A trajetória das ações do Grupo Casas Bahia (BHIA3) nos últimos seis anos resume em números a deterioração financeira de uma das empresas mais conhecidas do varejo brasileiro. Depois de atingir um preço histórico equivalente a aproximadamente R$ 489 por ação, em valores ajustados, em 2020, o papel encerrou a segunda-feira, 17 de agosto de 2026, a R$ 0,44, após despencar 33,33% em um único pregão.
A queda ocorreu depois de a companhia pedir recuperação judicial, declarando aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, e poucos dias após divulgar um prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre.
Na comparação direta entre o pico ajustado de R$ 489 e os R$ 0,44 do fechamento de segunda-feira, a perda chega a aproximadamente 99,91%.
Em termos ilustrativos, R$ 10 mil aplicados no preço equivalente ao pico de 2020 valeriam hoje cerca de R$ 9, considerando exclusivamente a variação das cotações ajustadas e sem novos aportes.
Mas existe uma particularidade importante: as ações que apareciam nas telas dos investidores em 2020 não custavam literalmente R$ 489. Esse valor surge quando as séries históricas são ajustadas para refletir o grupamento de ações realizado posteriormente pela companhia.
De onde vêm os R$ 489 de BHIA3
Em novembro de 2023, os acionistas da Casas Bahia aprovaram um grupamento de 25 ações para uma. O objetivo era retirar o papel da condição de penny stock e elevar sua cotação unitária.
A documentação da Comissão de Valores Mobiliários registra que a operação foi aprovada na proporção de 25 para 1 e que a ação vinha sendo negociada abaixo de R$ 1 antes do grupamento. A CVM também registra que os papéis passaram a ser negociados já grupados em dezembro de 2023.
Isso muda a forma como o histórico precisa ser interpretado.
Se o pico ajustado utilizado atualmente pelos gráficos é de R$ 489, a cotação equivalente anterior ao grupamento corresponde a aproximadamente:
R$ 489 ÷ 25 = R$ 19,56.
Ou seja, um investidor de 2020 não via uma ação da antiga Via Varejo negociada a R$ 489. Ele via aproximadamente 25 vezes mais ações, cada uma valendo uma fração desse preço.
O grupamento, por si só, não destrói patrimônio. Vinte e cinco ações se transformam em uma, enquanto o valor unitário é multiplicado proporcionalmente. A B3 define esse tipo de operação como uma consolidação da quantidade de ações sem alteração econômica automática do capital investido.
Portanto, os R$ 489 podem ser utilizados para comparar a evolução histórica desde que fique explícito que se trata de preço ajustado.
E, feita essa correção metodológica, a conclusão continua praticamente a mesma: a perda econômica para o acionista que permaneceu no papel durante todo o período foi próxima de 100%.
R$ 10 mil no pico teriam virado cerca de R$ 9
A dimensão da destruição de valor aparece com mais clareza quando a evolução é convertida em patrimônio.
Na base ajustada:
Preço no pico: R$ 489
Preço em 17 de agosto de 2026: R$ 0,44
Desvalorização: aproximadamente 99,91%
Uma posição equivalente a R$ 1.000 teria sido reduzida a cerca de R$ 0,90.
R$ 10 mil teriam se transformado em aproximadamente R$ 9.
R$ 100 mil teriam sido reduzidos a perto de R$ 90.
Os números são uma simplificação baseada exclusivamente na relação entre as cotações e servem para dimensionar a magnitude da queda, sem considerar eventuais negociações, subscrições, frações, impostos ou outras movimentações realizadas pelo acionista.
A trajetória também atravessou três identidades diferentes na Bolsa.
Em 2020, a companhia ainda era Via Varejo e negociava como VVAR3. Em agosto de 2021, o ticker passou para VIIA3 após a alteração da denominação para Via. Em setembro de 2023, a companhia adotou oficialmente o nome Grupo Casas Bahia e passou a ser negociada como BHIA3.
Mudaram o nome e o ticker. A deterioração do valor de mercado, entretanto, continuou.
O ciclo de crescimento perdeu força
A Casas Bahia foi construída sobre um modelo que combinava escala nacional, eletrodomésticos, móveis e financiamento ao consumidor de baixa e média renda.
O crediário tornou-se parte da própria identidade da rede.
