Bancários de algumas das principais bases sindicais do país aprovaram uma paralisação de 24 horas para quinta-feira, 20 de agosto, depois de rejeitarem a proposta apresentada pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) na Campanha Nacional dos Bancários de 2026. O movimento amplia a pressão sobre os bancos a menos de duas semanas da data-base da categoria, em 1º de setembro.
Em São Paulo, Osasco e região, 97,66% dos participantes da assembleia votaram contra a proposta da Fenaban, enquanto 89,34% aprovaram a paralisação. A votação virtual foi encerrada às 23h de segunda-feira (17), após uma plenária acompanhada por mais de 500 pessoas pela internet e também presencialmente no Sindicato dos Bancários de São Paulo.
A mobilização ultrapassa a maior base bancária do país. No Rio de Janeiro, 1.760 dos 1.808 participantes rejeitaram a proposta dos bancos e 1.709 votaram pela paralisação. Em Belo Horizonte e região, 98% dos votantes rejeitaram a proposta e 93% aprovaram a interrupção das atividades. As assembleias fazem parte de um chamado do Comando Nacional dos Bancários para uma mobilização de alcance nacional no dia 20.
A paralisação ocorre em meio a um impasse principalmente econômico. Na sétima rodada de negociação, realizada em 13 de agosto, a Fenaban não apresentou um percentual de reajuste para salários e demais verbas, segundo as entidades que representam os trabalhadores. A proposta colocada à mesa previa um modelo de reajustes diferentes conforme faixas salariais e o congelamento do piso de ingresso.
A oitava rodada entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban está prevista para esta terça-feira (18). O resultado desse encontro pode determinar se a paralisação de quinta-feira será mantida nos moldes aprovados pelas assembleias ou se uma nova proposta dos bancos abrirá espaço para mudança no calendário de mobilização.
Bancários rejeitam reajuste dividido por faixas salariais
O ponto de maior resistência sindical é a proposta de abandonar um índice uniforme para toda a categoria e passar a aplicar reajustes diferenciados de acordo com a remuneração de cada trabalhador.
Segundo o Sindicato dos Bancários de São Paulo, a proposta apresentada na sétima rodada separaria os trabalhadores em três grupos — menores salários, salários intermediários e maiores salários —, mas a Fenaban não informou os percentuais que seriam aplicados a cada faixa. O modelo também foi discutido para os vales refeição e alimentação.
Outra proposta contestada é o congelamento do piso salarial de ingresso, o que significaria, na prática, ausência de reajuste para esse valor na próxima Convenção Coletiva de Trabalho caso o modelo fosse incorporado ao acordo.
A reação sindical está relacionada não apenas aos percentuais, mas à estrutura da Convenção Coletiva nacional. Historicamente, a negociação dos bancários utiliza uma mesa nacional para estabelecer direitos e índices aplicáveis à categoria abrangida pela CCT. As entidades afirmam que diferentes reajustes de acordo com o salário poderiam fragmentar esse modelo.
Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo e uma das coordenadoras do Comando Nacional dos Bancários, afirmou após a assembleia que os trabalhadores não aceitarão uma proposta sem avanços em reajuste salarial, Participação nos Lucros e Resultados e vales refeição e alimentação.
“Também reforça que a categoria não aceitará propostas sem avanços concretos em temas essenciais, como reajuste salarial, valorização da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e recomposição dos vales refeição e alimentação”, declarou Neiva ao comentar o resultado da votação.
Segundo ela, a votação também demonstra disposição dos trabalhadores para ampliar a mobilização. “Vamos intensificar a mobilização e dar um grande recado na paralisação do dia 20”, afirmou.
Categoria reivindica inflação mais 5% de aumento real
A pauta entregue oficialmente à Fenaban em junho ajuda a dimensionar a distância entre as posições das duas partes.
O Comando Nacional dos Bancários reivindicou reposição integral da inflação acrescida de 5% de aumento real sobre salários e demais verbas, incluindo PLR, vale-alimentação e vale-refeição. A minuta também pede manutenção do atual formato da PLR, defesa dos empregos, manutenção dos direitos existentes e continuidade da Convenção Coletiva nacional.
O INPC é particularmente relevante para a negociação porque serve de referência para a recomposição inflacionária em diversas campanhas salariais. Em julho, o índice calculado pelo IBGE registrou variação de -0,01% e acumulou 4,10% em 12 meses. O dado referente a agosto, contudo, ainda será necessário para determinar a inflação acumulada até a data-base dos bancários.
Uma conta ilustrativa mostra o tamanho da reivindicação sindical. Se os 4,10% acumulados pelo INPC até julho fossem utilizados apenas como referência e sobre essa reposição fosse aplicado ganho real de 5%, o reajuste composto seria de aproximadamente 9,3%.
Esse não é o percentual final reivindicado pela categoria, porque a inflação relevante para a data-base ainda não está fechada. A conta, porém, dimensiona a diferença entre uma mera correção inflacionária e a demanda por ganho real apresentada pelo movimento sindical.
Campanha começou em junho e já chegou à oitava rodada
A Campanha Nacional dos Bancários de 2026 foi formalmente aberta em 24 de junho, quando o Comando Nacional entregou a minuta de reivindicações à Fenaban.
