Estados Unidos e Japão formalizaram uma nova frente de cooperação para desenvolver minerais críticos no fundo do Pacífico, com foco na lama rica em terras raras encontrada na zona econômica exclusiva japonesa ao redor de Minamitorishima. O acordo foi anunciado em Washington em 19 de março de 2026, durante encontro entre o presidente Donald Trump e a primeira-ministra Sanae Takaichi, e prevê a criação de um grupo bilateral dedicado ao desenvolvimento de recursos minerais em águas profundas.
O projeto ganhou peso estratégico depois que o Japão demonstrou, no início do ano, que consegue retirar continuamente material do leito marinho a aproximadamente 6 mil metros de profundidade. Em julho, a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terra, a JAMSTEC, informou que o teste realizado com o navio científico Chikyu recuperou cerca de 50 toneladas de lama. A análise indicou que aproximadamente 54% das terras raras presentes no material pertenciam ao grupo de elementos médios e pesados, entre eles ítrio, gadolínio e disprósio.
A combinação entre avanço tecnológico e política industrial transforma Minamitorishima em uma peça relevante da estratégia de segurança econômica de Tóquio e Washington. O objetivo é reduzir a vulnerabilidade de cadeias de suprimento de minerais considerados críticos, especialmente diante dos controles chineses sobre determinadas terras raras médias e pesadas.
Memorando cria estrutura permanente de cooperação
O Memorando de Cooperação firmado entre o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão e o Departamento de Comércio dos Estados Unidos estabelece um grupo de trabalho para explorar áreas de colaboração em recursos minerais de águas profundas. O governo japonês citou explicitamente a lama de terras raras de Minamitorishima entre os projetos que poderão ser discutidos pelo novo mecanismo.
A Casa Branca afirmou que os dois países pretendem acelerar pesquisa, desenvolvimento e cooperação industrial voltados à exploração comercialmente viável de minerais críticos do fundo do mar. O entendimento integra um Plano de Ação para Minerais Críticos que também prevê a construção de uma iniciativa plurilateral apoiada por pisos de preços ou outros mecanismos destinados a estimular maior diversidade de fornecedores.
O encontro de março aprofundou uma estrutura de cooperação sobre minerais críticos iniciada pelos dois governos em 2025. Ao comentar a reunião com Trump, Takaichi afirmou que a cooperação em recursos minerais marinhos próximos a Minamitorishima estava entre os temas concretos tratados pelos dois países.
Japão já conseguiu elevar lama de 6 mil metros
A etapa operacional é conduzida pelo Japão. O Chikyu chegou à área de testes em janeiro e iniciou a primeira operação de recuperação em 30 daquele mês. Na madrugada de 1º de fevereiro, a JAMSTEC confirmou que a primeira lama contendo terras raras havia chegado ao navio, em um teste destinado a validar a conexão e o funcionamento do sistema de mineração e elevação.
A profundidade é um dos principais desafios técnicos. No ensaio, a JAMSTEC instalou o equipamento em ponto com 5.569 metros de profundidade, medida pela extensão do tubo de elevação. Durante três dias de testes, o sistema recuperou lama de três camadas diferentes e manteve operação estável. A agência classificou o resultado como a primeira elevação contínua no mundo de sedimento do fundo do mar para um navio a essa profundidade.
A análise divulgada em 24 de julho mostrou que o volume líquido de lama recuperada foi de cerca de 50 toneladas, depois de descontada a água do mar utilizada no processo. Segundo a JAMSTEC, aproximadamente 54% das terras raras identificadas pertenciam ao grupo de elementos médios e pesados. A agência também informou que não foram detectados níveis significativos de substâncias nocivas ou materiais radioativos no lote analisado.
Entre os elementos destacados estão ítrio, gadolínio e disprósio. O disprósio integra o grupo de metais empregado em ímãs de alto desempenho, inclusive em aplicações que exigem resistência a temperaturas elevadas, o que amplia a importância industrial do material encontrado.
