O Bradesco BBI elevou nesta quarta-feira (29) a recomendação para as ações da Cogna Educação (COGN3) de neutra para compra, escolheu a companhia como sua nova favorita no setor educacional e aumentou o preço-alvo de R$ 3,80 para R$ 4 ao fim de 2026. O valor representa potencial de valorização próximo de 82% sobre o fechamento anterior. Na mesma revisão, o banco rebaixou a Ânima Educação (ANIM3) de compra para neutra e reduziu seu preço-alvo de R$ 7 para R$ 4,30.
A mudança reflete uma separação mais clara entre as empresas que chegam à temporada de balanços do segundo trimestre com geração de caixa, endividamento controlado e capacidade de remunerar os acionistas e aquelas mais expostas ao custo elevado da dívida e aos riscos de execução.
No caso da Cogna (COGN3), o BBI identificou uma combinação de preço descontado, melhora das projeções de lucro, liquidez das ações e baixa alavancagem. O papel negociava a 4,5 vezes o lucro estimado para 2026, enquanto o retorno projetado do fluxo de caixa livre ao acionista alcançava 21%.
A Ânima (ANIM3), em sentido oposto, passou a carregar uma percepção maior de risco depois da compra da FMU, anunciada em julho. A operação amplia a presença da companhia no ensino superior, mas adiciona uma nova frente de integração em um momento no qual o custo financeiro continua elevado e os resultados operacionais ainda exigem ajustes.
Às 11h26, as ações da Cogna subiam 1,39%, para R$ 2,19. Os papéis da Ânima avançavam 1,38%, a R$ 2,20, mesmo após o rebaixamento. O Ibovespa recuava 0,67% no mesmo horário.
Preço baixo deixou de ser o único argumento para Cogna
A tese positiva para a Cogna não depende apenas da queda acumulada das ações. A revisão do BBI ocorre depois de a companhia apresentar crescimento de receita, lucro e geração de caixa no primeiro trimestre de 2026, acompanhado de nova redução da alavancagem.
A receita líquida da Cogna atingiu R$ 2,146 bilhões entre janeiro e março, alta de 31,9% sobre igual período de 2025. O Ebitda recorrente avançou 22,2%, para R$ 679,6 milhões, apesar da redução de 2,5 pontos percentuais na margem.
O lucro líquido ajustado chegou a R$ 200,8 milhões, crescimento anual de 30%. Pelo critério contábil, o lucro foi de R$ 141,4 milhões, 48,7% superior ao resultado registrado um ano antes.
O elemento que ganhou maior peso na avaliação do BBI foi a conversão desse resultado em dinheiro. A geração de caixa livre da Cogna somou R$ 252,5 milhões no primeiro trimestre, aumento de 68,7% em relação aos R$ 149,6 milhões apurados no mesmo intervalo de 2025.
O avanço permitiu à companhia reduzir a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado de 1,28 vez para 1,13 vez em doze meses. A dívida líquida encerrou março em R$ 2,784 bilhões, com queda de 1,1%.
Essa estrutura financeira diferencia a Cogna de empresas que ainda precisam direcionar parcela relevante da geração operacional ao pagamento de juros. Também abre espaço para que a administração avalie uma distribuição maior de resultados aos acionistas sem interromper o processo de desalavancagem.
Banco projeta possibilidade de dividendos maiores
O Bradesco BBI estima que a Cogna possa alcançar lucro líquido contábil de R$ 634 milhões em 2026 e gerar R$ 895 milhões em fluxo de caixa livre ao acionista em 2027.
No cenário mais favorável desenhado pelo banco, a companhia teria condições de distribuir em 2027 o equivalente a 100% do lucro apurado em 2026. A estimativa atualmente incorporada ao modelo considera um pagamento de 50%.
Caso a distribuição integral se concretize, o retorno em dividendos poderia chegar a 14%, o dobro dos 7% previstos na hipótese-base do BBI. Mesmo nesse cenário, a relação entre dívida líquida e Ebitda cairia de 1,1 vez em 2026 para 0,9 vez no ano seguinte.