Esse modelo funcionava particularmente bem em períodos de expansão do consumo e disponibilidade de crédito. Com juros menores, a empresa podia financiar compras, manter estoques elevados e sustentar operações intensivas em capital.
O problema aparece quando o custo do dinheiro sobe.
A companhia afirma que a elevação da taxa Selic iniciada em 2021 produziu efeitos especialmente severos sobre uma operação estruturalmente dependente de crédito. No segundo trimestre de 2026, o crediário ainda correspondia a 15,9% das vendas, com carteira de aproximadamente R$ 6,3 bilhões.
Juros elevados também encarecem estoques, financiamentos bancários, capital de giro, antecipações a fornecedores e operações de risco sacado.
Ao mesmo tempo, o consumidor financiado passa a enfrentar prestações maiores e menor capacidade de compra.
O resultado é uma pressão simultânea sobre receita, margem e estrutura financeira.
2023 marcou o início da reestruturação mais agressiva
Os problemas já estavam evidentes em 2023.
Naquele ano, a companhia iniciou uma ampla transformação operacional que incluiu fechamento de lojas, redução do quadro de funcionários e diminuição de estoques.
O plano pretendia reduzir capital empregado em operações menos rentáveis e restaurar a geração de caixa.
Não foi suficiente.
Em 2024, o Grupo Casas Bahia recorreu a uma recuperação extrajudicial para reorganizar parte relevante de seu passivo financeiro.
A Justiça de São Paulo homologou o plano envolvendo aproximadamente R$ 4,07 bilhões de passivo financeiro quirografário. Segundo o Tribunal de Justiça de São Paulo, dois bancos credores que representavam 54,53% da dívida sujeita ao processo haviam aderido ao plano.
A recuperação extrajudicial ofereceu prazo adicional para a empresa, mas não eliminou os desafios estruturais do negócio.
Dois anos depois, a situação financeira tornou-se significativamente mais complexa.
Mudança de controle e conversão de dívida em ações
Outro capítulo importante ocorreu em 2025.
A conversão de debêntures em ações resultou em aumento de capital e mudança do controle acionário da companhia. A B3 registra que o aumento de capital homologado em agosto de 2025 decorreu da conversão de debêntures por um acionista que adquiriu o controle do Grupo Casas Bahia.
A operação também reduziu substancialmente a parcela das ações em circulação no mercado.
Atualmente, a Domus VII Participações aparece como titular de aproximadamente 82,11% do capital, enquanto outros acionistas representam cerca de 17,88%. O capital social está dividido em pouco mais de 1,013 bilhão de ações ordinárias.
A B3 concedeu tratamento excepcional temporário para o free float da companhia após a mudança de controle.
Essa transformação mostra que a crise das Casas Bahia não envolveu apenas uma queda de cotação. Ela produziu alterações profundas na própria estrutura de capital e no controle societário.
Casas Bahia vale na Bolsa uma fração de sua dívida
O fechamento de BHIA3 a R$ 0,44 também permite outro cálculo.
Considerando as aproximadamente 1,014 bilhão de ações informadas atualmente pela companhia, o valor de mercado teórico do Grupo Casas Bahia ao preço de R$ 0,44 seria de aproximadamente:
R$ 446 milhões.
O cálculo é uma fotografia baseada no fechamento da ação e no número atual de papéis, não uma avaliação dos ativos da companhia.
Ainda assim, o contraste é expressivo.
A dívida declarada no pedido de recuperação judicial chega a aproximadamente R$ 17,3 bilhões.
Isso corresponde a quase 39 vezes o valor de mercado teórico calculado com a cotação de R$ 0,44.
Essa comparação ajuda a explicar por que o mercado passou a atribuir valor tão reduzido ao capital acionário.
Em uma estrutura empresarial, os credores têm prioridade econômica sobre os acionistas. Quanto maior o passivo diante da capacidade de geração de caixa e do valor dos ativos, maior o risco de que uma reestruturação produza forte diluição ou deixe pouco valor residual para os atuais detentores das ações.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões acelerou a crise
A recuperação judicial ocorreu logo depois de a empresa apresentar um dos resultados mais negativos de sua história.
Entre abril e junho de 2026, a Casas Bahia registrou prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões, ante perda de R$ 555 milhões no mesmo período de 2025.