Depósito pode conter mais de 16 milhões de toneladas de óxidos
O interesse por Minamitorishima é anterior aos testes de 2026. Pesquisa publicada em 2018 na revista científica Scientific Reports estimou que uma área de aproximadamente 2.500 quilômetros quadrados dentro da zona econômica exclusiva japonesa poderia conter mais de 16 milhões de toneladas de óxidos de terras raras e ítrio.
O estudo mostrou que o depósito é particularmente enriquecido em ítrio e terras raras pesadas. Pelas taxas de consumo global consideradas pelos pesquisadores, os recursos estimados seriam equivalentes a cerca de 780 anos de demanda por ítrio, 620 anos por európio, 420 anos por térbio e 730 anos por disprósio.
Esses números representam potencial geológico, não reservas economicamente recuperáveis. A diferença é decisiva para avaliar o projeto. Um recurso pode existir no fundo do oceano sem que sua exploração seja técnica, ambiental ou financeiramente viável. Para transformar Minamitorishima em fonte comercial, o Japão ainda precisa demonstrar produtividade, custo, processamento e capacidade de operação contínua em escala muito maior.
Meta japonesa é chegar a 350 toneladas por dia
O programa estratégico do governo japonês estabelece como referência uma taxa de mineração de 350 toneladas de lama por dia a 6 mil metros de profundidade. Documentos do Strategic Innovation Promotion Program, o SIP, definem essa escala como um dos critérios técnicos para a demonstração do sistema.
A próxima etapa já tem cronograma. A JAMSTEC prevê iniciar em fevereiro de 2027 um teste de mineração mais amplo, com duração aproximada de um mês, na mesma área. A lama deverá ser transportada até Minamitorishima, submetida à retirada de água e posteriormente enviada ao território principal japonês para testes de separação, purificação e fundição.
O projeto deixa claro que retirar a lama do fundo oceânico é apenas uma parte da equação. A ambição japonesa é construir uma cadeia integrada que vá da mineração ao beneficiamento e ao refino. A JAMSTEC prevê utilizar os resultados para realizar, até março de 2028, uma avaliação abrangente da possibilidade de industrialização doméstica, incluindo a análise econômica do sistema.
Isso significa que a cooperação americana não transforma Minamitorishima em uma mina comercial imediata. O memorando cria uma estrutura para compartilhar informações, conectar pesquisadores e participantes da indústria e identificar áreas de trabalho conjunto. A execução da retirada de lama de terras raras permanece, até agora, liderada pelas instituições japonesas.
Controles chineses ampliam pressão sobre cadeias de suprimento
A urgência aumentou em abril de 2025, quando o Ministério do Comércio da China e a Administração Geral das Alfândegas passaram a exigir licenças de exportação para uma série de itens relacionados a terras raras médias e pesadas. A lista inclui materiais de samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio, além de determinados ímãs permanentes.
Pequim justificou os controles com base em segurança nacional, interesses do Estado e obrigações de não proliferação. A norma determina que exportadores solicitem autorização às autoridades chinesas para remessas dos produtos abrangidos pelo controle.
Em janeiro de 2026, a China adotou uma medida adicional especificamente relacionada ao Japão. O Ministério do Comércio informou ter proibido exportações de itens de uso duplo destinados a usuários militares japoneses, aplicações militares e outros usuários ou finalidades que possam contribuir para ampliar as capacidades militares do país.
O governo chinês vinculou a decisão a declarações da liderança japonesa sobre Taiwan. Essa justificativa é a posição oficial de Pequim para a adoção da medida. O endurecimento reforçou em Tóquio a preocupação com a segurança de suprimento de matérias-primas utilizadas em setores tecnologicamente intensivos.
Para o Japão, que possui indústrias avançadas de automóveis, eletrônicos, máquinas e materiais magnéticos, interrupções em elementos como disprósio e térbio podem produzir efeitos em diferentes etapas da produção. É esse risco que ajuda a explicar por que uma jazida remota no Pacífico ganhou prioridade política.
Viabilidade econômica e ambiental ainda precisa ser demonstrada
A escala geológica de Minamitorishima é excepcional, mas a operação a quase 6 mil metros impõe uma estrutura tecnológica sem precedente comercial consolidado para esse tipo de recurso. Tubulações, bombas, sistemas de controle, embarcações e unidades de processamento precisam operar continuamente sob condições extremas e com custos compatíveis com o valor dos minerais recuperados.