A possibilidade de um pagamento maior não constitui compromisso assumido pela Cogna. A distribuição dependerá do resultado efetivamente apurado, das necessidades de investimento, da posição de caixa, das obrigações financeiras e da decisão dos órgãos de administração da companhia.
Para o mercado, porém, a inclusão dessa hipótese altera a percepção sobre a ação. A Cogna deixou de ser avaliada apenas como uma empresa em recuperação operacional e passou a ser observada também como uma possível geradora de caixa e dividendos.
A companhia distribuiu R$ 119,5 milhões em dividendos em fevereiro deste ano. Ao mesmo tempo, reduziu o custo médio ponderado de sua dívida de CDI mais 1,66% no primeiro trimestre de 2025 para CDI mais 1,33% no mesmo período de 2026.
Ânima é rebaixada mesmo com potencial teórico de 98%
O rebaixamento da Ânima (ANIM3) chama atenção porque o novo preço-alvo de R$ 4,30 ainda representa valorização teórica próxima de 98% sobre a cotação de referência usada pelo BBI.
A aparente contradição decorre da forma como os bancos avaliam as ações. O potencial calculado entre a cotação e o preço-alvo não é o único elemento considerado em uma recomendação. A previsibilidade dos resultados, o risco financeiro, a possibilidade de novas revisões e a existência de gatilhos de curto prazo também entram na decisão.
No caso da Ânima, o banco identificou maior sensibilidade dos lucros à trajetória dos juros, alavancagem superior à dos principais concorrentes, menor sustentação por múltiplos e riscos associados à integração da FMU.
A companhia encerrou o primeiro trimestre com dívida líquida ajustada de R$ 2,926 bilhões e alavancagem de 2,39 vezes o Ebitda ajustado dos últimos 12 meses. O indicador melhorou em relação às 2,49 vezes observadas ao fim de 2025, mas permanece acima do nível registrado pela Cogna.
A Selic elevada pesa diretamente sobre o resultado financeiro. No primeiro trimestre, as despesas financeiras da Ânima aumentaram, enquanto o custo total da dívida permaneceu próximo de 16,7% ao ano, considerando a taxa básica e o spread médio contratado.
Apesar dessa pressão, a companhia apresentou crescimento operacional. A receita líquida subiu 7,7%, para R$ 1,12 bilhão, e o Ebitda ajustado, excluído o efeito do IFRS 16, avançou 4,3%, para R$ 375,9 milhões.
A margem Ebitda caiu 1,1 ponto percentual, para 33,6%. O lucro líquido atribuível aos controladores somou R$ 106,2 milhões, alta de 11%.
Os números mostraram melhora, mas também revelaram fragilidades. A base de alunos da graduação digital caiu 18,4%, e a receita do segmento recuou 5,5%. A própria administração informou ter enfrentado problemas operacionais na volta às aulas, com reflexos sobre a evasão.
Compra da FMU adiciona escala e risco de execução
A aquisição da FMU aprofundou a diferença de percepção entre Cogna e Ânima. A operação foi anunciada em 14 de julho e prevê a compra da totalidade das cotas da instituição, que se encontra em recuperação judicial.
O valor patrimonial da transação foi fixado em R$ 410 milhões. A Ânima pagará R$ 240 milhões à vista no fechamento e uma segunda parcela de pelo menos R$ 170 milhões, corrigida pelo CDI, com vencimento condicionado aos termos previstos no contrato.
A parcela futura poderá aumentar de acordo com a evolução do Ebitda e da dívida líquida da FMU. A conclusão do negócio depende, entre outras condições, da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, esperada pela companhia para o fim de 2026.
A FMU tinha 51 mil alunos, seis campi em São Paulo e mais de 200 unidades acadêmicas parceiras de ensino a distância quando a transação foi anunciada. Nos 12 meses encerrados em março, registrou receita líquida de R$ 281,7 milhões, Ebitda ajustado de R$ 52,9 milhões e dívida líquida de R$ 150,3 milhões.
Para a Ânima, a compra amplia a escala em São Paulo e oferece sinergias nos cursos presenciais, digitais e híbridos. Para o investidor, entretanto, acrescenta uma etapa de integração operacional e financeira que precisará ser executada sem interromper a redução do endividamento.
