A crise financeira da Braskem (BRKM5) entrou em uma nova fase depois que a Fitch Ratings rebaixou a classificação de crédito da petroquímica de “C” para “RD” — Restricted Default, ou inadimplência restrita — após a companhia deixar de regularizar pagamentos de juros de obrigações financeiras dentro dos períodos de carência previstos nos contratos.
A decisão foi divulgada pela Fitch em 14 de agosto de 2026 e formaliza, na metodologia da agência, uma situação que já vinha sendo antecipada desde junho: a companhia deixou de honrar uma obrigação financeira considerada relevante, mas continua operando e não se encontra, neste momento, em recuperação judicial ou processo de liquidação. A Fitch também reduziu o Rating Nacional de Longo Prazo da Braskem de “C(bra)” para “RD(bra)”.
O movimento aumenta a pressão sobre a estrutura de capital da maior petroquímica brasileira justamente quando a empresa negocia com credores alternativas para reorganizar suas dívidas e preservar caixa. A discussão ocorre paralelamente ao processo de reestruturação da Braskem Idesa, controlada mexicana que recorreu ao Chapter 11 nos Estados Unidos.
São, porém, processos diferentes. A entrada da Braskem Idesa no Chapter 11 não significa que a Braskem S.A. tenha apresentado pedido de recuperação judicial. No Brasil, a companhia obteve proteção judicial temporária contra determinadas medidas de execução enquanto conduz uma mediação com credores.
O que significa o rating “RD” da Braskem
O rating “RD” representa uma mudança qualitativa importante na avaliação do risco da companhia.
Até então, a classificação “C” já indicava risco de crédito extremamente elevado e a possibilidade de inadimplência próxima. Com o “RD”, a Fitch passa a reconhecer que a inadimplência efetivamente ocorreu em pelo menos uma obrigação financeira relevante e não foi sanada dentro do prazo contratual aplicável.
A trajetória dos ratings mostra a velocidade da deterioração. Em 30 de dezembro de 2025, a Fitch havia reduzido o rating da Braskem para “CC”. Em 26 de junho de 2026, novo corte levou a classificação para “C”, ocasião em que a própria agência indicou que uma falta de pagamento poderia resultar em rebaixamento para “RD”. Menos de dois meses depois, essa condição se materializou.
A diferença entre “RD” e “D” também é relevante. A classificação de inadimplência restrita é utilizada quando o emissor deixou de pagar determinadas obrigações, mas não entrou em inadimplência generalizada, não interrompeu suas atividades e não está submetido a determinados processos formais de insolvência.
Isso significa que o “RD” não equivale automaticamente a uma falência da Braskem. Trata-se, contudo, de uma das classificações mais baixas da escala da Fitch e confirma que o problema financeiro deixou de ser apenas uma expectativa de deterioração e passou a envolver obrigações já não honradas conforme originalmente contratadas.
Braskem tenta preservar caixa durante negociação com credores
A companhia vem buscando uma solução negociada para sua estrutura de capital em meio a um ambiente adverso para a indústria petroquímica e a uma elevada necessidade de liquidez.
A Fitch avalia que, sem recursos adicionais, a Braskem poderá precisar combinar diferentes alternativas para recompor sua capacidade financeira. Entre as possibilidades apontadas pela agência estão venda de ativos, aportes de capital dos acionistas e renegociação das obrigações financeiras com os credores.
A questão central é que a preservação de caixa passa a competir diretamente com o serviço da dívida. Em uma empresa altamente alavancada, continuar pagando integralmente juros e principal reduz a liquidez disponível para financiar capital de giro, investimentos, fornecedores e a própria manutenção das operações.
Ao mesmo tempo, deixar de pagar cria consequências contratuais e financeiras. Além do rebaixamento dos ratings, a inadimplência pode aumentar o poder de negociação dos credores, dificultar novas captações e elevar o custo exigido por investidores para assumir risco de crédito da companhia.
A Braskem obteve anteriormente uma medida cautelar no âmbito da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital de São Paulo, relacionada ao processo de mediação com determinados credores. A documentação disponibilizada pela própria companhia registra decisões envolvendo o processo de mediação e a proteção contra medidas de execução.
A proteção judicial, entretanto, não elimina economicamente o problema da dívida. Ela funciona como instrumento para criar espaço para negociação, evitando que iniciativas individuais de determinados credores prejudiquem uma tentativa de solução coordenada.
Rating passa de “CC” para “C” e chega a “RD” em menos de oito meses
A sequência de rebaixamentos ajuda a dimensionar o agravamento do risco de crédito.
No fim de dezembro de 2025, a Braskem estava em “CC”. Em junho de 2026, caiu para “C”. Em agosto, chegou a “RD”.
Na prática, foram dois novos degraus de deterioração em aproximadamente sete meses e meio, até que a Fitch passasse de uma avaliação baseada na elevada probabilidade de inadimplência para a constatação de um default restrito.
