Os juros brasileiros permanecem entre os mais elevados do mundo e mantêm a renda fixa no centro das decisões de investimento em 2026. Ainda assim, receber uma rentabilidade próxima de 14% ao ano em reais não significa necessariamente preservar integralmente o poder de compra. Uma parte dos produtos e serviços consumidos pelas famílias brasileiras responde direta ou indiretamente às oscilações do dólar, criando um risco que aplicações exclusivamente domésticas podem não compensar.
A questão ganhou relevância com um estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef), que investigou quanto das despesas das famílias brasileiras é sensível às variações cambiais. A pesquisa concluiu que brasileiros de todas as faixas de renda possuem exposição ao dólar mesmo quando recebem salário, gastam e investem exclusivamente em reais. O material que originou esta pauta destaca justamente que o efeito aparece em alimentos, medicamentos, eletrônicos, combustíveis, veículos e outros componentes da cesta doméstica.
O levantamento, elaborado pelos pesquisadores Claudia Emiko Yoshinaga, Francisco Henrique Figueiredo de Castro Junior, Ricardo Ratner Rochman e William Eid Junior, estima que uma carteira desenhada apenas para compensar o impacto cambial sobre o consumo deveria manter ao menos 16% dos recursos em ativos internacionais. Dependendo da faixa de renda e do padrão de despesas, o percentual calculado chega perto de 18%.
Isso não significa que todos os investidores devam automaticamente destinar exatamente essa proporção ao exterior. O próprio estudo deixa claro que o cálculo procura neutralizar especificamente a exposição do consumo ao câmbio. Objetivos financeiros, horizonte de investimento, tolerância a risco, patrimônio, liquidez necessária e outras características individuais podem produzir alocações diferentes.
CDI perto de 14% não elimina o risco cambial
O ponto de partida está na diferença entre rentabilidade financeira e preservação do poder de compra.
O Brasil atravessa 2026 com juros ainda muito elevados. A Selic chegou a 15% ao ano no início do ano e entrou posteriormente em ciclo gradual de redução. Em 5 de agosto, o Banco Central realizou novo corte de 0,25 ponto percentual, levando a taxa básica para 14% ao ano.
A taxa DI, principal referência para inúmeros investimentos de renda fixa, acompanha de perto a Selic. Antes da última decisão do Copom, os indicadores da B3 mostravam CDI na casa de 14% ao ano.
Isso torna CDBs, fundos DI, títulos públicos pós-fixados e outros produtos relacionados às taxas de curto prazo especialmente competitivos. Mas o CDI é uma taxa de referência, e não uma promessa universal de rendimento. O retorno efetivo depende do percentual do CDI oferecido pelo produto, dos impostos, das taxas, do prazo, da liquidez e, em determinados investimentos, do risco de crédito.
Mesmo quando um investimento acompanha integralmente a taxa de juros brasileira, seu retorno continua denominado em reais. Se determinados gastos do investidor aumentarem por causa de uma desvalorização da moeda brasileira, a alta do patrimônio em reais não necessariamente acompanhará esse movimento na mesma proporção.
O dólar chega ao consumidor sem ele importar nada
Um dos pontos centrais do trabalho da FGV é demonstrar que exposição cambial não se resume à compra de produtos importados.
Entre 2013 e 2023, as importações representaram, em média, aproximadamente 10,1% do Produto Interno Bruto brasileiro, segundo os dados utilizados pelos pesquisadores. O efeito do câmbio, entretanto, alcança parcela maior do consumo porque insumos importados também entram na produção de mercadorias fabricadas no Brasil.
Um smartphone pode ser montado ou comercializado no país, mas depender de componentes importados. Medicamentos nacionais podem utilizar princípios ativos adquiridos no exterior. Fertilizantes, trigo, peças industriais e equipamentos também podem estar sujeitos a preços internacionais.
Combustíveis representam outro canal. Mesmo com grande produção de petróleo, preços domésticos são influenciados por referências internacionais, custos logísticos, derivados e condições do mercado global. A transmissão não precisa ser imediata nem integral para produzir impacto sobre o orçamento.
Os pesquisadores da FGV destacam exatamente essa característica: o câmbio aparece incorporado em diferentes componentes dos índices de inflação e seu efeito pode surgir com defasagem de vários meses. A análise econométrica considerou a variação contemporânea do dólar e até 12 defasagens mensais para medir essa transmissão.
Famílias de baixa renda também sofrem com o câmbio
A exposição não se restringe às famílias que viajam frequentemente ao exterior ou consomem produtos importados de alto valor.
Na primeira etapa da análise, depois de separar estatisticamente o efeito cambial incorporado aos diferentes componentes de inflação, a FGV encontrou influência acumulada do câmbio entre aproximadamente 11,1% e 13,9% sobre as cestas consideradas, dependendo da faixa de renda.
O impacto estimado foi maior nas classes de renda mais baixa. A pesquisa calculou 13,93% para o grupo classificado como renda muito baixa e 13,88% para a baixa renda. Para a faixa de renda alta, o resultado foi de aproximadamente 11,07%.
Segundo os pesquisadores, uma possível explicação está na exposição das famílias de menor renda a itens essenciais cujos preços sofrem influência do câmbio. Como alimentação, transporte e habitação ocupam parcela maior desses orçamentos, movimentos de preços nesses grupos têm capacidade elevada de comprometer a renda disponível.
Isso ajuda a desmontar a ideia de que proteção cambial interessa exclusivamente a famílias ricas. O volume financeiro disponível para investir muda drasticamente de acordo com a renda, mas o risco econômico provocado pela oscilação da moeda está presente em diferentes estratos da população.
