terça-feira, 13 de outubro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Economia

Galípolo defende Selic a 14% restritiva para conter demanda acima da oferta e alerta para crédito caro

Presidente do BC cita pleno emprego, convergência lenta da inflação a 3,2% e diz que crescimento sustentável depende de produtividade

por Bruno Assis
17/08/2026 às 18h35
em Economia
Galípolo - Gazeta Mercantil

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a manutenção da taxa Selic em patamar contracionista é necessária para reequilibrar oferta e demanda na economia brasileira, em um contexto de pleno emprego e consumo ainda acima da capacidade de produção. A declaração foi feita nesta segunda-feira, 17 de agosto, em São Paulo, durante a 27ª Conferência Anual do Santander.

Segundo Galípolo, o atual ciclo da política monetária tem explicação predominantemente interna. A avaliação é que o crescimento recente foi sustentado por renda, ocupação e crédito, o que mantém pressões sobre os preços, sobretudo em serviços. Para o Banco Central, esse quadro exige juros restritivos por período prolongado, mesmo após o início do ciclo de cortes.

Leia também: Entenda o pensamento de Galípolo, cotado a presidente do BC em 2025 | Finanças.

O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual no dia 5 de agosto, de 14,25% para 14% ao ano, em decisão unânime. Foi o quarto corte consecutivo de mesma magnitude desde março, totalizando redução de 1 ponto percentual desde janeiro, quando a taxa estava em 15%. Mesmo com a flexibilização gradual, o BC manteve a mensagem de que seguirá com restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.

Galípolo afirmou que o Brasil convive com pleno emprego há algum tempo e que esse fator altera a dinâmica tradicional de discussão sobre crescimento. Quando a taxa de desocupação está em mínimas históricas e a demanda supera a oferta, o risco de repasse para inflação aumenta. Nesse cenário, o papel da política monetária, na avaliação apresentada, é conter excessos de demanda até que a oferta possa se expandir de forma sustentada.

Leia também: Vamos protocola pedido de oferta de ações.

Juros altos refletem descompasso interno, não cenário externo

O presidente do Banco Central disse que o nível elevado da Selic está mais relacionado a questões endógenas do que ao ambiente internacional. Embora reconheça que a disputa por liquidez global voltou a crescer, com Estados Unidos, Alemanha e Japão demandando mais recursos, o diagnóstico central é doméstico.

Na visão exposta na conferência, a economia brasileira cresceu puxada por consumo e não por ganhos de produtividade. Esse tipo de expansão tende a pressionar preços porque aumenta a procura por bens e serviços sem ampliação correspondente da capacidade produtiva. A resposta do Banco Central, segundo o discurso, é posicionar a taxa de juros em nível contracionista para desacelerar a demanda e dar tempo para que a oferta se ajuste.

Leia também: MXRF11 excluído? Veja lista com 5 FIIs que podem pagar dividendos acima da Selic.

Galípolo ressaltou que não existe trajetória de crescimento sustentado com demanda sistematicamente acima da oferta. Sem aumento de produtividade, o avanço da atividade esbarra em gargalos, eleva custos e gera inflação. A alternativa, apontada como determinante para os próximos anos, seria um modelo de crescimento baseado em eficiência, investimento e ampliação da produção.

O Banco Central projeta, em seu cenário de referência, inflação de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante para a política monetária. O número está 0,2 ponto percentual acima da meta contínua de 3%, mas dentro do intervalo de tolerância de 1,5% a 4,5%. A projeção indica convergência lenta e reforça a necessidade de cautela na calibragem dos juros.

Leia também: GPA recebe oferta para compra de participação no Almacenes Éxito, da Colômbia | Empresas.

A Selic nominal de 14% ao ano, diante de um IPCA de 4,64% em 12 meses até junho, implica juro real próximo de 8,9% ao ano, um dos mais elevados entre as principais economias. O cálculo próprio, feito a partir da fórmula de juro real ex-post, mostra que a taxa básica mantém poder de contenção sobre crédito, consumo e investimentos financiados.

Mercado de trabalho em nível histórico limita queda da inflação

O diagnóstico de pleno emprego apresentado por Galípolo encontra respaldo nos dados do mercado de trabalho. A taxa de desemprego medida pela PNAD Contínua ficou em 5,6% no trimestre encerrado em maio, o menor nível para o período desde o início da série histórica em 2012. Em comparação com o mesmo trimestre de 2025, quando estava em 6,2%, houve recuo de 0,6 ponto percentual.

Leia também: Demanda mais forte e estoques baixos devem beneficiar preços da celulose, diz Fitch | Empresas.

No quarto trimestre de 2025, a taxa havia atingido 5,1%, mínima histórica para qualquer trimestre. A sequência de resultados abaixo de 6% desde o início de 2026 indica ocupação elevada e renda sustentada, fatores que mantêm o consumo resiliente. Esse comportamento explica, em parte, a resistência da inflação de serviços, que responde mais lentamente aos juros.

