3,3%. O índice estava em 3,4% em março e também em 3,3% um ano antes.
Na pessoa física, porém, os atrasos de curto prazo subiram para 5,3%, contra 5,2% no primeiro trimestre e no mesmo período de 2025. O banco identificou pressão principalmente nas carteiras de baixa renda e do agronegócio.
A formação de novos créditos inadimplentes somou R$ 7,022 bilhões, queda de 2,3% no trimestre, mas aumento de 3,8% em relação ao segundo trimestre de 2025. A relação entre a formação de inadimplência e a carteira total ficou estável em 1%.
As baixas de operações para prejuízo chegaram a R$ 7,009 bilhões, avanço de 27,3% em três meses. O Santander explicou que o movimento ainda reflete a aplicação de critérios revisados de recuperabilidade dos créditos.
O índice de cobertura da carteira classificada no estágio 3, que reúne ativos com maior risco de perda, recuou para 65%. O nível era de 67,6% em março e de 67,1% em junho do ano passado. Para investidores, a combinação entre inadimplência mais alta e cobertura menor amplia a atenção sobre a capacidade das provisões de absorver eventuais perdas futuras.
Margem financeira recua com compressão dos spreads
A receita total do Santander Brasil alcançou R$ 20,675 bilhões, alta de apenas 0,4% em um ano e queda de 2,7% na comparação trimestral.
A margem financeira bruta, formada principalmente pela diferença entre os juros cobrados nos empréstimos e o custo de captação, caiu 3% ante o primeiro trimestre e 0,4% em doze meses, para R$ 15,341 bilhões.
A margem com clientes somou R$ 16,058 bilhões, redução trimestral de 3,2% e anual de 0,4%. O spread médio recuou de 10,41% para 10,03% entre março e junho. Um ano antes, estava em 10,55%.
Segundo o banco, a compressão decorreu, entre outros fatores, da redução da exposição ao segmento massificado, que normalmente apresenta juros e riscos mais elevados. A mudança melhora o perfil de risco da carteira, mas reduz a margem obtida em determinadas operações.
O aumento do diferimento de comissões pagas a correspondentes bancários também pressionou o spread. Excluído esse efeito, a redução teria sido menor, de 0,30 ponto percentual no trimestre e de 0,16 ponto em um ano.
A margem com o mercado continuou negativa, em R$ 718 milhões, mas apresentou melhora ante a perda de R$ 771 milhões do primeiro trimestre. O desempenho foi favorecido pela maturação da carteira e pelo resultado de títulos indexados à inflação.
A pressão sobre a margem financeira é um ponto relevante para o lucro do Santander Brasil. O banco precisa ampliar volumes e receitas de serviços sem elevar excessivamente o risco, ao mesmo tempo que administra um custo de captação elevado e clientes mais sensíveis ao preço do crédito.
Carteira cresce puxada por veículos, PMEs e grandes empresas
A carteira de crédito ampliada cresceu 1,3% no trimestre e 5,8% em um ano, atingindo R$ 714,769 bilhões. Desconsiderado o efeito da variação cambial, a expansão anual teria sido de 6,3%.
O financiamento ao consumo apresentou o maior avanço entre os principais segmentos. A carteira chegou a R$ 100,766 bilhões, alta de 5,6% em três meses e de 15,3% na comparação anual.
Essa linha inclui principalmente financiamentos de veículos e outros bens. O Santander informou que dobrou, em um ano, a originação de contratos de automóveis elétricos e híbridos e aumentou a participação de veículos novos no conjunto das concessões.
O crédito para pequenas e médias empresas alcançou R$ 95,957 bilhões, crescimento de 2,4% no trimestre e de 11,5% em um ano. O banco tem procurado aumentar a utilização de garantias nessas operações, estratégia destinada a reduzir a perda em caso de inadimplência.
A carteira de grandes empresas avançou 6,8% em doze meses e 1,4% no trimestre, para R$ 254,623 bilhões. O crescimento foi apoiado por antecipação de recebíveis, avais, fianças e títulos privados.
Na pessoa física, o saldo caiu 0,7% ante março e 0,1% em um ano, para R$ 263,424 bilhões. A estabilidade aparente esconde mudanças importantes na composição da carteira.
O crédito imobiliário cresceu 10,6% em doze meses, para R$ 77,214 bilhões, enquanto a carteira de cartões aumentou 13%, para R$ 65,198 bilhões. Em sentido contrário, o crédito consignado caiu 14,7%, e o crédito pessoal e outras linhas recuaram 8,6%.
O banco vem reduzindo a exposição a clientes de menor renda e aumentando a participação de operações com o público de alta renda. No crédito imobiliário, 79% da carteira já está concentrada nesse segmento.
