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Flávio e Lula disputam 8,7 milhões de votos de Cury, Renan e Caiado

Caiado declarou apoio a Flávio, enquanto Cury e Renan não aderiram a nenhum dos finalistas; pesquisa anterior ao primeiro turno indicava maior migração para o candidato do PL.

por Júlia Campos
06/10/2026 às 01h33
em Política
Lula X Flavio Bolsonaro - Gazeta Mercantil

A disputa entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo segundo turno começa com uma diferença relativamente pequena diante do contingente de eleitores que escolheu outros candidatos no domingo, 4 de outubro. Flávio terminou a primeira etapa com 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula, uma vantagem de aproximadamente 2,23 milhões. Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, receberam juntos cerca de 8,7 milhões de votos, quase quatro vezes essa diferença.

Cury terminou em terceiro lugar, com 2,89% dos votos válidos e aproximadamente 3,45 milhões de votos. Renan recebeu 2,24%, perto de 2,67 milhões, enquanto Caiado ficou com 2,18%, ou aproximadamente 2,6 milhões. Somados, os três concentraram 7,31% dos votos válidos e formam o maior bloco de eleitores que precisa escolher um novo candidato para a votação de 25 de outubro.

Leia também: PT diz que campanha de Lula não discute troca de ministros antes do segundo turno.

A dimensão numérica torna esse grupo especialmente relevante, mas não permite tratar seus votos como um patrimônio transferível pelos candidatos derrotados. O eleitor decide individualmente e pode escolher Flávio, Lula, votar em branco, anular ou simplesmente não comparecer. A própria pesquisa realizada imediatamente antes do primeiro turno mostrou que uma parcela expressiva dos eleitores de Cury, Renan e Caiado não estava disposta a optar por nenhum dos dois candidatos que acabaram avançando.

Essa resistência também ajuda a explicar por que declarações formais de apoio não significam uma transferência automática de votos. Nas primeiras horas do segundo turno, os antigos adversários adotaram posições diferentes: Cury manteve sua decisão de não aderir a nenhum dos finalistas, Renan Santos também descartou apoio aos dois, enquanto Caiado decidiu apoiar Flávio Bolsonaro. O PSD, partido de Caiado, optou pela neutralidade nacional e liberou suas lideranças para tomar decisões próprias.

Leia também: Méliuz (CASH3) reduz capital em R$ 160 milhões e aprova novo plano de opções.

Quaest indicava vantagem de Flávio entre os três grupos

A última pesquisa Quaest realizada antes da eleição, nos dias 2 e 3 de outubro, já havia perguntado como os eleitores dos principais candidatos eliminados se comportariam em uma disputa direta entre Lula e Flávio. Os números mostravam uma vantagem do candidato do PL nos três grupos, embora com diferenças importantes na intensidade dessa migração.

Entre os eleitores de Augusto Cury, 34% afirmavam que votariam em Flávio Bolsonaro no segundo turno e 23% indicavam Lula. A maior parcela, porém, estava fora das duas candidaturas: 41% diziam que votariam em branco, anulariam ou não compareceriam, enquanto 2% permaneciam indecisos.

A diferença era bem maior entre os eleitores de Renan Santos. Nesse grupo, 60% apontavam Flávio e apenas 11% indicavam Lula. Outros 27% declaravam branco, nulo ou intenção de não votar e 2% ainda não haviam escolhido uma alternativa.

Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, 43% afirmavam que migrariam para Flávio, contra 19% para Lula. Outros 36% indicavam que ficariam entre branco, nulo e abstenção, enquanto 2% apareciam como indecisos.

Os percentuais precisam ser lidos com cautela. A pesquisa foi realizada antes da abertura formal do segundo turno e os eleitores de cada candidato representam subconjuntos da amostra total, portanto sujeitos a incerteza maior do que os números gerais do levantamento. Além disso, três semanas de campanha, novos apoios, debates, propaganda eleitoral e acontecimentos políticos podem alterar decisões tomadas antes da votação de domingo.

Ainda assim, a pesquisa oferece uma fotografia útil do ponto de partida. Se os percentuais fossem aplicados apenas como exercício matemático aos votos efetivamente recebidos por Cury, Renan e Caiado, aproximadamente 3,9 milhões tenderiam a Flávio e cerca de 1,6 milhão a Lula. A diferença entre os dois fluxos ficaria próxima de 2,3 milhões de votos, praticamente o mesmo tamanho da vantagem obtida pelo candidato do PL no primeiro turno.

Isso não significa que Flávio acrescentará essa quantidade de votos em 25 de outubro. O cálculo não é uma projeção eleitoral e não considera mudanças de opinião depois do resultado das urnas. Ele serve apenas para mostrar por que a movimentação desse eleitorado pode ter peso relevante numa disputa que começou separada por pouco mais de 2,2 milhões de votos.

Há ainda uma segunda informação importante no mesmo exercício: mais de 3 milhões dos eleitores que escolheram Cury, Renan ou Caiado cairiam, pelos percentuais da Quaest, na faixa de branco, nulo ou abstenção. Convencer parte desse contingente a efetivamente escolher um dos finalistas pode ser tão importante quanto disputar quem já demonstrava preferência entre Lula e Flávio.