O próximo movimento das classificações dependerá principalmente do formato escolhido para a reestruturação e das perdas que eventualmente sejam impostas aos credores.
Uma renegociação pode envolver extensão de vencimentos, redução de juros, períodos de carência, conversão de dívida em instrumentos de capital ou outros mecanismos destinados a adequar o serviço financeiro à geração de caixa da companhia.
Para os detentores de ações BRKM5, o ponto crítico é que uma solução capaz de aliviar substancialmente a dívida também pode ter consequências para os acionistas. Um eventual aporte de capital, por exemplo, pode alterar a estrutura acionária ou gerar diluição, dependendo de como for estruturado.
Braskem Idesa entra em Chapter 11 nos Estados Unidos
Enquanto a controladora brasileira negocia sua própria estrutura de capital, a Braskem Idesa, operação petroquímica localizada no México, iniciou um processo de reorganização sob o Chapter 11 da legislação de falências dos Estados Unidos.
A Braskem Idesa e determinadas subsidiárias protocolaram pedidos voluntários perante o Tribunal de Falências dos Estados Unidos para o Distrito Sul do Texas após alcançarem um acordo de reestruturação com acionistas, credores financeiros e uma parcela substancial dos detentores de títulos.
O plano prevê reduzir a dívida sênior total de aproximadamente US$ 2,5 bilhões para cerca de US$ 1,6 bilhão, além da entrada de novos recursos. Segundo a própria Braskem Idesa, a redução será superior a US$ 920 milhões.
A redução representa aproximadamente 37% da dívida sênior atualmente considerada na reestruturação, tomando como referência os US$ 2,5 bilhões divulgados pela companhia.
A Braskem, acionista controladora da operação mexicana, comprometeu-se ainda a aportar US$ 476 milhões, valor que inclui recursos já desembolsados antes do protocolo do processo. O aporte corresponde a aproximadamente 19% dos US$ 2,5 bilhões de dívida sênior pré-reestruturação.
Chapter 11 da Idesa não interrompe operações
O processo adotado pela Braskem Idesa é do tipo prepackaged Chapter 11, no qual uma parcela relevante da negociação com credores acontece antes do pedido judicial.
Esse formato tende a reduzir o grau de incerteza do processo porque a companhia ingressa na Justiça americana já com apoio de grupos relevantes de credores e com parâmetros básicos da reorganização previamente negociados.
A empresa estima concluir o Chapter 11 em aproximadamente 60 a 90 dias. Durante o período, a expectativa informada é manter as operações regulares, incluindo salários e benefícios dos funcionários, além dos pagamentos autorizados a fornecedores e demais credores conforme as decisões do tribunal e o plano de reorganização.
Depois da conclusão do processo, a Braskem deverá continuar como acionista majoritária da Braskem Idesa. O Grupo Idesa e suas afiliadas permanecerão como os maiores acionistas minoritários.
A companhia mexicana opera um complexo petroquímico em Veracruz, inaugurado em 2016 e dedicado à produção de eteno e polietileno. A capacidade informada é de aproximadamente 1,05 milhão de toneladas por ano.
Reestruturação da Braskem passa a ser o principal ponto de atenção
O caso da Braskem Idesa oferece uma referência concreta de como uma reestruturação pode reduzir dívida, alongar compromissos e receber capital novo. Isso não significa, contudo, que a solução adotada no México será reproduzida pela Braskem no Brasil.
A estrutura societária, os credores, os títulos emitidos e as jurisdições envolvidas são diferentes.
Para a Braskem S.A., a classificação “RD” transforma o andamento das negociações com credores no principal evento a ser acompanhado pelo mercado. O que antes era uma discussão sobre a possibilidade de default agora parte de uma situação em que a Fitch já considera ter ocorrido inadimplência restrita.
Os próximos passos serão determinantes para saber qual parcela da dívida poderá ser alongada, quais condições serão exigidas pelos credores, se haverá necessidade de novos aportes dos acionistas e se ativos precisarão ser vendidos para reforçar a liquidez.
Também será necessário observar se novos pagamentos de juros serão realizados ou suspensos e como as demais agências de classificação reagirão ao avanço das negociações.
O rebaixamento para “RD”, portanto, não encerra a crise financeira da Braskem. Ele marca uma nova etapa: a discussão deixa de ser sobre evitar uma primeira inadimplência e passa a ser sobre como reorganizar a estrutura de capital depois que o default restrito já foi reconhecido por uma das principais agências globais de risco.
Fontes:
Fitch Ratings — ações de rating e análises de crédito da Braskem divulgadas em dezembro de 2025, junho de 2026 e agosto de 2026.
Braskem — documentos corporativos, comunicados ao mercado e informações encaminhadas à Comissão de Valores Mobiliários sobre mediação e estrutura financeira.
Braskem Idesa — comunicado sobre o acordo de reestruturação e o processo de Chapter 11 nos Estados Unidos.









