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Filho de Kassio Nunes Marques do STF recebeu R$ 281 mil de consultoria paga por Master e JBS, aponta Coaf

Relatório do Coaf revela que empresa de fachada em Teresina repassou valores ao advogado Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, em operações classificadas como "incompatíveis" com o porte financeiro da consultoria

por Júlia Campos
19/03/2026 às 20h02
em Política
Kassio Nunes Marques - Gazeta Mercantil

Nunes Marques, Ministro do STF

Em um país onde a opacidade financeira raramente chega à luz do dia sem que alguém a empurre para o centro do palco, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) produziu revelações que embaraçam simultaneamente o sistema bancário, o setor frigorífico e o próprio Poder Judiciário brasileiro. O documento, acessado e tornado público, aponta que o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro — investigado pela Polícia Federal (PF) por lavagem de dinheiro —, e a JBS, gigante global do agronegócio sob controle da família Batista, transferiram um total de R$ 18 milhões para uma empresa de consultoria registrada em Teresina, no Piauí. Dessa mesma empresa partiram pagamentos de R$ 281.630 ao escritório de advocacia de Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques.

A cadeia de transações, que se estende entre agosto de 2024 e julho de 2025, é o núcleo de uma das investigações mais delicadas do momento político e judicial brasileiro. Ela conecta um banqueiro preso, uma das maiores empresas de alimentos do planeta e um jovem advogado com apenas um ano de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) — filho de um dos onze ministros que julgam os maiores casos do país.

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A arquitetura financeira: R$ 18 milhões para uma empresa com faturamento declarado de R$ 25 mil

A empresa no centro do esquema é a Consult Inteligência Tributária, fundada em 2022 na cidade de Teresina (PI) — cidade natal do ministro Kassio Nunes Marques. O dado que chamou atenção dos analistas do Coaf é brutalmente simples: enquanto a Consult declarou um faturamento de apenas R$ 25,5 mil no período investigado, a empresa recebeu, nas mesmas datas, a soma de R$ 18 milhões provenientes de duas fontes distintas.

  • Master → Consult Inteligência Tributária – R$ 6,6 mi

  • JBS → Consult Inteligência Tributária – R$ 11,3 mi

  • Consult → Escritório Kevin Marques (11 pagamentos) – R$ 281.630

O Master repassou R$ 6,6 milhões; a JBS enviou outros R$ 11,3 milhões. Os valores correspondem à totalidade dos recursos que a Consult movimentou no intervalo analisado — ou seja, o dinheiro não veio de outras fontes; veio dessas duas, e apenas dessas duas. A conclusão do Coaf foi direta: as movimentações são “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa, com o relatório apontando que “alguns dos valores podem ter origem não formal.

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“As movimentações foram classificadas como incompatíveis com a capacidade financeira da empresa, indicando que alguns dos valores podem ter origem não formal.” — Relatório do Coaf

Em linguagem técnica de compliance, a expressão “origem não formal” é eufemismo para dinheiro que, na prática, pode não ter passado pelos canais tributários e fiscais ordinários. No jargão jornalístico, é o sinal de alerta que precede investigações mais profundas.

Kevin Marques: um advogado de 25 anos, um escritório e R$ 281 mil em honorários

O filho de Kassio Nunes Marques, Kevin de Carvalho Marques, tem 25 anos e, segundo informações do site profissional que foi retirado do ar após a repercussão da notícia, apenas um ano de experiência como advogado inscrito na OAB. Os registros da entidade confirmam que Kevin é o único responsável pelo escritório que ostenta seu nome.

A atuação declarada do advogado concentra-se em duas frentes: o direito tributário e a representação da Refit — antiga Refinaria Marquinhos — junto ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília. Não por acaso, o TRF-1 é exatamente a corte em que Kassio Nunes Marques atuou como desembargador antes de ser indicado ao STF, em 2020, pelo então presidente Jair Bolsonaro.

No site profissional, antes de ser removido, Kevin descreveu seu trabalho com a seguinte frase: “Tenho me dedicado a entender profundamente as complexidades do sistema tributário brasileiro, buscando soluções eficientes e personalizadas para cada cliente.” A retórica corporativa soaria banal em outro contexto. Com R$ 281 mil em honorários creditados a um escritório unipessoal gerenciado por um advogado de um ano de experiência — vindos de uma empresa cuja origem dos recursos o Coaf classifica como suspeita —, a frase adquire peso diferente.

