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Federalização da Cemig e Copasa: BNDES inicia avaliação para abatimento da dívida de Minas Gerais

Processo de avaliação pode viabilizar transferência de estatais mineiras à União como forma de abatimento da dívida pública estadual

por Redação
05/08/2025 às 12h21 - Atualizado em 07/10/2025 às 09h08
em Negócios, Destaque, Notícias
Federalização Da Cemig E Copasa: Bndes Inicia Avaliação Para Abatimento Da Dívida De Minas Gerais - Gazeta Mercantil

Governo de Minas autoriza BNDES a avaliar possível federalização da Cemig e Copasa

O Governo do Estado de Minas Gerais deu um passo significativo rumo à possível federalização da Cemig e Copasa, duas das mais importantes estatais mineiras. A decisão foi formalizada por meio de Fato Relevante publicado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na última sexta-feira (1º de agosto), autorizando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a realizar um processo de Request for Information (RFI) — etapa inicial de avaliação técnico-financeira dos ativos da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).

A medida, que integra o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), tem como objetivo principal estudar a viabilidade de transferir o controle (total ou parcial) das estatais para a União como forma de abatimento da dívida estadual — atualmente estimada em cerca de R$ 165 bilhões. O gesto marca um movimento estratégico de Minas Gerais para avançar nas negociações com o governo federal visando à adesão ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF).

A seguir, entenda os desdobramentos dessa possível federalização da Cemig e Copasa, os impactos econômicos e políticos da medida, o papel do BNDES e o contexto fiscal do estado mineiro.


O que significa a federalização da Cemig e Copasa?

A federalização da Cemig e Copasa se refere à possível transferência da titularidade ou controle acionário dessas companhias, atualmente majoritariamente estaduais, para o governo federal. Essa transferência pode ocorrer como uma forma de pagamento ou abatimento da dívida do estado de Minas Gerais com a União.

Em vez de desembolsar recursos diretos, o estado oferece ativos estratégicos como garantia ou moeda de troca para a quitação parcial ou integral da dívida pública. Esse tipo de operação já foi utilizado no passado por outros estados e está sendo incentivado dentro do escopo do Propag, programa criado para permitir soluções estruturantes ao problema do endividamento crônico de unidades federativas.


Cemig e Copasa: estatais estratégicas de Minas Gerais

A Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) é uma das maiores empresas do setor elétrico da América Latina, com atuação nas áreas de geração, transmissão e distribuição de energia. Com capital aberto e ações negociadas na B3, a empresa é responsável pelo fornecimento de energia a mais de 8 milhões de clientes em 774 municípios mineiros e ainda possui participação em ativos fora do estado.

Já a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) desempenha papel essencial no fornecimento de água tratada, coleta e tratamento de esgoto em boa parte do território mineiro. Presente em mais de 600 cidades, a empresa é responsável por atender milhões de pessoas com serviços básicos de saneamento.

Ambas possuem valor estratégico tanto do ponto de vista econômico quanto social. Por isso, qualquer movimento em direção à sua federalização gera debates sobre eficiência, controle público e riscos à continuidade dos serviços essenciais.


BNDES assume papel técnico na avaliação das estatais

O processo de RFI autorizado pelo governo estadual será conduzido com apoio técnico do BNDES, que ficará encarregado de levantar dados financeiros, operacionais, regulatórios e de mercado das estatais. Essa fase não implica, necessariamente, na venda ou federalização imediata, mas representa um movimento preparatório para decisões futuras.

O BNDES poderá contratar consultorias especializadas para realizar a precificação e análise estratégica da Cemig e Copasa, identificando, por exemplo:

  • O valor de mercado atual das empresas;

  • O potencial de valorização com novos investimentos;

  • Os passivos e obrigações regulatórias;

  • O impacto da possível federalização nos contratos em vigor;

  • As condições ideais para eventual transferência de controle.

Esse trabalho fornecerá os insumos necessários para que o governo de Minas e a União avaliem a viabilidade da operação sob o ponto de vista econômico, jurídico e institucional.


Dívida bilionária e adesão ao Regime de Recuperação Fiscal

A dívida do estado de Minas Gerais com a União é atualmente estimada em aproximadamente R$ 165 bilhões. Esse valor compromete a capacidade de investimento do estado, restringe a execução de políticas públicas e agrava o desequilíbrio fiscal.

A adesão ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), semelhante ao já adotado por estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, permitiria a renegociação da dívida, o congelamento temporário de parcelas e o estabelecimento de contrapartidas como ajuste de contas, teto de gastos e venda de ativos.

Nesse contexto, a federalização da Cemig e Copasa aparece como uma alternativa concreta para viabilizar o ingresso do estado no programa, com impacto direto no alívio da dívida e na melhoria da credibilidade junto a investidores e órgãos federais.


Repercussão política e institucional

A autorização do processo de avaliação técnica provocou reações diversas no cenário político mineiro. Enquanto setores ligados à gestão atual defendem a medida como uma solução pragmática para a crise fiscal, partidos de oposição e sindicatos classificam a possível federalização como uma tentativa velada de privatização e perda do controle sobre serviços estratégicos.

A discussão tende a esquentar nos próximos meses, especialmente com a aproximação do calendário eleitoral de 2026. A decisão final sobre qualquer venda ou transferência dependerá de aprovação legislativa e da validação técnica dos estudos em curso.


Impactos para os consumidores e para o setor energético e de saneamento

Caso a federalização da Cemig e Copasa se concretize, o modelo de gestão das empresas pode passar por mudanças significativas. A depender da estrutura societária e do nível de controle assumido pela União, novas políticas de investimento, revisão tarifária, ampliação da concorrência e mudanças regulatórias poderão ser implementadas.

Entre os possíveis efeitos estão:

  • Aumento da eficiência operacional;

  • Modernização da infraestrutura com apoio federal;

  • Maior controle sobre políticas tarifárias;

  • Impacto nas ações das empresas na bolsa de valores;

  • Eventual abertura à entrada de novos investidores privados.

No entanto, especialistas alertam para a importância de preservar os interesses públicos, garantir o cumprimento de metas de universalização e evitar decisões baseadas exclusivamente em critérios fiscais de curto prazo.


Próximos passos do processo de federalização

Após a autorização do RFI, o processo seguirá as seguintes etapas:

  1. Contratação de consultorias pelo BNDES para avaliação técnica;

  2. Entrega dos relatórios e laudos de avaliação ao governo de Minas e à União;

  3. Discussão política e institucional sobre as alternativas viáveis;

  4. Negociação dos termos com o governo federal no âmbito do Propag e do RRF;

  5. Envio de projetos de lei à Assembleia Legislativa para eventual autorização da operação;

  6. Análise da CVM e órgãos reguladores sobre a movimentação acionária das estatais;

  7. Implementação do modelo acordado, com cronograma de transição.

Todo esse processo pode levar meses e depende de fatores externos como conjuntura política, condições do mercado financeiro e postura do governo federal diante de outras demandas fiscais.


Cemig e Copasa: entre o protagonismo regional e o desafio da modernização

A possível federalização da Cemig e Copasa insere-se em um cenário mais amplo de repensar o papel das estatais regionais em um contexto de desequilíbrio fiscal e necessidade de modernização dos serviços públicos. Ambas são empresas sólidas, com relevância regional e histórico de contribuição para o desenvolvimento mineiro.

No entanto, também enfrentam desafios como aumento da inadimplência, envelhecimento da infraestrutura, exigências regulatórias e necessidade de inovação frente à transição energética e às metas de saneamento básico universal.

Nesse sentido, a eventual entrada do governo federal como controlador ou co-controlador pode abrir caminhos para novas soluções, desde que acompanhada de governança, transparência e compromisso com o interesse público.


Federalização como estratégia de reequilíbrio fiscal e modernização institucional

A decisão do governo mineiro de autorizar o BNDES a iniciar estudos sobre a possível federalização da Cemig e Copasa representa um passo ousado e estratégico dentro do esforço de saneamento das contas públicas estaduais. Ainda que não se trate, neste momento, de uma decisão definitiva de venda, o movimento sinaliza a disposição do estado de Minas Gerais em buscar soluções estruturais para sua dívida histórica com a União.

Nos próximos meses, os olhos do mercado, do setor público e da sociedade civil estarão voltados para os desdobramentos dessa iniciativa. A forma como o processo será conduzido poderá definir não apenas o futuro dessas estatais, mas também o grau de confiança do investidor e da população no compromisso do estado com uma gestão responsável, transparente e focada em resultados sustentáveis.

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