O próprio programa japonês inclui avaliação ambiental entre os componentes dos testes. Durante a operação de 2026, equipamentos instalados no fundo oceânico acompanharam a geração de material em suspensão, enquanto instrumentos coletaram informações sobre o ambiente e organismos presentes na área. A JAMSTEC informou que a análise dos dados continua em andamento.
A ausência de níveis significativos de materiais radioativos nas amostras recuperadas é favorável ao processamento, mas não elimina a necessidade de avaliação ambiental. A mineração em escala industrial implica remoção de sedimento e alteração física do leito marinho, efeitos que precisam ser dimensionados antes da eventual implementação comercial.
Também permanece a questão econômica. Mesmo que o sistema consiga atingir a referência de 350 toneladas por dia, será necessário demonstrar que a quantidade de terras raras obtida depois das etapas de concentração, separação e refino compensa a complexidade de uma operação tão remota.
Minamitorishima passa de experimento científico a ativo estratégico
A mudança mais importante em 2026 é institucional. O projeto deixou de ser apenas uma iniciativa japonesa de pesquisa e passou a integrar formalmente a agenda econômica da aliança entre Estados Unidos e Japão. A própria Casa Branca classificou a cooperação em minerais críticos de águas profundas como instrumento para fortalecer a resiliência das cadeias de suprimento.
O memorando não garante que a exploração será economicamente viável nem estabelece uma data para produção comercial. Ele cria, porém, uma estrutura bilateral para acelerar desenvolvimento tecnológico e cooperação industrial em um momento de maior disputa pelo controle de matérias-primas críticas.
Se os próximos testes confirmarem capacidade de operar em escala industrial, Minamitorishima poderá oferecer ao Japão uma fonte própria de alguns dos elementos mais sensíveis da indústria moderna e ampliar as alternativas de fornecimento disponíveis aos Estados Unidos e a outros parceiros.
Por enquanto, o avanço mais concreto é técnico: o Japão conseguiu elevar continuamente lama de um ponto a 5.569 metros de profundidade, recuperou cerca de 50 toneladas e confirmou que aproximadamente 54% das terras raras presentes no material analisado pertencem ao grupo de elementos médios e pesados. O teste industrial de 2027 e a avaliação prevista para março de 2028 deverão determinar até onde essa conquista de engenharia pode avançar em direção a uma produção comercial.
Fontes:
Casa Branca — Cooperação EUA-Japão e Plano de Ação para Minerais Críticos
https://www.whitehouse.gov/fact-sheets/2026/03/fact-sheet-president-donald-j-trump-strengthens-u-s-japan-alliance-for-the-benefit-of-all-americans/
Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão — Cooperação em recursos minerais de águas profundas
https://www.meti.go.jp/english/press/2026/0320_001.html
JAMSTEC — Teste de recuperação de lama de terras raras em fevereiro de 2026
https://www.jamstec.go.jp/j/about/press_release/20260202/
JAMSTEC — Resultado da operação e análise das cerca de 50 toneladas recuperadas
https://www.jamstec.go.jp/j/about/press_release/20260724/
Gabinete do Primeiro-Ministro do Japão — Declaração sobre a cúpula Japão-EUA
https://www.kantei.go.jp/jp/105/statement/2026/0319kaiken.html
Scientific Reports — Estudo sobre o potencial de terras raras de Minamitorishima
https://www.nature.com/articles/s41598-018-23948-5
Ministério do Comércio da China — Controles sobre terras raras médias e pesadas
https://english.mofcom.gov.cn/Policies/AnnouncementsOrders/art/2025/art_0dd87cbee7b045bf93fabe6ab2faceee.html
Ministério do Comércio da China — Controles de itens de uso duplo destinados ao Japão
https://english.mofcom.gov.cn/News/SpokesmansRemarks/art/2026/art_ad432d69b63545ef81b6b0c9d21c0fa1.html