Em nota ao veículo que primeiro reportou o caso, Kevin Marques declarou que os pagamentos “são lícitos e decorrentes do exercício regular da advocacia voltada ao físico administrativo”. Nenhum detalhe adicional sobre os clientes ou os serviços efetivamente prestados foi divulgado.

O Banco Master e a sombra das investigações da PF

O Banco Master não chega a esta história como uma empresa qualquer. Daniel Vorcaro, seu controlador, está no centro de investigações da Polícia Federal por lavagem de dinheiro, e sua prisão gerou repercussão que vai muito além do sistema financeiro. E-mails que vieram a público apontaram uma correria para a venda de um apartamento avaliado em R$ 60 milhões no dia exato em que Vorcaro foi detido — detalhe que elevou ainda mais o nível de escrutínio sobre suas operações.

O advogado de Vorcaro chegou a se reunir com o ministro do STF André Mendonça para discutir uma possível delação, conforme reportado. Isso é relevante porque coloca o Master em contato direto — por vias diversas — com o universo do Supremo Tribunal Federal. A descoberta de que a mesma instituição financeira transferiu R$ 6,6 milhões para uma empresa que, por sua vez, pagou o filho de outro ministro do STF adiciona uma camada de complexidade inédita ao caso.

O Banco Master foi procurado para comentar as transações com a Consult Inteligência Tributária, mas não retornou. O espaço segue aberto para manifestação.

A JBS: o outro lado dos R$ 18 milhões

O segundo grande nome envolvido é a JBS, a maior processadora de proteína animal do mundo, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista — figuras que, por si só, já protagonizaram capítulos centrais da história recente do Brasil, incluindo a delação que sacudiu o governo Michel Temer em 2017.

A empresa emitiu nota afirmando que contrata consultores “para apoiar sua atuação” na área tributária, e que a Consult Inteligência Tributária é uma dessas contratadas. A declaração, entretanto, não detalha os serviços especificamente prestados pela consultoria piauiense, nem explica por que R$ 11,3 milhões teriam sido enviados a uma empresa com faturamento declarado de R$ 25,5 mil.

A Consult, por sua vez, declarou que presta “serviços de auditoria e consultoria tributária, além de desenvolvimento de sistemas e migração de dados”. Sobre os pagamentos ao escritório do filho do ministro, limitou-se a dizer que se referem à “prestação de serviços técnicos e de assessoria jurídica para a Consult, entre 2024 e 2025”.

Kassio Nunes Marques: o ministro que julga o Master

O que torna o caso particularmente delicado do ponto de vista institucional é que Kassio Nunes Marques não é apenas qualquer ministro do STF. Ele é um dos julgadores em casos diretamente relacionados ao Banco Master, ao lado de outros ministros como Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, André Mendonça e Edson Fachin.

O ministro foi procurado para comentar o caso e também não retornou ao pedido de manifestação. A ausência de resposta, em um momento em que o STF enfrenta pressões crescentes sobre sua credibilidade institucional, representa um silêncio que o próprio jornalismo investigativo, por suas limitações, não pode preencher — mas que os órgãos de controle, eventualmente, poderão.

A questão que paira sobre o caso não é simples: um filho adulto tem o direito de exercer sua profissão de forma independente. Mas quando os pagamentos a esse filho partem de uma empresa cujos recursos originam-se de instituições que têm casos pendentes na corte em que o pai atua, o princípio da aparência de imparcialidade — pilar da confiança pública no Judiciário — é colocado à prova.

O Coaf como guardião silencioso: o que o relatório realmente diz

O Coaf — Conselho de Controle de Atividades Financeiras — é o órgão brasileiro equivalente a uma unidade de inteligência financeira. Sua função é monitorar movimentações suspeitas e emitir relatórios de inteligência financeira (RIFs) que podem ser compartilhados com o Ministério Público e outros órgãos investigativos.