Serviços representam parcela relevante do IPCA e são sensíveis a salários. Quando as empresas enfrentam custos de mão de obra em alta e mantêm capacidade de repasse, a desinflação ocorre de forma gradual. O Banco Central tem citado esse canal como um dos motivos para manter a postura conservadora e dependente de dados.

O IPCA de junho avançou 0,16%, após alta de 0,58% em maio, e acumulou 4,64% em 12 meses, ainda acima do teto de 4,5%. A prévia de julho, o IPCA-15, subiu 0,06% e acumulou 4,52% em 12 meses, praticamente no limite da banda. As medidas subjacentes, que excluem itens mais voláteis, também desaceleraram, mas seguem ligeiramente acima do centro da meta.

Crédito caro e inadimplência entram no radar do BC

Além do debate sobre juros, Galípolo classificou como preocupante a evolução do mercado de crédito. Na avaliação apresentada, há aumento do endividamento e da inadimplência, com efeito de exponencialidade quando taxas elevadas se combinam com comprometimento de renda crescente.

O ponto de atenção destacado foi o uso de linhas mais caras, especialmente rotativo do cartão de crédito e crédito sem garantia. Segundo dados do Banco Central, o rotativo opera com taxas entre 428% e 440,5% ao ano, com registro de 438,4% ao ano em levantamentos recentes. A diferença para a Selic de 14% ao ano chega a 424 pontos percentuais, o equivalente a mais de 31 vezes o nível da taxa básica.

A jornada do consumidor também foi citada. Em outros países, o tomador costuma migrar de linhas com garantia e juro menor para linhas emergenciais quando sua situação se deteriora. No Brasil, parte dos clientes entra diretamente nas modalidades emergenciais, tratando o limite do cartão como extensão de renda. Esse padrão amplia o risco de inadimplência e reduz a capacidade de consumo futuro.

As estatísticas de crédito mostram endividamento das famílias em patamar elevado. O indicador, que relaciona saldo de dívidas e renda acumulada em 12 meses, ficou em 49,3% em outubro, com alta de 0,2 ponto no mês e de 1,2 ponto em 12 meses. Sem o financiamento imobiliário, o índice foi de 30,9%. Levantamentos mais recentes apontam recorde de 49,9%, nível que o Banco Central monitora por potencial impacto em provisões bancárias e oferta de empréstimos.

A inadimplência acima de 90 dias foi de 3,8% em novembro, sendo 4,7% nas operações com pessoas físicas e 2,3% com pessoas jurídicas. No rotativo, a inadimplência chegou a 63,5% em janeiro para pessoas físicas em algumas bases de dados, refletindo a dificuldade de quitação integral da fatura e a incidência de juros sobre juros.

Galípolo afirmou que o ritmo de crescimento do crédito segue historicamente elevado, apesar das condições financeiras restritivas. Em comunicados recentes, a autarquia destacou que a combinação de juro contracionista, inadimplência, comprometimento de renda e endividamento exige cautela e diligência adicionais na concessão.

Corte de agosto mantém cautela e deixa setembro em aberto

A decisão de 5 de agosto manteve o padrão de calibragem fina. O ciclo atual começou em março, quando a Selic caiu de 15% para 14,75%, seguido por cortes para 14,50% em abril e 14,25% em junho. Antes disso, a taxa permaneceu em 15% entre junho de 2025 e janeiro de 2026, após cinco manutenções consecutivas.

O comunicado do Copom evitou sinalizar os próximos passos e afirmou que manterá a restrição adequada para garantir a convergência da inflação. A estratégia preserva liberdade para cortar novamente, pausar ou ajustar o ritmo conforme a evolução de inflação, expectativas, atividade, emprego, crédito e câmbio.

A autoridade monetária também destacou incerteza externa elevada. Conflitos no Oriente Médio afetam petróleo e fretes, com potencial repasse para combustíveis e custos industriais. Juros elevados em economias avançadas aumentam a atratividade de ativos em moeda forte, pressionam fluxos para emergentes e podem provocar desvalorização cambial, o que encarece importados e insumos.

A redução de 0,25 ponto tem efeitos graduais sobre o custo do dinheiro. Linhas de crédito para famílias e empresas não acompanham a Selic de forma imediata ou proporcional, pois incorporam risco de crédito, despesas administrativas, impostos, garantias e margens. Em operações longas, como imobiliário e investimento, a trajetória esperada dos juros futuros pode ser tão relevante quanto a taxa corrente.

Para companhias com dívida pós-fixada, a queda diminui marginalmente despesas financeiras ao longo do tempo. Para consumidores, o reflexo tende a aparecer lentamente em consignado, pessoal e financiamento de veículos. Aplicações vinculadas ao CDI e títulos pós-fixados continuam com remuneração nominal elevada, embora o retorno líquido dependa de tributação e prazo.

Próximos passos dependem de produtividade e dados de inflação

Na conferência, questionado sobre recomendações ao governo, Galípolo afirmou que não cabe ao Banco Central dar conselhos ao presidente da República e que o papel da instituição é defender suas atribuições. A declaração foi feita durante conversa com Gilson Finkelsztain, presidente executivo do Santander.