Grande parte do resultado, porém, não correspondeu a uma saída imediata de caixa.
Segundo a companhia, aproximadamente R$ 9,1 bilhões decorreram de efeitos contábeis não recorrentes, entre eles uma baixa de cerca de R$ 5,7 bilhões relacionada a impostos diferidos e impactos decorrentes do redimensionamento da operação.
Mesmo desconsiderando esses efeitos, o prejuízo ajustado permaneceu próximo de R$ 978 milhões.
Ao mesmo tempo, a empresa anunciou o fechamento de 298 lojas e a eliminação de aproximadamente 3 mil postos de trabalho, numa tentativa de reduzir sua estrutura operacional.
O balanço também trouxe alerta da auditoria independente sobre incerteza relevante relacionada à continuidade operacional.
Poucos dias depois, veio o pedido de recuperação judicial.
Recuperação judicial de R$ 17,3 bilhões abre nova fase
A recuperação judicial representa uma mudança de escala em comparação com o processo extrajudicial de 2024.
Na ocasião, a reestruturação envolvia cerca de R$ 4 bilhões de passivos financeiros.
Agora, a dívida declarada chega a R$ 17,3 bilhões.
A companhia sustenta que precisa de uma solução mais ampla para reorganizar obrigações financeiras, comerciais e trabalhistas e preservar liquidez suficiente para continuar operando.
A própria recuperação judicial não significa que a empresa deixará de funcionar. O instrumento existe justamente para permitir a continuidade das atividades enquanto devedor e credores negociam um plano de reestruturação.
Para o acionista, contudo, o problema é diferente.
O fato de uma empresa continuar aberta não garante que suas ações recuperarão o valor perdido.
O maior risco para BHIA3 agora é a diluição
Uma das principais incógnitas para quem possui BHIA3 é como a dívida será convertida, renegociada ou capitalizada no plano de recuperação.
Se credores aceitarem transformar parte de seus créditos em ações, o número de papéis em circulação poderá aumentar substancialmente.
Isso pode diluir a participação dos atuais acionistas.
A companhia já passou por um processo semelhante em sua estrutura de capital, com conversões de debêntures que contribuíram para a mudança de controle em 2025. A própria B3 registra o efeito dessa operação sobre o capital e o free float.
O valor final de BHIA3 dependerá, portanto, não apenas de vendas, margens e juros, mas também de como será dividida a empresa entre credores e acionistas depois da reorganização financeira.
De gigante do varejo a penny stock pela segunda vez
Existe ainda uma ironia na história recente da ação.
Em 2023, o Grupo Casas Bahia agrupou 25 ações em uma justamente porque seus papéis haviam caído abaixo de R$ 1.
A empresa argumentou na ocasião que precisava elevar o preço unitário e evitar as consequências regulatórias associadas à condição de penny stock. A documentação da CVM registra que BHIA3 estava abaixo de R$ 1 desde setembro daquele ano.
O grupamento elevou mecanicamente o preço da ação.
Menos de três anos depois, BHIA3 voltou para R$ 0,44.
Desta vez, porém, depois de cada ação já ter incorporado 25 papéis antigos.
Esse detalhe talvez seja a síntese mais clara da deterioração ocorrida.
A ação que, na série histórica ajustada, chegou a valer perto de R$ 489 no auge de 2020 agora vale menos de cinquenta centavos.
A perda de aproximadamente 99,91% não é consequência do grupamento. O grupamento apenas altera a unidade usada na comparação.
A destruição de valor veio da combinação de deterioração operacional, endividamento, juros elevados, necessidade recorrente de reestruturação, mudanças no capital e, finalmente, do pedido de recuperação judicial.
Para a Casas Bahia, o processo agora é uma tentativa de preservar a empresa.
Para quem permaneceu acionista desde o pico de 2020, a Bolsa já registrou uma conclusão muito mais dura: praticamente todo o valor investido desapareceu.
Fontes:
Grupo Casas Bahia — informações corporativas, composição acionária e histórico de códigos de negociação das ações.
Comissão de Valores Mobiliários — documentos e decisões relativos ao grupamento das ações do Grupo Casas Bahia.
B3 — registros de condições excepcionais, alterações no capital social e free float do Grupo Casas Bahia.
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo — informações sobre a recuperação extrajudicial do Grupo Casas Bahia.








