O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou sem restrições a aquisição, pelo Assaí (ASAI3), de 18 postos de combustíveis instalados em lojas da rede no Estado de São Paulo. O aval elimina uma das principais condições regulatórias previstas no contrato firmado com o Centro de Conveniências Millennium e permite avançar para as demais etapas da transação, cujo valor total pode chegar a R$ 80 milhões. A transferência efetiva das operações, porém, está prevista somente a partir de 31 de julho de 2027 e ainda depende do cumprimento das condições contratuais e das exigências regulatórias aplicáveis a cada unidade.
O negócio representa a entrada do atacarejo no varejo de combustíveis por meio de ativos que já estão fisicamente integrados às suas lojas. Em vez de construir novos postos ou adquirir terrenos para implantação de uma rede, o grupo comprará as sociedades que detêm as 18 unidades já instaladas em estabelecimentos próprios. A estratégia reduz a necessidade de expansão imobiliária específica e permite utilizar uma infraestrutura existente, incluindo áreas de estacionamento e o fluxo de consumidores que já frequentam as lojas.
O contrato foi anunciado em 17 de setembro e estabelece três componentes para o pagamento. São R$ 40 milhões de sinal após a aprovação prévia do Cade, R$ 35 milhões vinculados à conclusão da aquisição de cada uma das sociedades detentoras dos postos e até R$ 5 milhões adicionais em formato de earn-out, condicionados ao cumprimento de metas previstas no acordo.
A estrutura significa que metade do valor máximo da operação está concentrada no primeiro desembolso previsto, enquanto 43,75% correspondem à parcela condicionada à conclusão das aquisições e os 6,25% restantes dependem do desempenho estabelecido contratualmente. Considerando o teto de R$ 80 milhões, o valor médio máximo equivalente é de aproximadamente R$ 4,4 milhões por posto, embora a distribuição efetiva dos pagamentos entre as unidades não seja necessariamente uniforme.
Aval do Cade reduz uma das etapas para a transferência
A decisão da Superintendência-Geral do Cade foi publicada no Diário Oficial da União e autorizou a operação sem restrições. O órgão analisa atos de concentração para verificar possíveis efeitos sobre a concorrência, e o aval obtido pelo Assaí representa o cumprimento da aprovação concorrencial prevista como condição da transação.
A autorização, contudo, não significa que os 18 postos tenham passado imediatamente ao controle operacional do Assaí. O contrato estabelece que a companhia somente poderá assumir cada operação a partir de 31 de julho de 2027, desde que sejam cumpridas as demais condições precedentes. Até a conclusão dessas etapas, as unidades permanecem sob a estrutura atualmente responsável por sua operação.
A diferença entre a aprovação concorrencial e a transferência efetiva é relevante para o cronograma do investimento. Entre o aval do Cade, em setembro de 2026, e a data a partir da qual o Assaí poderá assumir os postos existe um intervalo de cerca de dez meses. Nesse período, a companhia ainda precisará concluir as etapas societárias e regulatórias previstas no contrato.
O setor de combustíveis também possui requisitos específicos de autorização, fiscalização e operação. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mantém ações de fiscalização sobre postos e demais agentes do abastecimento, abrangendo aspectos como qualidade dos combustíveis, documentação, equipamentos e regularidade da atividade.
Ativos existentes sustentam estratégia de diversificação
A principal característica econômica da operação está na localização dos postos. As 18 unidades já funcionam dentro de lojas do Assaí em São Paulo, o que permite à companhia explorar uma atividade complementar sobre uma estrutura comercial que já possui fluxo de consumidores.
A empresa informa atender mais de 40 milhões de clientes por mês e estima circulação de aproximadamente 20 milhões de veículos mensais em suas lojas. Esses números são apresentados pela própria companhia como base para a estratégia de ampliação dos serviços oferecidos ao consumidor.
A lógica do investimento é adicionar uma nova fonte de receita a pontos comerciais existentes. Em termos operacionais, os postos podem ampliar o número de serviços disponíveis no mesmo local em que o consumidor já realiza suas compras, enquanto o Assaí pode aproveitar áreas e infraestrutura que já fazem parte de suas unidades.
O movimento também se encaixa em uma estratégia mais ampla de diversificação. A companhia vem ampliando iniciativas complementares ao atacarejo, incluindo a operação de farmácias, marcas próprias e canais digitais. A entrada em combustíveis adiciona uma atividade com dinâmica operacional e regulatória distinta do comércio alimentar, mas apoiada na mesma rede física.
A combinação entre lojas e postos também modifica o potencial de monetização dos espaços existentes. O ativo adquirido não é apenas a estrutura de abastecimento, mas a possibilidade de explorar comercialmente áreas localizadas em pontos de grande circulação. A avaliação econômica, portanto, dependerá da capacidade de transformar esse fluxo em vendas adicionais sem comprometer a operação principal das lojas.