Caiado vai para Flávio; Cury e Renan mantêm distância

As primeiras definições políticas começaram a mostrar que os três grupos não seguirão necessariamente a mesma direção. Ronaldo Caiado decidiu apoiar Flávio Bolsonaro e deve formalizar o movimento nesta terça-feira, 6 de outubro, em Goiânia. O ex-governador pretende apresentar ao candidato do PL propostas em áreas nas quais identifica convergência entre os dois programas.

A decisão pessoal de Caiado ocorre mesmo com o PSD mantendo neutralidade nacional. A direção da legenda decidiu liberar diretórios estaduais, parlamentares e filiados para apoiar Lula ou Flávio de acordo com as circunstâncias locais. Na prática, isso permite que Caiado se posicione a favor do candidato do PL sem transformar sua escolha em uma orientação obrigatória para todo o partido.

Augusto Cury adotou outro caminho. O terceiro colocado reiterou que não pretende declarar apoio a nenhum dos dois finalistas e afirmou que suas propostas estão disponíveis para quem vencer a eleição. A posição mantém livres os aproximadamente 3,45 milhões de eleitores que escolheram seu nome no primeiro turno — justamente o grupo que, na pesquisa Quaest, apresentava a maior proporção de branco, nulo ou abstenção diante de uma disputa entre Lula e Flávio.

Renan Santos também decidiu não se alinhar a nenhum dos dois. O candidato do Missão, que recebeu cerca de 2,67 milhões de votos, liberou integrantes e apoiadores do partido para escolherem individualmente como agir. Embora a pesquisa anterior à eleição mostrasse uma vantagem expressiva de Flávio entre seus eleitores, Renan manteve críticas tanto ao petismo quanto ao bolsonarismo.

Romeu Zema (Novo), que ficou bem abaixo dos três com 0,27% dos votos válidos, tomou posição diferente e declarou apoio a Flávio Bolsonaro. O peso eleitoral de seu resultado presidencial é menor, mas o movimento reforça a aproximação de lideranças da direita em torno do candidato do PL no início do segundo turno.

Apoio político não significa transferência automática de votos

A experiência da própria eleição de 2022 mostra a dificuldade de transformar apoios formais em uma conta direta de transferência eleitoral. Naquele ano, Lula passou de 57,26 milhões de votos no primeiro turno para 60,35 milhões no segundo, um aumento de aproximadamente 3,09 milhões. Jair Bolsonaro saltou de 51,07 milhões para 58,21 milhões, acrescentando cerca de 7,13 milhões.

A diferença levou à interpretação de que Bolsonaro absorveu uma parcela maior dos votos dos candidatos eliminados, apesar de Lula ter recebido apoios importantes de adversários do primeiro turno. Essa conclusão, porém, não pode ser estabelecida apenas pela comparação entre os totais, porque o comparecimento também mudou e houve variação no número de votos brancos e nulos.

O exemplo ajuda a separar duas coisas que frequentemente aparecem misturadas durante o segundo turno. Uma é o apoio político de candidatos e partidos, capaz de oferecer palanques, estrutura, propaganda e sinalização aos eleitores. Outra é a decisão individual na urna, que não pode ser determinada pelo simples anúncio de uma aliança.

Em 2026 essa diferença pode ser ainda mais relevante porque Lula e Flávio já concentraram juntos mais de 92% dos votos válidos no primeiro turno. O espaço deixado pelos demais candidatos é proporcionalmente pequeno, mas adquire importância justamente porque a distância entre os dois finalistas também é reduzida.

Os 8,7 milhões de votos de Cury, Renan e Caiado seriam suficientes, em termos puramente matemáticos, para superar quase quatro vezes a vantagem obtida por Flávio. O que decidirá o efeito real desse contingente será sua divisão entre os dois candidatos e o tamanho da parcela que preferirá não participar da escolha.

Há ainda um universo muito maior fora dessa conta. Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno e quase 6 milhões votaram em branco ou anularam o voto. Não há base para presumir como essas pessoas se comportarão no segundo turno, mas pequenas mudanças no comparecimento podem representar mais votos do que toda a diferença registrada entre Lula e Flávio em 4 de outubro.

A campanha até 25 de outubro será, portanto, disputada em mais de uma frente. Os dois candidatos precisam conservar a enorme maioria dos votos que já receberam, buscar os eleitores dos adversários eliminados e, ao mesmo tempo, tentar mobilizar parte de quem ficou fora da escolha entre candidaturas válidas.

A fotografia registrada pela Quaest antes do primeiro turno mostrava vantagem de Flávio na migração dos eleitores de Cury, Renan e Caiado. O início da nova etapa trouxe também os apoios de Caiado e Zema ao candidato do PL. Nada disso, entretanto, transforma esses votos em uma transferência automática. A disputa começa com 2,23 milhões de votos separando os finalistas e milhões de eleitores ainda livres para decidir se mantêm a tendência anterior, mudam de preferência ou permanecem fora da escolha entre os dois.

Fontes

Tribunal Superior Eleitoral — resultados e totalização do primeiro turno das Eleições 2026
Quaest — pesquisa nacional realizada em 2 e 3 de outubro de 2026
Agência Brasil — posicionamento de Renan Santos e decisão do PSD para o segundo turno
Ronaldo Caiado — posicionamento sobre apoio no segundo turno
Augusto Cury — manifestação após o primeiro turno
Reuters — apoios de Ronaldo Caiado e Romeu Zema no segundo turno
Tribunal Superior Eleitoral — resultados das eleições presidenciais de 2022

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