Naquele momento, as entidades estabeleceram como um dos objetivos concluir a renovação da Convenção Coletiva antes da data-base de 1º de setembro. A primeira rodada foi marcada para 2 de julho e, desde então, as discussões passaram por temas econômicos e sociais.
Entre os assuntos colocados na negociação estão saúde mental, assédio e discriminação, igualdade para mulheres, monitoramento digital, direito à desconexão, compensações relacionadas a fechamento de unidades, PLR, vales alimentação e refeição, piso de ingresso, reajustes salariais e manutenção de direitos previstos na CCT.
Na consulta realizada para definir prioridades da campanha, o aumento real de salário foi apontado por 93% dos participantes. A elevação da PLR apareceu para 63%, enquanto reajustes maiores nos vales alimentação e refeição foram apontados por 51%. A consulta recebeu cerca de 55 mil respostas, de acordo com a Contraf-CUT.
A entidade também defende a manutenção da chamada mesa única nacional, considerada pelos sindicatos uma das principais características da negociação coletiva bancária.
Paralisação alcança grandes centros bancários
A aprovação da paralisação em diferentes capitais aumenta o potencial de alcance do movimento.
Na base de São Paulo, Osasco e região, a aprovação alcançou 89,34%. No Rio de Janeiro, 1.709 dos 1.808 participantes da assembleia votaram a favor da paralisação, o equivalente a aproximadamente 94,5% dos votos totais. Em Belo Horizonte e região, o apoio foi de 93%.
Outras bases também convocaram assembleias para deliberar sobre o movimento, seguindo orientação do Comando Nacional. O chamado foi apresentado como um Dia Nacional de Mobilização com paralisação de 24 horas em 20 de agosto.
Isso não significa, porém, que todas as agências bancárias do país necessariamente permanecerão fechadas na quinta-feira. A extensão efetiva da paralisação dependerá da adesão dos trabalhadores, das decisões tomadas nas diferentes bases sindicais e da organização do movimento em cada região.
Até o momento, não há uma relação nacional consolidada de agências que terão atendimento interrompido.
Para clientes, portanto, ainda não é possível afirmar antecipadamente quais unidades físicas serão afetadas. A paralisação convocada é de trabalhadores e sua repercussão operacional dependerá da adesão verificada no dia 20.
Impasse ocorre a poucos dias da data-base
O calendário aumenta a pressão sobre as duas partes.
A categoria tem 1º de setembro como data-base, e a própria pauta sindical entregue em junho previa a renovação da Convenção Coletiva antes dessa data. A proximidade do prazo reduz o espaço para rodadas sucessivas sem avanço econômico.
A negociação desta terça-feira, portanto, ganha peso especial. Será a oitava rodada da campanha e ocorre dois dias antes da paralisação aprovada pelas assembleias.
Se a Fenaban apresentar um índice de reajuste e modificar os pontos rejeitados pelos trabalhadores, abre-se uma nova fase de avaliação pelas entidades. Caso o impasse permaneça, a tendência indicada pelas decisões das assembleias é de manutenção da mobilização de quinta-feira.
No material público consultado pela Gazeta Mercantil até a madrugada desta terça-feira, não foi localizada uma manifestação da Fenaban detalhando uma contraproposta posterior às assembleias de segunda-feira. A entidade patronal poderá apresentar uma nova posição na retomada da negociação.
O que está em jogo na negociação dos bancários
A disputa atual pode ser resumida em quatro pontos centrais.
O primeiro é quanto os salários serão reajustados. Os sindicatos reivindicam reposição da inflação mais 5% de ganho real, enquanto, até a sétima rodada, afirmam não ter recebido da Fenaban um índice percentual de reajuste.
O segundo é se o reajuste continuará uniforme ou será diferenciado conforme a faixa salarial. Para os sindicatos, a divisão ameaça a lógica nacional da Convenção Coletiva.
O terceiro é o piso salarial de ingresso. A proposta relatada pelas entidades previa congelamento do piso, medida rejeitada nas assembleias.
O quarto envolve PLR, alimentação e benefícios, componentes relevantes da remuneração total dos trabalhadores bancários e que também fazem parte das reivindicações apresentadas à Fenaban.
A combinação desses pontos levou o conflito, que até então estava concentrado nas mesas de negociação, para uma etapa de mobilização nas agências e demais unidades bancárias.
A quinta-feira, 20 de agosto, tornou-se assim a primeira grande prova de força da Campanha Nacional dos Bancários de 2026. Antes dela, porém, trabalhadores e bancos ainda terão uma nova rodada de negociação capaz de alterar o rumo do confronto.
Fontes:
Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região — resultados da assembleia, deliberação sobre a paralisação e informações das negociações com a Fenaban.
Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro — pauta nacional de reivindicações e histórico da Campanha Nacional dos Bancários 2026.
Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro — resultado da assembleia sobre a proposta da Fenaban e a paralisação de 24 horas.
Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte e Região — resultado da votação realizada em 17 de agosto.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Índice Nacional de Preços ao Consumidor referente a julho de 2026.