Projeto inicial pode chegar a mais de 100 unidades
Os 18 postos adquiridos formam a base inicial de uma estratégia que poderá ser ampliada. O Assaí avalia potencial de longo prazo para superar 100 unidades, condicionado à viabilidade econômica de cada projeto, à disponibilidade de locais e às aprovações e licenças necessárias.
A diferença entre a operação contratada e esse potencial futuro é significativa. Para sair das 18 unidades atualmente envolvidas no negócio e superar 100 postos, seriam necessárias pelo menos 83 novas unidades além da primeira carteira. Isso representa multiplicar por mais de cinco vezes a quantidade de postos considerada na operação inicial.
O número, porém, não corresponde a uma meta de implantação imediata nem a uma obrigação contratual. Trata-se de uma possibilidade condicionada a estudos de viabilidade e às autorizações aplicáveis. Por isso, a aprovação dos 18 postos não deve ser interpretada como autorização para uma expansão automática da rede.
A primeira fase poderá funcionar como uma etapa de avaliação econômica e operacional. A companhia terá de observar o desempenho das unidades adquiridas, os custos de operação, a capacidade de geração de receita, a integração com o fluxo das lojas e os requisitos regulatórios antes de replicar o modelo em outros pontos.
Essa característica reduz a necessidade de uma expansão simultânea de grande escala. O grupo poderá utilizar as unidades iniciais para avaliar a atividade antes de decidir pela eventual ampliação para outras lojas.
Combustíveis entram no ecossistema de serviços do atacarejo
A aquisição ocorre em um momento em que o Assaí procura ampliar receitas a partir da base de consumidores que já utiliza sua rede. A empresa tem buscado desenvolver negócios complementares ao atacarejo, com a justificativa de aumentar a oferta de serviços, elevar a utilização dos ativos existentes e ampliar o valor gerado por cada ponto comercial.
No caso dos combustíveis, a companhia combina dois fluxos que normalmente são tratados separadamente: o abastecimento de veículos e a compra de alimentos e outros produtos. A integração pode criar uma jornada de consumo mais ampla, embora os resultados financeiros dessa estratégia só possam ser avaliados depois da entrada efetiva do Assaí na operação.
A escolha inicial de São Paulo também concentra a experiência em um mercado no qual a companhia já possui ampla presença física. Isso permite testar o modelo em lojas existentes antes de avaliar sua reprodução em outras regiões.
A operação não envolve, portanto, apenas uma mudança de atividade econômica. Ela também representa uma tentativa de aumentar a produtividade de ativos já instalados. A companhia não precisará partir de uma rede de postos construída do zero, e os investimentos previstos no contrato estão vinculados à aquisição das sociedades que já detêm as unidades.
O custo máximo de R$ 80 milhões deve ser analisado nesse contexto. Dividido pelas 18 unidades, o desembolso máximo equivalente é de cerca de R$ 4,4 milhões por posto, mas esse cálculo é apenas uma média aritmética e não representa necessariamente o preço individual de cada ativo.
Transferência só começa em 2027
O cronograma é um dos pontos mais importantes da operação. Embora o Cade já tenha aprovado a aquisição, a companhia não assume imediatamente os postos. A previsão contratual é que cada unidade possa ser transferida ao Assaí somente a partir de 31 de julho de 2027, após o cumprimento das condições precedentes.
Até essa data, a Millennium permanece responsável pelas operações. A transição deverá envolver a conclusão das aquisições societárias previstas no contrato e o cumprimento das exigências regulatórias e ambientais aplicáveis.
Para o Assaí, a operação cria uma nova frente potencial de receita, mas os efeitos sobre resultados financeiros ainda não aparecem de forma imediata. O desembolso e a integração operacional ocorrerão em etapas, enquanto a geração de receita diretamente associada aos postos dependerá da transferência e do início da gestão pela companhia.
O próximo estágio, portanto, é a execução das etapas restantes do contrato. A aprovação concorrencial já foi obtida, mas a efetiva entrada do Assaí no mercado de combustíveis dependerá da conclusão dos demais procedimentos necessários para que as 18 unidades sejam transferidas.
Com isso, o negócio anunciado em setembro passa a uma nova fase: de uma aquisição contratada e sujeita a aprovação concorrencial para uma operação com o aval do Cade, mas ainda dependente de etapas societárias e regulatórias antes da mudança efetiva de controle operacional.
Fontes:
Conselho Administrativo de Defesa Econômica – decisão da Superintendência-Geral que aprovou sem restrições a aquisição dos 18 postos pela Sendas Distribuidora
Assaí – fato relevante sobre a aquisição das sociedades detentoras de 18 postos de combustíveis e estrutura de pagamento da operação
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – informações sobre fiscalização e requisitos aplicáveis ao mercado de revenda de combustíveis
KLA Law – informações sobre a estrutura contratual da aquisição, condições de fechamento e cronograma de transferência dos postos
Assaí – informações divulgadas ao mercado sobre fluxo de clientes e veículos e estratégia de expansão de serviços