A próxima reunião do Copom está marcada para 15 e 16 de setembro. Até lá, o colegiado acompanhará novas leituras de inflação, mercado de trabalho, atividade e expectativas. A ata da reunião de agosto deve detalhar os argumentos discutidos e a avaliação sobre riscos altistas, que permanecem com peso maior no balanço do comitê.

O ponto central para a continuidade do ciclo será a comprovação de que a desaceleração dos preços é sustentável e de que a inflação caminha de forma consistente para a meta contínua de 3%. O comportamento do emprego, a evolução do crédito e a dinâmica externa sobre câmbio e commodities também entrarão no cálculo.

Galípolo reforçou que o crescimento liderado por produtividade é a via para ampliar a oferta sem gerar inflação. Sem esse avanço, a economia tende a operar próxima de limites, com demanda pressionando preços e exigindo juros restritivos por mais tempo. A mensagem mantém o foco na necessidade de reequilibrar oferta e demanda antes de acelerar a flexibilização monetária.

Fontes:

Gazeta Mercantil – decisão do Copom de 5 de agosto de 2026 e comunicado sobre ciclo de cortes e projeção de inflação

Banco Central do Brasil – decisões do Comitê de Política Monetária e comunicados sobre taxa Selic e restrição adequada

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – PNAD Contínua e taxa de desemprego trimestral

Banco Central do Brasil – estatísticas de crédito, endividamento das famílias e taxas do rotativo do cartão de crédito

LEIA MAIS

Motos (Foto De Paulo Pinto, Abr)
Economia

Produção de motos tem melhor setembro desde 2011 e cresce 10,4%, diz Abraciclo

No mês de setembro, a indústria brasileira de motocicletas cresceu 10,4% em relação ao ano anterior, com 186.758 unidades produzidas

Leia MaisDetails
Ibovespa Hoje - B3 - Gazeta Mercantil
Ibovespa

Ibovespa hoje (13/10): Bolsa recua dos 209 mil pontos com eleições e inflação no radar

O Ibovespa opera em queda nesta terça-feira (13), no primeiro pregão após o feriado nacional, interrompendo o movimento de valorização que levou a Bolsa brasileira a renovar seus...

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Economia

Governo anuncia Pix de até R$ 5 mil para MEIs e propõe perdão de dívidas

A menos de duas semanas para o segundo turno das eleições, o governo federal anunciou nesta terça-feira (13) o “Prospera MEI”, um pacote de medidas

Leia MaisDetails
Boletim Focus: Mercado Corta Projeção Da Inflação De 2026 Para 5,30% - Gazeta Mercantil
Economia

Boletim Focus: inflação de 2026 sobe para 5,22% e Selic projetada cai a 13,25%

Índice apresentou alta de 0,21 ponto percentual, indo par 5,22%; Selic e câmbio registraram queda nos resultados desta semana com estimativa de encerrar o ano em 13,25% e...

Leia MaisDetails
Plano Econômico De Flávio Bolsonaro Levanta Suspeitas De Estelionato Eleitoral - Gazeta Mercantil - Economia
Economia

Plano econômico de Flávio Bolsonaro levanta suspeitas de estelionato eleitoral

O programa econômico de Flávio Bolsonaro (PL) para um eventual governo a partir de 2027 passou a ser questionado pela falta de detalhamento sobre como o candidato pretende...

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

17:04:35
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Motos (Foto De Paulo Pinto, Abr)
Economia

Produção de motos tem melhor setembro desde 2011 e cresce 10,4%, diz Abraciclo

Leia MaisDetails
Vivara Aprova Emissão De R$ 300 Milhões Em Debêntures Com Vencimento Em 2031-Gazeta Mercantil
Empresas

Vivara aprova emissão de R$ 300 milhões em debêntures com vencimento em 2031

Leia MaisDetails
Lvmh Perde Mais De €250 Bilhões Em Valor De Mercado Desde 2023-Gazeta Mercantil
Empresas

LVMH registra queda de 5% em moda e ações acumulam perda de 40% em 2026

Leia MaisDetails
Mercado Livre
Mercados

Mercado Livre (MELI): Citi corta preço-alvo para US$ 2.100 antes do balanço do 3T26

Leia MaisDetails
Governo Notifica 37 Fintechs Ligadas A Bets Ilegais
Política

Lula atribui à pressão popular mudança de Flávio Bolsonaro sobre fim da escala 6×1

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Produção de motos tem melhor setembro desde 2011 e cresce 10,4%, diz Abraciclo

Vivara aprova emissão de R$ 300 milhões em debêntures com vencimento em 2031

LVMH registra queda de 5% em moda e ações acumulam perda de 40% em 2026

Mercado Livre (MELI): Citi corta preço-alvo para US$ 2.100 antes do balanço do 3T26

Lula atribui à pressão popular mudança de Flávio Bolsonaro sobre fim da escala 6×1

Embraer (EMBJ3) fecha acordo com Latam para suporte a 24 jatos E195-E2

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP