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Abstenção bate recorde e supera 33 milhões de eleitores no 1º turno

Mais de um em cada cinco eleitores não compareceu às urnas; taxa de 21,07% supera os 20,95% registrados no primeiro turno de 2022

por Daniel Wicker
05/10/2026 às 03h25
em Política
Eleições 2026 - Gazeta Mercantil

Reprodução

A abstenção no primeiro turno das eleições de 2026 atingiu o maior nível já registrado em uma disputa presidencial no Brasil. Cerca de 33,4 milhões de eleitores deixaram de comparecer às urnas neste domingo, 4 de outubro, o equivalente a aproximadamente 21,08% do eleitorado. O resultado supera a marca de 2022, quando 32.770.982 pessoas não votaram no primeiro turno e a taxa de ausência ficou em 20,95%.

A diferença percentual entre as duas eleições é pequena, mas ocorre sobre um eleitorado que também cresceu. O Brasil chegou a 158.745.463 pessoas aptas a votar em 2026, ante 156.454.011 quatro anos antes. São 2,29 milhões de eleitores adicionais, uma expansão de 1,46%. Mesmo com esse aumento da base, a proporção de brasileiros que ficou fora da votação avançou novamente, fazendo com que o país superasse em números absolutos e percentuais o recorde registrado na eleição presidencial anterior.

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Na prática, pouco mais de um em cada cinco eleitores habilitados não participou do primeiro turno. O número ganha importância não apenas pela comparação histórica, mas também porque a disputa pela Presidência será decidida em segundo turno, marcado para 25 de outubro. Com dezenas de milhões de pessoas que poderiam retornar às urnas, alterações aparentemente pequenas na taxa de comparecimento são suficientes para representar milhões de votos.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, tratou do assunto no balanço feito após a votação. Segundo ele, embora a taxa de abstenção tenha permanecido dentro do que a Justiça Eleitoral considerava esperado, o percentual está longe de ser o desejável. O tribunal pretende intensificar as ações de orientação e mobilização nas próximas semanas na tentativa de ampliar o comparecimento no segundo turno.

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Voto obrigatório não impede crescimento das ausências

O tamanho da abstenção chama atenção porque o Brasil adota o voto obrigatório para a maior parte da população adulta. A obrigação alcança os brasileiros alfabetizados com idade entre 18 e 70 anos, enquanto o voto é facultativo para jovens de 16 e 17 anos, pessoas com mais de 70 anos e analfabetos. Quem está sujeito à obrigatoriedade e não comparece pode apresentar justificativa posteriormente à Justiça Eleitoral.

Os próprios dados apresentados pelo TSE mostram como a participação varia de acordo com o perfil do eleitor. Entre aqueles para os quais o voto é facultativo, a ausência chega a aproximadamente 50% entre as pessoas com mais de 70 anos. Entre os jovens de 16 e 17 anos, o percentual informado pela Justiça Eleitoral gira em torno de 20%. Essa composição ajuda a explicar uma parte do número nacional e também impede que a abstenção seja interpretada, por si só, como manifestação de rejeição aos candidatos ou ao processo eleitoral.

As razões que levam um eleitor a não votar são variadas e não podem ser extraídas apenas dos números da totalização. Mudança de endereço sem atualização do cadastro, distância até a seção eleitoral, dificuldades de deslocamento, problemas pessoais, idade, desinteresse pela disputa e a própria decisão de não comparecer podem estar por trás das ausências. O dado oficial mostra quantos eleitores ficaram fora da votação, mas não permite atribuir uma única motivação aos mais de 33 milhões de brasileiros que não foram às urnas.

A dimensão regional também mostra que o fenômeno não ocorreu da mesma forma em todo o país. Mato Grosso do Sul apareceu entre os estados com maior abstenção, com 23,87%, seguido pelo Rio de Janeiro, com cerca de 23,3%. Minas Gerais registrou 22,79%, enquanto São Paulo, maior colégio eleitoral brasileiro, teve 22,54% de ausência, também acima da média nacional.

Na outra ponta, o Ceará apresentou um dos maiores níveis de comparecimento do país e registrou abstenção de 15,52%. Roraima ficou em 17,12%, o Piauí em 17,16% e Sergipe em 17,30%. A distância entre os extremos supera oito pontos percentuais e mostra que a taxa nacional de pouco mais de 21% reúne realidades bastante diferentes entre os estados.

Brancos e nulos ampliam o contingente fora dos votos válidos

A abstenção não foi o único indicador de participação eleitoral a chamar atenção. Entre aqueles que compareceram às urnas, os votos brancos representaram aproximadamente 1,84% dos votos para presidente, enquanto os nulos ficaram próximos de 2,93%. Juntos, chegaram a 4,77%.

Os dois grupos precisam ser tratados separadamente da abstenção. O eleitor ausente não participa da votação, enquanto quem vota em branco ou anula comparece à seção eleitoral e registra seu voto, mas não escolhe uma candidatura válida. Brancos e nulos também não entram no cálculo usado para determinar os percentuais obtidos pelos candidatos à Presidência, que considera apenas os votos válidos.

A comparação com 2022 mostra que houve aumento também nesse indicador. Naquele primeiro turno, o TSE contabilizou 3.487.874 votos nulos, correspondentes a 2,82% do total, e 1.964.779 votos brancos, ou 1,59%. Somados, representaram 4,41% dos votos. Em 2026, a soma chegou a 4,77%.

Isso significa que o universo de eleitores que não participou da escolha entre candidaturas válidas é maior do que os 33,4 milhões registrados na abstenção. Além dos que permaneceram fora das urnas, há milhões de brasileiros que compareceram e optaram pelo voto branco ou nulo. Os fenômenos são juridicamente e estatisticamente diferentes, mas ajudam a dimensionar a parcela do eleitorado que ficou fora da distribuição de votos válidos entre os candidatos à Presidência.

Segundo turno coloca comparecimento novamente no centro da disputa

A experiência da eleição anterior mostra que uma taxa elevada de ausência no primeiro turno não significa necessariamente que o mesmo comportamento será repetido na votação seguinte. Em 2022, ocorreu um movimento pouco comum na história recente das eleições presidenciais: a abstenção recuou no segundo turno em relação ao primeiro. A votação decisiva entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro levou mais eleitores às urnas proporcionalmente do que a primeira etapa daquele pleito.

É justamente sobre esse contingente que a Justiça Eleitoral pretende atuar agora. Cada turno é considerado uma eleição independente, de modo que o eleitor que não compareceu neste domingo pode votar normalmente em 25 de outubro, desde que esteja com a situação eleitoral regular. Não é necessário ter votado no primeiro turno para participar do segundo.

O tamanho desse grupo ajuda a explicar por que a abstenção passa a ser uma variável relevante para a próxima votação. Com aproximadamente 33,4 milhões de ausentes no primeiro turno, uma redução de apenas um ponto percentual na taxa nacional significaria o retorno de mais de 1,5 milhão de eleitores às urnas. Uma oscilação de dois pontos representaria mais de 3 milhões de pessoas.

Não é possível saber antecipadamente quantos desses eleitores voltarão a votar nem como distribuiriam seus votos. O dado objetivo é que existe um contingente equivalente a mais de um quinto do eleitorado que não participou da primeira etapa e continua habilitado a comparecer à votação decisiva.

O recorde registrado em 2026, portanto, vai além de uma comparação estatística com eleições anteriores. Depois de superar os números de 2022, a abstenção se torna também um dos elementos a serem observados no segundo turno. Para a Justiça Eleitoral, o desafio será reduzir o número de ausentes; para a leitura do resultado, o comportamento desses milhões de eleitores ajudará a mostrar se o recorde do primeiro turno foi um episódio restrito a 4 de outubro ou parte de uma tendência mais persistente de queda no comparecimento.

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral — eleitorado apto nas Eleições Gerais de 2026
Tribunal Superior Eleitoral — Sistema de Resultados e totalização do primeiro turno das Eleições 2026
Tribunal Superior Eleitoral — totalização do primeiro turno das Eleições Gerais de 2022
Tribunal Superior Eleitoral — Resolução nº 23.751/2026 e regras para as Eleições 2026
Agência Senado — balanço do primeiro turno apresentado pelo presidente do TSE
Tribunais Regionais Eleitorais — dados estaduais de comparecimento e abstenção

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