Quando o Coaf classifica movimentações como “incompatíveis com a capacidade financeira” de uma empresa, isso não é uma acusação formal — é um sinal técnico de que aquelas transações merecem investigação mais aprofundada. O relatório analisado indicou que os valores recebidos pela Consult Inteligência Tributária entre agosto de 2024 e julho de 2025 eram, na prática, a totalidade do que a empresa movimentou — e que esse volume não encontra justificativa no porte declarado da empresa.

A identificação dos 11 pagamentos ao escritório do filho do ministro, totalizando R$ 281.630, foi resultado da análise minuciosa da lista de saídas da Consult — um trabalho que revela o nível de detalhamento que os analistas do órgão aplicaram ao caso.

Tensão institucional: o STF sob escrutínio crescente

O caso se insere em um momento de tensão institucional sem precedentes recentes no Brasil. O STF encontra-se no epicentro de investigações que envolvem políticos de diferentes espectros, empresas de grande porte e o próprio sistema financeiro. A instalação de uma CPI do Master — cujo pedido foi redistribuído ao ministro Cristiano Zanin como novo relator — coloca mais pressão sobre a corte.

Pesquisas de opinião recentes mostram que escândalos relacionados ao Banco Master têm afetado a percepção pública de políticos e instituições ligadas ao caso. Em um ambiente em que a confiança nas instituições já é frágil, a revelação de que o filho de um ministro do STF recebeu recursos rastreáveis a um banco investigado por lavagem — ainda que por meio de uma cadeia de intermediação — alimenta um debate que vai além do jurídico e adentra o território da legitimidade política.

O que os dados revelam sobre o perfil da Consult Inteligência Tributária

Fundada em 2022, a Consult Inteligência Tributária tem origem em Teresina, mesma cidade natal do ministro Kassio Nunes Marques. A coincidência geográfica, por si só, não implica ilegalidade. Mas a combinação de elementos — criação recente, faturamento declarado mínimo, volume financeiro movimentado absolutamente desproporcional e conexão com o filho de um ministro — configura o que analistas de compliance chamam de “perfil de risco elevado.

Empresas com esse perfil são frequentemente utilizadas como camadas em estruturas de dissimulação de recursos — sejam elas criadas intencionalmente para esse fim ou cooptadas por terceiros para servir como intermediárias. O relatório do Coaf não determina qual dos cenários se aplica à Consult; o que determina é que as movimentações justificam escrutínio.

Honorários milionários para um advogado estreante: o mercado jurídico e seus paradoxos

No campo do direito tributário brasileiro, honorários elevados não são uma anomalia em si. Escritórios especializados cobram valores expressivos por consultoria em regimes tributários complexos, aproveitamento de créditos fiscais e representação em contenciosos administrativos — o chamado “físico administrativo” mencionado pelo próprio Kevin Marques.

No entanto, o mercado jurídico opera com uma lógica de reputação que valoriza experiência, precedentes e resultados comprovados. Um escritório unipessoal com um ano de OAB, sem histórico público de grandes casos ou especialização reconhecida, dificilmente captaria organicamente honorários da magnitude reportada. Isso não significa que os serviços não foram prestados — mas cria uma assimetria que o próprio setor jurídico reconheceria como incomum.

O fato de que Kevin atua como procurador da Refit no TRF-1 — onde seu pai foi desembargador — adiciona uma dimensão de familiaridade institucional que, em qualquer democracia consolidada, seria suficiente para acionar protocolos de governança e transparência.

Os próximos capítulos de uma investigação que está longe do fim

O relatório do Coaf é o ponto de partida, não o ponto final. Investigações dessa natureza — que conectam instituições financeiras, grandes corporações e membros indiretos do Poder Judiciário — tendem a se prolongar por meses ou anos, com novos elementos surgindo à medida que autoridades com poder de requisição de documentos e quebras de sigilo entram em cena.

O Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal e até o próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ) têm competências que podem ser acionadas em função das revelações do relatório. A questão é se, e quando, algum desses órgãos decidirá agir — e com qual grau de profundidade.

Por ora, o que existe é um relatório do Coaf, declarações genéricas de empresas e do advogado envolvido, e o silêncio de um ministro do STF diante de perguntas que o país aguarda ver respondidas. No jogo da transparência institucional, silêncio raramente é sinônimo de inocência — mas também não é, por si só, prova de culpa. É, acima de tudo, uma oportunidade desperdiçada de restaurar confiança em um momento em que ela é escassa.

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