Gastos no exterior aumentam exposição de famílias de maior renda
Nas faixas superiores, outro elemento altera o cálculo: gastos realizados diretamente fora do Brasil.
A pesquisa incorporou despesas de brasileiros com viagens e educação no exterior. Ao adicionar esses valores ao impacto cambial já identificado na cesta doméstica, a exposição calculada para a classe de renda média alta passou para 14,68%. Na alta renda, chegou a 13,72%.
Viagens internacionais, cursos, imóveis no exterior, serviços digitais cobrados em moeda estrangeira e outras despesas aumentam naturalmente a necessidade de considerar moedas diferentes do real no planejamento patrimonial.
O estudo adicionou ainda a volatilidade histórica da taxa de câmbio ao modelo. Depois dessa etapa, chegou aos percentuais utilizados como referência final para diversificação.
A alocação estimada foi de 17,08% para renda muito baixa, 17,02% para baixa renda, 16,06% para média baixa, 15,75% para renda média, 18% para média alta e 16,83% para alta renda. A recomendação geral apresentada pelos autores é arredondada para um mínimo de aproximadamente 16%, podendo chegar a 17% ou 18% conforme o padrão familiar.
Tesouro IPCA+ protege da inflação, mas não replica o dólar
Outro ponto analisado pela FGV é a percepção de que simplesmente comprar um título indexado à inflação seria suficiente para eliminar qualquer efeito da desvalorização cambial.
O Tesouro IPCA+ possui uma função diferente. Sua remuneração contratada combina uma taxa real com a variação do IPCA, desde que sejam consideradas as condições do título e seu carregamento. Isso protege o investidor contra a inflação medida pelo índice dentro da estrutura da aplicação, mas não significa que o título acompanhe diretamente o dólar.
No estudo, os pesquisadores compararam a variação cambial e o desempenho de uma NTN-B, denominação anterior dos títulos Tesouro IPCA+, em horizontes de cinco e dez anos encerrados em agosto de 2024. No período de dez anos utilizado no levantamento, a variação cambial acumulada foi significativamente superior à rentabilidade apresentada pelo título analisado.
A comparação não transforma ativos internacionais em substitutos do Tesouro IPCA+. Os instrumentos protegem contra riscos distintos. Um título indexado ao IPCA pode cumprir papel importante na preservação do retorno real em reais, enquanto uma exposição cambial procura compensar movimentos associados a outra moeda.
Investir no exterior também adiciona novos riscos
Diversificação internacional não deve ser confundida com ausência de risco.
Ativos no exterior podem sofrer perdas em suas próprias moedas. Ações americanas podem cair mesmo com o dólar subindo. Títulos de renda fixa estão sujeitos a risco de juros e, dependendo do emissor, risco de crédito. Fundos e ETFs apresentam custos e estratégias diferentes.
Existe ainda o próprio efeito inverso do câmbio. Se o real se valorizar significativamente diante da moeda do investimento, o resultado convertido para reais pode ser reduzido, mesmo quando o ativo apresenta retorno positivo no mercado de origem.
Por isso, proteção cambial não significa apostar permanentemente na valorização do dólar. A lógica da diversificação é distribuir exposições para reduzir a dependência de um único país, uma única moeda e um único conjunto de fatores econômicos.
BDR permite exposição internacional sem enviar dinheiro para fora
O investidor brasileiro também não precisa necessariamente abrir uma conta estrangeira para obter exposição econômica a empresas e mercados internacionais.
Os Brazilian Depositary Receipts (BDRs) são certificados emitidos e negociados no Brasil que representam valores mobiliários existentes no exterior. Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o investidor em um BDR assume uma posição semelhante à que teria ao investir no ativo estrangeiro representado pelo certificado, embora juridicamente esteja adquirindo o recibo negociado no mercado brasileiro.
Há também ETFs e fundos brasileiros com estratégias internacionais, além da possibilidade de investimento direto em outros mercados por meio de instituições habilitadas.
As estruturas não são equivalentes entre si. Custos, tributação, liquidez, exposição cambial, jurisdição, variedade de ativos e riscos operacionais podem mudar conforme a modalidade escolhida.
Rentabilidade de dois dígitos não significa carteira completa
O ambiente de juros elevados cria um incentivo econômico forte para manter recursos em renda fixa brasileira. A própria taxa básica de 14% continua elevada em termos nominais e mantém ativos pós-fixados competitivos.
Mas o estudo da FGV chama atenção para um risco diferente daquele normalmente observado quando o investidor compara apenas rentabilidades: o patrimônio pode crescer em reais enquanto parte das despesas futuras sobe em função de outra moeda.
A conclusão não é abandonar CDI, Tesouro Direto ou outros instrumentos locais. É reconhecer que concentrar todo o patrimônio em reais significa também concentrar a exposição econômica em uma única moeda.
Para os pesquisadores, a estimativa de 16% a 18% em ativos internacionais representa apenas a parcela destinada a compensar a influência cambial sobre o consumo. Uma estratégia completa pode produzir percentuais maiores ou menores conforme as condições específicas de cada investidor.
Em um país em que juros próximos de 14% tornam a renda fixa particularmente atraente, essa distinção é relevante: retorno elevado em moeda local e proteção do poder de compra internacional são objetivos relacionados, mas não são a mesma coisa.
Fontes:
Fundação Getulio Vargas — estudo “O impacto cambial no consumo dos brasileiros e a necessidade de diversificação internacional”, elaborado pelo Centro de Estudos em Finanças.
Banco Central do Brasil — decisões de política monetária, histórico da taxa Selic e informações sobre juros.
B3 — indicadores de taxas de juros e Taxa DI.
Comissão de Valores Mobiliários — informações regulatórias e educacionais sobre Brazilian Depositary Receipts.