A estratégia contribui para uma carteira potencialmente mais resistente, mas tende a reduzir os spreads médios. Esse efeito ajuda a explicar por que a expansão de 5,8% do crédito não se converteu em crescimento do lucro do Santander Brasil.
Comissões avançam no ano, mas perdem força no trimestre
As receitas de comissões chegaram a R$ 5,334 bilhões. O valor representa crescimento de 2,5% em relação ao segundo trimestre de 2025, mas queda de 1,9% ante os três primeiros meses deste ano.
As receitas com cartões aumentaram 10,5% em doze meses, para R$ 1,638 bilhão. O avanço refletiu maior volume de transações e crescimento dos gastos médios dos clientes.
As comissões de administração de recursos subiram 26,4%, para R$ 581 milhões. Consórcios avançaram 23,8%, enquanto fundos e previdência cresceram 30,5%.
Em sentido contrário, as receitas de conta corrente caíram 12,2%, para R$ 825 milhões. As comissões associadas a operações de crédito recuaram 2,3%, e a linha de outras receitas diminuiu 61,1%.
Na comparação trimestral, o resultado também foi afetado por menores receitas em corretagem e colocação de títulos, seguros e operações de crédito. O banco afirmou que a seletividade na concessão de empréstimos reduziu a geração de algumas tarifas vinculadas a esses produtos.
A diversificação das receitas é importante porque reduz a dependência da margem financeira. No segundo trimestre, porém, o avanço anual das comissões não teve força suficiente para neutralizar o aumento das provisões.
Corte de custos não impede piora da eficiência
As despesas gerais totalizaram R$ 6,578 bilhões, aumento de 2,6% em um ano e redução de 0,8% ante o primeiro trimestre. As despesas de pessoal caíram 1,2% na comparação anual, para R$ 2,995 bilhões, enquanto as administrativas subiram 6%, para R$ 3,583 bilhões.
O banco encerrou junho com 47.327 funcionários, redução de 6.591 postos em relação ao mesmo mês de 2025. O número de lojas caiu de 1.036 para 858 no período, enquanto os postos de atendimento bancário passaram de 910 para 731.
Apesar do controle nominal das despesas, o índice de eficiência piorou para 39,3%, ante 37,7% no primeiro trimestre e 36,8% um ano antes. Quanto menor esse indicador, mais eficiente é a relação entre os custos e as receitas da instituição.
A deterioração ocorreu porque as receitas perderam força mais rapidamente do que as despesas. O resultado mostra que a redução da estrutura física e do quadro de funcionários ainda precisa ser acompanhada por uma recuperação da margem e do lucro operacional.
Capital permanece acima dos limites regulatórios
O Santander Brasil encerrou junho com R$ 1,286 trilhão em ativos totais e patrimônio líquido de R$ 98,210 bilhões, aumento anual de 5% e 6,2%, respectivamente.
O índice de Basileia ficou em 15,3%, alta de 0,3 ponto percentual em um ano. O capital principal CET1, considerado a parcela de maior qualidade do capital bancário, atingiu 11,2%, contra 11,6% em junho de 2025.
As captações de clientes avançaram 6,9% em doze meses e 3,7% no trimestre, para R$ 688,514 bilhões. As pessoas físicas passaram a representar 51% dessa base, quatro pontos percentuais a mais do que no ano anterior.
O banco também contabilizou R$ 2 bilhões em juros sobre capital próprio aprovados em abril. O valor supera os R$ 1,5 bilhão distribuídos no período equivalente de 2025.
Embora o capital permaneça em nível considerado confortável, a queda do lucro do Santander Brasil reduz a geração interna de recursos e exige maior disciplina na distribuição de proventos e no crescimento da carteira.
Resultado coloca recuperação da rentabilidade sob novo teste
O balanço do segundo trimestre recoloca no centro da avaliação dos investidores a capacidade do Santander Brasil de recuperar sua rentabilidade sem flexibilizar os critérios de concessão de crédito.
O banco encerrou 2025 com ROAE de 17,6%, depois de um ciclo de reconstrução da margem e melhora gradual dos resultados. A queda para 12,5% no segundo trimestre de 2026 representa uma mudança relevante nessa trajetória.
A expansão dos financiamentos ao consumo, do crédito imobiliário, das operações com cartões e das carteiras empresariais mostra que o Santander continua crescendo em segmentos definidos como estratégicos. O desafio será transformar esse avanço em receitas suficientes para compensar as perdas de crédito.
Para que o lucro do Santander Brasil volte a crescer, o banco dependerá da estabilização da inadimplência, da redução das provisões extraordinárias, da recuperação dos spreads e de uma contribuição maior das receitas de serviços.
Até que esses vetores apareçam de forma consistente, o desempenho do segundo trimestre mantém a rentabilidade, a qualidade dos ativos e o custo do crédito como os principais pontos de atenção para os acionistas do Santander Brasil (SANB11).