Esse risco explica por que o BBI reduziu o preço-alvo mesmo reconhecendo a possibilidade de valorização expressiva das ações. A compra pode gerar valor no médio prazo, mas os benefícios dependerão da recuperação da FMU, da captura de sinergias e do controle dos custos financeiros.
Juros mais altos pressionam projeções para 2027
O Bradesco BBI atualizou seu modelo para incorporar uma curva de juros mais elevada. A taxa Selic média projetada pelo banco para 2027 aumentou 1,7 ponto percentual, para 12% ao ano.
A revisão tem impacto relevante sobre as empresas de educação porque boa parte do setor ainda opera com dívidas indexadas ao CDI. Quanto mais tempo os juros permanecerem elevados, maior será o consumo de caixa com despesas financeiras e menor a parcela do resultado disponível aos acionistas.
A Ânima é a empresa mais atingida pela nova premissa. O BBI reduziu em 45% sua estimativa de lucro por ação para 2027, levando a projeção para um nível 25% inferior à média do mercado.
Para a Yduqs (YDUQ3), o corte foi de 20%, deixando a estimativa do banco 8% abaixo do consenso. Ainda assim, o BBI manteve recomendação de compra para a companhia, assim como para a Vitru Educação (VTRU3).
A diferença está na geração de caixa projetada. Segundo o banco, Yduqs e Vitru negociam com retornos de fluxo de caixa livre ao acionista entre 19% e 21% para 2027, depois da forte desvalorização das ações do setor.
Vitru e Yduqs preservam geração de caixa
Os resultados do primeiro trimestre ajudam a explicar a manutenção das recomendações positivas para Vitru e Yduqs.
A Vitru registrou receita líquida de R$ 579,2 milhões, alta de 6,1%, e Ebitda ajustado de R$ 235,1 milhões, crescimento de 16%. A margem avançou 3,5 pontos percentuais, para 40,6%.
O lucro líquido ajustado por imposto caixa chegou a R$ 91,8 milhões, aumento de 24,1%. O fluxo de caixa livre subiu 85,6%, para R$ 217,1 milhões, enquanto a alavancagem caiu para 1,75 vez o Ebitda.
A Yduqs, por sua vez, obteve receita líquida de R$ 1,568 bilhão e Ebitda ajustado de R$ 552 milhões no primeiro trimestre, com altas de aproximadamente 5% e 7%, respectivamente.
A geração de caixa ao acionista alcançou R$ 276 milhões no trimestre e R$ 525 milhões nos 12 meses encerrados em março. A alavancagem ficou em 1,53 vez, ou 1,19 vez quando desconsiderados os efeitos de dividendos e recompra de ações.
A composição dos resultados, contudo, permanece desigual. Idomed e Ibmec responderam por 49% do Ebitda da Yduqs, compensando a pressão nas operações da Estácio e da Wyden.
Balanços do 2T26 devem separar vencedores no setor
O BBI espera uma temporada de resultados heterogênea para as empresas de educação no segundo trimestre de 2026.
Cogna e Vitru devem apresentar os desempenhos mais consistentes, sustentados por geração de caixa e evolução operacional. A Yduqs tende a mostrar crescimento mais limitado do Ebitda, apesar da contribuição das marcas de medicina e ensino premium.
Para a Ânima, a expectativa é de números ligeiramente mais fracos, afetados por taxas maiores de evasão. A margem Ebitda, no entanto, deverá permanecer relativamente estável, segundo as projeções do banco.
A revisão do Bradesco BBI indica que o desconto generalizado das ações de educação começa a dar lugar a uma análise mais seletiva. O setor continua negociando a múltiplos baixos, mas o valor potencial depende da capacidade de cada companhia transformar receita em caixa depois de juros, investimentos e obrigações financeiras.
Nesse ambiente, a Cogna passa a ocupar a posição de maior preferência por reunir lucro em expansão, alavancagem próxima de uma vez o Ebitda e possibilidade de aumentar a remuneração aos acionistas. A Ânima entra no período de balanços sob maior cobrança: terá de provar que a aquisição da FMU pode gerar crescimento sem interromper a desalavancagem já alcançada.











